Novos tempos para novos desenvolvimentos científicos e consequências para a economia.

Alberto Santoro

Universidade do Estado do Rio de Janeiro / Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro
[email protected]

Resumo

Este artigo busca relacionar os novos desenvolvimentos científicos e suas consequências para a sociedade como um todo. Isso se dá no contexto do que considero ser a atual crise do capitalismo e seus possíveis desdobramentos. Também são consideradas algumas consequências para os trabalhadores em geral, tanto aqueles com baixa quanto com alta formação universitária. Esse desenvolvimento é observado dentro de uma organização colonial estabelecida por países latino-americanos, que por vezes perdem a possibilidade de exercer sua soberania.

Palavras-chave: colaboração internacional, soberania, colonialismo, novas tecnologias

Novos tempos para novos desenvolvimentos científicos e consequências para a economia.

Resumo

Neste artigo, procurei conectar os novos desenvolvimentos científicos com suas consequências para a sociedade como um todo. Tudo isso é enquadrado no que considero a atual crise do capitalismo e suas possíveis soluções. Além disso, considerei algumas consequências para os trabalhadores em geral, independentemente de seu nível de escolaridade. Esse desenvolvimento é observado dentro de um sistema colonial imposto aos países latino-americanos, que por vezes perdem a capacidade de exercer sua soberania.

Palavras chave: colaboração internacional, soberania, colonialismo, novas tecnologias

Novos tempos para novos desenvolvimentos científicos e consequências para a economia.

Sumário

Neste artigo, procurei relacionar os novos desenvolvimentos científicos e suas consequências para a sociedade como um todo. Tudo isso dentro da estrutura do que considero a atual crise do capitalismo e suas possíveis soluções. Também considerei algumas consequências para os trabalhadores em geral, tanto aqueles com baixa quanto com alta formação universitária. Esse desenvolvimento é observado dentro de uma organização colonial imposta aos países latino-americanos, que por vezes perdem a possibilidade de exercer sua soberania.

Palavras-chave: Colaboração internacional, soberania, colonialismo, novas tecnologias.

Introdução

O desenvolvimento da ciência acelerou-se desde o século XX. Não tememos que isso seja consequência da forma como a ciência é feita em colaboração internacional (Santoro, 2015). Talvez este não seja o único componente importante, mas possivelmente um componente dominante. Contudo, se quisermos seguir por este caminho, é necessário definir o tipo de colaboração para não nos enganarmos e fazermos exatamente o oposto. Em outras palavras, contribuir para o desenvolvimento do “outro” e também dar vazão a outros tipos de colaboração que chamaríamos de dominação e colonialismo. Para o exercício de uma verdadeira colaboração, é necessário definir o objetivo, os esforços de ambas as partes e os parceiros com suas respectivas competências.

As opiniões e comentários aqui apresentados foram desenvolvidos com base na física de partículas de alta energia. Nos exemplos e comentários sobre o contexto atual, haverá sempre um viés profissional. É o que tenho feito nos últimos 50 anos. Mas, ao mesmo tempo, existe uma relação muito forte que merece ser tratada dentro de uma estrutura onde a soberania de um povo deve ser exercida em todos os seus aspectos. Dividiremos nosso ensaio em cinco partes: “Extrativismo”, “Colaboração Internacional”, “Industrialização”, “Economia Globalizada” e “Nosso Futuro Próximo”.

Indústrias extrativas

Nunca sabemos em que situação o “melhor” que produzimos será destinado à exportação. Vamos dar alguns exemplos de conhecimento geral apenas para acompanhar as notícias econômicas do país. Assim, podemos dizer que se trata de um colonialismo econômico e cultural.

