Socializando os Custos: Pensões, Dívida Pública e Captura do Estado em El Salvador

 Socializando os Custos: Pensões, Dívida Pública e Captura do Estado em El Salvador

San Salvador, 03 de abril de 2017. Escritórios de processamento de pensões da Confia (AFP). Fotos: Marlon Hernandez (EDH)

Saira Barrera e Armando Álvarez

Como parte da série de pesquisas “Elites, Desigualdade e Captura do Estado”, promovida pela Oxfam e pela CLACSO, estudamos a captura do Estado na política de dívida pública em El Salvador. Nosso foco foi a dívida pública gerada pelos custos de transição da reforma da previdência de 1996, que transformou o sistema de um modelo público de repartição para um sistema privado de capitalização individual.

Para compreender as principais conclusões, é necessário contextualizar: em 2017, El Salvador enfrentou graves problemas com a dívida pública, o que levou o Estado a declarar moratória em abril daquele ano. Tal como em muitos outros países, a principal explicação dada pelos meios de comunicação social foi o excesso de gastos públicos, o que resultou em cortes generalizados nas despesas, conforme recomendado pelas políticas económicas.

A pesquisa possibilitou identificar os problemas da dívida pública relacionados aos custos de transição da reforma da previdência de 1996 e às reformas posteriores que visavam aumentar as baixas taxas de reposição proporcionadas pelo sistema de capitalização individual privada.

Os principais beneficiários desse processo de endividamento foram as Administradoras de Fundos de Pensão (AFPs), que têm ligações com grandes conglomerados financeiros. Enquanto isso, a população em geral foi a mais afetada, já que, na ausência de uma reforma tributária que proporcionasse ao Estado maior arrecadação, os ajustes fiscais foram feitos principalmente por meio do congelamento de gastos públicos em áreas sensíveis como educação, saúde e investimentos. A austeridade foi (e continua sendo) um subterfúgio para manter os privilégios das AFPs e evitar a progressividade do sistema tributário. Em suma, as reformas da previdência têm sido um mecanismo regressivo de redistribuição em El Salvador.

Quais mecanismos de captura do Estado foram identificados?

  • Mecanismo político: a porta giratória. A investigação revelou que funcionários públicos dos governos do partido Aliança Republicana Nacionalista (ARENA), direta e indiretamente envolvidos no processo de reforma da previdência, passaram a integrar os conselhos de administração das administradoras de fundos de pensão (AFPs) que eles próprios haviam promovido. Em outras palavras, alguns dos funcionários que defenderam a privatização do sistema previdenciário se beneficiaram desse processo. Além disso, alguns desses funcionários também eram membros da Fundação Salvadorenha para o Desenvolvimento Econômico e Social (Fusades), um dos principais centros de estudos de El Salvador, que, ideologicamente, contribuiu para associar o problema da dívida ao desperdício de gastos públicos.
  • Mecanismo midiático: o apoio dos principais geradores de opinião pública. Os dois jornais de maior circulação em El Salvador foram monitorados: El Diário de Hoy y A Imprensa Gráfica. Os editoriais publicados durante as semanas que antecederam e sucederam a reforma da previdência foram revisitados e confirmaram o apoio ao sistema de previdência privada, aos cortes nos gastos públicos e assim por diante.
  • Mecanismo acadêmico:o caso de Fusades. O posicionamento da Fusades durante as diferentes reformas da previdência foi estudado, o que permitiu verificar como o think tank passou de apontar a necessidade de uma reforma fiscal para solucionar os custos da transição para o sistema previdenciário, a participar, em 2017, de uma iniciativa que promovia a ideia de que a dívida pública era gerada pelo desperdício do governo e, além disso, defendia a reforma da previdência realizada naquele mesmo ano, que deixou intactos os interesses das AFPs (Agências de Previdência para Pessoas com Deficiência) e comprometeu ainda mais as já baixas taxas de reposição.

Desafios no combate à captura do Estado no sistema de pensões

Um dos enormes desafios que as sociedades devem enfrentar no combate à captura por sistemas previdenciários é a educação previdenciária. Nas diversas reformas previdenciárias estudadas, a classe trabalhadora demonstrou pouco conhecimento sobre o funcionamento do sistema e sobre as reformas propostas. Isso dificulta a expressão da posição da classe trabalhadora sobre reformas que a beneficiem ou prejudiquem e, além disso, permite que subterfúgios, como a necessidade de políticas de austeridade, ganhem força no pensamento popular.

Um segundo desafio no combate a esse tipo de captura é que, pelo menos no caso de El Salvador, as administradoras de fundos de pensão (AFPs) fazem parte de grandes conglomerados financeiros que mantêm uma relação muito próxima com o Estado (por meio da dívida pública, por exemplo). Isso lhes confere enorme poder de negociação. Para contrabalançar esse poder, a classe trabalhadora precisa estar organizada.

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