Área temática: Movimentos sociais
Grupo de trabalhoTerritorialidades Disputadas e Existências-R
[+ Ver produções e conteúdo]Divisão de Ciências Sociais e Humanas
Universidade Autônoma Metropolitana - Unidade Azcapotzalco
México
Programa de Pós-Graduação em Geografia
Instituto de Ciências, Campus da Praia Vermelha, Departamento de Geografia
Universidade Federal Fluminense
Brasil
Centro de Pesquisa sobre Dinâmica Social
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Extership universitário da Colômbia
Colômbia
Os territórios que sempre foram fervilhantes de vida, uma vida vivida em tensão (com a natureza, entre diferentes povos, etc.), enfrentaram desafios adicionais nos últimos 500 anos, resultado de uma onda inicial de desapropriação. Essas ondas continuaram a se desdobrar, ligadas às necessidades externas/internas de "civilizar", "cristianizar", "desenvolver" e, mais recentemente, "democratizar" e "neoliberalizar" (Grosfoguel, 2014). Mas os modos de vida desses povos, grupos sociais e outros também foram moldados por suas estratégias contínuas de resistência e além.
A reexistência (Porto-Gonçalves, 2002), portanto, incorpora os múltiplos campos da vida, sua complexidade, sua densidade, as maneiras pelas quais suas articulações são construídas e tecidas, mas não perde de vista os contextos de conflito em que se move: os avanços e retrocessos, as fugas, os saltos e os recomeços inerentes ao confronto com as assimetrias da dominação, geralmente a partir de uma posição de inferioridade. Nessa reexistência, além disso, o conjunto de comportamentos territoriais necessários para dar sentido (e sentimento) ao grupo aparece como um ponto fundamental de apoio: a identidade territorial em movimento, a materialidade e a subjetividade dos bens comuns, os saberes situados que desafiam a descontextualização autorreferencial do sistema mundial capitalista, patriarcal e colonial.
Como ponto de partida para a construção do Grupo de Trabalho, acreditamos que essa capacidade de reexistência permitiu que o pensamento crítico latino-americano permanecesse “mais vivo e dinâmico do que nunca”, precisamente porque é das pessoas e dos processos, dos lugares de reexistência, que emergem as contribuições teóricas e políticas mais frescas, criativas e úteis para repensar a região a partir da centralidade da vida (Escobar, 2014). Portanto, consolidar um espaço de interação com “setores que tradicionalmente têm sido considerados os espaços de pensamento crítico por excelência, como universidades, academia e artes” (Escobar, 2016) é fundamental para o Grupo de Trabalho que queremos construir. Formas de diálogo, complementaridade de modos de fazer, sentir-pensar, metodologias horizontais, misturas de pensamento e ação, agendas de pesquisa e concretização, abertura de espaços, visibilidade, proteção contra a superexposição, etc., são todas estratégias em diversas mãos e em diversos sentidos que pretendemos dar significado às tarefas e aos diálogos do GT “territorialidades em reexistência”.
Em todo caso, as territorialidades reexistentes com as quais buscamos nos engajar estão se moldando em uma nova articulação baseada na desregulamentação neoliberal dos últimos 40 anos, que, em ritmos variados, acelerou e aprofundou os conflitos territoriais em toda a América Latina e no mundo. Nesse sentido, a reexistência de movimentos sociais e formas emergentes de ação coletiva tem sido capaz de representar desafios significativos ao sistema e resistir à implementação de projetos massivos de extração de recursos naturais e ao chamado “desenvolvimento” em seus territórios. Dessa forma, os movimentos sociais conseguiram tornar visíveis e articular iniciativas de resistência localizadas em uma dinâmica que poderia ser descrita, seguindo Leff (2010), Svampa (2012), Lopes (2006) e Acselrad (2004 e 2010), como a ambientalização das lutas sociais e a ação coletiva “ecoterritorial”.
