O Peru está em chamas. Exigimos respeito pelo direito de protestar e pela vida daqueles que protestam.
A grave situação no Peru é agravada pelo silêncio ensurdecedor da chamada “comunidade internacional”. Quando crises eclodem no mundo e afetam os Estados Unidos e a Europa, eles, que se autoproclamam comunidade internacional, iniciam um amplo e contínuo processo no qual declarações grandiloquentes se sucedem, medidas políticas, econômicas e diplomáticas são tomadas, e a mídia tradicional e de massa nos bombardeia com informações sobre a crise.
No entanto, constatamos que, quando essas crises não interessam ao Ocidente, o silêncio torna-se ensurdecedor: o bloqueio midiático é ativado e o silêncio dos meios de comunicação dominantes e dos atores, cúmplices ou parte daqueles que provocam a crise, não dá cobertura às contínuas violações dos direitos humanos e à erosão da democracia que eles sempre afirmam defender.
Isso é o que temos testemunhado no Peru desde 7 de dezembro de 2022, quando o presidente constitucional, Pedro Castillo, foi destituído do cargo e preso. Durante 18 meses, as elites políticas e econômicas — as mesmas elites que sempre consideraram o país sua propriedade exclusiva — tentaram todos os meios possíveis para obstruir o governo de Castillo. Para elas, era um insulto que um professor do interior tivesse sido eleito pelo povo e estivesse propondo mudanças que o povo exigia após décadas de neoliberalismo, corrupção e empobrecimento da grande maioria.
As elites demonstraram, mais uma vez, que aquilo que elas mesmas proclamavam como o "sistema democrático", a base da convivência e do Estado de Direito que garantia as liberdades, só o era enquanto as mantivesse no poder.
Assim, após inúmeras medidas de todos os tipos para impedir o novo governo, decidiram dar o passo final e retomar, mais uma vez, as rédeas do poder político; jamais perderam o poder econômico.
Em 8 de dezembro de 2022, o presidente eleito foi preso e Dina Boluarte foi proclamada em seu lugar, ignorando a partir daquele momento as demandas sociais pela dissolução do Congresso instalado pelo golpe e pela realização de novas eleições. Uma terceira demanda já começava a surgir: a convocação de uma Assembleia Constituinte para refundar um novo Peru.
Desde então, a resposta do Estado e do governo peruanos tem sido a suspensão das garantias e liberdades constitucionais, bem como do direito que protege as pessoas ao protesto social contra um governo injusto que as ignora e marginaliza.
A violenta repressão resultou em aproximadamente sessenta mortos e um número desconhecido de homens e mulheres feridos e detidos. Relatórios recentes indicam que os protestos se espalharam dos departamentos do sul, que estiveram na vanguarda do movimento nas últimas semanas, para as regiões central e do norte.
Quase todo o país participa de bloqueios de estradas e manifestações sociais em cidades grandes e pequenas. Nesta última semana, os protestos se concentraram em Lima, onde as manifestações continuam e a polícia, por exemplo, ocupou as instalações da universidade em 21 de janeiro de 2023, marcando mais um passo na crescente repressão do governo e na violação da autonomia universitária.
Por todas essas razões, nos unimos aos milhares de mulheres, outras pessoas e homens que exigem o fim de um governo, o de Dina Boluarte, que não trouxe nada além de morte, repressão e violência ao país.
Gostaríamos de acrescentar a esta declaração mais uma denúncia e mais um apelo. Esta denúncia dirige-se à chamada “comunidade internacional” que permanece inerte enquanto o povo peruano sofre, desviando o olhar e, assim, dando cobertura aos planos do governo peruano de manter o poder e intensificar a repressão.
Os governos, principalmente o americano e o europeu, não podem falar de democracia, liberdades e direitos humanos enquanto permanecem em silêncio sobre a violação sistemática de todos esses princípios pelo governo de Dina Boluarte.
O apelo dirige-se a esses mesmos governos para que exerçam pressão (eles sabem muito bem como fazê-lo) para pôr fim a este derramamento de sangue, morte e sofrimento. Da mesma forma, apelamos aos nossos governos irmãos na América Latina para que ajam no sentido de isolar o atual governo peruano. Não podemos dar cobertura, dentro das diversas estruturas continentais, a um governo que já pode ser abertamente descrito como assassino. Se, há apenas duas semanas, os governos e os povos da América Latina uniram as suas palavras e ações contra a tentativa de golpe no Brasil, esse deve ser o caminho a seguir para o Peru.
Em nome de todos os indivíduos, coletivos, organizações, movimentos e redes abaixo assinados, unimos nossa voz, nossa solidariedade e nossa justa indignação à dor sentida hoje pelo povo, mulheres, pessoas de outras etnias e homens do Peru que estão em luta, seja no litoral, nas montanhas ou na selva, nas grandes cidades ou nas menores comunidades.
Exigimos que o Estado peruano e as organizações civis nacionais e internacionais garantam o respeito aos direitos humanos e à vida dos mobilizados. Queremos que voem livres como o condor nos Andes, que possam decidir por si mesmos o caminho a seguir, que sejam verdadeiros protagonistas na construção de suas vidas com dignidade, liberdade e verdadeira democracia.
Somos milhares que apoiamos e estamos em sintonia com essa luta em diferentes pontos do planeta Terra.
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1 de fevereiro de 2023
Grupo de Trabalho CLACSO
Corpos, territórios, resistências
Este texto expressa a posição dos Grupos de Trabalho da CLACSO. Corpos, territórios, resistências e não necessariamente a do Centros e instituições que compõem a rede internacional CLACSO, seu Comitê Diretivo ou seu Secretariado Executivo.
