Laura Rovelli – UNLP-IdIHCS-CONICET e FOLEC-CLACSO

 Laura Rovelli – UNLP-IdIHCS-CONICET e FOLEC-CLACSO

No âmbito da “Campanha Latino-Americana e Caribenha pela Democratização do Ensino Superior e do Conhecimento: O Ensino Superior Não é uma Mercadoria”, patrocinada por diversas instituições de ensino para as quais o ensino superior é um bem público social, um direito humano universal e uma responsabilidade dos Estados, ela foi entrevistada. Laura Rovelli, professor-pesquisador UNLP-IdIHCS-CONICET e coordenador FOLEC-CLACSO.

A campanha regional, que se realiza no âmbito da Conferência Mundial sobre o Ensino Superior (WHEC2022), a realizar em Barcelona, ​​Espanha, de 18 a 20 de maio, e organizada pela UNESCO, foi lançada com o objetivo de defender o ensino superior público como um direito e património dos nossos povos.



Como se configura globalmente o sistema hegemônico de avaliação, acreditação, circulação e comunicação da ciência?

Ao avaliarmos trajetórias de carreira, instituições e pesquisas, podemos observar uma mudança quantitativa nas últimas décadas que gera diversas distorções. O uso de métricas baseadas em periódicos e publicações para avaliação — o que se conhece como fator de impacto de periódicos, ou índice H — produziu muitas transformações no campo da pesquisa e suas práticas. Isso também se aplica aos rankings universitários: a maioria deles também se baseia nessas métricas de periódicos e publicações, com critérios e metodologias estabelecidos por empresas comerciais externas à universidade. E se observarmos as trajetórias de carreira daqueles que trabalham em universidades e centros de pesquisa, nota-se uma maior ponderação ou reconhecimento, por meio de recompensas modestas, da experiência em pesquisa, em detrimento do ensino e/ou da extensão universitária. Em particular, uma contabilização de papéis ou publicações de resultados de pesquisa como principal instrumento dessa produção ou trajetória. O que vemos é um uso e abuso desses tipos de métricas de avaliação que tem efeitos negativos na qualidade e no impacto científico em nível econômico, porque a publicação nesses circuitos comerciais internacionais, bastante prevalente em algumas disciplinas, implica que parte dos fundos públicos para pesquisa é alocada para publicações comerciais; compensa.

De que forma as relações centro-periferia, as desigualdades entre regiões, mas também dentro de cada região, afetam esse esquema?

O que todas essas práticas de avaliação fazem é limitar a autonomia das agendas de pesquisa que buscam se conectar com questões locais ou prioridades de desenvolvimento nacional, que podem não estar representadas em periódicos ou em oportunidades de publicação comercial dentro do circuito tradicional. Claramente, existe um desincentivo às práticas de acesso aberto — uma tradição profundamente enraizada, por exemplo, em nossa região da América Latina e do Caribe — porque o acesso à leitura e à publicação é restrito. Muitos pesquisadores priorizam a publicação nesses circuitos comerciais tradicionais porque, consequentemente, ela recebe maior reconhecimento nas avaliações. Tudo isso representa uma grande distorção de um sistema que é predominantemente público em sua estrutura e fontes de financiamento. Também distancia a pesquisa das demandas dos setores socioprodutivos e dos ambientes imediatos, porque as agendas são conduzidas por uma discussão internacional que é fundamentalmente disciplinar em sua natureza.

Quais são os elementos essenciais de um sistema de produção e circulação de conhecimento mais aberto, democrático e – diga-se de passagem – popular?

De modo geral, diria que é necessário redefinir a noção de excelência, substituindo-a por uma noção de excelência baseada em pesquisa de alta qualidade, mas também em pesquisa diversa, equitativa e socialmente relevante. Houve algum progresso, mas ainda há muito a ser feito para redefinir verdadeiramente essa noção na esfera acadêmica e científica, em termos culturais. Devemos também almejar uma avaliação mais qualitativa, que possa ser sustentada pela concepção e utilização de indicadores contextualizados e responsáveis ​​em termos de pesquisa, que reflitam adequadamente a produção publicada em periódicos, bem como em livros e repositórios institucionais de universidades ou organizações de ciência e tecnologia, para que essa produção mais ampla possa ser utilizada para avaliação. Precisamos também de uma ciência livre de restrições de pagamento para publicação e circulação. O objetivo deve ser priorizar ou valorizar os processos colaborativos de produção de conhecimento na avaliação, em vez de, como ocorre atualmente, uma ciência medida por resultados, que é mais individualista.

Em que sentido a ideia de excelência deve ser reformulada?

A ideia dominante ou hegemônica de excelência é mais um consenso alcançado por uma comunidade acadêmica dentro de uma disciplina específica. Estamos falando de um conceito muito mais amplo de excelência, que reconhece como a ciência é enriquecida e fortalecida pela diversidade do conhecimento local, mas também pelas diversas trajetórias de diferentes indivíduos que podem participar do processo e cuja participação e colaboração aprimoram os processos de produção e disseminação do conhecimento. Trata-se de ser capaz de considerar a excelência, ou a qualidade da pesquisa, em interação com a sociedade, na abordagem de problemas relevantes em seu entorno imediato em nível nacional e na disponibilização desse conhecimento por meio da participação ou interação com atores não acadêmicos, quando apropriado.

