Serviços públicos na América Latina e no Caribe: Estado, mercado e direitos contestados

 Serviços públicos na América Latina e no Caribe: Estado, mercado e direitos contestados


Seminário 2608

Coordenação: Débora Eliana Ascencio (CITRA / EIDAES – UNSAM, Argentina) y Veronica Perez (EIDAES – UNSAM/FSOC – UBA, Argentina)

Início: 17/09/2026 | Inscrição: 5/06/2026 a 16/09/2026

Carga horária: 10 semanas – 90 horas.


Na América Latina, os serviços de infraestrutura pública têm sido historicamente palco de profundas desigualdades, conflitos distributivos e disputas políticas. Longe de se conformarem a um modelo homogêneo, sua organização reflete diversas trajetórias nacionais, moldadas por reformas estruturais, crises econômicas recorrentes e diferentes equilíbrios entre Estado, mercado e sociedade civil. Este seminário propõe analisar os serviços públicos como um campo estratégico onde os direitos sociais, as capacidades do Estado e as formas de intervenção pública são redefinidos, levando em consideração a heterogeneidade dos países da região. A partir de uma perspectiva crítica situada no contexto latino-americano, abordaremos questões relacionadas à regulação, modelos de negócios, políticas tarifárias e de subsídios, bem como o papel dos usuários, os direitos sociais e as capacidades do Estado. O programa combina uma sólida base teórica com ferramentas de pesquisa, direcionado àqueles que buscam compreender e transformar a organização dos serviços públicos na América Latina com uma visão de democratização e justiça social.

Os serviços públicos na América Latina têm sido alvo de intensos debates políticos e sociais.

Desde a década de 1980, os serviços públicos na América Latina passaram por profundas transformações, intimamente ligadas às mudanças tecnológicas, às reconfigurações do capitalismo global e à hegemonia neoliberal. Nesse período, ocorreu uma mudança conceitual da noção clássica de serviço público — característica do direito francês e associada à gestão estatal direta, ao monopólio e ao interesse público — para uma concepção de utilidade pública mais próxima da legislação estadunidense, que possibilitou maior participação privada. Essa mudança erodiu a identificação histórica entre serviço público, empresa pública e propriedade estatal, inaugurando um período de questionamento do papel produtivo do Estado.

Durante a década de 1990, sob a influência de instituições financeiras internacionais e reformas estruturais pró-mercado, uma onda de privatizações em larga escala se desenrolou. A América Latina tornou-se a região que transferiu o maior número de empresas estatais para o setor privado em todo o mundo, embora com diferenças nacionais significativas. A Argentina destacou-se pela rapidez e abrangência do processo, que englobou praticamente todas as suas empresas públicas. Contudo, longe de uma retirada do Estado, essa etapa envolveu uma redefinição de funções: o Estado manteve papéis centrais no planejamento setorial, na regulação de preços, na definição de padrões de qualidade e cobertura, no controle antitruste e no financiamento, tanto por meio de investimentos quanto de subsídios. Assim, consolidaram-se modelos híbridos de prestação de serviços, com infraestrutura predominantemente pública e operação privada sob concessão.

No início do século XXI, em meio a crises econômicas, sociais e políticas em diversos países da região, os modelos de privatização de serviços públicos enfrentaram forte escrutínio social e político, frequentemente associado a problemas de acesso, qualidade do serviço e sustentabilidade social das estruturas tarifárias. Nesse contexto, vários países latino-americanos passaram por processos de reconfiguração do papel do Estado em setores estratégicos, incluindo o fortalecimento da regulação, a expansão da intervenção pública e, em alguns casos, a reversão parcial das privatizações. Contudo, na maioria dos casos, persistiram modelos híbridos de prestação de serviços, evidenciando a complexidade das relações entre Estado, prestadores de serviços, órgãos reguladores, agentes financeiros e usuários.

Na fase mais recente, empresas públicas em setores estratégicos coexistem na região com uma forte presença de empresas privadas herdadas de reformas estruturais. Esse cenário reacende debates sobre os riscos e o potencial de cada forma de propriedade: por um lado, as tensões associadas à gestão pública em contextos de restrições fiscais e capacidades estatais heterogêneas; por outro, as limitações da gestão privada quando a lógica da lucratividade se choca com os objetivos de acesso universal e equidade social. Além disso, a democratização dos serviços públicos por meio da participação cidadã permanece um desafio importante.

Nesse sentido, definir o papel das empresas de serviços públicos surge menos como uma decisão técnica do que como uma escolha política vinculada ao modelo de desenvolvimento e à ordem social almejada. Compreender essas dinâmicas é fundamental para analisar os processos de democratização, desenvolvimento e justiça social na América Latina. Dentro dessa perspectiva, o seminário oferece uma visão crítica e comparativa dos serviços públicos na região, fornecendo ferramentas analíticas e metodológicas para pesquisadores, estudantes e atores envolvidos na formulação e implementação de políticas públicas.

OBJETIVO GERAL:

 

Analisar os serviços de infraestrutura pública na América Latina como um campo estratégico de disputa entre o Estado, o mercado e os cidadãos, a partir de uma perspectiva crítica situada na região.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS:

 
  • Analise as transformações históricas na prestação e regulação dos serviços públicos na América Latina, com ênfase nas reformas estruturais e seus impactos.
  • Analise as relações entre o Estado, os prestadores de serviços e os usuários, considerando aspectos como regulamentação, tarifas, subsídios e capacidades estatais.
  • Explorar o papel dos cidadãos e dos movimentos sociais na defesa e transformação dos serviços públicos.
  • Fornecer ferramentas teóricas e metodológicas para a pesquisa sobre serviços públicos em contextos latino-americanos.

