Declaração pelo fim da guerra em Chiapas! As sementes do Padre Marcelo florescerão!

 Declaração pelo fim da guerra em Chiapas! As sementes do Padre Marcelo florescerão!

Exigimos o fim da guerra em Chiapas.
As sementes do padre Marcelo vão florescer!

O ESTADO-NAÇÃO MEXICANO
AOS REPRESENTANTES DOS DIFERENTES NÍVEIS DE GOVERNO
ÀS EMBAIXADAS DO MÉXICO AO REDOR DO MUNDO
ÀS ORGANIZAÇÕES DE DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS
AO POVO CRENTE (DE CHIAPAS)
À DIOCESE DE SAN CRISTÓBAL DE LAS CASAS
À SOCIEDADE CIVIL INTERNACIONAL, NACIONAL E LOCAL
PARA A MÍDIA LOCAL, NACIONAL E INTERNACIONAL

O Grupo de Trabalho sobre Corpos, Territórios e Resistência (GT CUTER) da CLACSO, composto por estudantes universitários, professores, pesquisadores, ativistas e artivistas da América Latina e do Caribe, deseja expressar, por meio desta declaração, nossa profunda tristeza, condenação e indignação pelo assassinato do padre indígena Tsotsil, Marcelo Pérez, incansável defensor dos direitos humanos e dos direitos dos povos indígenas, bem como dos direitos da Mãe Terra e da própria vida. Até seu assassinato, o padre Marcelo era o pároco da Igreja de Nossa Senhora de Guadalupe em San Cristóbal de Las Casas (Chiapas, México).

No dia 20 de outubro, após celebrar a missa na igreja do bairro de Cuxtitali, o padre Marcelo foi baleado diversas vezes e assassinado. O padre Marcelo personificava a igreja libertadora promovida pelo bispo Tatik Samuel Ruiz na Diocese de San Cristóbal de Las Casas desde a década de 1960. Essa igreja tem sido fundamental para a compreensão de muitos movimentos de libertação indígena que ocorreram desde o primeiro Congresso Indígena, realizado em 1974. Esse Congresso foi promovido pelo bispo Ruiz e pela Diocese que ele então liderava. De fato, no início deste mês, a Diocese de San Cristóbal celebrou o 50º aniversário desse Congresso com comunidades indígenas e religiosas, um momento crucial na história da luta dos povos indígenas de Chiapas.

Originário do município de San Andrés Larráinzar, na região de Tsotsil, o Padre Marcelo tornou-se um incansável defensor da paz diante da crescente violência desencadeada pelo crime organizado em Chiapas. Como parte de sua diocese, participou de inúmeras peregrinações e recusou-se a permanecer em silêncio diante das injustiças que ele e seu povo sofriam, apesar das constantes ameaças que enfrentava. Desde 2015, enquanto atuava como pároco no município de Simojovel (na região montanhosa de Chiapas), o Padre Marcelo obteve medidas cautelares da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) devido a essas ameaças. No município vizinho de Pantelhó, a violência se intensificou devido à infiltração do crime organizado. Em resposta, o Padre Marcelo utilizou suas redes sociais para denunciar a presença de armas, o assédio e o deslocamento forçado, relatando consistentemente como essa situação afetava desproporcionalmente mulheres, crianças e idosos.

Em 2021, em resposta à violência do crime organizado, surgiu no município de Pantelhó o grupo de autodefesa conhecido como “El Machete”. Este grupo foi responsabilizado pelo desaparecimento de 21 pessoas em 26 de julho de 2021. Em 21 de junho de 2022, a Procuradoria-Geral da República de Chiapas (FGE) expediu um mandado de prisão contra o Padre Marcelo, ligando-o aos desaparecimentos, embora não houvesse provas de seu envolvimento nos crimes. A fabricação de crimes não é novidade em Chiapas, como documentado em diversos relatórios do Centro de Direitos Humanos Fray Bartolomé de Las Casas e de outras organizações e redes de paz. Apesar dos esforços de pessoas ligadas à Diocese e a organizações de direitos humanos para arquivar o caso contra ele, a FGE não executou o mandado de prisão nem arquivou o processo.

As ameaças contra o padre Marcelo não cessaram nos últimos anos, apesar dos repetidos alertas de organizações nacionais e internacionais de direitos humanos que destacam o perigo para sua vida, e apesar de receber apoio internacional do Movimento Sueco para a Reconciliação (SweFOR).

Acima de tudo, o padre Marcelo decidiu caminhar ao lado do povo, com a fé inabalável de que defender a paz era mais importante do que a sua própria vida.

Nossos corações estão cheios de dor e tristeza porque o assassinato do Padre Marcelo é a prova do que ele mesmo anunciou durante a peregrinação pela paz que liderou em 13 de setembro na capital de Chiapas, Tuxtla Gutiérrez, onde afirmou: “Chiapas é uma bomba-relógio, há muitos desaparecidos, muitos sequestrados, muitos assassinados pela presença do crime organizado”.

As autoridades locais, estaduais e federais não estão conseguindo garantir a segurança e a vida de sua população, incluindo o padre Marcelo, que infelizmente se tornou um símbolo da atual situação de guerra que assola a região de Chiapas, assim como tantos outros territórios no México.

Nos solidarizamos com o povo em geral, com os fiéis em particular, com os agentes pastorais, com a Diocese de San Cristóbal de Las Casas e com as comunidades e movimentos que ele acompanhou ao longo de sua vida; também nos solidarizamos com sua família. Com toda a força que a legitimidade social nos confere, exigimos que o Estado mexicano e todos os níveis de governo conduzam investigações rápidas, imparciais e eficazes que levem à verdade e à justiça que o Padre Marcelo defendeu com a própria vida.

Unimo-nos às reivindicações feitas por organizações indígenas e de direitos humanos.
Autoridades nacionais e internacionais de direitos humanos, que estão exigindo:
1) Parem a guerra em Chiapas.
2) Que tanto os autores quanto os mandantes do crime sejam investigados.
Padre Marcelo.
3) O desarmamento e o desmantelamento de grupos empresariais criminosos.
4) Que seja feita uma mudança radical na política de segurança nacional e estatal.
5) Acabar com a perseguição, criminalização e assassinato de defensores dos direitos humanos.
direitos humanos e mediadores de paz.

As sementes do padre Marcelo vão florescer!

Planeta Terra
21 outubro 2024
Grupo de Trabalho CLACSO
Corpos, territórios, resistências

Esta declaração expressa a posição do Grupo de Trabalho e não necessariamente a dos centros e instituições que compõem a rede internacional CLACSO, seu Comitê Diretivo ou seu Secretariado Executivo.