Em direção à cooperação internacional sem colonialismo

 Em direção à cooperação internacional sem colonialismo

Declaração de movimentos sociais, organizações e acadêmicos da América Latina e do Caribe:

Os indivíduos e organizações abaixo assinados estão convencidos de que a Cooperação Internacional, como apoio à concretização dos direitos humanos e à promoção do desenvolvimento sustentável, deve levar em consideração os legados coloniais nas relações Norte-Sul, marcados pelo extrativismo, subordinação política, violência, racismo estrutural e desprezo pelo conhecimento nativo.

Durante muitos anos, a gestão da Cooperação Internacional perpetuou relações de poder influenciadas pela colonialidade, sobretudo através do controlo de recursos e da imposição de agendas.  
Os esforços de algumas ONGs do Norte Global para abordar os problemas estruturais da cooperação internacional e identificar soluções sustentáveis ​​nos dão esperança. Isso demonstra uma crescente conscientização de que a cooperação Norte-Sul não se resume a "países ricos ajudando países pobres", mas sim a um compromisso com a justiça e a reparação de uma história compartilhada marcada por relações desiguais, na qual o Norte se enriqueceu extraindo recursos e conhecimento do Sul.

Nesse sentido, acreditamos ser possível descolonizar a Cooperação Internacional e transformá-la em um espaço de reparação e diálogo intercultural horizontal; para alcançar esse objetivo, ela deve se expressar, no mínimo, em:

  1. Definir agendas e prioridadesQuem detém o poder de definir problemas e soluções no campo da cooperação internacional? Historicamente, isso se traduziu na imposição de modelos e políticas decididos longe dos locais de implementação, sem dar a devida importância ao conhecimento local e às aspirações por mudanças sistêmicas. Esse conhecimento e essas aspirações devem ser a base para a formulação de agendas e prioridades, bem como para sua implementação e avaliação.
  2. Gestão de recursos: É necessário redistribuir os recursos de forma mais equitativa e dar maior participação às organizações do Sul Global sobre sua utilização e gestão.
  3. Modelos para a gestão da cooperação internacional: Alterar os critérios de elegibilidade e os procedimentos técnicos que cada vez mais dificultam o acesso à cooperação para movimentos e organizações sem intermediários, perpetuando a dependência e a desigualdade.
  4. Processos de transformação a longo prazo: Os processos destinados a alcançar direitos humanos efetivos, incluindo litígios estratégicos que levam a decisões históricas ou a defesa política para alterar normas e políticas públicas, podem exigir anos de esforço contínuo. Um compromisso genuíno da cooperação internacional com processos de longo prazo é essencial, e o apoio à mudança estrutural não deve ser abandonado simplesmente por ser considerado uma "questão política".
  5. Protejam nossas vidasEssas mudanças trazem riscos, como a perseguição de líderes sociais, autoridades indígenas e defensores dos direitos humanos. A cooperação internacional não pode ignorar essa realidade; deve priorizar a proteção de nossas vidas.  
  6. Conhecimento indígena: Com muita frequência, o conhecimento e a experiência acumulados por organizações sociais e comunidades ao longo de gerações são negligenciados em favor de abordagens externas e universalistas. Reconhecer e valorizar esse conhecimento é fundamental para alcançar um desenvolvimento verdadeiramente inclusivo e sustentável.

Apelamos a uma reflexão contínua e alargada e a uma ação coletiva para descolonizar a Cooperação Internacional, com compromissos genuínos e eficazes de todas as partes envolvidas.

Trata-se de um imperativo ético e político. Portanto, é necessário ampliar os espaços de diálogo e colaboração, onde as diversas perspectivas sejam ouvidas e respeitadas, e onde trabalhemos juntos para construir um sistema de cooperação internacional justo e equitativo.

América Latina e Caribe, abril de 2024

Firma:

María Luisa Regalado – Coletivo de Mulheres Hondurenhas – CODEMUH
Carlos Bedoya – Latindadd – Rede Latino-Americana pela Justiça
Econômico e Social
Nathalie Beghin – Inesc – Instituto de Estudos Socioeconômicos
Miriam Torres López – Fórum Solidariedade Peru
Karina Batthyány – CLACSO
Pablo Vommaro – CLACSO
Enrique Daza – Cedetrabajo
Claudia Luz Piedrahita Echandía – Francisco José de
Caldas e CLACSO
Luis Herrera Montero – Universidade de Cuenca e CLACSO
Marcelo Vitarelli – UNSL e CLACSO
Lisandro Hormaeche – Universidade Nacional de La Pampa e CLACSO
Adriana Anacona M. – Univalle e CLACSO
Emilio Guachetá Gutierrez – Universidade Pedagógica Nacional e CLACSO
Júlio César Murillo – Universidade Tecnológica de Pereira
Rosa Martha Gutiérrez Rodríguez – UNAM FES Acatlán
Julieta Mónica Hernández Hernández – CUAED UNAM
Victor Germán Sánchez – UNAM e CLACSO
Mario Nicolás Wildner Sánchez – Universidade Nacional de Villa Mercedes
e CLACSO
Felipe Bernal – Universidade de Cundinamarca
Juan Funes – Universidade Nacional de San Luis
Lourdes Huanca Atencio – FENMUCARINAP
Esteban Silva Cuadra – Fundação Constituinte XXI
América Latina e Caribe: Melhor sem acordos de livre comércio
Clara Merino - Movimento de Mulheres dos Setores Populares - Lua Crescente
María Teresa Blandón – Associação Feminista La Corriente
Raquel Yrigoyen Fajardo – IIDS
Karina Bidaseca – CLACSO, CONICET, UBA e UNSAM
Gilda Rivera Sierra – Centro de Direitos das Mulheres, CDM
José Marcelo Arandia Alarcón – Centro de Pesquisa e Promoção
Campesinato – CIPCA Regional Santa Cruz
Jonathan Glennie – Nação Global
Eusebio Vásquez Ayala – ANPE-PERU
Mayra Garzón – Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador
CONAIE
Martha Lozano – CINDE e CLACSO
Javier Azpur – Associação Nacional de Centros
Rubén Ocampo Garzón – Associação Arariwa

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Versão em inglês:

Este texto expressa a posição dos signatários e não necessariamente a dos centros e instituições que compõem a rede internacional CLACSO, seu Comitê Diretivo ou seu Secretariado Executivo.