História recente, usos públicos do passado e ação coletiva.
Seminário 2307
Cadeira: CLASSO
Coordenação: Ana María Barletta e Emmanuel Kahan (Universidade Nacional de La Plata, Argentina)
Home: 23 / 03 / 2023 | Registo: 15/12/2022 al 22/03/2023
Carga horária: 12 semanas – 90 horas.
Este curso visa abordar e problematizar uma série de experiências relacionadas à forma como os grupos sociais se lembram do passado em relação às lutas e aos problemas da atualidade. Ao fazê-lo, busca refletir sobre como esses grupos se lembram e como essas memórias, vinculadas às narrativas da agenda pública contemporânea, moldam os horizontes de expectativa no mundo contemporâneo. Nesse sentido, essas perspectivas, que se baseiam em uma complexa rede de questões conceituais e referências empíricas, tentarão reconstruir uma ordem temporal ligada a três estágios do processo político latino-americano: o tempo da rebelião, o tempo da repressão e o tempo da restauração da estabilidade democrática.
Entendemos que a memória de eventos passados é fundamental para a construção do nosso presente e futuro e, como tal, essencial como ponte política para a construção de uma sociedade mais igualitária e democrática. Portanto, exploraremos as alternativas, complexidades e pluralidades de diferentes perspectivas e experiências que envolvem os debates sobre o uso público do passado e sua integração à ação coletiva. Uma dessas dimensões será, naturalmente, a perspectiva de gênero e a da cidadania inclusiva, que se mostraram altamente produtivas e inovadoras nas ruas da nossa região nos últimos tempos. Este curso visa contribuir para a construção de novos entendimentos comuns dentro das subjetividades do presente, recuperando a natureza radical de passados truncados e futuros possíveis, em uma era tão ameaçada pela nova direita e pela ascensão de discursos regressivos, discriminatórios e intolerantes contra os movimentos sociais e os direitos humanos e, consequentemente, contra a existência de uma democracia substancial para o nosso povo.
OBJETIVO GERAL
Que os alunos possam:
● Compreender os debates contemporâneos sobre a construção da história recente, seus desafios e seu envolvimento nos conflitos do mundo atual, a fim de promover pontes políticas entre passados catastróficos, seu impacto e a demanda social que persiste no presente por sua compreensão.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Que os alunos possam:
● Refletir criticamente sobre as ligações conceituais, culturais e políticas entre o processo de “explosão da memória” no mundo contemporâneo e, assim, ser capaz de vincular esse problema — para além da sua esfera pessoal — à compreensão e ao tratamento das suas próprias questões e preocupações relacionadas com as suas histórias nacionais e regionais.
● Acesso a uma visão geral das diferentes dimensões envolvidas na construção da história recente e seus usos públicos: o Estado, as organizações sociais, os julgamentos, os espaços de memória, os arquivos, o conhecimento científico.
● Refletir sobre as diferentes dimensões da demanda social por reconhecimento e reparação levantada por vítimas, familiares e sobreviventes de eventos catastróficos. Avançar na compreensão das implicações políticas dessa demanda para a construção de uma democracia substancial.
● Adquirir ferramentas históricas e conceituais para participar em processos de transmissão de memórias em diferentes contextos institucionais e educativos.
- HISTÓRIA E MEMÓRIA RECENTES. O ciclo de rebelião, repressão e democracia.
- ESTADO, ORGANIZAÇÕES DE DIREITOS HUMANOS E AÇÃO COLETIVA. O consenso sobre direitos humanos nas democracias contemporâneas.
- Comissões da Verdade e Políticas de Reparação. Investigando a verdade e reparando os danos.
- JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO - REPARAÇÕES. Reconhecimento da condição de vítima, discurso humanitário e diferentes formas de acesso à justiça.
- PROCESSOS LEGAIS E VERDADE HISTÓRICA. Processos legais e responsabilidades relacionadas a violações de direitos humanos.
- ANTROPOLOGIA FORENSE. Seu papel na identificação de vítimas de genocídio.
- LOCAIS DE MEMÓRIA. Espaços, territórios e lugares de memória. Ensino de “histórias extremas”.
- EDUCAÇÃO E MEMÓRIA. Transmissão histórica e intergeracional.
- USOS PÚBLICOS DO PASSADO E COMEMORAÇÕES. Tensões e debates.
- O PASSADO COMO REPRESENTAÇÃO. INTERVENÇÃO E ATIVISMO ESTÉTICO. Apoios, narrativas e políticas públicas no campo cultural.
- Adamoli, C., Farías, M. e Flachsland, C., "Educação e Memória. A história de uma política pública", Anuário de História da Educação, Vol. 16, nº 2, Cidade Autônoma de Buenos Aires, 2015.
- Da Silva Catela, Ludmila, “O mundo dos arquivos”, em Da Silva Catela, Ludmila e Jelin, Elizabeth, Os arquivos da repressão. Documentos, memória e verdade., Buenos Aires, Siglo XXI editores, 2002.
- Hernández, Mario Alfredo, “Justiça de transição e os direitos das vítimas” em AAVV, O Direito Humano à Não Discriminação, Querétaro (México), Instituto Nacional para Prevenir e Eliminar a Discriminação, 2014.
- Rousso, Henry “Desenvolvimentos na historiografia da memória” na Revista Aletheia, 2018, Vol 8, No. 16. Pittaluga, Roberto, “História recente na Argentina: problemas de definição e tópicos de debate” na Revista AYER 107 / 2017 (3).
- Schmucler, Héctor (2006). “A relação inquietante entre lugares e memórias” em Héctor Schmucler (2019) Memória, entre política e ética. Textos reunidos (1979-2015) CLACSO.
- Sikkink, Kathryn, “Introdução” e “Os efeitos dos julgamentos de crimes contra a humanidade na América Latina”, em Sikkink, K., A cascata da justiça: como os julgamentos de crimes contra a humanidade estão mudando o mundo, Buenos Aires, Gedisa, 2013.
- Traverso, Enzo, “O retorno do passado como um relâmpago”, entrevista com Enzo Traverso na revista Jacobin, 1º de fevereiro de 2022.
- Troper, Michel, “Direito e negacionismo. A Lei Gayssoy e a Constituição”, em Anales HSS, novembro-dezembro de 1999, nº 6.
- Vinyes, Ricard, “A memória do Estado”, em Vinyes, R. (org.) O Estado e a memória. Barcelona, RBA Libros, 2009.
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