Manifesto de Bogotá: Rumo a uma ciência aberta, democrática e socialmente relevante na América Latina e no Caribe.
Fundo
Em novembro de 2015, a XXV Assembleia Geral da CLACSO, reunida em Medellín, Colômbia, emitiu a Declaração de Acesso Aberto ao Conhecimento Gerido como um Bem Comum, com base na convicção de que, na maioria dos países da América Latina e do Caribe, uma parte substancial da pesquisa e produção de conhecimento científico é financiada com recursos públicos e, portanto, deve estar disponível em formato aberto.
Dez anos após esse pronunciamento — que alimentou e anunciou discussões e consensos que se aprofundaram nos anos seguintes — uma série de documentos internacionais relevantes foram publicados (manifestos, declarações, acordos, princípios, entre outros) apresentando recomendações sobre a necessária transformação da avaliação científica e a necessidade de transição para a ciência aberta. Entre eles, encontramos: o Declaração de São Francisco sobre Avaliação da Pesquisa (DORA), a Manifesto de Leiden, a Declaração do Panamá sobre Ciência Aberta, o Manifesto sobre a Ciência como um Bem Público Global, o Manifesto do Bibliotecário para a Ciência Aberta na América Latina, o Manifesto da Ciência Aberta e Colaborativa (OCSDNet), o Manifesto da ALAEC para o uso responsável de métricas em avaliações científicas na América Latina e no Caribe., a Recomendação da UNESCO sobre Ciência Aberta, a Iniciativa de Helsínquia sobre Multilinguismo na Comunicação Científica, os Princípios de Hong Kong (HKP), a atualização do Declaração de Budapeste (BOAI20), e os mais recentes, como o Manifesto para métricas socioterritoriais da Ciência, Tecnologia e Inovação (Latmetrics), o Declaração de Toluca-Cidade do Cabo sobre o Acesso Aberto aos Diamantes, a Declaração de Barcelona sobre Acesso à Informação em Investigações, a Declaração de Letícia: Um manifesto pela ciência com impacto social na América Latina e no Caribe. (Academia Global de Jovens), O Acordo para a Reforma da Avaliação da Pesquisa (CoARA), Ciência Aberta: O Desafio para as Universidades (IAU) e as recomendações contidas nos relatórios intitulados: O futuro da avaliação da pesquisa (GYA-IAP-ISC) e Transformando a Avaliação (RORI-GRC-RRA); entre muitos outros. Nessa linha, é possível adicionar uma série de ferramenta kits que foram desenvolvidas para implementar esses processos de transformação, por exemplo, as mais recentes: Um guia prático para implementar a avaliação responsável da pesquisa em organizações que realizam pesquisas. (DORA) e o conjunto de ferramentas práticas preparado pela FOLEC (Rovelli e Vommaro, 2025).
Todos esses documentos contribuíram para expandir a abordagem de abertura para além do acesso a publicações, impulsionando transformações estruturais em complexos de ciência e tecnologia em áreas como gestão de dados e políticas de acesso aberto; o desenvolvimento de infraestruturas, software livre e plataformas colaborativas não comerciais; a concepção de estruturas de avaliação responsáveis e métricas qualitativas; a adoção de modelos de comunicação inclusivos e multilíngues; a implementação de licenças e governança de bens comuns; a criação de espaços para formação e desenvolvimento de capacidades críticas; e a incorporação de princípios éticos, de diversidade e inclusão em todas as etapas do ciclo de pesquisa, desafiando o poder concentrado das corporações editoriais que lucram com dados e publicações, condicionando e moldando os processos de avaliação científica e acadêmica em todo o mundo à sua própria imagem, ou seja, respondendo aos seus interesses e modelos de negócio.
