Outra ciência é possível (e necessária).

 Outra ciência é possível (e necessária).

Argentina: Festival em apoio ao bloqueio da construção da fábrica da Monsanto na cidade de Malvinas Argentinas, na província de Córdoba.

Andrés Carrasco no festival Primavera Sin Monsanto-2013. Foto: Sub Coop


Grupo de Filosofia da Biologia (UBA-Conicet)1

O modelo científico da Argentina está intrinsecamente ligado ao extrativismo e persiste em diferentes administrações. Que tipo de ciência temos? Que tipo de ciência seria desejável? Esta é uma discussão que vai muito além do financiamento e da pandemia.

1. O problema ambiental global e o papel da ciência

Os diversos incêndios florestais na Argentina têm sido notícia há semanas, assim como os protestos globais contra as mudanças climáticas dominaram a agenda nacional alguns meses atrás. Pouco antes disso, os incêndios brutais iniciados por latifundiários no Brasil no "Dia do Fogo" também atraíram bastante atenção. Greta Thunberg, a ativista sueca de 16 anos, tornou-se uma sensação nas redes sociais. Bruno Rodríguez, um argentino de 19 anos, foi um dos 500 jovens que viajaram aos Estados Unidos para participar da cúpula sobre a atual crise ambiental. Em seu discurso na ONU, Bruno enfatizou a necessidade de compreender os conflitos ambientais locais dentro do contexto de uma longa história de dominação e abordou o papel da ciência nesses conflitos. Ele mencionou especificamente "a clareza da comunidade científica" ao alertar sobre a gravidade da crise atual e a necessidade de os líderes políticos agirem de acordo, com base em evidências científicas.

Alguns setores exigem maior participação da comunidade científica, enquanto ainda sofrem com os severos cortes impostos pelo governo de Mauricio Macri às instituições estatais de pesquisa, com uma grave deterioração das condições de trabalho de pesquisadores e professores em todos os níveis — uma situação que só piora à medida que 2020 se desenrola em um ano tão desafiador. A ciência, então, surge como um dos pilares aos quais se pode nos apoiar. Contudo, diante da redução dos recursos destinados à pesquisa local, é imprescindível refletir sobre as ciências e tecnologias que possuímos e sobre aquelas que desejamos, visando uma relação diferente com a natureza e uma melhor qualidade de vida.

2. Problemas ambientais locais

O avanço do desmatamento no Chaco, os incêndios em Córdoba e no Delta, e os vazamentos de cianeto em Jáchal (San Juan) despertam menos empatia local do que as declarações feitas na ONU e os incêndios na Amazônia pelos líderes atuais e pela grande mídia. Esses casos, tanto por sua abrangência territorial quanto pelas estruturas econômicas às quais pertencem, constituem alguns dos problemas ambientais mais significativos da Argentina: o agronegócio, baseado principalmente na produção de soja geneticamente modificada (acompanhada por culturas secundárias como trigo, arroz e milho), e a mineração a céu aberto. Ambos são exemplos de extrativismo, que, em resumo, é a exploração predatória de recursos naturais comuns. E em ambos, o papel de certas disciplinas científicas e tecnológicas tem sido fundamental.

Em 1996, Felipe Solá, então Secretário de Agricultura, Pecuária e Pesca, autorizou a introdução de uma nova variedade de soja na Argentina. Tratava-se da agora famosa soja Roundup Ready (RR): uma variedade geneticamente modificada, criada por meio de transgenia para torná-la resistente ao herbicida glifosato, comercializada sob a marca Roundup Ready pela Monsanto (atualmente fundida com a empresa alemã Bayer). Assim, teve início o modelo agrícola que transformaria a soja em uma monocultura em expansão, que mais tarde seria caracterizada como um "deserto verde".

Entre 1996 e 2011, a área plantada com soja Roundup Ready aumentou de pouco menos de cinco milhões de hectares para quase dezenove milhões; e a produção subiu de 10,9 milhões de toneladas para 40,1 milhões. O resto é história. Desde então, nosso país tem vivenciado consequências sociais e ambientais sem precedentes: contaminação do solo, da água e do ar; concentração da propriedade e do uso da terra; migração forçada para as periferias urbanas; aumento da desigualdade social; erosão da soberania alimentar; e corpos e territórios debilitados. Uma lista interminável de efeitos silenciados, normalizados e cada vez maiores. Tão arraigado e disseminado está esse modelo que é o próprio Felipe Solá quem está promovendo um novo acordo com a China para instalar megafazendas de suínos que farão parte do mesmo esquema e de suas consequências. E em tudo isso, a ciência desempenhou um papel fundamental, tanto por meio de ações quanto de omissões.

3. Mais de uma ciência

Globalmente, a ciência emergiu como um ator fundamental na denúncia do aquecimento global e na denúncia de alguns dos problemas ambientais associados. No entanto, a ciência, como atividade humana, está inserida em contextos políticos, econômicos e sociais, e, portanto, sua conexão com as questões ambientais está longe de ser meramente crítica: alguns cientistas são cúmplices do problema, enquanto outros permanecem indiferentes. De fato, a política implementada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação Produtiva, liderado por Lino Barañao, priorizou a colaboração com setores associados à biotecnologia, nanotecnologia e tecnologias da informação e comunicação. Essas áreas foram designadas como setores prioritários, fortemente ligados aos padrões de produção e consumo. Esperava-se que mais ciência aplicada a esse tipo de produção melhorasse nossa qualidade de vida e a de nossos territórios. Mas nada disso aconteceu.

