“Teremos um Trump mais radicalizado, com consequências desastrosas.”

 “Teremos um Trump mais radicalizado, com consequências desastrosas.”

Após a vitória de Donald Trump nas eleições dos Estados Unidos, Leandro Morgenfeld, da Universidade de Buenos Aires e do CONICET da Argentina, e co-coordenador do Grupo de Trabalho "Estudos sobre os Estados Unidos" do CLACSO, conversou com o CLACSO.tv.

A respeito disso, Morgenfeld analisou: “Além de Trump, de quem muitos disseram que 'desapareceu, que irá para a cadeia pelo cerco ao Capitólio, que terá que se aposentar da política', nós dissemos que o trumpismo não desapareceu. Ele estará com ele ou com outra figura, mas há uma fratura que se expressa na estratégia de um setor da classe dominante e na de setores abaixo dela, até mesmo das classes trabalhadora e média, que diziam 'queremos algo diferente, isso não vai desaparecer'.” Agora sabemos que Trump se recuperou, expurgou o Partido Republicano e até mesmo muitos daqueles que faziam parte de sua administração apoiaram a candidatura de Kamala Harris. E teremos um Trump revigorado. Precisamos ver o que ele fez e o que não conseguiu fazer em seu primeiro mandato. Mas temos um Trump que controla ambas as casas, o Senado e a Câmara dos Representantes, que tem uma Suprema Corte ultraconservadora, algo que não aconteceu em seu primeiro mandato (...). E também temos um Trump que venceu no voto popular. Em 2016, ele perdeu por 3 milhões de votos. Apesar de todas as condenações judiciais (...), ele tem um Partido Republicano que agora controla, o que estamos vendo nestas duas primeiras semanas desde sua eleição.”

“Teremos um Trump muito mais radicalizado, o que considero um grande problema para setores muito importantes da população americana, incluindo alguns que confiavam em sua retórica popular ou populista, em sua retórica anti-elite. Mas acho que isso terá consequências desastrosas para o mundo todo, e especialmente para a América Latina”, afirmou.

Em relação às perspectivas para sua política externa, ele observou que ela “confronta a estratégia da ala globalista, ou seja, a ideia de que os Estados Unidos podem continuar a dominar o mundo como faziam no início da era pós-Guerra Fria. Por quê? Porque no século XXI, os Estados Unidos estão iniciando uma série de guerras ou intervenções militares que não podem vencer (...). Então, Trump está dizendo: 'Não podemos mais governar o mundo como antes; temos que negociar esferas de influência.'” Há um recuo relativo por parte dos Estados Unidos, (...) ou seja, uma tentativa de desescalar alguns conflitos no mundo para se concentrar no confronto com a China. E uma tentativa de separar a Rússia da China (...). Eles dizem: 'Temos que recuar para controlar nosso quintal', como chamam a América Latina e o Caribe. Ou seja, haverá um fortalecimento e uma militarização da política na América Latina. É por isso que o que soubemos há sete dias, a nomeação de Marco Rubio como Secretário de Estado, é muito preocupante. Um cubano-americano, um inimigo declarado da Revolução Cubana e da Venezuela. Os Estados Unidos, que suspenderam algumas sanções contra a Venezuela nos últimos dois anos, permitindo sua recuperação, vão aumentá-las significativamente. Mas Rubio não é apenas contra o que chamam de 'troika do mal', mas contra todos os governos nacionalistas, reformistas, populistas e de esquerda da região."

Entrevista concedida a Gustavo Lema.


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