Literatura antecipatória em tempos de pandemia

 Literatura antecipatória em tempos de pandemia

Maria Fernanda Pampín

Anotações para refletir sobre uma possível narrativa.

“O velho mundo está morrendo. O novo demora a aparecer. E nesse crepúsculo, monstros emergem”, disse certa vez Antonio Gramsci. Até recentemente, as distopias eram um gênero literário que evocava outros mundos nos quais não queríamos viver, situados em futuros distantes no tempo e no espaço. Atualmente, porém, a distopia parece ser o gênero escolhido para refletir sobre nossas múltiplas (e altamente globalizadas) realidades.

Nos últimos meses, muitos dos medos e suspeitas baseados na hipertecnologia, em catástrofes financeiras, fomes, isolamento social, desastres ecológicos, nos efeitos da biopolítica e nos sistemas contemporâneos de controle social, se instalaram em nossas realidades diárias, que foram completamente alteradas pela experiência da pandemia de COVID-19 que afeta o mundo inteiro.

Como forma de interpretar o presente, ainda mais aprisionados em nossos próprios mundos e individualismos sombrios, construímos diariamente narrativas distópicas e/ou apocalípticas sobre o mundo que nos cerca e tanto nos assusta. Fazemos isso para evidenciar o fracasso de nossas sociedades e o desespero que caracteriza o conflito deste momento histórico, mas também para considerar possíveis modos de vida pós-pandemia, cujo fim permanece incerto. Vivemos tempos sem precedentes, desprovidos de certezas.

Como se vivêssemos em um mundo de ficção científica, mas do qual fazemos parte, as notícias jornalísticas sobre a pandemia são acompanhadas simultaneamente por relatos de tsunamis cósmicos, chuvas de meteoros, protocolos contra possíveis invasões de OVNIs, asteroides que tangenciam a Terra e até mesmo a descoberta de universos paralelos onde o tempo corre ao contrário; e, talvez sem intenção, cruzamos e repensamos os limites permeáveis ​​e abertos dos gêneros em termos de literaturas antecipatórias para explicar aquilo que ainda não somos capazes de compreender.

Como narrar os sintomas desta era que se desvanece no ar, o fim do mundo conhecido (ou de seus modelos obsoletos)? Ao mesmo tempo, é legítimo questionar como narrar o que é ficção dentro da realidade — e vice-versa — assim como questionamos o que é verossimilhança e como ela é construída hoje. Contudo, embora ainda seja cedo para teorizar sobre seus efeitos na literatura, se há algo de que podemos ter certeza, é que haverá uma maior presença de narrativas especulativas e uma mudança no imaginário coletivo. Que mundos, que multiversos, seremos capazes de imaginar após a experiência da pandemia? Porque, com o passar do tempo, o mundo se tornou imprevisível: o que antes considerávamos improvável agora se tornou possível.

Não podemos prever quais cenários (novas cartografias, novas formas de habitar o mundo), quais subjetividades (novas relações com os corpos e o surgimento de outras sensibilidades) ou quais formas de sobrevivência os escritores imaginarão no futuro pós-pandemia, mas temos certeza de que essa situação extrema nos permite, ao menos, especular sobre uma narrativa potencial.

Se o mundo que conhecemos desaparecer diante de nossos olhos, então teremos que aprender a ver e sentir o mundo de uma nova maneira. Precisamos reinterpretar a complexidade e a (des)continuidade das múltiplas realidades e das diversas sociedades em que vivemos para reescrever o futuro. Será isso possível? Um mundo desejável que nos afaste desta distopia sombria e em tempo real, permitindo-nos imaginar um futuro diferente, talvez como uma estratégia para romper com a crueldade do capitalismo, um futuro onde vislumbramos outra ordem política, mais coletiva e menos individualista, novas configurações de espaço e tempo, e outras formas de organização social — mais solidárias, menos desiguais e destrutivas — para toda a humanidade.


Subdiretora de Publicações do CLACSO. Pesquisadora do Instituto de Literatura Latino-Americana (Universidade de Buenos Aires).


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