A essas declarações e manifestos — textos propositivos que desafiam a comunidade acadêmica e científica a transformar suas práticas — podemos acrescentar uma série de ensaios críticos e artigos de pesquisa publicados nos últimos anos. Estes analisam, a partir de uma perspectiva reflexiva e muitas vezes incisiva, o estado atual dos mundos sociais da produção científica, tecnológica e acadêmica em diversos contextos geográficos. Longe de serem discursos isolados, ambos os fenômenos constituem duas faces da mesma moeda: se os manifestos lançam um apelo à ação e delineiam novos horizontes de significado que possibilitam a mudança, os ensaios operam como diagnósticos rigorosos que revelam as contradições e o mal-estar estrutural inerentes ao trabalho acadêmico e científico contemporâneo. Sem pretender ser exaustivo, entre eles podemos citar:Manifesto da Ciência Lenta(Slow-Science.org, 2010),Inovação, Sustentabilidade e Desenvolvimento: Um novo Manifesto“(STEPS, 2010),Gráfico da desexcelência“(LAC-ULB, 2014),Manifesto Het acade-misch: eles não são publicados pela universiteit(Halffman e Radder, 2015),Salvando a Ciência“(Sarewitz, 2016),Academias sitiadas”(Basail Rodríguez, 2019),“Universidade em tempos sombrios” (Pecheny, 2020), e “Superando a lacuna: Localizando a ciência aberta para as realidades da pesquisa na Ásia.” (Sayab, 2025).
Esses estudos concordam em diagnosticar uma crise estrutural de âmbito global nas instituições científicas e acadêmicas, causada pela imposição de lógicas produtivistas – herdadas de práticas gerenciais e econômicas. Nova Gestão Pública—, a obsessão por indicadores quantitativos que reduzem a pesquisa a meras métricas de desempenho e posições em rankings internacionais, a crescente precariedade do ensino e da pesquisa, e a mercantilização e privatização do conhecimento científico e tecnológico. Denunciam veementemente os modelos fechados de publicação e avaliação, dominados por corporações editoriais e avaliações padronizadas, que subordinam os processos de revisão a critérios numéricos descontextualizados e obscurecem a função social da ciência. Apontam também para a homogeneização do conhecimento, a exclusão de epistemologias não hegemônicas e a imposição de modelos eurocêntricos que ignoram as realidades locais e o saber ancestral.
Dentre elas, estamos particularmente interessados em destacar como Sayab (2025) também incorpora as barreiras infraestruturais e linguísticas que marginalizam pesquisadores na Ásia e no mundo árabe (a falta de repositórios robustos, a conectividade limitada e a hegemonia do inglês nos canais de ciência aberta), limitações que não são estranhas ao contexto latino-americano e caribenho. Em resposta, ele propõe a substituição das abordagens. top-down Por meio de estratégias colaborativas e contextualizadas que respeitam a diversidade dos ecossistemas de pesquisa: concebendo incentivos e métricas participativas, investindo em infraestrutura digital descentralizada e oferecendo treinamento em práticas de acesso aberto adaptadas localmente. Da mesma forma, defende a integração de línguas e conhecimentos locais como pilares da ciência inclusiva, em consonância com as recomendações internacionais que promovem o multilinguismo na comunicação científica. Sob essa visão, universidades e centros de pesquisa são reconfigurados como espaços públicos cocriados, onde pesquisa, ensino, extensão, engajamento e outras formas de mobilização do conhecimento social recuperam seu poder transformador e se orientam para os desafios sociais e epistêmicos de cada comunidade e território. Nossas propostas, que visam a mudanças fundamentais, partem desse diagnóstico e cenário.
El paradigma da ciência abertaA ciência aberta, entendida como uma política científica pública orientada para o bem comum, transcende os formatos tradicionais de produção, circulação, uso e avaliação do conhecimento científico e tecnológico. De acordo com a Recomendação da UNESCO sobre Ciência Aberta, essa abordagem é definida como uma Uma estrutura inclusiva que combina diversos movimentos e práticas para que o conhecimento científico multilíngue esteja disponível e acessível a todos, bem como seja reutilizável por todos; as colaborações científicas e o intercâmbio de informações sejam ampliados para o benefício da ciência e da sociedade; e os processos de criação, avaliação e comunicação do conhecimento científico sejam abertos a atores sociais além da comunidade científica tradicional. (UNESCO, 2021). Essa abordagem implica uma mudança paradigmática na forma como a ciência é feita, o que envolve a abertura de todas as etapas ou fases da pesquisa científica e tecnológica (concepção, produção de dados, revisão, publicação, avaliação, entre outras), transformando o que é feito e como é feito, o que redefine a pesquisa científica e tecnológica.
