“A divisão sexual do trabalho continua a operar com muita força na América Latina e no Caribe.”

 “A divisão sexual do trabalho continua a operar com muita força na América Latina e no Caribe.”

Transcrição da Coluna de Karina Batthyány
en InfoCLACSO – 19 de julho de 2023

Hoje, falaremos sobre infância e juventude em relação a uma das dimensões que estruturam nosso trabalho nas Plataformas para o Diálogo Social (PDS), que são as desigualdades, onde temos a dimensão geracional, mas que se cruza com a dimensão de gênero, a dimensão territorial, aquela ligada aos processos de democracia e participação política e social dos jovens e ao reconhecimento de direitos.

Em resumo, estamos trabalhando em torno do tema central da desigualdade, que fundamenta nosso projeto Plataformas para o Diálogo Social na CLACSO. Antes de mais nada, a centralidade dessa questão é muito clara, assim como a necessidade de que todas as vozes sejam incluídas na discussão em torno dela.

Quando digo todas as vozes, refiro-me ao conhecimento em suas múltiplas formas: políticas públicas, movimentos sociais e organizações. Particularmente na área da infância e juventude, é fundamental que essas vozes estejam presentes, sejam expressas, ouvidas e causem impacto. E é isso que está acontecendo no âmbito da 5ª Bienal Latino-Americana e Caribenha, com diversos mecanismos de diálogo, painéis, interação e representações culturais para demonstrar a importância desse tema.

– Qual a importância de situar e abordar a tarefa do cuidado na V Bienal para a Nossa América?

– Em primeiro lugar, estamos levantando a questão do trabalho de cuidado para discutir as desigualdades de gênero, mas também as desigualdades sociais no sentido mais amplo. Em segundo lugar, acreditamos que isso oferece um caminho para o futuro em termos de novas propostas de organização social mais inclusivas, justas e democráticas, e que falar sobre trabalho de cuidado significa falar sobre tudo isso.

É importante também discutir a profunda transformação cultural de que a América Latina e o Caribe precisam, uma transformação que reconheça a importância do cuidado com a vida. A pandemia demonstrou isso de forma muito clara: sem cuidado, não há vida.

Além disso, a divisão sexual do trabalho continua muito presente na América Latina e no Caribe, determinando que, ao longo de toda a vida, sejamos as mulheres que cuidam de tudo: cuidando de nossos filhos, nossas filhas, nossos pais, nossas mães, enfim, da esfera doméstica e privada.

Não devemos normalizar esta situação e pensar que “sempre foi assim”. Vocês, homens, também têm muito a contribuir na área do cuidado, e precisamos redistribuir a esfera privada no que diz respeito às responsabilidades de cuidar. Isso também possui uma dimensão política fundamental para a transformação: a possibilidade de gerar políticas públicas transformadoras baseadas no potencial político da vida cotidiana, mas também dentro do contexto mais amplo da estrutura social.

– Qual foi a importância da reunião de cúpula entre a União Europeia e a CELAC?

– Como CLACSO, participamos, juntamente com a sociedade civil e a academia, no espaço que antecedeu o início da Cúpula de Presidentes da União Europeia e da CELAC, onde os temas mencionados estiveram em discussão.

Realizamos diversas reuniões de trabalho sobre como promover uma sociedade do cuidado na América Latina e no Caribe com os aliados estratégicos da CLACSO em nível regional, como a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), em particular sua Divisão de Assuntos de Gênero, a ONU Mulheres e a Oxfam. Na Cúpula, analisamos o progresso alcançado e as conquistas em nível regional.

A questão ganhou visibilidade, o que significa que 18 países da nossa região estão agora a debater o trabalho de cuidado, tendo sido registados alguns progressos em termos de regulamentação e políticas. Além disso, as discussões centraram-se em estratégias para colocar o trabalho de cuidado no centro do discurso público e nos recursos necessários para que isso aconteça.

– Novas reuniões estão a caminho da América do Sul, América Central e outros lugares…

– Sim, com certeza. É, de certa forma, o eixo estruturante das nossas ações na CLACSO nos últimos anos. Vamos dar continuidade ao ciclo das Plataformas de Diálogo Social (PDS), expandindo o Ciclo 40-50-50 com um novo capítulo sobre o tema das democracias, especificamente a direita na América Latina e no Caribe. Este capítulo acontecerá em Montevidéu, Uruguai, com um seminário que discutirá o papel da nova direita na nossa região atualmente. Também dentro do âmbito desta iniciativa 40-50-50, temos o capítulo do Chile, correspondente a setembro de 2023, onde realizaremos diversas atividades em formato de fórum.

Além disso, há outras atividades na agenda relacionadas à migração, meio ambiente e mudanças climáticas. Este evento em particular acontecerá na América Central, mais especificamente em Honduras. Sempre vislumbramos um instrumento concebido para promover o diálogo social na América Latina e no Caribe, partindo da convicção de que é por meio dessa interação entre a academia, os movimentos sociais e as políticas públicas que podemos ter um impacto real e gerar transformações rumo a sociedades mais democráticas, justas e inclusivas para nossa região.

Entrevista concedida a Gustavo Lema.


Transformando os contextos de vida de crianças e jovens: V Bienal Latino-Americana e Caribenha sobre primeira infância, infância e juventude


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