Declaração em apoio à declaração da Rede Boliviana de Economia Política.
Na Bolívia, está em curso um golpe de Estado que não só ameaça a democracia e as instituições do Estado, como também visa estabelecer um governo de facto com características claramente fascistas, racistas e neoliberais.
Após as eleições gerais para presidente, vice-presidente e representantes à Assembleia Legislativa, o candidato presidencial Carlos Mesa, representando o partido de oposição Comunidade Cidadã, anunciou apenas duas horas antes do fechamento das urnas, com base unicamente em dados de uma empresa contratada pela mídia ou em números preliminares, que o vencedor seria decidido em um segundo turno. Ele explicou que, com esses números, o partido MAS de Evo Morales havia ultrapassado os 40%, um dos requisitos para uma vitória direta, mas ainda não havia alcançado os 10% ou mais do segundo colocado para vencer no primeiro turno.
Este “anúncio” decretou, na prática, um segundo turno, ignorando o fato de que os resultados oficiais do Órgão Eleitoral ainda não haviam sido divulgados e desconsiderando a decisão do povo boliviano. Com a apuração concluída em 8 dos 9 departamentos e 99% das cédulas verificadas, fica evidente que Evo Morales, do partido MAS, é a principal força democrática do país, superando a margem de 10% exigida por lei quando um candidato não atinge 50% mais um. Ainda faltam apurar os votos de aproximadamente 350 das 34.555 seções eleitorais, principalmente em áreas rurais do departamento de Chuquisaca, que demonstram um claro bom desempenho do MAS.
Esta vitória do povo boliviano está sendo ameaçada e frustrada por meio de um esforço coordenado de partidos de oposição e comitês cívicos de direita, através de uma greve por tempo indeterminado, que gera violência e discriminação contra setores sociais e a classe trabalhadora. A posição da OEA é de que um segundo turno deve ser realizado caso Evo Morales vença com mais de 10% dos votos. O Estado Plurinacional da Bolívia solicitou uma auditoria externa da OEA para avaliar e validar o processo eleitoral. A OEA é liderada por indivíduos com clara inclinação à direita, apoiados por governos neoliberais e pelos países do Grupo de Lima.
O que está acontecendo na Argentina, no Brasil, no Equador e no Chile demonstra que os Estados Unidos não têm aliados, apenas governos subservientes e subservientes. O povo boliviano não está disposto a ser escravizado, nem a retornar ao neoliberalismo; portanto, defenderá sua soberania, dignidade e democracia contra a intervenção imperialista. A democracia e as eleições estão sendo usadas como pretexto para marginalizar os povos indígenas, os camponeses, os operários e os trabalhadores braçais do poder político e para puni-los apagando as conquistas que alcançaram por meio de sua governança, em contraste com uma história manchada de pobreza e pilhagem, escrita vergonhosamente por oligarquias aliadas ao imperialismo e aos interesses de alguns clãs familiares de mineração e agroexportação.
Por todas essas razões, apelamos aos povos do mundo e aos governos democráticos para que se manifestem contra este golpe de Estado em curso, apoiando o respeito pela decisão das maiorias que salvaguardam a autodeterminação, a soberania e a dignidade do povo boliviano.
Consuelo Silva, Gabriela Roffinelli, Josefina Morales, Rebeca Peralta e Mónica Bruckman
novembro 2019
Grupos de Trabalho da CLACSO
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Crise e economia global
Geopolítica, integração regional e o sistema mundial