O Haiti não está sozinho

O Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO) expressa sua profunda preocupação com o agravamento da complexa crise política, econômica e social que afeta atualmente o povo haitiano. Nos últimos dias, o aumento da insegurança generalizada parece estar inaugurando uma nova fase em sua evolução. Com violência sem precedentes, gangues armadas, em estreita relação com grupos poderosos, controlam principalmente a capital, Porto Príncipe, deixando repercussões significativas em todo o país. O número alarmante de sequestros, assassinatos, estupros, roubos, incêndios criminosos e destruição de infraestrutura pública e privada continua a aumentar impunemente.
Essa situação, reflexo de uma crise profunda e prolongada, foi rapidamente agravada pelas atitudes de atores nacionais e internacionais. O colapso cada vez mais evidente do Estado, a ausência de representantes do poder — alguns fisicamente fora do país —, a deterioração econômica e social, a insuportável insegurança, a interferência descarada de outros países corroendo as margens da soberania e as ações perversas de uma elite determinada a preservar seus privilégios a todo custo criaram uma nova e perigosa situação. Declarações proliferam, visando fomentar um clima de confiança propício ao diálogo entre todas as partes, o que permitiria a transição para uma nova era política. Contudo, a intransigência do governo e de seus aliados internacionais, bem como a impotência e a passividade de outros, têm produzido poucos avanços nessa direção.
Hoje, a CLACSO, diante da situação enfrentada pelo Haiti, considera necessário relembrar a importância desta primeira república negra, que pavimentou o caminho para a independência na América Latina e no Caribe ao derrotar o exército napoleônico da poderosa França. O primeiro país do mundo a triunfar na luta contra a escravidão, o colonialismo e o racismo, seu apoio decisivo e efetivo à luta pela independência em nosso continente — com Francisco Miranda, Simón Bolívar e, posteriormente, com outros países — abriu de forma inesquecível o caminho luminoso da solidariedade entre os povos. Ao mesmo tempo, as potências escravistas, colonialistas e racistas não perdoaram o Haiti por sua audácia e jamais o desarmaram, fazendo-o pagar por essa humilhação. A insensata indenização imposta no início do século XIX, as ocupações do século XX e a implacável interferência do século XXI conferem à busca do povo por dignidade as dimensões de uma tragédia.
Neste momento crucial, o Comitê Diretivo da CLACSO renova veementemente seu apoio à luta incansável do povo haitiano para resolver os problemas prementes do presente e realizar os sonhos de mais de duzentos anos de sua população. Apesar da capacidade, engenhosidade e recursos do povo haitiano, essa árdua jornada exige a solidariedade de nações irmãs. Essa solidariedade deve reconhecer o Haiti em todo o seu potencial e dignidade, para além dos estereótipos que o tornam invisível, um estado pária, o mais pobre ou um exemplo a não ser seguido. O Haiti clama por solidariedade e cooperação que, em sua dimensão multilateral, constituem uma contribuição inestimável para sua luta. Contudo, a concretização de um pacto político e social entre a maioria e a definição do futuro do país, que garanta estabilidade política, governança e desenvolvimento, só podem ser obra e iniciativa do povo haitiano, bem como respeito à sua vontade.
A CLACSO reitera mais uma vez que o Haiti não está sozinho. Hoje, merece a solidariedade de todos os povos do mundo nesta grande batalha, que também é nossa: a luta pela liberdade, autodeterminação e dignidade.
Comitê Diretivo da CLACSO
13 2024 Março
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