Seguindo essa mesma linha de raciocínio, o Manifesto sobre o A ciência como um bem público global A ciência aberta defende que ela é patrimônio da humanidade e um direito universal, devendo ser disponível, acessível e reutilizável por todas as pessoas em todos os lugares do mundo, sem restrições comerciais ou barreiras linguísticas, e que sua produção deve servir ao desenvolvimento coletivo. Essa abordagem enfatiza a necessidade de fortalecer infraestruturas abertas, meios de publicação não comerciais e redes colaborativas entre instituições, pesquisadores, comunidades e territórios. Assim, a noção de ciência como um bem público global converge com o paradigma da ciência aberta, promovendo uma produção científica inclusiva, multilíngue e colaborativa, orientada para as necessidades sociais. Dessa forma, a ciência aberta integra uma pluralidade de línguas, culturas, práticas e saberes, e promove formas mais horizontais de colaboração entre diversos atores sociais, guiando a produção científica e tecnológica rumo à equidade, sustentabilidade e justiça social. Essa orientação busca abordar as desigualdades históricas na produção, circulação e acesso ao conhecimento científico, promovendo valores como equidade, sustentabilidade, justiça cognitiva e diversidade epistêmica. Desde a sua fundação em 1967, o CLACSO tem promovido essas perspectivas, baseando-se em tradições do Sul Global, como a pesquisa-ação participativa, o diálogo de saberes e as epistemologias críticas, a fim de consolidar ciências mais democráticas, solidárias e transformadoras.
Em consonância com as abordagens anteriores, o Declaração de Princípios “Uma nova avaliação acadêmica e científica para uma ciência com relevância social na América Latina e no Caribe”, promovido pelo Fórum Latino-Americano de Avaliação Científica (FOLEC) A adesão à CLACSO e a aprovação em sua XXVII Assembleia Geral Ordinária, em junho de 2022, na Cidade do México, no âmbito da nona Conferência, representam um passo significativo rumo a uma paradigma de avaliação científica responsável e situadaDebatida por inúmeros especialistas em toda a região e endossada por centenas de signatários, esta Declaração tornou-se uma referência regional e internacional. Este quadro propõe processos de avaliação evolutivos, autorreflexivos, transparentes e participativos que fomentam o diálogo, a aprendizagem mútua e a melhoria contínua. Entre os seus princípios fundamentais encontram-se: o alinhamento da avaliação científica e académica com os direitos humanos, a relevância social do conhecimento, a valorização do multilinguismo, a inclusão da extensão universitária, o reconhecimento da diversidade de percursos profissionais, a natureza participativa e evolutiva da avaliação e o questionamento da utilização acrítica de métricas restritivas baseadas em critérios geográficos, disciplinares e linguísticos.
Nesse contexto, as categorias de ciências sociais politizadas e móveis que desenvolvemos coletivamente em trabalhos anteriores do CLACSO se consolidam como chaves analíticas para pensar as ciências comprometidas com os problemas urgentes de nossos povos. ciência politizada –no sentido varsavskiano– reconhece seu envolvimento inescapável em disputas sobre o senso comum e a direção do desenvolvimento; enquanto um ciência móvel —em diálogo com o pensamento de Fals Borda— desloca-se para territórios e comunidades, conecta-se com outros atores sociais e busca influenciar a transformação das condições materiais de existência. Essas categorias permitem compreender e questionar os modelos concorrentes no campo das políticas científicas na América Latina e no Caribe: um centrado na produtividade sob lógicas globais descontextualizadas e outro que prioriza a relevância social, a soberania epistêmica e a democratização do conhecimento científico e tecnológico. Nesse sentido, propomos avançar em direção a ciências profundamente comprometidas e democráticas, entendida não apenas como acessível, mas também como resultado de uma construção coletiva, com agendas e prioridades definidas em diálogo com as necessidades do povo e não exclusivamente pelos interesses do mercado ou das elites científicas internacionalizadas.
Com base nesse contexto e aprendizado coletivo, esta declaração – elaborada em colaboração e assinada pelo Grupo de Trabalho “Ciência Aberta como Bem Comum” da CLACSO, pelo Grupo de Trabalho “Ciência Social Móvel e Politizada” e pela FOLEC – reafirma e atualiza uma horizonte compartilhado: Ciências abertas, democráticas, justas, inclusivas e soberanas, entendidas como bens públicos comuns e ferramentas para a transformação social.Inspirando-se nas tradições críticas e emancipatórias do Sul Global e incorporando debates contemporâneos sobre acesso aberto, ciência aberta, avaliação responsável e pluralismo epistêmico, esta declaração oferece uma estrutura comum — ou roteiro — para repensar as políticas de ciência e tecnologia na região. Essa estrutura se organiza em torno de três pilares interconectados, que são desenvolvidos com mais detalhes na proposta transformadora apresentada a seguir. As dimensões que a compõem expressam um compromisso ético e político com as ciências democráticas, construídas coletivamente, vinculadas às lutas e necessidades sociais e dedicadas à soberania científica, à independência tecnológica, à justiça cognitiva e ao bem-estar e à felicidade dos povos da América Latina e do Caribe.