O sistema de dominação, e sua desordem territorial, gerou excedentes populacionais e de capital, bem como vastas assimetrias entre os seres humanos, entre os modos de vida imperiais (Brandt e Wissen, 2017) no Norte Global e os modos de vida populares, comunitários, solidários e humildes no Sul Global. Mas seu impacto não se restringe aos seres humanos; abrange também a devastação da natureza em sua dinâmica de acumulação e expansão, atingindo os limites físicos do planeta. O sistema de dominação, portanto, necessita eliminar esses excedentes e apropriar-se dos recursos naturais escassos, o que explica e determina suas ações estratégicas em relação aos povos e territórios. Isso também levou a uma grave crise migratória global — um processo massivo de expulsões em nível global-local — que a pesquisadora Saskia Sassen descreveu como uma perda maciça de habitat humano, uma das principais características da "brutalidade e complexidade" da economia global, um fenômeno que, infelizmente, tem sido compreendido de forma isolada e fragmentada. Assim, apesar da dinâmica de desapropriação capitalista e de uma desterritorialização e reterritorialização baseadas na extração primária intensiva, esse fenômeno tem como reverso o germe da organização e da ação coletiva por meio da mobilização social e/ou de formas de resistência e rebelião social, e a criação de alternativas ancoradas nos territórios que são defendidos pela criação e recriação de seus modos de vida. Nesse sentido, quando atacados e desapropriados de seus espaços históricos, ancestrais e comunitários, muitos sujeitos sociais, como movimentos territorializados, reagem como forma de defesa e resistência, gerando um fenômeno de reconstrução socioterritorial e etnoterritorial e a ativação de antigas e/ou a geração de novas territorialidades (Porto-Gonçalves, 2011).
A colonialidade territorial dessas ordens espaciais hegemônicas, defendida hoje pela "necessidade de desenvolvimento" e pela "superação da pobreza", está, na realidade, produzindo fome, exclusão, dominação, produção em massa de pobreza e desigualdade, racismo cultural, devastação social e ambiental, entre muitos outros males. Esse processo de ruptura territorial da vida impacta todo o planeta, afetando tanto os habitantes rurais quanto os urbanos, no Norte e no Sul, ainda que de maneiras diferentes. Por outro lado, os arranjos territoriais ancestrais e a gestão comunitária dos bens comuns da humanidade, as ordens territoriais e o saber que sustentaram a humanidade, apesar de algumas tensões e contradições, proporcionaram-nos múltiplos benefícios, uma diversidade de saberes e práticas, vitais para a preservação da vida e que servem de inspiração para outros horizontes de significado, especialmente para os setores críticos tradicionais, que continuam à espera do "modelo" de revolução e emancipação, sem observar e atentar para a riqueza dessas experiências e suas territorialidades, causando um verdadeiro "desperdício de experiência humana vital" (Santos, 2000), razão pela qual a tragédia do nosso tempo é que a dominação se une enquanto a resistência se fragmenta.
O papel do Estado nesses processos não tem sido unânime em toda a região, mas, em todo caso, a invisibilidade ou o reconhecimento meramente formal dos sujeitos subalternos na reexistência têm sido fundamentais para consolidar, a partir da esfera pública (políticas públicas, tratados internacionais, etc.), a desapropriação privada: Expansão/invasão e consolidação de modelos de desenvolvimento extrativistas e/ou desenvolvimentistas, baseados na exploração intensiva de “recursos naturais” (megamineração, hidrocarbonetos, silvicultura, etc.) e na produção de mercadorias ligadas aos chamados agronegócios, necessárias para a reprodução do atual modelo capitalista global de extração, produção, consumo e acumulação (Svampa, 2011; Giarracca e Teubal, 2006); Expansão das frentes e fronteiras do extrativismo produtivista em direção a territórios anteriormente considerados “improdutivos”: as fronteiras da energia, petróleo, mineração, silvicultura, água, agricultura e biogenética, entre as predominantes; expansão generalizada de projetos de infraestrutura, como os planejados pela IIRSA e agora sob a coordenação da COSIPLAN, desapropriações múltiplas e precarização nas periferias e centros urbanos.