  • Serviços de infraestrutura pública: características econômicas e transformações recentes
  • Regulamentação, subsídios e tarifas
  • Mercado, empresas e empreendedores
  • Capacidades estatais e a relação Estado-empresa
  • Usuários, cidadania e direitos sociais
  • Origens e expansão das empresas públicas no século XX
  • Privatizações e reformas estruturais do final do século XX
  • Renacionalizações e novos formatos de intervenção estatal no século XXI
  • Balanços patrimoniais, disputas contemporâneas e cenários futuros

 
  • González Moras, JM (2004) O conceito de serviço público. Revista Argentina de Administração Pública. Ano 26, nº 309, edições RAP.
  • Rozas Balbontín, P. e Hantke-Domas, M. (2014) “Gestão pública e serviços públicos. Notas sobre o conceito tradicional de serviço público”. Série Recursos Naturais e Infraestruturas nº 162, CEPAL.
  •  Solanes, M. (1999) Serviços públicos e regulação. Consequências jurídicas das falhas de mercado. Série Recursos naturais e infraestruturas, n.º 2, CEPAL.
  • Rivera Urrutia (2003). Teorias da regulação na perspectiva das políticas públicas. Gestão e política pública XIII(2), 309-372
  • Ferro, G. e Lentini, E. (2013). Políticas tarifárias para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs): situação atual e tendências regionais recentes. Documento do projeto, CEPAL, pp. 1-47.
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  • Após a globalização neoliberal. Que tipo de Estado existe na América Latina? Buenos Aires: CLACSO.
  •  Kaplan, M. (1994). Crise e futuro da empresa pública, UNAM: Cidade do México.
  •  Thwaiytes Rey, M. (2016). Estado e empresas públicas na América Latina: história e desafios atuais, em Cotés Ramos, A.; Alpízar, F. Cascante, MJ Estado, empresas públicas e desenvolvimento, Universidade da Costa Rica: San José.
  • Castañeda, F. et al. (2020), Empresas estatais e desenvolvimento industrial na América Latina, em Bernier, L. et al. The Routledge Handbook of State Owned Enterprises, Routledge: Londres e Nova Iorque.
  •  Cortés Ramos, A. (2013). A reinvenção do Estado. Empresas públicas e desenvolvimento no Uruguai, América Latina e no mundo. Transnacional: Montevidéu.
  • Fairfield, T. (2015). Riqueza privada e receita pública na América Latina. Cambridge University Press.
  • Bernier, L. (2020) Manual Routledge de empresas estatais, Routledge: Londres e Nova Iorque
  • Guajardo, G. (2013). Empresas públicas na América Latina: o passado de um Leviatã que não morre, em Chávez e Torres, (2013). A reinvenção do Estado. Empresas públicas e desenvolvimento no Uruguai, na América Latina e no mundo. Transnacional: Montevidéu.
  • Chavez, D. (2016). A empresa pública em debate e a nova agenda de pesquisa, em Cortés, Alpízar e Cascante, (2016): Estado, empresas públicas e desenvolvimento. UNC: San José.
Inscrições antecipadas (até 10/08) Inscrição geral (11)/08 a 10/09) Inscrição sem desconto (11/09 a 16/09)
Centro de Membros Plenos ou Associados  100 USD   USD 150 200 USD
Sem link 150 USD USD 225 300 USD
Em todos os casos, o pagamento pode ser feito por cartão de crédito ou transferência bancária.
*Os residentes da Argentina pagarão o equivalente em pesos argentinos de acordo com a taxa de câmbio oficial do Banco de la Nación Argentina (BNA) no dia do pagamento.
*Ao se inscrever nesta atividade de treinamento, você receberá 3 meses de acesso com desconto, sem custo algum. Sala de aula CLACSOAcesso ilimitado a todo o conteúdo.

Perguntas frequentes

Os requisitos básicos para participar de um seminário são:

  • Disponibilidade de pelo menos 4 horas por semana para se dedicar ao curso do seminário.
  • Acesso à Internet.
  • Domínio adequado das ferramentas de comunicação e informática.
  • Proficiência no idioma em que o curso será ministrado. Os idiomas oficiais são o espanhol e o português.

Os seminários têm duração de 10 semanas, além da conclusão de um projeto final. Um total de 90 horas de dedicação será creditado.

O curso é composto por dez aulas, cada uma acompanhada de bibliografia obrigatória, bibliografia complementar, fóruns de discussão e atividades de formação propostas pela equipe docente, trabalhos parciais e um projeto final.
O curso é online e assíncrono. Alguns instrutores podem propor atividades síncronas. Nesses casos, a data e o horário serão combinados previamente entre os instrutores e os alunos para garantir a participação de todos. A presença nas sessões síncronas não é obrigatória.
Para ser aprovado no seminário, você deve participar de pelo menos 80% dos fóruns de discussão e atividades propostas pelos professores, ter concluído as entregas parciais programadas e ser aprovado no trabalho final.

Inscrições antecipadas (até 10/08) Inscrição geral (11)/08 a 10/09) Inscrição sem desconto (11/09 a 16/09)
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