Pilares da proposta transformadora
A América Latina e o Caribe necessitam urgentemente de uma transformação estrutural e radicalmente democrática de seus setores de ciência e tecnologia. Essa transformação não pode se reduzir a ajustes técnicos ou à incorporação de novas ferramentas; ela implica uma profunda redefinição dos fins, meios e significados que norteiam a produção do conhecimento científico e tecnológico na região. Em última análise, trata-se de desafiar o modelo hegemônico de produção, circulação, avaliação, uso e apropriação do conhecimento científico, a fim de avançar rumo a um paradigma que coloque a ciência a serviço dos povos, das comunidades, dos territórios e da expansão da vida democrática. Dentro desse horizonte transformador, é essencial situar a discussão em um quadro normativo que reconheça o direito à ciência como um direito humano e um bem comum universal.
O quadro regulamentar que orienta esta transformação baseia-se no conceito de A ciência como um direito humanoconforme declarado pela UNESCO e pelo sistema das Nações Unidas em documentos como Direito à ciência: uma perspectiva de direitos humanos (UNESCO, 2020) e Direito à ciência e aos sistemas de conhecimento (UNESCO, 2022). Essa abordagem reconhece que todas as pessoas e comunidades têm o direito de acessar, participar e contribuir para a produção e o uso do conhecimento científico, bem como de se beneficiar de seus resultados. A ciência, entendida como um bem comum e um componente essencial da vida democrática, deve ser desenvolvida sob os princípios da liberdade, equidade, inclusão e respeito à diversidade cultural e epistêmica. Nessa perspectiva, garantir o direito à ciência implica promover políticas que eliminem as barreiras estruturais — econômicas, tecnológicas, linguísticas ou institucionais — que limitam seu exercício, e fortalecer a participação social na definição de seus objetivos e prioridades. Na América Latina e no Caribe, reconhecer a ciência como um direito humano implica orientar seu desenvolvimento para a justiça cognitiva, a soberania e o bem-estar coletivo dos povos da região. Os três pilares que norteiam a proposta transformadora aqui apresentada se fundamentam nesse princípio.
O primeiro pilar dessa transformação é o Ciência aberta como um bem público e comum.Este conceito transcende a visão restrita do acesso aberto às publicações, propondo uma abordagem abrangente que engloba todas as dimensões do processo científico: da geração de dados à avaliação, governança, participação social, infraestruturas digitais e marcos éticos. A ciência aberta promove o acesso equitativo ao conhecimento, a colaboração entre diversos atores sociais, o reconhecimento do conhecimento pluralista e a eliminação de barreiras econômicas, linguísticas e tecnológicas que limitam o direito de realizar pesquisas e participar da produção de conhecimento.
O segundo pilar é a construção de um novo modelo de avaliação científica com relevância socialComo proposto pela FOLEC-CLACSO, este modelo rejeita a dependência acrítica de métricas e rankings comerciais e promove critérios de avaliação que reconheçam a diversidade de trajetórias de pesquisa, as múltiplas contribuições para o desenvolvimento humano e ambiental, o compromisso com os contextos locais e a capacidade de influenciar a transformação das realidades sociais, por exemplo, por meio de pesquisa-ação participativa ou políticas públicas baseadas em evidências científicas. Não se trata apenas de medir melhor, mas de transformar o que é considerado valioso no trabalho científico.
O terceiro pilar é o soberania epistêmica e tecnológicaIsso exige a retomada do controle público, democrático e regional sobre as infraestruturas, plataformas e processos que tornam a ciência possível. Isso implica o fortalecimento de repositórios institucionais, o desenvolvimento de ferramentas abertas e acessíveis, a garantia do multilinguismo e a garantia de que as tecnologias digitais — incluindo a inteligência artificial — sejam projetadas e utilizadas de acordo com princípios éticos, com a participação ativa da comunidade científica e sem serem subordinadas às forças do mercado.
