Uma pandemia ou um genocídio

 Uma pandemia ou um genocídio

Grupo de Trabalho Ecologia(s) política(s) desde o Sul/Abya Yala

Em Abya Yala, o novo coronavírus ataca os povos que já sofrem com a dominação colonial, a omissão ou o abandono racista por parte dos Estados, tornando-os inviáveis ​​para as sociedades nacionais que continuam a reconstituir os povos indígenas e negros como parte de suas nações. Alertamos que, sem a adoção das medidas necessárias, enfrentamos um novo e iminente genocídio que se somaria à longa história de mortes de povos indígenas e negros no continente americano.

Não BrasilOnde o governo autoritário de Bolsonaro estabeleceu uma política de morte, ainda há casos de contágio do novo coronavírus em comunidades indígenas, quilombos e favelas, principalmente nos estados do Amazonas e do Pará. O caso Kokama é sintomático da negligência do Estado: os próprios agentes de saúde infectaram uma comunidade inteira onde já ocorreram mais de 12 mortes (entre as 77 mortes e 308 indígenas infectados no Brasil, segundo a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, APIB, em 12 de maio(1)). As mortes continuam sendo negadas pelo governo federal. São Gabriel da Cachoeira, região do nordeste da Amazônia, onde 90% da população é indígena, de mais de 20 etnias diferentes, já vivencia a expansão desenfreada do novo coronavírus e enfrenta atendimento precário por parte do Estado, com mais de 137 casos, 10 mortes e apenas sete respiradores. Diante dessa situação, a APIB denunciou o encerramento de sua assembleia geral em 09 de maio, uma política de extermínio do Estado, da elite genocida e do racismo institucional(2). Os quilombos do Pará e do Amapá apresentam diversas mortes relatadas pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais. Quilombolas (Conaq), que lançou ou manifestou Quilombola Lives Matter(3).

Não PeruOs povos indígenas exigem protocolos de proteção para suas comunidades, visto que muitas das bactérias infectadas não distribuem alimentos para as populações dos governos regionais. O governo responde com maior repressão, estendendo o toque de recolher. O sistema público de saúde, já deficiente, entrou em colapso. Mesmo assim, as indústrias extrativas continuam operando e são consideradas atividades essenciais, colocando em risco comunidades vulneráveis, como é o caso dos trabalhadores das minas de Antamina e Toromocho, que estão infectados. As indústrias extrativas continuam gerando impactos. Por exemplo, há uma estrada que opera dentro das minas e causa o vazamento de resíduos tóxicos. Na região amazônica de Loreto, há infecções entre indígenas Quechuas, Matsés e Shipibos, estes últimos com casos de morte. Na tríplice fronteira entre Peru, Colômbia e Brasil, sete indígenas Ticunas morreram. O plano de emergência para os povos indígenas não especifica medidas concretas e não inclui as organizações indígenas na gestão da crise. Ao mesmo tempo, as Forças Armadas exercem maior controle territorial.

Não EquadorOs casos na população indígena começam a surgir apesar da resposta nula do governo de Lenín Moreno, que não realiza testes para detectar o contágio. Na nação Siekopai, que tem uma população reduzida a apenas 700 pessoas após o etnocídio gerado pela extração de petróleo, registram-se 2 idosos que morreram com sintomas associados à COVID-19 porque não foram realizados testes para confirmação, e 15 infectados pelo coronavírus (4). Foram confirmados 2 óbitos de indígenas Chachi e 18 infecções por coronavírus, detectadas pela própria organização indígena, que obtém uma doação de testes (5). Além disso, o solo amazônico foi afetado por um derramamento de quase 15.000 barris de petróleo que atingiu aproximadamente 105 comunidades, principalmente das nacionalidades Kichwa e Shuar, que dependem de dois rios como fonte de alimento e água. Tal derramamento interditou os rios no lado peruano, sem que o Estado equatoriano tenha feito nada para remediar a situação. As atividades de extração de petróleo, mineração em larga escala e extração de madeira não estão ativas, e sabe-se que os trabalhadores estão infectados com o coronavírus que circula pelas comunidades indígenas, expondo assim um sério risco de contágio. A atividade madeireira também abrange o território de dois povos indígenas isolados, Tagaeri e Taromenane(6).