Temos uma economia colonial. Ou o que isso significa? A colônia brasileira possui uma economia extrativista muito expressiva desde o início. Temos ciclos para café, açúcar e muitos outros produtos que duraram dois séculos desde a sua descoberta. Toda a produção era e se destinava à exportação. Agora, o grande sucesso se chama agronegócio. O Brasil é um dos dois maiores produtores mundiais de produtos agrícolas e seu povo está passando por dificuldades. Basta ligar a televisão e assistir ao noticiário para se informar sobre a situação. Principalmente o programa chamado Agronegócio, aos domingos, horário em que podemos ouvir os relatos do campo. Há confirmação de que a modernização do setor foi estruturada para produzir principalmente para exportação. Mostra que existem dois produtos: ou exportação ou mercado interno. Assim, também se aprende que os brasileiros consomem produtos de segunda classe. Por exemplo, a laranja exportada é perfeita, sem manchas. A laranja que você consome geralmente está atacada por ácaros ou apresenta manchas antigas. O carro brasileiro tem menos de mil peças do que o que a mesma montadora no Brasil produz para exportação. Poderíamos continuar com exemplos, mas podemos generalizar: a mesma indústria é uma indústria colonial. Qualquer tentativa de estabelecer uma indústria com propósitos e origens nacionais é sufocada pelo capital internacional. Há vários exemplos, incluindo indústrias de natureza estratégica, com alguns exemplos recentes. Gostaríamos de citar apenas o caso da Embraer. Há algo de errado em nossa estratégia de desenvolvimento. Os antigos servos de uma economia colonial, aqueles da produção de paletes e cascalho, agora irão dirigir os trabalhadores na produção de bens de consumo.

As pessoas que imigram para o Brasil, nenhuma delas se tornará brasileira. Em nossa cultura, nos orgulhamos de ser descendentes de portugueses, franceses, ingleses, japoneses, chineses, italianos e muitas outras nacionalidades. Adquirimos novos costumes e criamos muitos outros. Não falei de dois africanos porque eles eram vistos como escravos para suprir a necessidade de mão de obra no campo e nas cidades em serviços que os “europeus” não queriam fazer. No entanto, suas fortes raízes culturais enriquecem todo o país em todos os seus domínios culturais. Na culinária, na música, na língua, etc. Uma situação que evoluiu para o Brasil contemporâneo, onde os afrodescendentes continuam sendo discriminados e tratados como cidadãos de segunda categoria, com pouco acesso, por exemplo, às universidades.

Essa conjuntura cultural serve de base para nossa descrição e para mostrar que, embora o padrão mude ao longo do tempo, a essência da economia permanece a mesma. Assim, o país foi construído: um país, uma agricultura, uma industrialização que ainda preserva algumas características do colonialismo. Vamos agora explorar como será a situação nos próximos anos, com as modificações nas relações internacionais e nacionais, influenciadas principalmente pelo desenvolvimento de novas tecnologias e pela necessidade de contar com os insumos necessários para esta nova era.

Colaboração internacional

Há alguns anos, publiquei dois artigos sobre colaboração internacional (CI) como instrumento de desenvolvimento. No entanto, não me atentei ao fato de que a CI deve ser digna de soberania. Ou o que isso significa? Significa que a CI teme que existam dois caminhos de interesse mútuo. E para isso, é necessário que ambas as partes colaborem de forma mutuamente benéfica. Buscamos apenas colaborações entre grupos de pesquisa e países. Um país onde a pesquisa é avançada e possui todos os meios para exercer seu trabalho, e outras coisas são apenas matérias-primas e algum trabalho intelectual, mas não como ele é utilizado. Nesse caso, é essencial que a parte mais avançada colabore principalmente no desenvolvimento das condições de trabalho dos parceiros. Pode ser apenas para incluir as condições necessárias para iniciar a colaboração/cooperação, exigindo que haja investimentos internos para que as condições de trabalho sejam concretizadas. Este é o caso das colaborações científicas em física experimental de altas energias. Na maioria dos casos, nossa colaboração tem sido predominantemente intelectual. O benefício para o país é mais certo ou maior quando a melhoria é investida em dois laboratórios universitários e centros de pesquisa onde os pesquisadores trabalham. Hoje, surgem projetos, empregos efetivos que necessariamente movimentam o comércio e a indústria local. E muitas vezes isso motiva a criação de novos produtos e, portanto, de novas indústrias.