Em conjunto, esses pilares formam uma arquitetura transformadora que transcende fronteiras setoriais ou institucionais. Esses três pilares estão inter-relacionados e só podem ser plenamente realizados por meio de políticas públicas robustas, recursos econômicos suficientes, vontade política sustentada e liderança institucional e diálogo que fomentem a mudança cultural; somente assim será possível alcançar uma ciência verdadeiramente democrática, orientada para o bem-estar coletivo de nossa população. Esses pilares são também o resultado de um processo histórico de luta, reflexão e criação coletiva das comunidades científicas e educacionais da região, que hoje se expressam em inúmeras iniciativas, redes e declarações voltadas para a democratização do conhecimento.
Em suma, transformar a ciência na América Latina e no Caribe não é apenas um desafio institucional: é uma tarefa política, cultural e ética que deve ser empreendida com senso de urgência e visão estratégica. O futuro do conhecimento científico em nossa região depende da nossa capacidade de reconfigurar seus fundamentos com base em um compromisso com a soberania científica, a independência tecnológica, a justiça cognitiva e o bem-estar e a felicidade dos povos da América Latina e do Caribe.
Princípios orientadores
A transformação do ecossistema de ciência e tecnologia na América Latina e no Caribe deve se basear em uma série de princípios éticos, políticos e operacionais que orientem as políticas públicas, as práticas institucionais e as decisões cotidianas nos campos científico e acadêmico. Esses princípios não são meramente técnicos ou normativos; constituem compromissos significativos que permitem a reconfiguração das relações entre ciência, tecnologia, sociedade e poder, a fim de estabelecer um arcabouço coerente e comum, orientado para as aspirações de justiça, inclusão e soberania que permeiam a região.
I. Princípios fundamentais: rumo a uma ciência ética, democrática e comprometida
1. Justiça social, ética do conhecimento e impacto ampliado
Orientar os processos de produção, circulação e validação do conhecimento científico e tecnológico segundo princípios de justiça social, relevância ética e compromisso com os direitos humanos e o bem-estar coletivo. Isso implica reconhecer e valorizar o impacto do conhecimento sobre territórios e comunidades, sobre políticas públicas e sobre processos de transformação social. Propõe-se ampliar a noção de “impacto” para além de indicadores de citação ou produtividade acadêmica, incorporando dimensões sociais, culturais, produtivas, ambientais, pedagógicas e comunitárias, com especial atenção aos problemas públicos e à produção de bens comuns.
2. Diversidade linguística e cultural como condição para a inclusão epistêmica
Promover ativamente o multilinguismo e a diversidade cultural nos processos de produção, disseminação e validação do conhecimento científico e tecnológico. As políticas públicas de ciência devem incentivar o uso das línguas nativas de países e regiões do Sul Global, incluindo línguas indígenas, por meio de estratégias de publicação, tradução e reconhecimento acadêmico. Isso implica valorizar a diversidade de formatos, saberes e modos de disseminação do conhecimento, reconhecendo a importância das expressões regionais, locais e ancestrais como parte integrante do ecossistema científico e cultural.
3. Reconhecimento da coprodução de conhecimento e do trabalho coletivo
Revalorizar a natureza colaborativa da produção científica e tecnológica, reconhecendo devidamente o trabalho em equipe, as redes interinstitucionais e as abordagens interdisciplinares. Da mesma forma, os processos de coprodução de conhecimento com atores sociais, comunidades locais, povos indígenas, movimentos sociais, setores produtivos e gestores de políticas públicas devem ser visíveis e valorizados. O diálogo sobre o conhecimento e a construção coletiva devem ser considerados elementos centrais do trabalho científico e tecnológico e devem fazer parte dos critérios de avaliação e reconhecimento acadêmico.
4. Direito de participar no progresso científico e seus benefícios
Reconhecer a participação na ciência como um direito humano fundamental implica assegurar que todas as pessoas e comunidades possam se engajar ativamente na produção, disseminação e uso do conhecimento científico e tecnológico, e se beneficiar de seus resultados. Isso requer políticas públicas que garantam acessibilidade, inclusão e participação efetiva em todas as etapas do processo científico, desde a definição de agendas e prioridades até a avaliação, mobilização e promoção da apropriação social dos resultados. Esse princípio se fundamenta em marcos internacionais promovidos pela UNESCO e pelo sistema das Nações Unidas, que afirmam a obrigação dos Estados de criar ambientes propícios à liberdade de pesquisa, à cooperação aberta e ao acesso equitativo ao conhecimento. No contexto latino-americano e caribenho, exercer esse direito significa democratizar a ciência, fortalecer a soberania epistêmica e tecnológica e promover uma distribuição justa dos benefícios do conhecimento e da inovação para o bem comum e o desenvolvimento dos povos.
