"Na Amazônia, eles querem transformar tudo em mercadoria."
“A Amazônia é um dos territórios ainda não conquistados por empresas extrativistas, embora elas já estejam entrando com grande força”, afirmou ele. InfoCLACSO Raquel Neyra, Ativista peruana e membro de Grupo de Trabalho CLACSO sobre Ecologias Políticas do Sul/Abya-YalaO doutor em Economia Ecológica argumentou que a região está sofrendo ataques em diferentes frentes: jurídica, política, social e cultural, que, no caso do Peru, se intensificaram nos últimos anos.
Roberto Araújo Santos, Antropólogo do Museu Paraense Emilio Goeldi na Amazônia e membro do mesmo Grupo de Trabalho CLACSOEle explicou que, no caso brasileiro, durante a década de 1990 e até o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), houve uma tentativa do Estado de construir um modelo socioambiental que considerasse os recursos ecológicos e as populações nativas.
“Quando Bolsonaro assumiu o cargo, já havia uma tentativa do Estado de reduzir os índices de desmatamento”, rompendo com a tradição do regime militar das décadas de 70 e 80, mas ele afirmou que isso mudou novamente durante o governo do ex-presidente. Segundo o pesquisador, o governo se aproveitou da pandemia para acelerar o desmatamento, enquanto as pessoas estavam muito preocupadas com a crise sanitária para protestar, algo que o então Ministro do Meio Ambiente chegou a declarar.
Além disso, o antropólogo enfatizou que, sob Bolsonaro, um discurso racista contra as comunidades indígenas tradicionais ganhou força. Embora esse discurso já existisse, a violência contra essas populações passou a ser justificada e legitimada pelo Estado. “Isso foi chocante, porque foi a palavra do presidente”, declarou.
Em relação ao Peru, Neyra enfatizou que a liderança política e os responsáveis pelas políticas públicas estão completamente despreparados. Na época da entrevista, o norte do país ainda sofria com o Ciclone Yaku e o início do El Niño Costeiro, dois fenômenos parcialmente relacionados às mudanças climáticas, com consequências devastadoras. Segundo a ativista, o governo não fez nada para preveni-los, “apesar de haver verba destinada para isso; a corrupção leva todo o dinheiro e não há qualquer preparação”. Ela acredita que as autoridades não se importam com o desespero da população, contanto que não as afetem diretamente.
Araujo Santos também identificou um grave problema institucional, porque "localmente, as pessoas que fazem as leis e as dos municípios, os madeireiros, são exatamente os neoextrativistas que estão lucrando com isso".
De acordo com a ativista peruana, a legislação é uma das principais frentes de ataque à Amazônia. “Eles querem modificar as leis florestais para facilitar o uso da terra”, afirmou. Essa questão está diretamente relacionada à expansão da fronteira agrícola. “As áreas de desmatamento, segundo estudos de organizações internacionais e do próprio Ministério do Meio Ambiente, coincidem com a expansão das plantações de palma de óleo; e é também nessa área que ocorre o maior número de assassinatos de indígenas”, explicou.
Concordando com as observações do pesquisador brasileiro, Neyra também abordou a violência contra as comunidades indígenas da região, perpetrada inclusive por órgãos estatais. É o caso do governo regional de Iquitos, que busca negar a existência de povos isolados, conhecidos no Peru como PIACI (Povos Indígenas em Isolamento e Primeiro Contato), para conceder licenças de exploração madeireira. "Eles querem excluir as comunidades que vivem lá e impedi-las de participar, por exemplo, da gestão de sua própria floresta, onde vivem há milênios", afirmou.
“Outro problema que temos é a expansão do tráfico de drogas”, acrescentou Neyra, observando que a área clássica de cultivo ilegal de coca aumentou em mais de 10.000 hectares nos últimos anos, o que também envolveu tráfico, invasões de terras e a disseminação de muita violência.
Sobre este assunto, Araujo Santos acrescentou que há uma “destruição física das populações, porque elas são removidas dos territórios a serem explorados”, enquanto aqueles que tentam resistir são mortos e outros simplesmente se juntam ao sistema, porque “tudo deve ser transformado em mercadoria”.
Ambos os pesquisadores expressaram preocupação com a cooptação das populações nativas: “Agora existem técnicas para convencer os próprios povos indígenas a participar da exploração”, alertou Neyra. “Com a história de que eles ficarão ricos e poderão ter suas próprias terras, são eles que, em última análise, pagarão as consequências”, acrescentou.
Além disso, ela argumentou que isso traz consigo outros efeitos negativos para as próprias comunidades. Por exemplo, explicou que, para compensar as populações indígenas pelos milhares de derramamentos de petróleo na região, o Estado peruano paga a elas somas vultosas, sem precedentes na Amazônia e desnecessárias para sua subsistência. “E então, em que esse dinheiro será gasto no coração da Amazônia? Vocês podem imaginar: álcool, prostituição; todas essas coisas que destroem culturas começam a aparecer”, refletiu a ativista.
Neyra identificou que já estamos ultrapassando o limite da destruição ambiental, afirmando: “As mudanças climáticas na Amazônia e em outras áreas do Peru, assim como no resto do mundo, estão confirmando essa situação”. A pesquisadora acrescentou que cada vez menos pessoas se manifestam contra o avanço da exploração, enquanto a maioria se mostra desinteressada ou muito preocupada com o cotidiano e a sobrevivência. No entanto, ela afirmou que “devemos continuar: as organizações indígenas têm excelentes propostas para a recuperação, administração e gestão florestal”.
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