A física de partículas recebeu um grande impulso do Governo Federal na década de 50, como parte do nacionalismo de Getúlio Vargas, apoiando o trabalho de dois pioneiros, César Lattes, Leite Lopes, Jayme Tiomno e outros. Fundamos um laboratório que existe nesta página como o Centro Brasileiro de Pesquisa Física (CBPF). Este foi um projeto bastante avançado e nasceu da colaboração internacional. Mais parecido com o suicídio de Getúlio Vargas, ou o CBPF que desapareceu, sobreviveu graças a um grupo de físicos que o encontrou. Filho da Universidade de Brasília, Roberto Salmeron retorna ao Brasil a convite de Darcy Ribeiro e inicia um projeto de pesquisa em física experimental de altas energias. Recentemente, em 1964, a Universidade praticamente encerrou suas atividades nessa área e em algumas outras também (Salmeron, 2007). Mas foi somente na década de 80 que a física experimental de altas energias renasceu, não no mesmo laboratório onde começou, não no CBPF. Um grupo de físicos brasileiros formou o FERMILAB para trabalhar nos experimentos que realizaram. Ele será imediatamente envolvido em outros projetos tecnológicos, como o ACP-Projeto Avançado de ComputaçãoE descobrimos que, para o Brasil, essa tecnologia permite completar parte da instrumentação necessária para dar continuidade ao trabalho em física experimental. Essa revitalização foi mais abrangente, alcançando muitos países da América Latina, e foi consequência da iniciativa de Leon Lederman, ganhador do Prêmio Nobel de Física, por uma participação mais significativa de dois países latino-americanos. Leon acreditava que, a longo prazo, o FERMILAB poderia se tornar um laboratório pan-americano. Pouco tempo depois, aproximadamente dois anos depois, um novo grupo se estabeleceu no local. Conselho Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN)1(Aqui, mantém-se a mesma sigla para Centro Internacional de Física de Partículas) trabalhar em um grande laboratório internacional, inicialmente europeu, que conta com a colaboração de um número significativo de países. Mencionamos esse resumo histórico para destacar que a participação de um país em um centro de pesquisa traz imensos benefícios. Evidentemente, a introdução da física no país representa, tanto do ponto de vista científico quanto tecnológico, uma porta de entrada para a modernização da indústria. É evidente que, para que isso ocorra automaticamente, é necessário que haja uma política estatal como principal motor do desenvolvimento, coordenando ações de interesse nacional.

Apesar dos fortes acordos existentes, há muita esperança para a comunidade científica brasileira, com a participação de grupos de pesquisa em diversos experimentos fora do CERN e do FERMILAB. O Brasil é um dos dois países que participam da recente descoberta de partículas ainda não construídas, que constituem nosso microuniverso da matéria. Além disso, dispomos de mais recursos em tecnologia e em projetos industriais, e podemos ir muito além se tivermos financiamento adequado. Iniciativas e propostas da comunidade científica não faltam.

Desde o início, a questão da associação brasileira como membro associado do CERN tem sido discutida na comunidade científica.2 Essa condição abre muitas outras oportunidades para o Brasil e sua comunidade científica. Não tanto que essa questão seja importante para destacar duas coisas. Em primeiro lugar, essa associação deve ser realizada com soberania, o que significa que o Brasil faria um investimento equivalente em seus laboratórios em universidades e centros de pesquisa onde se atua a física de altas energias. Também motivaremos as comunidades a expandir essas iniciativas por todo o Brasil. Abriremos nossos laboratórios por toda a América Latina com o objetivo de colaborar na formação de pessoas para o desenvolvimento de toda a região, sem causar maiores dificuldades e inconvenientes regionais. Isso significa que daríamos nosso total apoio a um acordo mais latino-americano como o que Monica Bruckmann tentou com a UNASUL (Brukmann, 2021). O Brasil tem um contingente bastante representativo trabalhando no CERN, um centro para o grande desenvolvimento da ciência e da tecnologia. Ou no acelerador LHC (Large Hadron ColliderEstá em desenvolvimento um grande projeto, com um acelerador de partículas com extensão de 25 km a 100 km de circunferência. Esses aceleradores só são possíveis com supercondutores. Esses ímãs supercondutores só podem ser formados pela permeação de fios supercondutores a temperaturas muito baixas. São milhares de quilômetros de fio. Esses fios são feitos com uma liga de nióbio e titânio. Esses elementos, ou o nióbio, por exemplo, são abundantes no Brasil. Apenas uma das minas de nióbio possui reservas suficientes para suprir o consumo global por alguns anos. Além disso, é surpreendente que, na construção do LHC, o Brasil tenha recebido a proposta de participar como nióbio e, em troca, ter uma participação importante no CERN com a aquisição de novas tecnologias e treinamento de pessoal. Mas essa proposta não foi considerada em vista das complicações políticas que ocorreram no Brasil.

