Área temática: Movimentos sociais e ativismo
Grupo de trabalhoAntirracismo e afrodescendentes no Sul Global
Centro de Inovação dos Trabalhadores
CONICET e UMET (Universidade Metropolitana de Educação e Trabalho)
Argentina
Esta proposta situa-se num contexto regional e global caracterizado por profundas transformações socioeconómicas, políticas e culturais que reforçam os padrões de desigualdade historicamente prevalentes na América Latina e nas Caraíbas. Neste cenário, o racismo estrutural, e especificamente o racismo anti-negro, continua a operar como pilar central dos regimes de dominação herdados do colonialismo, atualizados hoje através de novas formas de disciplina social, controlo territorial, condições de vida precárias e criminalização sistemática das populações afrodescendentes.
Longe de ser uma dimensão residual da desigualdade, a racialização estrutura os modos de acumulação, a dinâmica do extrativismo, a organização do mercado de trabalho, as políticas de segurança, os sistemas educacionais e os mecanismos de produção de conhecimento. As populações afrodescendentes no Sul Global continuam a ser afetadas de forma desproporcional pela pobreza estrutural, pelo trabalho informal, pelo encarceramento em massa, pela violência policial, pelo deslocamento territorial e pelo acesso restrito a direitos fundamentais. Dentro dessa perspectiva, o racismo não pode ser compreendido como um fenômeno cultural isolado, mas sim como uma tecnologia de governança que articula a exploração econômica, a subordinação política e a desumanização simbólica.
A região também atravessa um processo de realinhamento político marcado pela ascensão de projetos autoritários, conservadores e abertamente antirracistas, acompanhado por um ressurgimento de discursos colonialistas sob a forma de um renovado neo-hispanismo, nacionalismos excludentes, supremacias culturais e apelos a narrativas homogeneizadoras que revivem hierarquias raciais históricas. Essa guinada autoritária tem consequências diretas para as políticas públicas voltadas à igualdade racial, ações afirmativas, programas de reparações históricas e compromissos internacionais de direitos humanos, que são sistematicamente desmantelados ou esvaziados de significado sob novas justificativas de austeridade, punitivismo e despolitização racial.
Nesse cenário, o enfraquecimento do consenso democrático coexiste com o fortalecimento de mecanismos punitivos e de controle social que afetam desproporcionalmente as populações afrodescendentes, aprofundando o vínculo estrutural entre racismo, violência estatal e necropolítica. Mais do que fenômenos isolados, a criminalização de territórios racializados, a militarização da vida cotidiana e a produção sistemática de subjetividades descartáveis constituem uma nova fase do capitalismo racial. Nessa perspectiva, a necropolítica não é uma exceção, mas uma lógica governante, e sua expressão mais brutal assume a forma histórica e contemporânea do genocídio anti-negro: uma política de morte persistente, administrada e naturalizada que decide quais vidas são protegidas e quais podem ser eliminadas sem protestos sociais.
Dar nome ao genocídio anti-negro constitui uma intervenção política e epistemológica de primeira ordem. Implica desafiar a linguagem do poder que traduz a violência racial em eufemismos técnicos e jurídicos — "excessos", "insegurança", "confrontos" — e tornar visível seu caráter estrutural como um regime de longo prazo que permeia as economias, as subjetividades e as instituições do sistema mundial moderno/colonial. O genocídio anti-negro não é apenas morte física, mas também morte social, simbólica e política: é a produção de extrema vulnerabilidade, apagamento histórico e negação sistemática da humanidade.
Em resposta a esse cenário, o Grupo de Trabalho adota uma perspectiva antirracista crítica, entendida não como uma prática moral ou uma política superficial de reconhecimento, mas como um projeto intelectual voltado para o desmantelamento das estruturas históricas de poder que sustentam a desigualdade racial. Essa abordagem se articula com o radicalismo negro, as tradições políticas afrodescendentes e os feminismos negros e afro-diaspóricos, produzindo uma leitura situada que questiona simultaneamente o capitalismo, a colonialidade, o patriarcado e o racismo como uma estrutura relacional de dominação.
