50 ANOS DO GOLPE NA ARGENTINA

Em 24 de março de 1976, a Argentina foi atingida por uma profunda ruptura.

Uma ditadura civil-militar assumiu o poder e, como parte de um plano nacional e regional sistemático, fez desaparecer 30.000 pessoas, roubou identidades, queimou livros, censurou a ciência, interveio nas universidades, destruiu a economia, perseguiu organizações sociais e silenciou vozes.

Durou mais de sete anos.
Suas consequências perduraram por décadas.

As fotos que você está prestes a ver não são apenas ilustrações da história. Elas são a própria história: capturadas no momento, resgatadas do esquecimento, preservadas para que nada disso se perca ou se repita. Nunca mais…

Cinquenta anos depois:

Memória, verdade, justiça e defesa da democracia. Sempre.

GOLPE E REPRESSÃO

Em 24 de março de 1976, as Forças Armadas Argentinas tomaram o poder.

A primeira Junta Militar foi composta pelo General Jorge Rafael Videla (Exército – Presidente), o almirante Emílio Eduardo Massera (Marina) e o brigadeiro Orlando Ramón Agosti (Aeronáutica).

Para os principais meios de comunicação da época, a derrubada do governo constitucional trouxe uma “normalidade total”.

Foto: Arquivo Télam
Jorge Rafael Videla e seu Ministro da Economia José Alfredo Martínez de HozO golpe cívico-militar teve como objetivo impor um plano neoliberal a serviço de grandes grupos econômicos e financeiros e extinguir toda a resistência operária e popular.

Foto: Héctor «Gato» García – Revista Siete Días
O saldo foi devastador: 30.000 pessoas detidas ou desaparecidas, 500 crianças apropriadas por famílias de repressores, mais de 600 centros de detenção clandestinos, 10.000 presos políticos e quase meio milhão de exilados.

Campos de concentração na Argentina 1976-1983

Na Argentina, funcionavam mais de 600 centros de detenção clandestinos. Um dos mais emblemáticos era o Escola de Mecânica da Marinha (ESMA), no coração de Buenos Aires: um lugar onde pessoas foram torturadas, assassinadas e desapareceram.

Victor Melchor Basterra Ele foi sequestrado em 10 de agosto de 1979 e levado para a ESMA, onde permaneceu até 3 de dezembro de 1983. Lá, foi obrigado a trabalhar como escravo no laboratório fotográfico, falsificando documentos para os repressores e retratando pessoas sequestradas que ainda estão detidas e desaparecidas.

Fernando Rubén
DETIDO-DESAPARECIDO

Juan Carlos Chiaravalle
DETIDO-DESAPARECIDO

Alberto Eliseo Donadío
DETIDO-DESAPARECIDO

Alberto Eliseo Donadío
DETIDO-DESAPARECIDO
POSSIVELMENTE LIBERADO

Elsa Garreiro de Villaflor
DETIDO-DESAPARECIDO

Pablo Armando Lepiscopo
DETIDO-DESAPARECIDO

Nora…
DETIDO-DESAPARECIDO
POSSIVELMENTE LIBERADO

…Refrigerante
DETIDO-DESAPARECIDO

Josefina Villaflor
DETIDO-DESAPARECIDO

Fotos por Victor
Basterra –
Instituto de Arquivos
Espaço para o
Memória (IEM)

El Plano Condor Constituiu um sistema de repressão política e terrorismo de Estado coordenado entre as lideranças das ditaduras militares do Cone Sul da América Latina (Argentina, Chile, Bolívia, Brasil, Paraguai e Uruguai) durante as décadas de 1970 e 1980, com o apoio do governo dos Estados Unidos.

Rodadas de Mães e Avós da Praça de Maio

Foto: Arquivo das Mães da Praça de Maio

Em 30 de abril de 1977, as Mães da Praça de Maio iniciaram suas marchas em frente à Casa Rosada, em Buenos Aires. Três delas seriam sequestradas em dezembro daquele ano por uma unidade de comando liderada por Alfredo Astiz: Azucena Villaflor, Mary Ponce de Bianco e Esther Ballestrino de Careaga, juntamente com duas freiras francesas e sete ativistas de direitos humanos.