De fato, as transformações produtivas das últimas décadas, particularmente aquelas relacionadas ao agronegócio e à mineração, exigiram a expansão do conhecimento científico e tecnológico, em parte financiado com recursos estatais. Nesse contexto, os discursos e validações que atualmente promovem tanto o modelo da soja quanto o extrativismo mineral insistem em destacar as contribuições de “excelência” que a ciência argentina pode oferecer, desenvolvendo produtos eficientes, pesquisa aplicada para o “setor produtivo” e assim por diante. Um dos exemplos mais divulgados é a variedade de soja resistente à seca desenvolvida por pesquisadores do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica (CONICET) em parceria com a empresa Bioceres. Aparentemente, se excluirmos da equação corporações transnacionais como Bayer/Monsanto e incorporarmos políticas de responsabilidade corporativa “sustentável”, não haveria motivo para alarme em abandonar um modelo de produção que está colocando em risco nossos ecossistemas vitais.

Em paralelo, enquanto a introdução de inovações como os organismos geneticamente modificados (OGMs) não foi precedida por pesquisas sobre seus potenciais riscos à saúde e ao meio ambiente, as demandas das comunidades são atendidas com a mesma exigência: que forneçam evidências científicas demonstrando os danos causados ​​pelo modelo extrativista, invertendo, assim, o ônus da prova. Segundo essa lógica, seria necessário provar que o glifosato (ou o agrotóxico correspondente) é tóxico para que seu uso fosse interrompido, quando, por lei (e pelo bom senso), é preciso demonstrar que ele é inofensivo antes de ser usado, e não depois que o desastre já ocorreu. Essa é uma manobra notável em um país que carece de dados oficiais sobre o uso de agrotóxicos e onde — por exemplo — o Ministério da Saúde jamais teve participação na aprovação de OGMs (ou em qualquer outra transação comercial dentro desse modelo extrativista).

Existem diversas maneiras pelas quais as ações corporativas, com a cumplicidade do Estado, são validadas por setores dominantes da ciência argentina. Sem dúvida, essas validações decorrem de uma série de exclusões de perspectivas críticas. Se examinarmos atentamente como a ciência e a tecnologia são produzidas em universidades e instituições nacionais de pesquisa, constataremos que certos ramos do conhecimento e abordagens específicas dentro deles são priorizados, enquanto as vozes críticas são minimizadas. Essas exclusões também se estendem àqueles que estão fora da "comunidade" de especialistas, cujas demandas e conhecimentos permanecem distantes da tomada de decisões. Além disso, essas exclusões ocorrem no âmbito de certas alianças. Assim, representantes de grupos de poder locais exercem influência concreta na organização de planos e agendas de pesquisa. No setor agrícola, basta analisar a composição dos conselhos de administração das principais instituições de pesquisa para constatar isso (como no Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária – INTA – dominado por empresários do setor).

4. Uma ciência desejável

Poder e ciência sempre estiveram interligados. Mas, assim como o poder pode ser construído e contestado, o tipo de ciência que precisamos é um pilar fundamental que precisa ser construído. Essa busca exige a luta por mais financiamento, mas não se limita a esse aspecto. As políticas científicas da Argentina têm, em grande parte, excluído as questões ambientais, deixando-as como um problema para as comunidades e certas organizações. Tampouco a qualidade de vida nesses territórios e para aqueles que os habitam tem sido priorizada. Portanto, é essencial termos uma ciência que reconheça sua relação com outros setores da nossa sociedade, que atenda às necessidades das comunidades e que não imponha seus próprios métodos de diagnóstico e intervenção.

A questão de qual ciência devemos buscar também inclui a lista de problemas de nossos corpos e territórios, a ligação com os modos de produção e consumo, o diálogo com as vozes dessas pessoas e organizações no território e sua busca por uma vida boa.


1-Paula Blois, Leonardo Bloise, Tomás Busan, Daniela del Castillo, Ailín Delvitto, Federico di Pasquo, Guillermo Folguera, Christian Francese, Cecilia Gárgano, Lilén Gómez, Gabriela Klier, Nicolás Lavagnino, Ana Belén Martínez, Agustín Martínez, Carolina Ocampo, Nahuel Pallitto, Alejandra Petino Zappala, Constanza Rendón, Esteban Rodríguez, Ana Liza Tropea, Martina Villahoz. Publicado na Agência Tierra Viva, meio de comunicação criado para informar o que acontece no campo sob a perspectiva de quem produz alimentos: famílias de agricultores, pequenos produtores, comunidades indígenas e cooperativas.


VER NOTA


Caso deseje receber mais informações sobre os programas de treinamento da CLACSO:

[widget id=”custom_html-57″]

para nossas listas de e-mail.