Além disso, o Grupo de Trabalho propõe abordar os afrodescendentes não como um objeto passivo de políticas públicas, mas como um sujeito epistêmico, político e histórico de produção de pensamento crítico. Nessa perspectiva, as epistemologias negras são reivindicadas como fontes legítimas de conhecimento social, político e filosófico, não como objetos a serem folclorizados ou como "conhecimento alternativo", mas como estruturas teóricas capazes de desafiar as categorias centrais das ciências sociais contemporâneas.
Neste ponto, é crucial enfatizar que a persistência do racismo estrutural também se explica pela existência contínua do racismo epistêmico, que hierarquiza o conhecimento, invalida as experiências históricas afrodescendentes e reproduz uma divisão racial do saber. A colonialidade do conhecimento, longe de ser um legado do passado, continua a operar como um mecanismo ativo de eurocentrismo acadêmico e racismo epistêmico. Combater o racismo epistêmico não envolve simplesmente incorporar autores ou temas afrodescendentes, mas sim desafiar as estruturas categóricas a partir das quais os problemas são construídos, as perguntas são formuladas e as respostas são legitimadas.
Nesse sentido, a centralidade do Sul Global refere-se não apenas a uma localização geográfica, mas também a um posicionamento político-epistêmico que reconhece nas experiências históricas de subordinação e resistência afrodescendentes uma chave interpretativa privilegiada para a ordem mundial contemporânea. A América Latina e o Caribe constituem um laboratório histórico onde convergem a colonialidade, as lutas por autodeterminação, os processos contestados de reparação e os projetos ainda inacabados de democracia racial.
Por fim, o Grupo de Trabalho visa intervir no debate público regional, promovendo uma noção substancial de democracia que transcenda o reducionismo institucional e se articule com a justiça racial, a redistribuição material, o reconhecimento político e a transformação radical das estruturas de poder. Nesse contexto, as reparações históricas são entendidas como um horizonte político emancipatório, não como uma política compensatória: reparar é transformar, descolonizar é reconfigurar e combater o racismo é contestar o próprio significado de humanidade. Assim, a articulação entre pensamento crítico, produção acadêmica, ativismo público e diálogo com os movimentos sociais é fundamental para desafiar o senso comum racista, fortalecer as agendas antirracistas e contribuir para a construção de projetos emancipatórios no Sul Global.
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A proposta do Grupo de Trabalho está enraizada em uma tradição crítica que concebe o racismo não como um fenômeno periférico, cultural ou residual, mas como uma estrutura histórica constitutiva do capitalismo moderno, do Estado-nação e das democracias contemporâneas. Nessa perspectiva, o Grupo de Trabalho se distancia das concepções liberais de racismo como um desvio moral ou um déficit de inclusão, e o conceitua como um princípio organizador da modernidade política e econômica. Na América Latina e no Caribe, essa matriz se expressa na persistente racialização da cidadania, do trabalho, do território e do acesso diferenciado aos direitos, produzindo democracias formalmente inclusivas, mas materialmente hierárquicas e racialmente estratificadas. Nessa perspectiva, o Grupo de Trabalho se baseia em três grandes referenciais teóricos interconectados: o radicalismo negro, o marxismo negro e a teoria crítica da raça, integrados a uma crítica contemporânea do neoliberalismo como um regime racial de governo.
O radicalismo negro constitui uma tradição política e intelectual transnacional que concebe a raça como uma categoria estruturante da dominação moderna e como o cerne de projetos emancipatórios alternativos. De C.L.R. James a Angela Davis, de Marcus Garvey a Audre Lorde, essa corrente tem sido fundamental para a compreensão de que a luta antirracista é inseparável da crítica ao capitalismo, ao colonialismo e à ordem geopolítica global. Não se trata de uma política de reconhecimento, mas de uma filosofia política de libertação racial.
Dentro dessa tradição, o Caribe ocupa um lugar teórico e político insubstituível no desenvolvimento de uma crítica à modernidade colonial, baseada nas experiências de escravidão, revolução e resistência negra. O pensamento afro-caribenho não é um desdobramento periférico das teorias europeias, mas sim um dos elementos fundamentais da teoria política moderna. A obra de Jean-Louis Vastey sobre o Haiti, no contexto pós-revolucionário, antecipa uma crítica radical à democracia racializada, ao humanismo colonial e à hipocrisia política das potências europeias. Seu trabalho nos permite compreender o Haiti não apenas como um evento histórico, mas também como um ponto de virada epistêmico na modernidade ocidental.