Marcha em apoio à divulgação do relatório CONADEP
20/9/84 – Foto de arquivo Hasenberg-Quaretti

Marcha Multipartidária pela Democracia, 16 de dezembro de 1982 – Foto: Arquivo Hasenberg-Quaretti

Marcha em apoio à greve de fome de Adolfo Pérez Esquivel, maio de 1983 – Foto: Arquivo Hasenberg-Quaretti
Adolfo Pérez Esquivel, do Serviço de Paz e Justiça para a América Latina, foi sequestrado e torturado pela ditadura militar em abril de 1977, durante 14 meses. Em 1980, recebeu o Prêmio Nobel da Paz por sua defesa dos direitos humanos.

Foto: Arquivo da Associação Civil Avós da Praça de Maio

Foto: Adriana Lestido
Mãe e filha da Praça de Maio

COPA DO MUNDO DE 78 E A GUERRA DAS MALVINAS EM 1982

Foto: Eduardo Di Baia / AP

A Junta Militar celebrou a Copa do Mundo de 1978 no estádio do River Plate, a apenas 25 quarteirões da Escola de Mecânica da Marinha (ESMA), um dos principais campos de tortura e extermínio da ditadura.

O feito histórico da Argentina na Copa do Mundo desencadeou uma campanha internacional denunciando e condenando a ditadura cívico-militar.

Foto: Victor Bugge

Em 2 de abril de 1982, a ditadura militar desembarcou nas Ilhas Malvinas. A rendição em 12 de junho expôs os maus-tratos infligidos pelos oficiais argentinos aos jovens recrutas que lutaram no auge do inverno, com recursos limitados, contra uma das grandes potências ocidentais, a Grã-Bretanha.

As Mães da Praça de Maio denunciaram:

“As Ilhas Malvinas são argentinas, assim como os desaparecidos.”

Foto: Victor Bugge

Foto: Daniel García

ARTE E RESISTÊNCIA NA DEMOCRACIA

Durante a última ditadura cívico-militar, houve um plano sistemático para perseguir a cultura e a educação, que incluía censura e listas negras. Além disso, dezenas de artistas, escritores e professores sofreram sequestros, torturas e desaparecimentos forçados em centros de detenção clandestinos; muitos outros foram forçados ao exílio.

Foto: Ricardo Figueira

Houve queimas em massa de obras literárias (como aconteceu com um milhão e meio de exemplares do Centro Editor de América Latina em um terreno baldio em Avellaneda) sob o argumento de "purificar" a cultura nacional.

Centenas de canções e livros foram proibidos, e foram criadas "listas negras" de intelectuais e artistas, que foram impedidos de trabalhar em meios de comunicação ou teatros oficiais, forçando muitos ao exílio.

Foto: Daniel García

10 de dezembro de 1983 - Retorno à democracia

As eleições de 30 de outubro de 1983 marcaram o início do fim de mais de sete anos e meio de ditadura cívico-militar e o retorno à democracia. Raúl Alfonsín, candidato da União Cívica Radical (UCR), venceu com 51,7% dos votos, contra 40,1% de Ítalo Luder, do Partido Justicialista.

Alfonsín assumiu o cargo em 10 de dezembro de 83, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

Da varanda do Cabildo, diante da transbordante Plaza de Mayo, Raúl Alfonsín declarou: "Viemos acertar as contas com a nação... Estamos começando uma etapa que, embora difícil, é a escolhida pelo povo argentino."

Foto: Eduardo Grossman

JUSTIÇA: CONADEP, NUNCA MAIS, JULGAMENTOS

Pouco depois da posse do presidente Raúl Alfonsín, em dezembro de 1983, foi criada a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP). Seu relatório, conhecido como "Nunca Mais", documentou a existência de centros de detenção clandestinos e um plano sistemático para o desaparecimento forçado de pessoas.

Em 1985, ocorreu o Julgamento das Juntas, no qual os principais líderes das três primeiras juntas militares da ditadura foram levados ao banco dos réus. O julgamento resultou em condenações à prisão perpétua para figuras como Videla e Massera, estabelecendo que a repressão era um plano sistemático organizado pelo Estado.

Foto: Victor Bugge

Após um período de impunidade devido às leis "Ponto Final" e "Obediência Devida" e aos indultos da década de 90, a justiça foi reativada em 2003, quando o Congresso declarou nulas e sem efeito as leis de impunidade; em seguida, em 2005, a Suprema Corte as declarou inconstitucionais. Esses novos julgamentos — que continuam até hoje — estão sendo realizados em todo o país e envolvem responsáveis ​​em todos os níveis: oficiais de patente média, policiais, civis e empresários envolvidos em crimes contra a humanidade.