II. Democratização do conhecimento e soberania digital
4. Acesso aberto, gratuito e não comercial ao conhecimento científico financiado publicamente.
Promover o acesso aberto irrestrito a todos os resultados de pesquisas financiadas com recursos públicos, eliminando barreiras de pagamento ou assinatura. Esse acesso deve ser garantido por meio de repositórios de acesso aberto interoperáveis (via verde) e pelo fortalecimento de periódicos científicos que operam sob o modelo diamante, ou seja, sem custos para leitores ou autores. Deve-se priorizar o uso de infraestruturas não comerciais, apoiadas por universidades, redes públicas ou sistemas cooperativos de ciência aberta, para garantir a soberania do conhecimento científico e tecnológico e evitar sua privatização e mercantilização.
5. Desenvolvimento e sustentabilidade de infraestruturas abertas, interoperáveis e cooperativas
Fortalecer as infraestruturas digitais abertas e públicas que permitem a produção, circulação, visibilidade, preservação e reutilização do conhecimento científico e tecnológico. Isso inclui repositórios de acesso aberto, plataformas de periódicos não comerciais, portais de livros, arquivos institucionais e bibliotecas digitais. Essas infraestruturas devem operar com padrões abertos, garantir a interoperabilidade regional e internacional e assegurar a preservação do conteúdo a longo prazo. Devem também facilitar o desenvolvimento e a disseminação de recursos educacionais abertos (REA), promovendo o acesso livre, aberto e reutilizável ao conhecimento para fins educacionais.
6. Construindo sistemas de informação acadêmica inclusivos e representativos
Projetar e manter sistemas de informação científica, tecnológica e acadêmica públicos, abertos, federados e atualizados, capazes de representar a diversidade institucional, disciplinar e territorial dos sistemas científicos e educacionais. Esses sistemas devem tornar visíveis as agendas de pesquisa, os atores envolvidos e as modalidades de produção, disseminação, usabilidade e apropriação do conhecimento. É essencial que esses sistemas estejam alinhados com os princípios da ciência aberta e dos direitos digitais, e que sejam governados democraticamente por atores públicos e comunitários.
III. Transformação de modelos de avaliação
7. Sistemas de avaliação abertos, participativos e contextualizados
Promover sistemas de avaliação da atividade científica, tecnológica e acadêmica baseados em plataformas abertas, públicas e cooperativas que permitam transparência, rastreabilidade e controle democrático do processo de avaliação. Esses sistemas devem se adaptar à diversidade institucional, disciplinar, linguística e territorial, reconhecendo as diferentes trajetórias e modalidades de produção do conhecimento científico e tecnológico. Os processos de avaliação devem ser concebidos para serem abertos, evolutivos, participativos e cooperativos, envolvendo ativamente as comunidades acadêmicas e os atores sociais relevantes, em vez de reproduzir modelos opacos, hierárquicos, competitivos, fechados e padronizados.
8. Utilização de indicadores qualitativos e contextualizados, superando métricas comerciais e rankings internacionais.
O uso hegemônico de métricas comerciais, como o fator de impacto ou o índice H, bem como rankings, deve ser substituído por modelos de avaliação baseados em julgamento especializado qualificado, critérios qualitativos e métricas alternativas desenvolvidas em ambientes regionais e não comerciais. É essencial promover o uso de sistemas como Latindex, SciELO, RedALyC, AmeliCA, LA Referencia e outros repositórios regionais para a avaliação de publicações. Indicadores específicos e contextualizados, relevantes para as realidades institucionais, territoriais e disciplinares do Sul Global, devem ser desenvolvidos para superar a dependência de indicadores de citação internacionais e idiomas dominantes.
9. Avaliação com equidade de gênero, inclusão da diversidade e apoio a trajetórias emergentes.
Incorporar ativamente uma perspectiva de gênero e diversidade nos processos de avaliação, promovendo a visibilidade, o reconhecimento e a valorização das contribuições de mulheres, minorias de gênero e sexuais e grupos historicamente sub-representados na ciência e tecnologia. Da mesma forma, é essencial estabelecer apoio específico para trajetórias de formação, incluindo jovens pesquisadores e bolsistas, por meio de sistemas que considerem suas necessidades específicas, períodos de formação e contribuições iniciais, promovendo mentoria, apoio e reconhecimento diferenciado.
