Em relação às teses de graduação "Pedófilos e crianças, dobras e redobramentos do desejo" e "O desejo oculto do pedagogo: ser pedófilo", da Universidade do Chile.

 Em relação às teses de graduação "Pedófilos e crianças, dobras e redobramentos do desejo" e "O desejo oculto do pedagogo: ser pedófilo", da Universidade do Chile.

Como Grupo de Trabalho da CLACSO sobre Estudos Críticos em DeficiênciaDesejamos expressar nossa rejeição à relativização da pedofilia nas duas publicações acadêmicas da Universidade do Chile mencionadas no título desta declaração. Como pesquisadores da América Latina, acreditamos que a universidade não pode ser concebida como um espaço de formação e aquisição de habilidades de pesquisa sem considerar os efeitos que esses estudos possam ter, sejam eles teóricos ou experimentais, e os marcos éticos dentro dos quais são desenvolvidos. Acreditamos que a universidade é uma instituição a serviço do país e de suas transformações sociais, e que o conhecimento gerado em seu interior não pode ultrapassar os limites que asseguram o respeito irrestrito aos direitos humanos e à dignidade de todas as pessoas.

Como pesquisadores de questões relacionadas à opressão de pessoas com deficiência, nos solidarizamos com crianças e adolescentes como um grupo também vulnerável. Além disso, temos consciência de que, globalmente, crianças e adolescentes com deficiência são particularmente vulneráveis ​​à violência sexual, incluindo a perpetrada por pedófilos. A geração de conhecimento, especialmente aquela proveniente de universidades públicas, deve ser especialmente sensível a essa complexa realidade, garantindo que a pesquisa não exponha essa população a mais violência, minimizando a pedofilia, e priorizando pesquisas voltadas à prevenção, ao acesso à justiça e à reparação para as vítimas.

Acreditamos que os processos sociais emancipatórios vivenciados pelo país nos tornaram mais conscientes e capazes de denunciar o avanço dessas práticas, que infelizmente permeiam a formação profissional e a ciência. Contudo, também observamos que indivíduos e organizações têm se aproveitado dessa situação para promover uma agenda de extrema-direita contra os estudos de gênero e a diversidade sexual. Consideramos essa exploração política e social vergonhosa. Além disso, instamos o público e a mídia a se absterem de usar termos como "louco", "doente" e expressões similares para descrever os autores dessas publicações, pois tais termos refletem preconceitos profundamente negativos em relação a condições médicas ou deficiências que são completamente alheias ao conteúdo dessas teses.

Por fim, apelamos às universidades, centros de pesquisa e acadêmicos para que reconheçam que pesquisas desse tipo colocam em risco todos os esforços realizados em nível latino-americano para se chegar a um consenso de que crianças e adolescentes são uma população prioritária na luta contra a violência.

9 de Janeiro de 2023
Grupo de Trabalho CLACSO
Estudos críticos em deficiência

Esta declaração expressa a posição de Grupo de Trabalho da CLACSO sobre Estudos Críticos em Deficiência e não necessariamente a do Centros e instituições que compõem a rede internacional CLACSO, seu Comitê Diretivo ou seu Secretariado Executivo.