Foto: Victor Bugge

Foto: Bairros pela Memória e Justiça (Lomas-Lanús)

Foto: Arquivo Nacional da Memória

Foto: Victor Bugge

A IDENTIDADE RECUPERADA

Foto: Arquivo da EAAF

Criada em 1984, a Equipe Argentina de Antropologia Forense (EAAF) é pioneira na aplicação das ciências forenses à investigação de violações dos direitos humanos.

O trabalho deles tem sido fundamental para dar respostas às famílias das vítimas da última ditadura militar. Utilizando técnicas arqueológicas e antropológicas para exumar restos mortais em cemitérios e sepulturas clandestinas, eles buscam identificar os desaparecidos.

Foto: Arquivo Nacional da Memória / EAAF
Foto: Victor Bugge

Os relatórios da EAAF são peças-chave nos julgamentos de crimes contra a humanidade, fornecendo evidências científicas irrefutáveis ​​sobre o destino das vítimas e a metodologia da repressão.

Eles criaram um Banco de Dados Genéticos e estão promovendo campanhas para incentivar as famílias a fornecerem amostras de sangue, para que os perfis de DNA possam ser comparados com os restos mortais encontrados. Seu trabalho permite que as famílias recuperem os restos mortais de seus entes queridos, trazendo paz a processos de luto que permaneceram sem solução por décadas.

Em 2019, a EAAF foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz pela CLACSO e pela Universidade Nacional de Quilmes. Ambas as organizações publicaram um livro para comemorar seus primeiros 35 anos de trabalho.

O prestígio da EAAF é internacional, colaborando em investigações de crimes de guerra e desastres em mais de 50 países.

Foto: Leo Vaca
Estela de Carlotto, Presidente das Avós da Plaza de Mayo, e seu neto Ignacio Montoya Carlotto, neto recuperado em 5 de agosto de 2014

MEMÓRIAS DE ONTEM E DE HOJE

Todo dia 24 de março, desde o retorno à democracia, as marchas se multiplicam nas principais cidades do país, exigindo Memória, Verdade e Justiça.

foto: Agência Telam

Foto: Diário 0223 / Mar del Plata

«A Outra Final: A Partida pela Vida e pelos Direitos HumanosEm 29 de junho de 2008, no Estádio Monumental do River Plate, no 30º aniversário da Copa do Mundo de 78, foi realizado um ato de reparação para as vítimas da ditadura, que incluiu uma volta olímpica das Mães e Avós da Praça de Maio, juntamente com familiares, carregando uma faixa com os rostos dos detidos desaparecidos.

Figuras da equipe campeã de 78 participaram, como Leopoldo Luque, René Houseman e Ricardo Villa, que disputaram uma partida simbólica contra uma equipe formada por ativistas de direitos humanos, sobreviventes e artistas.

Foto: Arquivo do Instituto para o Espaço da Memória (IEM), junho de 2008

Foto: jornal El Ciudadano de Rosário

DIREITO À MEMÓRIA E À RESISTÊNCIA

“Há mais de 45 anos que caminhamos, procuramos e erguemos as bandeiras dos 30.000. Caminhamos mais devagar, é verdade, muitas mães e avós já não estão entre nós, mas somos impulsionados pela força das novas gerações. A memória não se apaga, a verdade é que o nosso grito se repete diariamente, justiça é uma dívida que tem de ser paga…”.

- Nora CortiñasLinha Fundadora das Mães da Praça de Maio

Texto completo e vídeo >>

O pôster CLACSO de Nora Cortiñas, Mães da Linha Fundadora da Plaza de Mayo

A CLACSO agradece aos fotógrafos e instituições que emprestaram seus trabalhos para esta exposição itinerante e ao Instituto Espaço para a Memória.

Produção e direção
Gustavo Lema
Eric Domergue
Sebastião Higa
Noelia Croci
Guido Fontán
Renata Maestrovicente
Christian Iturricha

Direção institucional
Pablo Vommaro (Diretor Executivo)
Gloria Amézquita Puntiel (Diretora Acadêmica)
Gustavo Lema (Diretor de Comunicação e Informação)
Laura Gastón (Diretora de Administração)

Fernanda Pampín (Diretora de Produção Editorial)
Alejandro Gambina (Diretor de Formação e Rede de Pós-Graduação)
Magdalena Rauch (Coordenadora de Pesquisa) 
Nora Goren (Coordenadora da Área de Articulação e Fortalecimento)