Ou o que há de novo? Recentemente, o governo brasileiro propôs que ele se tornasse membro associado do CERN. Isso também está de olho na participação da indústria brasileira. Como seria uma proposta soberana? Somos totalmente a favor de nos associarmos a instituições como essa. Mas é necessário que seja uma associação de Estado e não de governo, e que haja um investimento significativo nos laboratórios de universidades e centros de pesquisa brasileiros, para prepará-los. Assim, a comunidade científica poderá escolher o que é mais conveniente fazer no país como sua parte na colaboração. Podemos participar de dois experimentos plenamente desenvolvidos e sermos capazes de traçar a ciência e a tecnologia prática, participando das descobertas com a produção de detectores, subdetectores e, consequentemente, com a participação natural da indústria. Portanto, como dissemos em outra ocasião, é fundamental que haja interesse mútuo, tanto do desenvolvimento científico quanto do tecnológico. Não tratamos essa associação como um grande negócio. Que seja pela ciência!

Industrialização

A industrialização em nosso país não compreendeu adequadamente as necessidades internas das demandas existentes. Em vez disso, visou-se principalmente no mercado externo, utilizando mão de obra mais barata e contando com uma classe operária que não possuía organizações fortes para defender suas reivindicações legais. No período em que as leis trabalhistas foram criadas, elas não foram conquistadas por meio de uma luta fechada das organizações de classe. O dia 1º de maio foi nos Estados Unidos. É claro que existem breves períodos em que a classe operária desfruta dos direitos à sua sobrevivência. Mais breves e efêmeros imediatamente após crises do que ameaçadores ou de "maior lucro" para a burguesia e a pequena burguesia.

Mas vamos falar, ainda que superficialmente, sobre a situação imediata e atual (Bruckmann, 2021). Muitos desenvolvimentos estão ligados à automação de toda a mecânica industrial, que, na verdade, começou principalmente na indústria automobilística com a introdução do furto na linha de produção, o que causou um enorme progresso na área. Trata-se de uma operação das linhas de produção que possui um treinamento muito sofisticado na época daqueles metalúrgicos, na era em que se formavam como líderes sindicais no ABC São Paulo.

Essa automação é em grande parte consequência do conhecimento acumulado em aprendizado de máquina, inteligência artificial, robótica e novos métodos de computação de novas máquinas. Da mesma forma, a computação científica muda rapidamente e se prepara para a implementação da computação quântica e outros desenvolvimentos tecnológicos na eletrônica, bem como para a introdução da fotônica como substituta, principalmente nas conexões entre dispositivos eletrônicos.

Existem aspectos muito positivos e negativos para a sociedade em geral. Certamente, essas tecnologias desenvolvidas para as indústrias trarão benefícios à produção, mas causarão um impacto ainda maior do que o provocado pela mecanização das indústrias que transformaram suas linhas de produção nas últimas décadas, substituindo centenas de metalúrgicos. Essa nova era de impacto será mais significativo na classe média, entre aqueles com nível universitário. Os defensores da opinião pública serão substituídos por opiniões produzidas diretamente por mídias do tipo Google. Os médicos de clínica geral serão substituídos por médicos que realizam exames de sangue e urina. E muitas cirurgias serão realizadas por médicos sem formação específica. O "especialista internacional" mais bem preparado também realizará cirurgias à distância e a telemedicina surge como uma nova atividade médica.

As residências também sofrerão modificações radicais, como a robótica infiltrando-se na rotina diária de uma família, com furtos que substituirão ainda mais os assistentes de residência. De certa forma, a pandemia da COVID-19 está acelerando dois processos transformadores. À medida que as universidades se tornam “escolas virtuais”, os professores receberão, no período noturno, um procedimento de ensino para o qual, em grande parte, não estão preparados. À medida que as diferenças sociais se tornam visíveis. Os alunos que têm computador em casa não têm problemas com as aulas online, mas os mais pobres, que ainda conseguiam ir à escola antes da pandemia, perderão sua refeição diária e não saberão o que receberam. O Estado não se preocupou em preparar as escolas de ensino fundamental e médio e até mesmo as universidades, com raras exceções. Mas a saúde pública também não estava preparada para atender minimamente uma população como a brasileira a enfrentar pandemias ou outros surtos de doenças contagiosas. O vírus corrupto conseguiu, ao mesmo tempo, ter sucesso nas negociações para a aquisição de vacinas nesta pandemia da COVID-19. É evidente que foi durante o governo Mitterrand na França (há mais de 50 anos) que cada aluno do Ensino Fundamental recebeu um computador para se preparar para o futuro.

