"O Uruguai foi o primeiro país a avançar em um Sistema de Saúde e o que foi alcançado é irreversível."
Transcrição da coluna de Karina Batthyány
Em InfoCLACSO – 30 de abril de 2025
Estamos na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade da República do Uruguai para apresentar um relatório comparativo sobre o tema do trabalho de cuidado. O relatório foi elaborado pelo grupo de pesquisa em Sociologia de Gênero, que coordeno, e que trabalha sistematicamente com as desigualdades de gênero há mais de 30 anos, sendo o trabalho de cuidado uma de suas questões centrais.
– O relatório levanta a questão “Mandatos de gênero em transformação?”. Refere-se a um período muito longo, desde 2015, em relação à Lei de Assistência. Que trabalho social foi realizado sobre a questão da assistência diante das decisões políticas?
– Vamos contextualizar este relatório. De fato, a ideia é comparar dois momentos. Inicialmente, em 2011, quando o Uruguai vivenciava o debate que antecedeu a criação do Sistema de Assistência Social, um governo progressista havia vencido e proposto a assistência social como uma de suas principais medidas em termos de transformação social e geração de bem-estar social.
Além de apoiar essas discussões por meio da equipe de pesquisa, fornecendo diversas contribuições, estabelecemos uma base de referência e, essencialmente, revelamos o que os uruguaios pensavam sobre questões relacionadas ao cuidado: quem deveria prestar cuidados, como deveriam prestá-los, quem eles gostariam que cuidasse deles e assim por diante. A pesquisa realizada em 2011 serviu como ponto de partida para a elaboração do que mais tarde se tornou a Lei de Cuidados e o início da implementação do Sistema Nacional Integrado de Cuidados.
Posteriormente, em 2023, decidimos repetir a mesma medição para comparar efetivamente as políticas públicas de assistência em termos de seu impacto nessas representações. "Quem você quer que cuide de você?" e "A quem você atribui a principal responsabilidade pelos cuidados de seus filhos?" são algumas das perguntas que nos fazemos em relação à questão do cuidado.
Hoje, apresentamos resultados comparativos que nos permitem examinar a divisão de trabalho por gênero e a questão do trabalho de cuidado. Além disso, o relatório revela algumas transformações, indicando maior representatividade social ou uma crescente conscientização da necessidade de instituições públicas apoiarem o trabalho de cuidado realizado por mulheres no domicílio. Atribuímos, portanto, isso à implementação de uma política que, embora ofereça serviços, o faz com alcance limitado e, assim, altera essas percepções.
Por sua vez, encontramos algumas continuidades no sentido da desconexão entre representações e práticas sociais com visões ligeiramente menos conservadoras, distinguindo entre as duas populações de crianças e idosos dependentes em relação ao conhecimento das políticas públicas de assistência. Sabemos que uma das principais demandas em certos setores da população uruguaia é como cuidar dos filhos, além do cuidado que pode ser oferecido em casa em termos de horários de trabalho. Além dos resultados, gostaria de destacar alguns elementos da perspectiva da compreensão das ciências sociais por meio da sociologia crítica: a articulação entre conhecimento, políticas públicas e movimentos e organizações sociais com a sociedade civil e a rede pró-assistência.
Indo além deste estudo e analisando o panorama geral, a questão do cuidado está na agenda pública, e de forma pioneira na América Latina e no Caribe. O Uruguai foi o primeiro país a colocá-la nessa agenda com sua lei, seu sistema nacional integrado de saúde, e o progresso alcançado é irreversível. Uma vez que o cuidado esteja na agenda pública, o progresso pode ser mais rápido ou mais lento, mas a questão está presente.
No âmbito da CLACSO, o trabalho de cuidado tornou-se um tema central de estudo, desenvolvimento e pesquisa. De que forma o papel do trabalho de cuidado na agenda política contribui para esse debate em nível regional?
É claro que, na CLACSO, a questão do cuidado ganhou significativa importância nos últimos anos, mas isso se deve à relevância das ciências sociais, que abrem portas e janelas para temas emergentes, transformando alguns referenciais conceituais e formas tradicionais de pensar. Além disso, há uma necessidade, em nível social e em diferentes países, de que a questão do cuidado esteja presente para a construção de um mundo mais justo e equitativo, dada uma das causas profundas da desigualdade de gênero. Se não desenvolvermos políticas públicas que modifiquem os elementos mencionados, dificilmente alcançaremos o objetivo da igualdade dentro dos novos marcos das relações sociais e na busca pela construção do bem-estar social.
– Agora vemos o atual governo uruguaio implementando um esforço colaborativo com a academia para avançar em questões de saúde…
— Quero esclarecer que a questão do trabalho de cuidado não está apenas sendo revisitada; muito pelo contrário. Já vínhamos trabalhando ativamente com a Secretaria Nacional de Cuidado e com o Instituto Nacional da Mulher, órgão responsável pelas políticas de gênero no Uruguai. De fato, estávamos mais uma vez nos diferenciando do que acontecia em outros países da América Latina em relação ao trabalho de cuidado. Infelizmente, todo esse progresso foi perdido ou desmantelado em termos da participação dos grupos que atuam na Universidade da República (UDELAR), onde a lógica de produção conjunta de conhecimento útil para políticas públicas e transformação social não foi seguida. O que eu quero é influenciar mudanças nas condições de vida das pessoas, e a produção de conhecimento deve estar vinculada a políticas públicas, movimentos sociais e organizações.
– A região atravessa um período de recuo e disputa em relação aos temas discutidos. Estamos no Uruguai, ao lado fica a Argentina, e também temos o Brasil, que recentemente aprovou uma política de cuidados. Como você interpreta esse cenário regional diverso com tantos contrastes?
– Essa é a diversidade e os contrastes aos quais nossa região nos acostumou. Uma América Latina única e diversa, onde encontramos países que abraçam movimentos progressistas, mas também outros que vivenciam profundos retrocessos em direção ao conservadorismo e à direita, minando assim a agenda de direitos — ou seja, os direitos conquistados até agora neste século. E, nesse contexto, os direitos associados ao feminismo, à diversidade, à dissidência e aos direitos das mulheres ocupam um lugar privilegiado.
Estamos, portanto, num momento particular, não só na América Latina, mas em todo o mundo, enfrentando tendências regressivas em termos de legislação, e com o conservadorismo e os movimentos de direita a ganharem força. Isto obriga-nos a redobrar os nossos esforços com diferentes tipos de investigação e a considerar o que podemos contribuir para a construção de alternativas. Acreditamos que colocar o cuidado no centro da discussão é uma forma de contribuir para a construção dessa alternativa.
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