“Trata-se de revisitar este projeto da América Latina como região, como continente.”
(Transcrição da Coluna de Karina Batthyány)
(Em InfoCLACSO – 2 de junho de 2021)
NEM UM A MENOS
Comecemos pela edição Ni Una Menos, um movimento que surgiu na Argentina em 2015 e nos lembra, mais uma vez, da questão da violência contra a mulher, que já abordamos em diversas ocasiões e que continua sendo um dos problemas mais graves e dramáticos em termos de desigualdade de gênero na região da América Latina e do Caribe.
Assim, esta quarta-feira marca mais uma celebração, mais um protesto Ni Una Menos, que certamente assumirá formas diferentes em cada país devido à pandemia. Mas, mais uma vez, a CLACSO apoia veementemente este lema: Ni Una Menos, basta de violência contra as mulheres, basta de qualquer tipo de violência física, simbólica e sexual contra nós, mulheres. Lembremos, como um fato, que em nossa região, uma em cada três mulheres é vítima dessa forma de violência.
-Gostaria de salientar se é possível fazer uma pequena avaliação do movimento Ni Una Menos, levando em consideração a Lei de Interrupção Voluntária da Gravidez na República Argentina, as lutas na República Dominicana, um continente muito mobilizado com algumas lutas triunfantes neste último ano.
— Absolutamente. É um continente onde observamos duas tendências: por um lado, progressos na agenda feminista, na agenda do Movimento de Mulheres — claramente os acontecimentos na Argentina, a situação atual na República Dominicana — mas não podemos esquecer que também é um continente onde há uma forte reação contrária por parte de setores conservadores, precisamente contra essa agenda. Ou seja, contra a agenda do reconhecimento dos direitos das mulheres. Essa reação é, por vezes, surpreendente pela sua violência, pela sua virulência, e é por isso que temos de usar cada uma destas datas, neste caso Ni Una Menos (Nem Uma a Menos), que se refere à violência contra as mulheres, para recordar os progressos alcançados, mas também as questões pendentes ou não resolvidas em termos de igualdade entre homens e mulheres. E se há uma questão não resolvida, é sem dúvida a violência de género. Claro que há outras também, como tudo o que se relaciona com os direitos sexuais e reprodutivos, a questão do trabalho de cuidado e outros temas que abordámos em várias colunas.
30 ANOS DE MERCOSUL
Considerando que também estamos no 30º aniversário do MERCOSUL, proponho que abordemos a questão da integração regional com base em um evento do qual a CLACSO participou na última sexta-feira, organizado pelo FOMERCO (Fórum Universitário do Mercosul) sobre os desafios da integração regional na América Latina.
O primeiro ponto que quero abordar aqui é a questão da integração, com base em um conceito-chave que já discutimos. Isso ficou abundantemente claro durante a pandemia, e mesmo antes, que a busca por soluções, a busca por alternativas para os diversos problemas que enfrentamos, jamais será feita isoladamente: ninguém consegue ter sucesso sozinho, nem individualmente, nem coletivamente, como Estado ou como países. Portanto, a questão da integração regional retorna urgentemente à agenda latino-americana. Além disso, acreditamos que a América Latina possui uma riqueza de capacidades humanas, culturais, sociais e científicas para abordar essa questão e buscar coletivamente alternativas como região, como continente.
É claro que, quando falamos de América Latina, sabemos que estamos falando dela como uma só e como várias ao mesmo tempo. É uma só porque compartilhamos interesses, cultura, projetos e aspirações comuns, mas também devemos considerar a diversidade existente na América Latina em termos de línguas e culturas, e acreditamos que a melhor versão da América Latina é justamente essa mistura de diversidade. Ou seja, reconhecer essa diversidade e, a partir daí, abordar os desafios da integração regional. Desafios da integração regional que, obviamente, devem ser analisados em termos geopolíticos, e não podemos esquecer o componente histórico na evolução da inserção geopolítica da América Latina. Lembremos: tivemos períodos de grande dependência da Europa, depois do Império Britânico e, em seguida, dos Estados Unidos. E hoje, um novo ator surgiu em cena com grande relevância econômica e geopolítica: a China (o primeiro ou segundo maior parceiro comercial da maioria dos nossos países).
Portanto, precisamos pensar na integração regional a partir de uma perspectiva geopolítica. Porque falar em integração regional não significa escapar da globalização, mas sim enfrentar os desafios que ela impõe a partir de uma perspectiva latino-americana. Também precisamos considerar como podemos compreender essas questões que desafiam cada um de nossos países se não as analisarmos sob uma ótica regional. Acredito que isso seja realmente difícil, senão impossível, porque a lógica frequentemente restrita de nossos Estados-nação é insuficiente em um contexto tão fortemente influenciado pela globalização.
E se não considerarmos outra questão que abordamos aqui no InfoCLACSO, o que aconteceu com as vacinas e, de forma mais geral, com a indústria farmacêutica ou as corporações multinacionais, vemos exemplos diários do que essa dificuldade de acesso às vacinas significa para o continente latino-americano.
