A privatização das universidades na América Latina e no Caribe: Colonização da esfera pública e direitos em questão

 A privatização das universidades na América Latina e no Caribe: Colonização da esfera pública e direitos em questão


Seminário 2613

Coordenação: Daniela Atairo (UNLP, Argentina) e Fernanda Saforcada (UBA e ONU, Argentina)

Equipe Docente: María Yamile Socolovsky (UNLP, Argentina) e Lúcia Trotta (FaHCE – UNLP, Argentina)

Início: 17/09/2026 | Inscrição: 06/07/2026 a 16/09/2026

Carga horária: 10 semanas – 90 horas.


Os sistemas universitários da América Latina e do Caribe (ALC) constituem um dos territórios em que se desenrola uma disputa substancial sobre o significado da universidade, do conhecimento e da esfera pública.

A extraordinária expansão dos sistemas de ensino superior (ES) que caracterizou a região nas últimas décadas – mesmo com a persistência de fortes desigualdades – no âmbito da definição de ES como um bem público social, um direito humano universal e um dever do Estado (CRES, 2008), contrasta com a privatização desses sistemas, não apenas por uma maior oferta do setor privado, mas também por novas modalidades que envolvem a introdução de uma lógica de mercado na esfera pública, bem como a presença de novos atores que contestam o significado do ES.

O seminário visa abordar diversas dimensões da privatização universitária, algumas mais tradicionais, refletindo uma região "hiperprivatizada", e outras como: a privatização das políticas públicas, as parcerias público-privadas, os novos modelos de financiamento e a apropriação de recursos públicos, as novas formas de governança e gestão, o modelo produtivista na pesquisa, a precariedade dos cargos docentes e a captura do poder de decisão pública. Isso nos leva a propor a ideia de privatização como a colonização da esfera pública.

Propõe-se uma perspectiva comparativa que reconhece tendências gerais na região, mas formatos específicos de implementação em casos nacionais.

Desde suas origens, a universidade latino-americana assumiu características particulares. Baseada em experiências institucionais dispersas, um arcabouço com elementos comuns emergiu gradualmente, definindo um modelo universitário regional, ainda que com manifestações distintas em cada país. As características desse modelo se fundamentam em instituições públicas; autonomia, um atributo que tendeu – mesmo com muitas interrupções – a moldar sua relação com o Estado; uma abordagem de “portas abertas” que possibilitou processos significativos de mobilidade social em diversos países; e reformismo. Ou seja, um modelo de universidade autogovernada, onde estudantes, graduados, docentes e funcionários não docentes participam de uma forma de cogovernança; e uma instituição altamente politizada, com forte compromisso com questões sociais, que fomentou um papel importante para o movimento estudantil na arena política. A universidade latino-americana, portanto, serviu como fator democratizador na vida política dos países da região, contribuindo para o fortalecimento da esfera pública em sociedades onde as democracias eram precárias e instáveis ​​(Krotsch, 2001). Essa identidade foi desafiada repetidamente por meio de reformas impulsionadas por governos dentro da estrutura de diretrizes promovidas por organizações financeiras internacionais, por meio da criação de modelos institucionais alternativos e, mais recentemente, por meio de fortes processos de privatização e mercantilização.

No século XXI, ocorreram dois processos concomitantes: por um lado, houve uma redefinição do significado da universidade que contribuiu para a sua democratização, promovida tanto pelo reconhecimento do ensino superior como um bem público social, um direito humano universal e um dever do Estado (CRES 2008), quanto pelas políticas desenvolvidas no âmbito dos governos pós-neoliberais, voltadas para a ampliação do acesso e o fortalecimento do setor público no ensino superior regional. Mas, ao mesmo tempo, grande parte da expansão do acesso ao ensino superior na região se deu por meio do setor privado, que aumentou sua participação nas matrículas em termos absolutos e relativos, chegando a representar mais de 50% a partir de 2003. Isso posiciona a América Latina e o Caribe como a região em que a privatização e a mercantilização do ensino superior cresceram de forma mais aguda e sustentável nas últimas décadas, conferindo-lhe o caráter de “hiperprivatizada” (Atairo, Trotta e Saforcada, 2025), não apenas porque mais de 50% de suas matrículas (54%), seus graduados (59%) e suas instituições (67%) pertencem ao setor privado, mas também porque há uma clara tendência de crescimento sustentado do setor, tanto em países com sistemas altamente privatizados quanto naqueles com forte tradição do setor público.

Os últimos anos foram caracterizados por oscilações pendulares nos governos da região, que expressam modelos sociais concorrentes e que, em muitos casos, envolveram um ciclo de restauração conservadora que trouxe novo ímpeto ao reaparecimento do mercado como organizador do social, estabelecendo fortes disputas de significado em torno da educação e o surgimento de novas formas de privatização.

