Qual é o primeiro verso e o que ele expressa?
Para muitos dos participantes da Linha de Frente, este espaço tornou-se um local de reconhecimento e valorização social que nunca haviam experimentado antes, dando voz e visibilidade a pessoas que nunca tiveram espaço na mídia e na participação política.
Muito se tem falado sobre o espaço agora mítico conhecido como Primeira Linha, embora a maior parte das vezes partindo de um lugar de ignorância, caricatura ou do uso de categorias que não correspondem ao fenômeno em questão. Esse espaço de ação coletiva, focado principalmente no confronto com os Carabineros (polícia chilena), e suas características simbólicas, como o uso de capuzes ou lenços para cobrir o rosto, tem sido descrito pelo governo, partidos políticos e grande parte da mídia como um espaço onde operam criminosos, indistinguíveis daqueles que saqueiam e destroem supermercados, farmácias e outras lojas. No entanto, diferentemente dessas outras expressões de violência, as figuras encapuzadas da Primeira Linha não foram consideradas violentas ou criminosas por um setor significativo do movimento social, mas sim como indivíduos comprometidos e corajosos que arriscam sua segurança física para defender outros que se manifestam em espaços públicos da violência policial. Dessa forma, os participantes da linha de frente não são rejeitados, mas, ao contrário, aplaudidos e apoiados, gerando um reconhecimento que convida à reflexão sobre como uma forma tradicionalmente estigmatizada de ação política violenta alcançou essa aceitação social. Com base em observações in loco, conversas com participantes da linha de frente e material audiovisual disponível nas redes sociais, espero contribuir para uma compreensão mais complexa do fenômeno, que vá além de uma mera rejeição bem-intencionada da violência que ali ocorre, sem considerar o que essa violência expressa no contexto da atual onda de protestos sociais.
Um elemento fundamental para compreender essa expressão de violência política e sua legitimação social é que a linha de frente passou a ser vista como um espaço para os manifestantes se defenderem da violência policial. Graças a alguns meios de comunicação, às redes sociais, a relatos de violações de direitos humanos de organizações nacionais e internacionais e às próprias experiências dos manifestantes, a repressão policial tem sido frequentemente caracterizada como brutal, indiscriminada e injustificada. Isso gerou uma profunda rejeição aos Carabineros (polícia chilena), que deixaram de ser percebidos como mantenedores da ordem social e passaram a ser vistos como um perigo para as pessoas e um obstáculo ao legítimo direito de protestar. Nesse contexto, aqueles que confrontaram os Carabineros passaram a ser vistos como um escudo contra a violência e os abusos policiais, uma percepção que inclusive levou a demonstrações de apoio e colaboração, como o fornecimento de água, comida e diversas formas de gratidão.
Um segundo elemento a considerar é que a Primeira Linha também se tornou um espaço de participação para pessoas que, direta ou indiretamente, foram vítimas do modelo sociopolítico vigente. Assim, jovens desempregados e/ou com empregos precários, estudantes endividados, filhos de pais e avós com salários e pensões totalmente insuficientes para uma vida digna, jovens de comunidades marginalizadas e até mesmo jovens sob os cuidados do SENAME (Serviço Nacional para Menores), excluídos de qualquer mecanismo de integração social, membros de comunidades indígenas e grupos LGBTQ+, e, em geral, pessoas com a convicção de que o país precisa de mudanças radicais, todos se reúnem. Nesse sentido, os participantes não são externos ao movimento social, mas sim parte integrante dele.
Um terceiro elemento a considerar é que, para muitos dos participantes da Linha de Frente, este espaço tornou-se um local de reconhecimento e valorização social que nunca haviam experimentado antes, dando voz e visibilidade a pessoas que nunca tiveram espaço na mídia ou na participação política. Também tem sido um espaço para encontrar outras pessoas com histórias semelhantes ou equivalentes, um espaço onde prevalecem a solidariedade e o compromisso com o movimento, expressos na frase que muitos repetem: “estamos aqui para defender o povo para que ele possa se manifestar pacificamente”. Vale ressaltar que a Linha de Frente coexiste com outros atores sociais altamente relevantes para o movimento, como voluntários da área da saúde, repórteres de veículos de mídia alternativos e músicos e artistas de diversas disciplinas que estão presentes desde o início das manifestações, constituindo, assim, um espaço diverso, pluralista e massivo para o protesto social.
Muito se tem falado sobre violência, na maioria das vezes de forma imprecisa e indiscriminada, simplificando o problema e, assim, contribuindo para a criminalização do movimento social. No entanto, expressões como a Primeira Linha e o reconhecimento e a legitimidade social que ela conquistou para uma parte significativa do movimento social demonstram a complexidade do fenômeno. Em conclusão, podemos hipotetizar que a luta dos cidadãos por dignidade e contra os abusos também se expressa na rejeição da violência e dos abusos policiais. E na medida em que estes não foram punidos, foram minimizados ou negados pelas autoridades, os cidadãos passaram a reconhecer na Primeira Linha uma forma justa e legítima de se defenderem, tanto material quanto simbolicamente, contra a violência policial, elevando, ao mesmo tempo, seus participantes à condição de figuras valorizadas por sua coragem e compromisso com o movimento social.
Roberto Fernández Droguett
O Desconcertante – 20-12-2019
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