Na ColômbiaO governo de Iván Duque adotou medidas que beneficiam as elites locais e os poderes financeiros nacionais e internacionais, ao mesmo tempo que afetam de forma extremamente negativa as comunidades camponesas, indígenas e afrodescendentes. A isenção fiscal para a entrada de 2 milhões de toneladas de cereais é um exemplo do decreto que aprova a entrada de milho transgênico no país (decreto 523, de 7 de abril de 2020), afetando a produção local, os circuitos de troca irregulares e o apoio a dois pequenos produtores. A ausência de medidas de proteção social durante a quarentena resultou no agravamento de dois problemas de segurança alimentar que já afetavam pelo menos dois colombianos. Particularmente preocupante é a situação na Amazônia (onde, em segundo lugar, El EspectadorEm uma semana houve um aumento de 123%, com duas infecções (e não apenas na unidade de terapia intensiva do único hospital da região), no Pacífico, no departamento de Chocó, três territórios habitados principalmente por comunidades indígenas e negras e onde aproximadamente 70% da população vive em condições de pobreza multidimensional. Durante o período de quarentena, o Conselho Regional Indígena do Cauca (CRIC) denunciou a repudiação ou o recrudescimento da violência, o assassinato de líderes sociais e a hostilidade contra comunidades indígenas por grupos armados (7). Assim, a Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC) denunciou não apenas a negligência do governo, mas também o ataque físico de forças especiais contra seus territórios, denunciando uma situação de emergência alimentar e humanitária e que pelo menos 80% dos territórios indígenas não receberam a ajuda governamental anunciada (8).

Na VenezuelaEm 10 de maio, foram oficialmente confirmados os primeiros casos de pessoas infectadas com o novo coronavírus no estado do Amazonas, o que reforçou a importância da população indígena. A crise política interna deixou uma grave situação humanitária para a população, sendo os povos indígenas os setores mais vulneráveis ​​de todo o país, tanto pela histórica falta de reconhecimento da posse de suas terras quanto pela pressão para a recolonização da Amazônia venezuelana e de toda a região da Guiana em torno da expansão da mineração de ouro, diamante e coltan, concentrada em megaprojetos. Arco Mineiro do OrinocoO último esforço ocorreu quando, em plena quarentena, o governo nacional determinou como zonas estratégicas para a exploração mineral rios como o Caura, Cuchivero, Aro, Yuruari, Cuyuní e Caroní, vitais para a Amazônia (Resolução nº 0010, de 8 de abril de 2020). Gazeta Oficial extraordinária nº 6.526), ​​representando um enorme perigo para os povos indígenas. O papel intervencionista do governo dos Estados Unidos irá agravar esta situação já delicada.

Como Grupo de Trabalho, reconhecemos que a pandemia da COVID-19 tem sua origem em um sistema de produção e consumo que destrói os ecossistemas da vida humana e denunciamos o efeito genocida das políticas de morte da maioria de dois Estados latino-americanos. Denunciamos também que, desde o início do confinamento global, pelo menos 10 líderes sociais e ativistas foram assassinados na América Latina, seis deles somente na Colômbia(9). Apelamos a todos os povos de Abya Yala para que denunciem esse crime e se unam pela sobrevivência comum. Solicitamos aos Estados que cessem a emissão de novas concessões para extração de petróleo, mineração em larga escala e exploração madeireira enquanto durar o estado de emergência; que apliquem protocolos de distanciamento e confinamento para os trabalhadores dessas indústrias, respeitando também seus direitos trabalhistas; que ativemos protocolos de prevenção e assistência para povos indígenas e negros em estrito diálogo com a organização que representamos e com critérios de interculturalidade; que sejam tomadas medidas para garantir a saúde de todos, sem distinção de classe social, raça, etnia ou nacionalidade; e que cessemos os ataques contra líderes indígenas e negros.

Grupo de Trabalho
Ecologia(s) política(s) de Sul/Abya Yala
14 de maio de 2020

  1. Ver: http://quarentenaindigena.info/apib/ 
  2. Ver: http://apib.info/2020/05/10/carta-final-da-assembleia-de-resiste%cc%82ncia-indigena/ 
  3. Ver: http://conaq.org.br/noticias/manifesto-vidas-quilombolas-importam/ 
  4. Ver: https://www.planv.com.ec/historias/sociedad/esta-la-historia-abuelos-secoyas-que-fallecieron-pro bablemente-covid-19
  5. Ver: https://ddhhecuador.org/sites/default/files/documentos/2020-05/Alerta%2030.pdf
  6. Ver: https://ddhhecuador.org/2020/05/01/documento/alerta-28-se-incrementan-las-amenazas-y-vulnerabilidades-en-torno-la-zona
  7. Ver: https://www.cric-colombia.org/portal/pandemia-lo-que-hay-detras-de-las-cifras-y-los-decretos-del-gobierno/ 
  8. Ver:  https://www.onic.org.co/comunicados-onic/3836-gobierno-de-ivan-duque-incumple-una-vez-mas-a-los-pueblos-indigenas-y-pone-en-riesgo-nuestra-pervivencia-fisica-y-cultural (9) Ver: https://www.dw.com/es/sin-tregua-durante-la-pandemia-asesinatos-de-defensores-en-latinoam%C3%A9rica-no-cesan-en-cuarentena/a-53077770

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