Da mesma forma, George Padmore, C.L.R. James e Walter Rodney desenvolveram uma crítica ao imperialismo, ao nacionalismo burguês e ao racismo colonial a partir de uma perspectiva materialista, internacionalista e negra da história. Suas contribuições nos permitem compreender a diáspora africana não como uma comunidade cultural dispersa, mas como um sujeito histórico e político do capitalismo global. Dentro dessa estrutura, o Caribe não é uma margem do sistema mundial, mas um de seus laboratórios históricos fundamentais: plantações, escravidão, rebeliões, revoluções e migração são elementos analíticos essenciais para a compreensão das configurações atuais do poder racial.
O marxismo negro, tal como formulado por Cedric Robinson, constitui o segundo pilar do Grupo de Trabalho. Esta tradição desafia o suposto universalismo da economia política clássica e demonstra que o capitalismo moderno emerge como capitalismo racial. Não há acumulação sem racialização; não há classe sem raça. Esta perspectiva é central para a compreensão dos processos contemporâneos de precarização, encarceramento em massa, desapropriação territorial e criminalização das populações afrodescendentes na América Latina e no Caribe, bem como para a reinterpretação da história regional através da lente da resistência negra como força motriz da transformação social.
O terceiro arcabouço teórico é a teoria crítica da raça, que fornece ferramentas conceituais para analisar como o racismo está arraigado nas estruturas legais, nos regimes de cidadania e nas arquiteturas políticas democráticas. A noção de contrato racial, formulada por Charles Mill, permite desmistificar a ideia de que a democracia liberal se fundamenta em acordos universais, demonstrando que, historicamente, esses pactos foram racialmente diferenciados. As populações negras foram constituídas como excluídas da plena cidadania, mesmo quando formalmente integradas à ordem política.
Em diálogo com essas estruturas, o Grupo de Trabalho incorpora uma crítica ao neoliberalismo como uma fase contemporânea do capitalismo racial. O neoliberalismo não elimina as hierarquias raciais; ele as reconfigura sob novas tecnologias de governança. A desigualdade é apresentada como responsabilidade individual, a exclusão como fracasso subjetivo e a violência estatal como política de segurança. A distinção entre antirracismo radical e antirracismo neoliberal é fundamental aqui: enquanto o primeiro busca desmantelar as estruturas de poder racial e econômico, o segundo apenas administra a diversidade sem modificar as condições materiais que produzem a subalternidade. Nesse sentido, o avanço contemporâneo de movimentos de direita radicalizados não representa uma ruptura com a ordem racial, mas sim sua radicalização sob o disfarce de segurança, mérito, tradição e ordem.
O pensamento feminista negro e decolonial — com autoras como Ochy Curiel e Sylvia Wynter — oferece uma crítica radical à colonialidade do gênero, da subjetividade e do conhecimento. Essas perspectivas permitem compreender que o racismo opera não apenas no nível institucional ou econômico, mas também na própria produção do humano, estabelecendo hierarquias ontológicas entre vidas consideradas valiosas e descartáveis. A crítica ao racismo epistêmico ocupa um lugar central no Grupo de Trabalho: não há antirracismo sem a descolonização do conhecimento.
Por fim, a perspectiva do Sul Global adotada pela GT não se refere exclusivamente a uma localização geográfica, mas a uma postura epistemológica e política: produzir teoria a partir das experiências históricas de populações racializadas, desafiar o cânone acadêmico eurocêntrico e afirmar o pensamento negro como pensamento universal a partir de baixo.
Partindo dessa articulação entre teoria, história e política, o Grupo de Trabalho visa consolidar um campo de pesquisa antirracista capaz de influenciar o debate público regional, intervir na formulação de políticas públicas e desafiar as narrativas ideológicas predominantes, entendendo que não há democracia sem justiça racial, nem emancipação sem a descolonização radical do saber e do poder. O Grupo de Trabalho não pretende aplicar teorias existentes a contextos locais, mas sim produzir uma teoria antirracista situada, da América Latina e do Caribe para o mundo.