Nesse sentido, é necessário desenvolver análises críticas das lógicas subjacentes à privatização e à mercantilização da economia social na região, a fim de ajudar a esclarecer os processos que contribuem para o empobrecimento da esfera pública e o enfraquecimento dos bens comuns.

A proposta surge da convicção da necessidade de construir pontes de diálogo entre a produção de conhecimento sobre a universidade e as políticas públicas e institucionais, bem como com a formação de professores, a fim de aprimorar nossas práticas em um sentido político-pedagógico e, a partir daí, construir mecanismos para a ação coletiva e o desenvolvimento de projetos autônomos e soberanos.

OBJETIVO GERAL:

Analisar, sob uma perspectiva crítica, os processos de privatização da e na universidade, a fim de contribuir para a compreensão das atuais disputas em torno da universidade latino-americana.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS:

  •  Problematizar as diferentes dimensões dos processos de mercantilização e privatização do ensino superior.
  •  Compreender as tendências de privatização e mercantilização que prevalecem na região, bem como as formas locais que assumem em diferentes casos nacionais.
  • Identificar os atores que impulsionam os processos de privatização e suas estratégias locais.
  • Analise o papel do Estado e das políticas públicas em cada caso nacional.
  • Compreender as mudanças e os desafios que as instituições universitárias e seus atores enfrentam diante do questionamento da expansão dos direitos que a mercantilização e a privatização do ensino superior acarretam.
  • Perspectivas teóricas e metodológicas para a análise da privatização universitária.
  • A privatização do ensino superior numa perspectiva regional e o direito em questão.
  • Privatização de recursos públicos por meio de financiamento da demanda
  • Parcerias público-privadas e a virtualização da educação
  • Privatização simbólica: a ideia da universidade como empresa e a centralidade da gestão universitária.
  • Privatização e mercantilização na pesquisa: a centralidade do modelo produtivista
  • A precarização do trabalho docente universitário como dimensão do processo de privatização
  • A colonização da esfera pública: a privatização como estratégia política.
  • Ball, Stephen (2014). Globalização, mercantilização e privatização: tendências internacionais na educação e na política educacional. Arquivos de Análise de Políticas Educativas, 22(1).
  • Krotsch, Pedro. (1993). A universidade argentina em transição: do Estado para o mercado? Revista Sociedad, (3), 5-29.
  • Moschetti, Mauro; Fontdevila, Clara e Verger, Antoni (2017). O que é privatização educacional? Conceitos e definições sobre privatização no campo da educação. In Manual para o estudo da privatização na educação. Universidade Autônoma de Barcelona / Internacional da Educação.
  • Gentili, Pablo (org.) (1997). Adeus à escola pública. Desordem neoliberal, violência de mercado e o destino da educação para a maioria. In Cultura, política e currículo. Ensaios sobre a crise da escola pública. Buenos Aires: Losada.  
  • Verger, Antoni (2013). Políticas de mercado, Estado e universidade: rumo a uma conceitualização e explicação do fenômeno da mercantilização do Ensino Superior. Journal of Education, (360). Janeiro-Abril de 2013, pp. 268-291.
  • Whitty, Geoff (1984). A privatização da educação. Liderança Educacional, 41(7), 51-54.
  • Levy, Daniel (1991). Avaliação de universidades privadas na América Latina: uma perspectiva comparativa da República Dominicana. Ciência e sociedade, 16(1), 57-90.  
  • Rama, Claudio (2017). A nova fase da educação privada na América Latina. Buenos Aires: Teseo / UAI.  
  • Trotta, Lucía; Saforcada, Fernanda. (2024). A universidade latino-americana em tensão: entre estratégias de privatização e disputas em torno de direitos. In Martín Unzué, Karina Batthyány e Pablo Vommaro (orgs.), A universidade latino-americana entre mercantilização, direitos e avaliação. Prêmio Pedro Krotsch 2023. (pp. 121-179) Buenos Aires: CLACSO.
  • Atairo, Daniela; Trotta, Lucía e Saforcada, Fernanda (2023). A privatização da universidade latino-americana e os mecanismos de financiamento como estratégia política. Um estudo de caso. Revista Espanhola de Educação Comparada, (42), 261–283.
  • García de Fanelli, Ana María (2019). O financiamento do ensino superior na América Latina: tendências e instrumentos de financiamento. Propuesta Educativa, 28(52), 111-126.
  • García Guadilla, Carmen (junho de 2007). Financiamento do ensino superior na América Latina. Sociologias, (17).