Que experiências existem na Argentina, na região e no mundo, onde diferentes critérios de avaliação e acreditação estão sendo estabelecidos?

O que temos observado nos últimos 10 anos é uma agenda internacional e regional, por assim dizer, na qual começa um questionamento mais organizado de todos esses critérios que estávamos discutindo. Existem várias iniciativas internacionais, como a Declaração de São Francisco sobre Avaliação da Pesquisa (DORA) e o Manifesto de Leiden, que criticam especificamente essa mudança quantitativa na avaliação de carreiras e pesquisas. Na América Latina, desde 2019, entre outras iniciativas, existe o Fórum Latino-Americano de Avaliação Científica da CLACSO, que trabalha há anos para mobilizar essa questão na região. Havia muita insatisfação entre professores, pesquisadores e extensionistas em relação a essa cultura acadêmica, então esse setor foi mobilizado por meio de diversas atividades de conscientização, estabelecendo uma agenda comum para o diálogo e desenvolvendo ferramentas adicionais de intervenção para a elaboração de políticas de avaliação responsáveis ​​como instrumentos de aprimoramento. Acreditamos que essa seja uma das iniciativas para se chegar a um consenso. Embora não exista um modelo único, há alguns princípios, como os que mencionei anteriormente, de práticas responsáveis ​​de avaliação acadêmica que queremos alinhar com outros atores da região. A implementação dessas medidas exigirá ajustes adicionais que levem em consideração o contexto histórico do sistema científico e universitário de cada país, mas acreditamos na possibilidade de estabelecer uma agenda comum, que já está bastante bem definida, para chegar a um acordo sobre uma transformação regional da avaliação acadêmica.

Qual é o panorama internacional dessa disputa em termos políticos e institucionais?

O panorama é bastante favorável, visto que muitas organizações internacionais de ciência e tecnologia incorporaram a reforma da avaliação responsável em suas agendas de pesquisa. Vivemos um momento de proliferação de iniciativas, declarações, grupos de diagnóstico e estudos sobre o tema. Obviamente, em paralelo, as editoras comerciais internacionais também atuam com muita força, pressionando para impor suas métricas e realizar pequenos ajustes, de modo que nada mude em relação ao conteúdo publicado em seus periódicos e ao seu impacto. Portanto, o desafio é enorme; trata-se de uma transformação global, regional, nacional, local e institucional. Há muitas escalas e níveis nos quais essas pequenas, porém substanciais, mudanças devem ser feitas simultaneamente para gerar uma cultura de pesquisa diferente, promover maior bem-estar no sistema acadêmico, tornar nosso trabalho relevante e restaurar o sentido da atividade acadêmica em diálogo com a sociedade, especialmente na América Latina e no Caribe, onde isso é urgente e necessário.

De que forma esse tipo de configuração afeta o trabalho acadêmico e de ensino?

Isso nos afeta profundamente. De fato, a CONADU tem produzido bastante material reflexivo sobre avaliação em universidades. O reconhecimento do ensino é em grande parte invisível, e a produção de conhecimento a ele relacionada também é relegada a segundo plano — algo que seria inestimável disponibilizar, disseminar em repositórios abertos e periódicos nacionais, e então incorporar às avaliações de carreira. Não se trata apenas da atividade docente em si, mas também da reflexão sobre esse trabalho. O mesmo se aplica à extensão: a coprodução de conhecimento, por não se encaixar perfeitamente no formato tradicional de publicação acadêmica em artigos, é relegada e tornada invisível nesta discussão sobre circuitos mais internacionalizados. Portanto, acredito que o grande desafio seja expandir a infraestrutura que torna essa produção, esse conhecimento, visível e garantir que seja priorizado nos processos de avaliação da pesquisa. Os repositórios institucionais desempenham um papel fundamental nesse sentido, fomentando uma cultura de depósito dessas produções em acesso aberto para que possam ser reavaliadas durante o processo de avaliação.

O que deve acontecer na Conferência Mundial sobre Ensino Superior nesta área?

Acredito que precisamos fortalecer a perspectiva, a trajetória e a reflexão latino-americanas sobre essas questões de avaliação acadêmica e de pesquisa, bem como sobre acesso aberto e ciência aberta. De certa forma, precisamos discutir nossa trajetória, que prioriza o conhecimento como um bem comum, gerido de forma não comercial pelas comunidades. Devemos colocar em prática a ideia de que as práticas de avaliação devem fomentar uma cultura de pesquisa que reconheça a colaboração, a abertura e o compromisso com a sociedade, e que ofereça oportunidades para diversas trajetórias de carreira e diversos talentos dentro da academia.

Ver: O ensino superior não é uma mercadoria


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