IV. Formação e cultura da ciência aberta como um bem público e comum
10. Estratégias críticas de formação e pedagogia para estabelecer a ciência aberta como um bem público e comum, com base em avaliações socialmente relevantes.
Promover espaços de formação e estratégias pedagógicas que fomentem uma compreensão crítica e coletiva da avaliação científica e da ciência aberta como ferramentas para a transformação institucional e social. A partilha de conhecimento é um pré-requisito para a construção de comunidades de prática comprometidas com a justiça epistémica, a equidade na produção e circulação do conhecimento científico e tecnológico e o questionamento de modelos hegemónicos e corporativos. Para estabelecer uma cultura de abertura, é essencial complementar os programas de formação com diretrizes institucionais e espaços de diálogo que capacitem todos os intervenientes académicos nos princípios, ferramentas e valores da ciência aberta, incentivando a sua adoção no ensino, na investigação, na extensão universitária e no envolvimento com a comunidade.
Esses princípios, em conjunto, permitem-nos construir um novo contrato social para o conhecimento científico na América Latina e no Caribe, onde a ciência deixa de ser um privilégio e se torna uma ferramenta a serviço da transformação social, da equidade e do desenvolvimento soberano dos povos latino-americanos e caribenhos.
Call to action
Num mundo onde a concentração do poder econômico e tecnológico se aprofunda, as desigualdades se agravam e a retórica neoliberal e autoritária da extrema direita ameaça nossas instituições democráticas, defender o conhecimento livre e pluralista, orientado para o bem comum, torna-se um imperativo político e ético. Da América Latina e do Caribe, lançamos um apelo claro, decisivo e coletivo a todos os atores envolvidos na ciência, na tecnologia e no ensino superior: é hora de agir, de imaginar e de construir um modelo de produção de conhecimento que seja verdadeiramente justo, democrático, soberano e enraizado nas transformações que nossos povos exigem.
Instamos os Estados e os organismos de integração regional a reconhecerem a ciência como um direito humano e um bem público e comum, e a conceberem políticas públicas que garantam a soberania científica, a independência tecnológica e a justiça epistêmica. Para tanto, é essencial investir em infraestruturas abertas e sustentáveis, fortalecer e financiar periódicos científicos locais, garantir o acesso aberto e não comercial ao conhecimento e fomentar a cooperação solidária entre os países da América Latina, do Caribe e do Sul Global. Ao mesmo tempo, instamos as universidades, os centros de pesquisa e as agências de fomento a reverem criticamente seus sistemas de avaliação e incentivo, abandonando as lógicas competitivas baseadas em métricas bibliométricas e rankings internacionais, e adotando uma cultura acadêmica e científica que valorize a colaboração, a diversidade epistêmica, a relevância social e a produção coletiva do conhecimento.
Conclamamos as comunidades científica, acadêmica e estudantil a assumirem um papel de liderança nessa transformação. Não basta aderir superficialmente a slogans como “ciência aberta”: é essencial contestar seus significados, politizá-los e apropriar-se criticamente deles. A resistência aos modelos neoliberais e tecnocráticos surge da organização, da solidariedade e da ação regional conjunta. Da mesma forma, instamos os movimentos sociais, os povos indígenas, as comunidades afrodescendentes, os movimentos feministas, camponeses e de base a participarem ativamente da construção de uma ciência situada e emancipadora que reconheça que o conhecimento é produzido não apenas em laboratórios e salas de aula, mas também em territórios, em lutas e nas práticas ancestrais de nossos povos.
Em consonância com nosso compromisso de transformar os sistemas de avaliação e promover a ciência aberta e democrática, apresentamos duas iniciativas à Assembleia da CLACSO com foco na disseminação dessas propostas, reconhecendo o papel fundamental das estratégias pedagógicas como ferramentas de mudança e como pré-requisito para a construção e o desenvolvimento de comunidades de prática. A proliferação de oportunidades de formação nesses temas é essencial para fomentar uma compreensão crítica e coletiva das práticas científicas abertas, baseadas em práticas de avaliação responsáveis. Essas oportunidades nos permitem questionar modelos hegemônicos, promover a equidade na produção e disseminação do conhecimento e construir uma comunidade acadêmica comprometida com a justiça epistêmica e social.