Marrom, Wendy. Nas Ruínas do Neoliberalismo. Traficantes de Sueños, 2016.
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Moura, Clovis. Sociologia do negro brasileiro. Editora Dandara, 2022.
MOURA, Clóvis. Rebeliões da senzala. Dandara Editora, 2022.
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Padmore, George. Pan-africanismo ou comunismo. Século XXI, 1974.
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Robinson, Cedric J. Marxismo Negro: A Formação da Tradição Radical Negra. Zed Books, 2000.
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Rodney, Walter. Como a Europa subdesenvolveu a África. Siglo XXI, 1975.
Santos, Boaventura de Sousa. O Fim do Império Cognitivo. Trota, 2019.
Stefanoni, Pablo. A rebelião se tornou de direita? Século XXI, 2021.
Taylor, Keeanga-Yamahtta. De #BlackLivesMatter à Libertação Negra. Tinta Limón, 2016.
Traverso, Enzo. As Novas Faces do Fascismo. Siglo XXI, 2019.
Vastey, Jean-Louis. O Sistema Colonial Revelado. Batalha de Ideias, 2024.
Wynter, Sylvia. “1492: Uma Nova Visão do Mundo”. CLACSO, 2017.
(Ações para coordenar pesquisas sociais comparativas relevantes e rigorosas com uma perspectiva regional)
(Ações para formação, visibilidade e comunicação da produção)
(Relações com organizações de ciência e tecnologia, organizações não governamentais, sindicatos, movimentos sociais, gestores ou funcionários de políticas públicas, experiências comunitárias e territoriais)
(Redes científicas, organizações de cooperação internacional, instituições acadêmicas)
Número total de pesquisadores admitidos: 27
Grupo de Estudos: Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente
Universidade Federal do Maranhão
Brasil
Centro de Inovação dos Trabalhadores
CONICET e UMET (Universidade Metropolitana de Educação e Trabalho)
Argentina
Corporación Pinones se Integra-COPI
Porto Rico
Faculdade de Ciências Humanas e Econômicas
Universidade Nacional da Colômbia
Colômbia
Universidade do Povo Negro (UniPropia)
Colômbia
Universidade Madalena
Colômbia
Rede de Bairros Afrodescendentes de Cuba
Cuba
Unidade de Pós-Graduação
Faculdade de Ciências Sociais
Universidad Nacional Mayor de San Marcos
Peru
Centro de Inovação dos Trabalhadores
CONICET e UMET (Universidade Metropolitana de Educação e Trabalho)
Argentina
Unidade de Pós-Graduação
Faculdade de Ciências Sociais
Universidad Nacional Mayor de San Marcos
Peru
Grupo de Estudos: Desenvolvimento, Modernidade e Meio Ambiente
Universidade Federal do Maranhão
Brasil
Faculdade de Ciências Sociais
Diretoria de Pesquisa e Estudos de Pós-Graduação
Universidade Alberto Hurtado
Chile
Casa das Américas
Cuba
Processo das Comunidades Negras da Colômbia (PCN)
Colômbia
Instituto de Justiça e Direitos Humanos
Universidade Nacional de Lanús
Argentina
Centro Brasileiro de Análise e Planejamento
Brasil
Centro Cultural de Cooperação FLOREAL GORINI
Argentina
Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Pós-graduação em Filosofia e Ciências Humanas
Universidade Estadual de Campinas
Brasil
CuCA - Cultura, Comunicação e Educação Ambiental
Universidade Estadual da Bahia
Brasil
Centro de Inovação dos Trabalhadores
CONICET e UMET (Universidade Metropolitana de Educação e Trabalho)
Argentina
Federação Nacional das Organizações Afro-Argentinas - FNOA
Argentina
Associação de Mulheres Afro-Bolivianas - CIMARRONAS
Bolívia
Associação de Mulheres Afro-Bolivianas - CIMARRONAS
Bolívia
ELA - Departamento de Estudos Latino-Americanos
Universidade de Brasília
Brasil
Casa das Américas
Cuba
Diáspora Africana da Argentina - DIAFAR
Argentina
Universidade de Binghamton, Universidade Estadual de Nova York
Estados Unidos