“Os feminismos são um ótimo exemplo de trabalho de transformação em nossa América”
Transcrição da coluna de Karina Batthyány
Em InfoCLACSO – 30 de agosto de 2023
Na coluna InfoCLACSO de hoje, vamos nos concentrar no Encontro Feminista Latino-Americano e Caribenho (EFLAC) e no trabalho colaborativo que nós, da CLACSO, desenvolveremos com nossos colegas organizadores do próximo EFLAC. A partir daí, exploraremos as principais preocupações e desafios que o feminismo enfrenta na região atualmente.
A EFLAC é um encontro de mulheres feministas da América Latina e do Caribe, realizado a cada quatro anos. O primeiro encontro aconteceu no Brasil, em 1985, por volta da época da Conferência de Pequim. Esses encontros proporcionam espaços de colaboração, debate e diálogo entre mulheres de diferentes países, com diversas experiências e perspectivas. Eles têm sido cruciais para moldar a agenda feminista em nível regional, abordando temas como violência de gênero, direitos sexuais e reprodutivos, participação política das mulheres, economia feminista, trabalho de cuidado, meio ambiente e migração, entre outros. Em última análise, essas são questões fundamentais para o feminismo em nossa região hoje.
Os Fóruns Feministas da América Latina e do Caribe (EFLAC) são um fórum para coordenar as lutas feministas nos diferentes países da nossa região, principalmente para construir uma agenda regional comum. Esses encontros resultaram na adoção de declarações e resoluções para a implementação de políticas públicas que promovam a igualdade de gênero nos países da América Latina e do Caribe. Eles também servem como ponto de encontro e espaço de formação para jovens mulheres e feministas emergentes, facilitando a troca de conhecimentos e experiências entre mulheres e feministas de diferentes gerações.
Este importante espaço para a construção de consenso é fundamental para alcançar um movimento feminista regional forte e bem organizado. É um local de discussão, debate e ação, que possibilita o progresso rumo à igualdade das mulheres na América Latina e no Caribe. Além disso, deve ser compreendido no contexto do papel que o movimento feminista desempenha hoje, considerando as diversas perspectivas feministas em nossa região: um papel fundamental, de liderança constante e indispensável na garantia dos direitos das mulheres.
O movimento feminista fez progressos significativos nos últimos anos em diversas áreas, incluindo educação, saúde, política, economia e cultura. Por exemplo, na arena política, as mulheres de fato conquistaram acesso a cargos públicos e posições de tomada de decisão. Talvez menos do que gostaríamos, mas houve progresso em nossa região, e é graças a essas lutas feministas que políticas públicas como as leis de cotas para a participação política foram implementadas.
Tem sido fundamental também na área da violência de gênero, através da discussão, aprovação e implementação de leis e políticas específicas para a sua erradicação. E no local de trabalho, desempenhou um papel crucial com todas as leis que visam garantir a igualdade de oportunidades no emprego remunerado.
No campo da economia, houve avanços na eliminação da discriminação de gênero no ambiente de trabalho, visando abordar, demonstrar e tentar superar a disparidade salarial que ainda persiste entre homens e mulheres em nossa região. Outra questão muito importante é a forma como a violência se desenvolve no ambiente de trabalho, especificamente o assédio moral e o assédio sexual contra mulheres.
Entretanto, no campo da cultura, podemos encontrar grandes conquistas, como a participação ou maior representação das mulheres hoje na mídia, na literatura, na arte, na música e na cultura em geral, trabalhando para quebrar estereótipos de gênero e tornar visíveis as experiências, visões e vozes das mulheres.
O movimento feminista fez progressos significativos na garantia de direitos e na criação de espaços para a participação e presença das mulheres. No entanto, o Encontro Feminista Latino-Americano e Caribenho também enfrentará desafios relacionados ao gênero, visto que a América Latina continua sendo uma das regiões com os maiores índices de violência de gênero no mundo, onde as mulheres são vítimas de violência física, sexual, psicológica e econômica.
Na EFLAC, a representação política será debatida, visto que as mulheres ainda têm baixa representatividade política na região, estando sub-representadas nos governos da América Latina e do Caribe. Em média, apenas 25% das cadeiras nos parlamentos nacionais são ocupadas por mulheres em nível regional.
A questão da desigualdade e da pobreza também estará na agenda, visto que as mulheres na América Latina têm maior probabilidade de cair na pobreza do que os homens. Antes da pandemia, em 2019, 22% das mulheres viviam em situação de pobreza, em comparação com 15% dos homens. Além disso, a saúde será uma área fundamental de discussão, debate e ação na EFLAC, particularmente no que diz respeito à saúde sexual e reprodutiva e à assistência específica à saúde da mulher.
Existe um desafio adicional em nossa região relacionado à resistência e à reação que grupos conservadores têm apresentado em relação ao avanço do movimento feminista e ao progresso na conquista dos direitos das mulheres, como, por exemplo, o direito ao aborto, a igualdade salarial e o reconhecimento dos direitos de mulheres lésbicas, bissexuais e transgênero.
– É impressionante como as questões relacionadas ao feminismo, tal como concebido pela academia e pelos movimentos sociais na América e no Caribe, estão fortemente interligadas…
Esta é talvez uma das áreas onde melhor podemos observar a conexão entre conhecimento, academia e movimentos e organizações sociais, que por sua vez impacta as políticas públicas. Nesse sentido, os feminismos, particularmente as ações do movimento feminista na América Latina e no Caribe, são um grande exemplo a partir do qual devemos continuar a trabalhar e aprofundar nossa compreensão para encontrar oportunidades de transformação da nossa América.
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