Por um lado, apresentamos a “Escola de Avaliadores da FOLEC”, uma iniciativa fruto de anos de pesquisa, que iniciou suas atividades em 2024 e se consolidou em 2025. Ela reflete a maturidade alcançada após um longo período de diálogo latino-americano com atores de todo o mundo sobre avaliação científica e o paradigma da ciência aberta. Seu objetivo central é fortalecer a formação e o conhecimento crítico sobre os debates contemporâneos em avaliação responsável e ciência aberta, promovendo a reflexão e o questionamento das práticas hegemônicas de avaliação por meio de ferramentas teóricas e metodológicas inovadoras que facilitem métodos de avaliação inclusivos, transparentes, justos e adequadamente situados em nosso contexto regional e em um quadro global para a ciência aberta. Partimos do pressuposto de que a transformação da avaliação exige ação simultânea em múltiplas dimensões: a política, para rever as relações de poder e gerar consenso estratégico; a axiológica, para redefinir os valores que a sustentam. A Escola atua em dois níveis: o institucional e o normativo, para reformular regras e procedimentos por meio de processos de mudança situados e bidirecionais (de baixo para cima e vice-versa). e a praxeológica, para traduzir esses consensos em práticas cotidianas que realmente impactem tanto quem avalia quanto quem é avaliado. Dentro dessa estrutura, a Escola adota uma estratégia pedagógica — buscando influenciar os níveis mencionados — que socializa os princípios do novo paradigma entre todos os públicos e atores sociais, construindo novos significados como alternativas ao modelo hegemônico e fomentando práticas inovadoras capazes de impulsionar as mudanças institucionais de que precisamos. Com uma abordagem crítica e participativa, a Escola dissemina conhecimento e ferramentas conceituais, éticas e práticas para realizar uma ciência mais inclusiva, democrática e socialmente relevante: uma ciência aberta mobilizada para solucionar os problemas que afetam nossas comunidades e promover um impacto social real em seu trabalho. Ao longo das duas edições da Escola de Avaliadores da FOLEC, participaram 26 professores de 21 instituições diferentes e 8 países diferentes, compartilhando seus conhecimentos e experiências em avaliação científica e acadêmica. Essa diversidade enriqueceu as discussões e promoveu uma visão pluralista e contextualizada das práticas de avaliação na América Latina e no Caribe.
Além disso, e complementando a proposta anterior, o curso online "Ciência Aberta como Bem Público: Reflexões e Ações Necessárias a partir de uma Perspectiva Não Comercial" foi desenvolvido entre outubro e dezembro de 2024. Essa iniciativa surgiu em resposta aos debates regionais sobre a mercantilização do conhecimento e a necessidade de modelos alternativos de comunicação científica. O curso teve como objetivo aprofundar a dinâmica e as melhores práticas da ciência aberta, com foco no desmantelamento das lógicas comerciais predominantes e na promoção de processos de publicação mais inclusivos e transparentes. Por meio de uma metodologia ativa que combinou módulos teóricos, fóruns de discussão e atividades práticas, o curso buscou disseminar os princípios da ciência aberta entre pesquisadores, bibliotecários e editores. Com uma abordagem participativa, o conteúdo foi ministrado por 16 especialistas de 12 instituições em 8 países, que facilitaram discussões e coordenaram atividades colaborativas em espaços virtuais gratuitos, mediante inscrição prévia, culminando na emissão de um certificado de conclusão. Essa experiência ajudou a mobilizar uma comunidade crítica e comprometida com uma ciência mais inclusiva, democrática e socialmente relevante, disposta a traduzir o paradigma da ciência aberta em ações concretas que confrontem a mercantilização do conhecimento e promovam um impacto real em nossas sociedades.
Por fim, apelamos às redes e fóruns internacionais, especialmente aqueles no Sul Global, para que forjem alianças horizontais, compartilhem experiências e construam uma agenda comum para abordar as crises civilizacionais a partir das perspectivas da justiça social, ambiental e epistêmica. Este é um momento para a imaginação política, a ação coletiva e a construção de horizontes compartilhados.
As ciências que almejamos são possíveis, mas exigem coragem, organização e comprometimento. Da América Latina e do Caribe, abraçamos esse desafio como parte de uma luta mais ampla pela dignidade, autonomia e soberania da nossa América.