Todas as universidades oferecem tópicos para estudantes de engenharia, principalmente cursos como: aprendizado de máquina, gerando enormes benefícios, de modo que trabalharemos como prioridade na indústria e, em geral, para acompanhar o desenvolvimento de importantes análises de dados à medida que os modelos da realidade são construídos.

Certamente, com a introdução dessa tecnologia, a indústria se torna mais produtiva, mas os benefícios não serão para os trabalhadores; preservaremos o modelo atual de relações sociais. Possivelmente, isso trará um novo desempenho e um aumento na concentração de ambos os ganhos com a modernização. Espera-se que uma nova revisão nas indústrias que já passaram por modificações também acelere os processos de robotização das linhas de produção. Muitas indústrias e grandes empresas dependem duplamente do transporte atual para entregar seus produtos à venda em redes sociais. Essas empresas de entrega de supermercado, como os Correios, também tendem a desaparecer ou se adaptar às já utilizadas, em alguns casos específicos, pela Trone.

A criação de novas tecnologias que atendam a essas transformações depende da aquisição de materiais que se concentram principalmente em países da América Latina. Os artigos de Monica Bruckmann (2021) listam os principais materiais necessários para o desenvolvimento de novas tecnologias.

Economia globalizada

A economia global não traz benefícios para grande parte da população brasileira. Talvez estabeleça locais regulares para “sedes”. Como podemos caracterizar isso nos tempos atuais? Contribuímos para o crescimento das desigualdades, para a ausência de investimento interno em benefício da população, para o aumento da concentração de riqueza, para a redução das lutas dos trabalhadores, para a extinção de direitos, para a privatização de estruturas fundamentais do país, etc. Gostaríamos de verificar cada uma dessas afirmações consultando os órgãos oficiais e a realidade que vivenciamos no Brasil. É evidente que a globalização não traz benefícios para a maioria da população. Trata-se, sobretudo, de uma nova forma de apropriação de benefícios com a privatização. E aqui chamamos a atenção para o fato de que o que mais caracteriza um Estado colonizado é a apropriação de instituições estatais por outra empresa estatal estrangeira. E isso vem acontecendo há muitos anos. Empresas estatais estrangeiras “compram” as empresas estatais brasileiras que representam os benefícios do país. O pagamento pela construção de usinas de energia elétrica está sendo realizado pelo Estado, que a representa e vende principalmente para outras empresas com capital internacional. No caso da Petrobras, isso pode ser alarmante, segundo informações da Associação de Engenheiros da Petrobras.3 À medida que ocorrem transformações no decorrer de novos acordos sociais, também temos novos acordos nacionais e internacionais.

Nosso futuro próximo

Este clima temperado fará com que os países se preocupem com o futuro próximo das usinas/indústrias mais poluentes e numerosas, especialmente nos países tecnologicamente mais avançados. Há também transferências de indústrias de outros países para o Brasil devido aos altos níveis de poluição. O Brasil possui um grande número de indústrias poluentes e algumas estão na lista das mais poluentes do mundo. Ao mesmo tempo, uma grande revolução tecnológica e acadêmica surgiu devido ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia, que podem reduzir drasticamente a poluição no país. Por exemplo, o uso de aceleradores de partículas para o tratamento de líquidos e alimentos. O desenvolvimento de novas tecnologias na área de energia, utilizando energia eólica e solar, também é consequência dos recentes avanços científicos. Essas iniciativas se baseiam no suporte às transformações da matriz energética mundial. A energia nuclear também não deve ser excluída, sendo uma das maiores fontes de energia da Europa. No entanto, novas invenções, modificações nas metodologias industriais e na produção de energia dependem de insumos, como apontado recentemente por Mónica Bruckman (2021).7.

Poderíamos então inferir que se trata de uma excelente oportunidade para os países latino-americanos que detêm dois elementos básicos para essa grande transformação, negociarem uma situação melhor para a região. Mas parece que a radicalização na aquisição de insumos está se tornando cada vez mais acentuada. Será que nossa interpretação do que está acontecendo se dá como a multiplicação de bens lícitos e ilícitos, com a extração de riquezas naturais para onde vão? Por exemplo, vemos nas notícias que apenas uma pequena fração do ouro extraído do Brasil é proveniente dele. E os outros minerais? A transformação de importantes áreas de florestas queimadas também faz parte de um processo que parece estar fora de controle.

