Declaração denunciando o golpe de Estado e manifestando apoio às vozes que clamam pela restauração da ordem constitucional e dos processos democráticos na Bolívia.
Tendo em vista os graves acontecimentos que ocorrem na república irmã da Bolívia, Grupo de Trabalho de Filosofia Política da CLACSO: Pensando sobre a América Latina, Reinventando a Utopia, indica o seguinte:
Durante várias décadas, mudanças substanciais têm sido evidentes na América Latina, demonstrando o fortalecimento da consciência política e social de seus povos. Nesse período, amplos setores da população se mobilizaram e conquistaram direitos para os mais vulneráveis e para os cidadãos em geral. Em quase todos os países latino-americanos, inclusive naqueles sem uma clara orientação progressista, direitos significativos e importantes foram alcançados; a Bolívia é um dos melhores exemplos disso. Mas hoje testemunhamos o desmantelamento de um regime que era considerado o que mais trouxe desenvolvimento e progresso para seu povo.
É evidente que a má gestão das recentes eleições gerais por parte do governo foi explorada por grupos de extrema-direita que, em conluio com a polícia e o exército, fragmentaram a ordem constitucional, configurando, na prática, um golpe de Estado que alguns se recusam a reconhecer. O que se seguiu foram episódios de brutal repressão, resultando na morte de dezenas de pessoas que protestavam contra o golpe nas cidades de El Alto e Cochabamba.
Estamos diante de um governo que, na verdade, não reconhece as normas constitucionais nem a existência de partidos políticos; prova disso é a repressão a milhares de opositores e ao partido MAS, que se recusa a reconhecer como partido governante constitucionalmente reconhecido. Mas não só isso, também tenta silenciar a mídia, incentiva o racismo mais virulento e a intolerância religiosa ao tentar impor a Bíblia em um Estado que tem constitucionalmente consagrado a independência religiosa e o respeito às diferentes práticas religiosas.
Como Grupo de Filosofia Política, denunciamos o golpe de Estado e nos unimos às vozes que clamam pela restauração da ordem constitucional e dos processos democráticos na Bolívia. Exigimos a defesa e a preservação da bandeira do Estado Plurinacional, talvez a conquista mais significativa dos diversos povos bolivianos, e o fim da violência, da tortura e dos assassinatos. Exigimos que organizações multilaterais monitorem esses crimes, investiguem e punam os envolvidos.
Conclamamos a comunidade filosófica internacional, bem como os intelectuais e acadêmicos em geral, a exercerem pressão com base nos direitos à livre investigação e à crítica, que possam contribuir para a restauração da ordem constitucional boliviana.