Agora, da nossa perspectiva dentro das Ciências Sociais e Humanas, quais são as principais questões nas ciências sociais latino-americanas, especificamente dentro deste contexto regional? Em primeiro lugar, somos o continente mais desigual do mundo, portanto, a desigualdade é, sem dúvida, uma dessas questões. Essa desigualdade é permeada por múltiplas dimensões: gênero, etnia, localização urbana e rural, educação, idade, e assim por diante, todas as quais contribuem para as clivagens da desigualdade. Devemos abordar essa questão da desigualdade a partir de uma perspectiva regional. Porque se nos concentrarmos apenas em estatísticas nacionais, certamente deixaremos de considerar algumas dimensões e, sobretudo, algumas alternativas cruciais para avançarmos nessa questão.
Dentro do contexto mais amplo da desigualdade — mas quero destacar isso como uma questão específica — as desigualdades de gênero no contexto da violência se sobressaem. Há algumas questões absolutamente cruciais para a região: violência de gênero, a questão do trabalho de cuidado, a agenda relativa aos direitos sexuais e reprodutivos, participação social e política, e muito mais.
Em terceiro lugar, a questão da democracia e da instabilidade política. Discutimos esse tema, expressando nossa profunda preocupação com esses processos de instabilidade política e como eles desafiam a própria democracia. Alguns indicadores mostram níveis que, no mínimo, colocam em xeque o compromisso da população latino-americana com os sistemas democráticos, e algumas questões que pensávamos ter sido superadas na região estão ressurgindo. Isso é particularmente importante para as ciências sociais, pois sabemos muito bem que esses processos de instabilidade política ameaçam o desenvolvimento do conhecimento, especialmente em universidades e instituições de pesquisa, e são especialmente ameaçadores para as ciências sociais e humanas.
Há também a questão do meio ambiente e das mudanças climáticas: como proteger o meio ambiente em nosso continente, que possui a maior biodiversidade, mas também é um continente que sofre diretamente as consequências ambientais e sociais das mudanças climáticas globais. Precisamos aprofundar nossa compreensão e discussão sobre essa questão em nível regional.
E há também as questões relacionadas à migração e à mobilidade humana. Já mencionamos isso em outras colunas: a mobilidade humana e a migração entendidas como um direito humano. Essa mobilidade humana, que ocorre por meio de processos migratórios, é um fenômeno social com enorme impacto na realidade atual da América Latina, onde também convergem dimensões de desigualdade e violência.
Por fim, devemos também destacar a necessidade de discutir os processos de geração de conhecimento e desenvolvimento científico e tecnológico que foram tão claramente evidenciados durante esta pandemia: como associar e fortalecer os sistemas científicos na América Latina para evitar esses níveis de dependência, por exemplo, da vacina.
Em última análise, trata-se de revisitar este projeto da América Latina como região, como continente, construindo interesses comuns e aprendendo com as experiências passadas que nos permitirão resolver os conflitos que surgem em todas as regiões com uma visão estratégica para o futuro. Isso nos permitirá compreender o que aconteceu na América Latina, para onde estamos caminhando e o que podemos fazer para fortalecer a construção de alternativas democráticas que superem os modelos excludentes que perpetuam essas desigualdades.
Karina, enquanto eu te ouvia, fiquei pensando em como o movimento geopolítico é interessante, porque nesses processos contínuos e importantíssimos de interação regional, temos visto setores da direita, ou os setores mais conservadores, pressionando contra a integração regional, especificamente dentro do MERCOSUL. Declarações do Brasil e do Uruguai, opondo-se à integração regional, visam se distanciar dos blocos em um momento em que o individualismo nas negociações globais e o mapa geopolítico estão mais complexos do que nunca, como você acabou de mencionar com a questão das vacinas. Então, a questão da integração regional se tornou muito mais importante e muito mais proeminente na agenda dos setores progressistas da região. É isso mesmo?
Exatamente. Quando analisamos essas perspectivas nacionalistas, elas sugerem a busca de soluções em nível nacional, e não por meio de processos de integração. Esses processos geralmente estão associados a discursos mais conservadores e de direita. É por isso que digo que precisamos revitalizar esses processos de integração regional. O MERCOSUL é um exemplo, mas não o único, e enquadrar esses desafios como parte de uma agenda que nos permita compreender o que aconteceu na América Latina, mas, sobretudo, buscar alternativas para superar esse flagelo que assola a região: a desigualdade. E estamos convencidos de que isso não pode ser feito isoladamente. Em outras palavras, os países sozinhos não alcançarão esse objetivo; eles precisam se fortalecer mutuamente, integrar-se e reconhecer a diversidade, mas, a partir daí, construir alternativas coletivas. Acho que esse é o cerne da discussão, ou da agenda de discussão, sobre integração regional. Nesse caso, era isso que estávamos debatendo e discutindo naquela mesa do FOMERCO (Fórum Universitário do Mercosul), da qual participavam vários colegas das diferentes FLACSOs da América Latina, buscando também mecanismos de complementaridade entre a CLACSO (uma rede de pesquisa que atua nas ciências sociais) e a FLACSO (Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais), outra rede que também faz parte da CLACSO, sobre como nos fortalecer mutuamente e como nos articular para promover essas e outras discussões na região.
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