No nível da superestrutura, essa parte do desenvolvimento que forma o profissional também se refere à soberania. Não quero dizer que devemos nos isolar, pelo contrário, devemos fomentar a colaboração internacional, tornando o Brasil mais profissional em todas as áreas. Nessa área de educação e pesquisa, não podemos ignorar a situação catastrófica na área da educação. De Vitor Hugo, na França.4 Desde 1800, os países “desenvolvidos” compreendem a importância de cultivar e formar intelectuais que possam garantir a soberania da nação. Ou seja, criamos condições para que nossos intelectos possam viver, exercendo o conhecimento adquirido nas universidades em condições de trabalho, para o desenvolvimento do país. Somos nós que vamos para o mundo “desenvolvido”, onde temos os maiores privilégios, com um padrão de vida e bem-estar superiores aos de nossos países de origem. E, portanto, assistimos ao êxodo de cientistas e intelectuais que buscam exercer sua profissão com dignidade. Não estamos presentes, estamos assistindo a um “novo êxodo”. Os especialistas em novas tecnologias e ciências são recém-formados para diferentes lugares e treinados com o propósito de trabalhar em diferentes áreas. O Brasil oferece pacotes de estudos para formar pessoas altamente qualificadas, mas não investe internamente para garantir o trabalho desses profissionais em seu retorno. A exigência de retorno e de menor tempo no mesmo país não é suficiente. Agora vamos verificar se, na ausência de oportunidades para dar continuidade às nossas pesquisas, muitos retornam ao exterior (onde trabalharam durante o doutorado) para atuar em empresas e instituições acadêmicas, ou se é apropriado que estejamos formando mão de obra qualificada para outros países. E isso ocorre principalmente nas áreas de Engenharia e Ciências Exatas.

Devemos continuar a insistir na formação de pessoas altamente qualificadas para enfrentar esta nova era. Assim, teremos mão de obra qualificada, mas também precisaremos de infraestrutura, visto que possuímos um vasto parque de riquezas naturais. Teríamos as condições para negociar acordos internacionais com soberania. E perguntamos: a colaboração internacional seria uma solução? Sim, ela deve ser exercida com soberania, como insistimos neste texto. É necessário deixar de lado os "vícios" coloniais. É importante que criemos aqui um país de oportunidades competitivas, atraindo profissionais competentes para trabalhar em nossos institutos, em nossos laboratórios, ou que dependam de investimentos internos significativos.

É essencial iniciar uma política de desenvolvimento a longo prazo, com todos os componentes integrados, abrindo oportunidades para toda a região da América Latina. Em nossa área de física experimental de altas energias, mas isso também poderia ser aplicado a muitas outras áreas, com naturalizações adequadas, como temos insistido, executar todo o ciclo: treinamento de pessoal, desenvolvimento de competências internacionais para somar às já existentes no país, investimento em laboratórios e universidades, execução de trabalhos criativos no país, produção de detectores e, consequentemente, impulsionamento da indústria local. Repetimos isso porque consideramos de suma importância para uma colaboração internacional.

Conclusão

O que procuramos demonstrar é uma certa correlação entre alguns temas, como a globalização em um país com economia colonizada, a soberania e os novos desenvolvimentos científicos e tecnológicos envolvidos na economia em um futuro próximo. Discutimos também as possíveis consequências para os trabalhadores de nível superior e geral.

É evidente que é fundamental que a industrialização, a colaboração internacional e o desenvolvimento científico e tecnológico sejam determinados por uma política de Estado discutida pelo país, envolvendo todos os poderes, para que resulte em uma ação soberana. Assim como a criação da Usina de Aço em Volta Redonda, pela Petrobras, em cuja campanha participamos nas ruas com o slogan “O petróleo é nosso”, pela Embraer, por mera vontade de Santos Dumont, e a Indústria Automobilística Gurgel, pioneira inclusive no automóvel elétrico, foi liquidada em sua juventude com a abertura indiscriminada do mercado no país. Esses são exemplos de uma política de Estado soberana no que diz respeito à industrialização. Não estamos assistindo ao presente desenvolvimento industrial, como mencionado no texto acima, de uma indústria a serviço dos interesses de outros países, buscando apenas mão de obra barata e poluição exportada de alguns países.

Uma questão interessante sobre colaboração científica e internacional.5E, ao exercermos nossa soberania, nossos países, principalmente na América Latina, precisam se desenvolver e fazê-lo de forma que os meios de produção beneficiem principalmente as populações que, atualmente, não têm acesso ao conhecimento científico e seus benefícios. Uma transformação da cultura de povos acostumados, desde o século XVI, à exportação como única forma de desenvolvimento é uma questão teórica a ser examinada com mais profundidade.

