Tutorial sobre mobilizações sociais na Colômbia
Omar Rincón*
FATO 1: HÁ MUITA RAIVA, MUITA FÚRIA SOCIAL… E o governo, os políticos, a mídia e os donos do país, como Shakira: Brutais, cegos, surdos, mudos, desajeitados e teimosos… e o povo, de todas as classes e culturas, “ficou sem argumentos e metodologias” cada vez que Duque “aparece com sua anatomia”, porque “ele se alimenta de pretextos e não tem espinha dorsal”… e isso nos transformou em manifestantes mobilizados… que marcham como um carnaval… e fazem da democracia uma festa… que a polícia e o governo querem destruir…
FATO 2: O Acordo de Paz (2016)... DESENCADEOU PROTESTOS SOCIAIS; antes, sair às ruas e protestar era algo feito por guerrilheiros, agora é algo feito por cidadãos... A paz liberta a cidadania.
FATO 3: Há novos atores sociais na mobilização: não é de esquerda, nem sindical, é composta por jovens, mulheres, novas sexualidades, povos indígenas, afrodescendentes…
FATO 4: Tudo começou com a greve agrícola (2013, Santos) e se consolidou em 2019, quando se tornou um fenômeno político diverso e multicausal. Marchar e protestar é um processo de aprendizado. O Chile despertou em 2010 e consolidou seu movimento em 2019.
FATO 5: A repressão e a violência policial aumentaram e (ironicamente) se tornaram o SÍMBOLO das marchas. E estas estão se tornando cada vez mais violentas, cada vez mais repressivas e cada vez mais unificadoras, já que são o principal símbolo contra o qual as pessoas marcham (além da Semana e da RCN).
FATO 6: El status quo (Mídia, empresários, políticos, governo, academia…) não cedem:
- O governo Duque não faz nada, diz que vai fazer alguma coisa e não faz nada: está sempre aberto ao diálogo como estratégia para não fazer nada.
- Os legisladores (políticos) não fazem nada além de explorar causas para obter ganhos políticos; eles não fazem nada. Os políticos não estão interessados no bem comum ou no bem coletivo porque isso contrariaria seus interesses de clientelismo.
- Os empresários e os ricos não querem assumir a responsabilidade; por exemplo, bancos, empresas de mineração e fabricantes de refrigerantes. Eles não querem eliminar as taxas interbancárias (que são as mais altas do mundo) nem pagar mais impostos; abandonam o meio ambiente com retórica vazia.Acordo de Escazú não aprovado); impostos sobre refrigerantes.
- A solução é a) militarização, b) mais impostos para trabalhadores formais, c) mais isenções fiscais para os ricos.
FATO 7: A narrativa oficial é que a Colômbia está muito feliz: o governo Duque, o establishment e a mídia se uniram na luta contra o vírus. Nós, os cidadãos, obedecemos. O autoritarismo governa (ou assim parece) por decreto, televisão e militarização. Esse autoritarismo cresceu de cima para baixo, a partir do presidente. É por isso que Duque governou por decreto e abraçou a Covid. (O que seria de mim sem você?) Um meme e um desenho animado de Duque abraçando... holograma da CovidMas a mídia, os líderes empresariais e o governo estão felizes, mesmo tendo lidado mal com a situação: 500 mortes diárias por COVID, nenhuma vacina, politização de todas as vacinas… 10.000 mortes a mais do que na Argentina, que tem a mesma população… E lá, isso é motivo de intenso debate… e aqui, felicidade… Enquanto isso, o governo ignora que há, em média, um massacre por dia, uma média de um líder social assassinado por dia, protestos sociais com mais de 20 mortes, o Vovô Uribe As notícias giram em torno de um tweet em que ele incitou os militares a usar armas contra os manifestantes. A mídia segue os elementos violentos (que não são a polícia) e chama os manifestantes de turba, usando retórica militarista… (e dizendo muito pouco sobre os diversos protestos). A narrativa oficial está repleta de racismo, classismo, sexismo e xenofobia… na mídia, nas redes sociais e no governo… mídia, líderes empresariais e políticos CONFINADOS em sua quarentena…
FATO 8: A reforma tributária foi o ponto que uniu todo o descontentamento, pois era contrária à classe média, favorecendo os empresários e excluindo o povo, e ainda foi chamada, de forma insultuosa, de "solidariedade".
EL FATO 9: O protesto: se as pessoas foram às ruas em massa com o vírus no auge, significa que a raiva é insuportável. E, mais uma vez, a reação do governo é a militarização; mais uma vez, a mídia os retrata como OS VIOLENTOS e A MULTIDÃO. Há protestos sociais porque há muita raiva… porque tudo está errado: especialmente o governo e a elite do país… mas os protestos foram tão numerosos que o governo foi forçado a revogar a reforma. Uma vitória para os cidadãos, para os jovens, para as mulheres, para os povos indígenas, para os afrodescendentes, para os indignados… para as marchas, mas ao custo de 20 mortos e milhares de feridos. Tanta dor, destruição e derramamento de sangue por tão pouco: que o governo ouviu o povo, mas nada foi conquistado.
EL FATO 10: Infelizmente, ou talvez paradoxalmente, esta é a mesma velha Colômbia. O status quo permanece inalterado, um casamento feliz entre mídia e política. Tudo é difícil aqui: a classe política e midiática se recusa a mudar qualquer coisa, e o povo está revoltado. E qualquer um que proteste é tachado de esquerdista tentando desestabilizar o belo sistema da feliz Colômbia. 47% de pobreza, e dizem que é por causa da pandemia (o que não é verdade; já éramos o país mais desigual da América Latina, depois do Haiti). E aguardamos a próxima reforma financeira: nada muda, tudo permanece igual, exceto pela agitação social e mobilização cidadã.
AINDA PRECISAMOS RESOLVER:
Prezados meios de comunicação, jornalistas, governo, polícia, acadêmicos e líderes:
- Quem são os violentos?
- Quem é a máfia?
- Qual é o(s) símbolo(s) do protesto social? (O ESMAD? A polícia e sua violência?)
- Quem são os principais intervenientes? (mulheres, jovens, novas sexualidades… povos indígenas, afrodescendentes)
- Quais são as causas que mobilizam as pessoas? (Feminismo… meio ambiente… paz…)
- O que há de novo?
- Como conciliar a urgência das reivindicações das ruas e das redes sociais com a lentidão e a inércia do governo e dos legisladores? (Queremos gestos e ações agora!)
- Será que a mídia e o jornalismo podem mudar a narrativa dos protestos, deixando de focar nos militares, na violência e nos governos, e passando a dar voz aos cidadãos e às causas sociais?
- E Cali? Cali é o epítome de todos os males (negligência e cinismo): um lugar de negros e indígenas… Cauca, Nariño, a costa do Pacífico… em outras palavras, o país que não importa, que foi esquecido e está nas mãos de latifundiários e criminosos.
* Membro do Grupo de Trabalho da CLACSO sobre Comunicação, Política e Cidadania. Publicado em Revista Anfíbia
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