A necessidade e a urgência de um país para poucos

 A necessidade e a urgência de um país para poucos

El Grupo de Trabalho da CLACSO sobre Memórias Coletivas e Práticas de Resistência O texto expressa sua rejeição ao Decreto de Necessidade e Urgência e ao Projeto de Lei Omnibus apresentados pelo presidente Javier Milei, que em menos de um mês de governo pretende lançar as bases de um projeto político autoritário e excludente na Argentina.

Dias após assumir o cargo, ele assinou um Decreto de Emergência, instrumento constitucional destinado apenas a circunstâncias excepcionais e específicas que não existem atualmente na Argentina. Com esse decreto, o presidente Milei, apenas com sua assinatura, revoga ou modifica mais de 360 ​​leis e regulamentos do sistema democrático que foram devidamente votados pelo Congresso e debatidos pela sociedade argentina: da Lei do Aluguel e legislação trabalhista às restrições à compra de terras por investidores estrangeiros.

Em conformidade com o Decreto de Emergência, o governo apresentou recentemente um projeto de lei conhecido como “Lei Omnibus”, que declara “estado de emergência pública” e propõe delegar amplos poderes legislativos ao Poder Executivo por um período de dois anos, renovável por até quatro. Dessa forma, Milei busca neutralizar o papel do Congresso, violando a separação de poderes consagrada na Constituição. Se aprovado, o Poder Executivo concentraria todo o poder público e, a seu exclusivo critério, poderia suspender direitos fundamentais e leis que expressam consenso democrático. Mas, além dessa concentração de poder na presidência, as instituições democráticas e os direitos humanos estão seriamente ameaçados pelo conteúdo das reformas incluídas no projeto de lei. A iniciativa do governo incorpora uma série de modificações no Código Penal que aumentam as penas e o escopo da punição para aqueles que participam, convocam ou organizam manifestações, estipulando penas de prisão de dois a seis anos. Modifica também o conceito de “legítima defesa”, ampliando a discricionariedade dos policiais no uso da força. Ao quadro repressivo e persecutório soma-se uma reforma trabalhista que, na prática, neutraliza o direito à greve, revoga leis ambientais que protegem florestas e geleiras, promove uma mudança biológica nas questões de gênero e inclui um pacote de privatização de 41 empresas estatais, entre elas as estratégicas e lucrativas empresas de energia e telecomunicações YPF, Atucha e ARSAT. A lista de privatizações inclui ainda todos os meios de comunicação públicos e o desmantelamento de instituições culturais como o INCAA (Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais) e o Fundo Nacional de Artes. O projeto busca mercantilizar todos os aspectos da vida comunitária. Juntamente com o desmantelamento do Estado, promove a desregulamentação econômica em benefício de um punhado de corporações, estrangeiriza a economia e condena as classes média e trabalhadora a um empobrecimento brutal.

Ao pacote de medidas incluído no DNU e no Projeto de Lei Omnibus, é necessário acrescentar o protocolo "para a manutenção da ordem pública" apresentado pela Ministra da Segurança, Patricia Bullrich, que estabelece regras de atuação policial visando à repressão de protestos e à perseguição de líderes sociais, numa clara tentativa de disciplinar as reivindicações contra o governo.

Apesar dessa demonstração intimidatória, o povo argentino respondeu com protestos massivos, panelas batendo e uma greve nacional, com uma manifestação planejada para 24 de janeiro na Plaza Congreso. A mensagem é clara e direcionada aos parlamentares que têm o poder de rejeitar o Decreto de Emergência e a exigência de Milei de aprovar a Lei Omnibus e a delegação de poderes extraordinários sem debate.

Outra via institucional que conseguiu conter a ameaça à democracia foi o sistema judicial, onde os processos judiciais movidos pelas duas principais centrais sindicais – CGT e CTA – resultaram em liminares que suspenderam a parte do Decreto de Emergência (DNU) relacionada às reformas trabalhistas. No entanto, é importante ressaltar que o restante do decreto permanece em vigor, pois a Suprema Corte decidiu analisar a questão de mérito, ou seja, sua constitucionalidade, após o recesso judicial de janeiro.

Entretanto, a forte desvalorização do peso triplicou as taxas de inflação e agravou a situação das já fragilizadas classes média e trabalhadora, que suportam o peso de um brutal programa de austeridade. Valendo-se de sua legitimidade eleitoral, a estratégia de Milei foi "apostar tudo", impondo um programa de reformas neoliberais cujas medidas foram apresentadas como inevitáveis. Contudo, nesse cenário, também vislumbramos uma oportunidade: a organização resiliente dos vastos setores sociais afetados e a possibilidade de construir pontes entre diversas lutas, organizações e agendas para exigir que senadores e deputados legislem em favor da maioria. São momentos decisivos para uma democracia cuja fragilidade é evidente. Nos solidarizamos com o povo argentino e renovamos nossa fé nele, em sua tradição coletiva, em sua experiência de luta e em sua memória resiliente.

11 de Janeiro de 2024
Grupo de Trabalho CLACSO
Memórias coletivas e práticas de resistência

Esta declaração expressa a posição do Grupo de Trabalho. Memórias coletivas e práticas de resistência e não necessariamente a dos centros e instituições que compõem a rede internacional da CLACSO, seu Comitê Diretivo ou seu Secretariado Executivo.