E reiteramos que os membros da comunidade científica devem decidir soberanamente o que desejam fazer em uma colaboração científica, porque o fazem, para que não o façam ou o que lhes resta fazer em termos de condições de trabalho. É a isso que me refiro como condições de materiais de laboratório adequadas ao exercício da criatividade. Assim nasce o êxodo de cientistas que acabam desenvolvendo a ciência em outros países.

Insisto que, na verdade, as possíveis e futuras mudanças, com o uso de novas tecnologias, não serão capazes de gerar um progresso enorme para a classe média se novas medidas não forem tomadas em prol de acordos sociais mais justos. A diferença entre a robotização atual e a futura reside no fato de que esta última afetará principalmente as classes médias mais altas. Uma solução que vem sendo adotada por alguns países é a implementação de medidas para evitar o colapso do capitalismo. Transformações que suprimem os consumidores podem paralisar a venda de produtos e, consequentemente, as fábricas. Uma dessas medidas seria a criação de um salário universal que todas as cidades, sem exceção, teriam que cumprir para continuar recebendo benefícios do consumidor. O fato de ser cômico não é trágico. É fundamental para o surgimento de propostas criativas que visem reduzir a acumulação de riqueza e a desigualdade de renda, diminuindo assim as disparidades sociais.

O convite para ler esta revista é uma honra e um agradecimento imenso a Monica Bruckman. Agradeço à FAPERJ pela Bolsa de Pesquisador Emérito.

Referências

AA. VV. (2014). Missão da UNASUL no CERN – Laboratório Europeu de Física de Partículas, 16, 17 e 18 de julho de 2014. Em Mónica Bruckmann (ed.), Ciência, tecnologia, inovação e industrialização na América do Sul: rumo a uma estratégia regional. (págs. 337-344). Quito: UNASUL. http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/otros/20140908110323/UNASURciencia.pdf

Bruckmann, Monica (28 a 30 de junho de 2021). Geopolítica da transição energética e seus impactos na América Latina. Escola Internacional de Física de Altas Energias (LISHEPS) 2021, sessão A. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil. https://indico.cern.ch/event/869979/

Salmeron, Roberto (2007). Uma universidade interrompida: Brasília 1964-1965Brasília: Editora UNB.

Santoro, Alberto (2015). Colaboração científica internacional como parte da estratégia de desenvolvimento. Em Mónica Bruckmann (org.), Ciência, tecnologia, inovação e industrialização na América do Sul: rumo a uma estratégia regional. (págs. 59-68). Quito: UNASUL. http://biblioteca.clacso.edu.ar/clacso/otros/20140908110323/UNASURciencia.pdf

1 Para os curiosos, podemos encontrar excelentes resumos sobre a interessante história do CERN no site: https://home.cern/No site, a missão do CERN é definida: “A Organização não se envolverá em trabalhos para fins militares e os resultados de seu trabalho experimental e teórico serão publicados ou disponibilizados ao público em geral.”

2 Existe muita literatura sobre a criação do CERN e o leitor mais curioso pode consultar a página do CERN no site, onde certamente encontrará documentos interessantes.

3 Em artigo especial sobre o Privatômetro (https://observatoriopetrobras.com/privatometro/As informações estão disponíveis em: http://aepet.org.br/w3/index.php/conteudo-geral/item/6726-privatometro-venda-de-ativos-da-petrobras-ja-soma-mais-de-r-231-bilhoes

4 Vitor Hugo, em 1819, foi um dos fundadores da revista O Conservador Literário. Em um discurso na Assembleia Nacional Francesa em 11 de novembro de 1848 – durante a discussão sobre o financiamento anual – as propostas de redução do financiamento das ciências, letras e artes foram veementemente contestadas. Referindo-se ao proponente, afirmou que ele cometia um duplo erro: desvalorizava os dois valores que essas disciplinas representam para uma nação e era pernicioso sob qualquer outro ponto de vista.

5 Um exemplo extremamente importante de uma iniciativa latino-americana está registrado no documento “Missão da UNASUL no CERN – Laboratório Europeu de Física de Partículas, 16, 17 e 18 de julho de 2014” (AA. VV., 2014), entre os componentes dessas importantes missões.