  • Atairo Daniela (2022) Tendências na privatização do ensino superior durante a pandemia: o papel das organizações internacionais e dos agentes tecnológicos na América Latina e no Caribe. In: Saforcada, F., Atairo, D., e Trotta, L. (2022) A privatização da universidade na América Latina e no Caribe. Cidade Autônoma de Buenos Aires: CLACSO; IEC-CONADU (Que se pinte de pueblo).
  • Observatório Latino-Americano de Políticas Educacionais [OLPE] (2022) Organizações internacionais e políticas globais orientadas para a participação privada no setor educacional. Soma das ameaças ao direito à educação. In: Saforcada, F., Atairo, D., e Trotta, L. (2022) A privatização da universidade na América Latina e no Caribe. Cidade Autônoma de Buenos Aires: CLACSO; IEC-CONADU (Que se pinte de pueblo).
  • Rama, Claudio e Cevallos Vallejo, Marcelo (2015). A metamorfose da educação a distância na América Latina. Uma nova fase marcada pela entrada de provedores internacionais. Revista Espanhola de Educação Comparada, (26), 41-60. 
  • Acosta Silva, Adrián; Atairo, Daniela e Camou, Antonio (2015). Governança e democracia na universidade pública latino-americana: Argentina e México em perspectiva comparada. Buenos Aires: CLACSO.
  • Ibarra Colado, Eduardo (abril-junho de 2005). Origem do empreendedorismo da universidade: o passado da gestão empresarial no presente da gestão universitária. Revista de Ensino Superior, 34(134), 13-37.
  • Krotsch, Pedro (1997). O peso da tradição e as tendências recentes de privatização na universidade argentina: rumo a uma relação público-privada. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior, 2(4), 31-43.
  • Acosta Silva, Adrián; Atairo, Daniela e Camou, Antonio (2015). Governança e democracia na universidade pública latino-americana: Argentina e México em perspectiva comparada. Buenos Aires: CLACSO.
  • Ibarra Colado, Eduardo (abril-junho de 2005). Origem do empreendedorismo da universidade: o passado da gestão empresarial no presente da gestão universitária. Revista de Ensino Superior, 34(134), 13-37.
  • Krotsch, Pedro (1997). O peso da tradição e as tendências recentes de privatização na universidade argentina: rumo a uma relação público-privada. Avaliação: Revista da Avaliação da Educação Superior, 2(4), 31-43.
  • Socolovsky, Yamile (2016). “Igualdade na universidade: uma tarefa sindical”, em Retratos da Escola, Brasília, v.10, n.18, p. 321-328
  • Stevenson, Howard e outros (2025). No olho do furacão. Ensino superior em tempos de crise, Internacional da Educação.
  • Walker, Verónica (2024). “Do que falamos quando falamos de precariedade?: um olhar sobre as condições de trabalho do ensino universitário em perspectiva regional” em Cabrera, Cano, Fanchineti e Marrero (orgs.), Precariedade do trabalho docente, privatização do ensino superior e defesa da universidade pública, Montevidéu: ADUR
  • Atairo, Daniela; Trotta, Lucía e Saforcada Fernanda (2025). A colonização da esfera pública. Privatização da universidade na América Latina e no Caribe. Instituto de Estudos e Formação – Federação Nacional de Professores Universitários (IEC - CONADU). Introdução e Conclusões.
  • Ball, Stephen J. (2022). Dinheiro ou ideias: a luta por significado na universidade neoliberal. Integração e Conhecimento, 11(2), 98-110. Introdução e conclusões
Inscrições antecipadas (até 10/08) Inscrição geral (11)/08 a 10/09) Inscrição sem desconto (11/09 a 16/09)
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*Ao se inscrever nesta atividade de treinamento, você receberá 3 meses de acesso com desconto, sem custo algum. Sala de aula CLACSOAcesso ilimitado a todo o conteúdo.

Perguntas frequentes

Os requisitos básicos para participar de um seminário são:

  • Disponibilidade de pelo menos 4 horas por semana para se dedicar ao curso do seminário.
  • Acesso à Internet.
  • Domínio adequado das ferramentas de comunicação e informática.
  • Proficiência no idioma em que o curso será ministrado. Os idiomas oficiais são o espanhol e o português.

Os seminários têm duração de 10 semanas, além da conclusão de um projeto final. Um total de 90 horas de dedicação será creditado.

O curso é composto por dez aulas, cada uma acompanhada de bibliografia obrigatória, bibliografia complementar, fóruns de discussão e atividades de formação propostas pela equipe docente, trabalhos parciais e um projeto final.
O curso é online e assíncrono. Alguns instrutores podem propor atividades síncronas. Nesses casos, a data e o horário serão combinados previamente entre os instrutores e os alunos para garantir a participação de todos. A presença nas sessões síncronas não é obrigatória.
Para ser aprovado no seminário, você deve participar de pelo menos 80% dos fóruns de discussão e atividades propostas pelos professores, ter concluído as entregas parciais programadas e ser aprovado no trabalho final.

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