Seja como for, a América Latina e o mundo estão sendo submetidos, pelo capitalismo transnacional pós-neoliberal em crise, a uma reorganização territorial que busca subjugar resistências e autonomias (Mezzadra e Neilson, 2013), consolidando assimetrias sociais, políticas, econômicas, culturais e ambientais, além de uma multiplicidade de violências intrínsecas à expansão e ao fortalecimento de novas/antigas formas de colonialidade territorial (Betancourt, 2019). Essa ordem, apesar da queda internacional dos preços do petróleo e de outras commodities, que molda parte da geopolítica global atual, consolidaria um estilo de “desenvolvimento neoextrativista” no chamado terceiro mundo, tensionando ainda mais o equilíbrio entre a competitividade baseada em vantagens comparativas e a ativação de conflitos sociais, territoriais, ambientais e culturais, particularmente nos espaços locais onde territorialidades e formas de comunidade, solidariedade e vida popular se reproduzem em áreas rurais e urbanas. Paradoxalmente, isso pode ser observado em vários governos progressistas da região, que atualmente enfrentam crises inegáveis e/ou exaustão, além da falta de outras perspectivas de significado.
Betancourt, Milson (2019) Colonialidade territorial, relações sociedade-natureza e múltiplas violências em escala global-local. Pesquisa de pós-doutorado. Em processo de publicação.
Marca, Ulrich; Wissen, Markus (2017). Imperiale Lebensweise: Zur Ausbeutung von Mensch und Natur in Zeiten des globalen Kapitalismus. Oekom Verlag, Munique.
Grosfoguel, Ramón (2007). Diálogos decoloniais com Ramón. Grosfoguel: transmodernizando os feminismos. Entrevista realizada por Doris Lamos Canavate. Tabula Rasa. (7): 323-340.
De Sousa Santos, Boaventura (2010). Refundando o Estado na América Latina, Perspectivas de uma Epistemologia do Sul. Lima, Peru: IIDS / PDTG.
Escobar, Arturo (2010). Territórios da diferença: Lugar, movimentos, vida, redes. Colômbia: Universidade de Cauca.
Escobar, Arturo (2014). Sentir e pensar com a terra: Novas leituras sobre desenvolvimento, território e diferença. Medellín: UNAULA.
Escobar, Arturo (2016). Autonomia e design. A realização do comunitário (Popayán: Editorial Universidad del Cauca).
Giarracca, Norma e Teubal, Miguel (2006). “Democracia e neoliberalismo no campo argentino. Uma coexistência difícil” em de Grammont, H. (Coord.) A construção da democracia no campo latino-americano, Buenos Aires, CLACSO.
Leff, Enrique (2010). “Imaginários sociais e sustentabilidade”. Cultura e representações sociais nº 9, pp. 42-121.
Leite Lopes, José Sergio (2006). Sobre processos de “ambientalização”, dois conflitos e sobre dilemas de participação. Horizontes Antropológicos, ano 12, n.º 25, p. 31-64.
Mezzadra, Sandro e Brett Neilson (2013): Fronteira como Método, ou, a Multiplicação do Trabalho. Durham: Duke University Press.
Porto-Gonçalves, Carlos Walter (2001). Geografias. Movimentos sociais, novas territorialidades e sustentabilidade. México: Siglo XXI.
Porto-Gonçalves, Carlos Walter (2002) “Da geografia às geografias: um mundo em busca de novas territorialidades” em Ceceña, AE e Sader, E. (Coord.) A Guerra Infinita. Hegemonia e Terror Mundial, Buenos Aires, CLACSO.
Porto-Gonçalves, Carlos Walter (2010). Territorialidades e a luta pelo território na América Latina: Geografia dos movimentos sociais na América Latina. Caracas: IVIC.
Sassen, Saskia (2015). Expulsões. Brutalidade e complexidade na economia global. Editora Katz. Buenos Aires.
Svampa, Maristella (2011). “Extrativismo neodesenvolvimentista e movimentos sociais. Uma mudança ecoterritorial em direção a novas alternativas?” em LANG, Miriam & MOKRANI, Dunia (Org.): Além do desenvolvimento, do Grupo de Trabalho Permanente sobre Alternativas ao Desenvolvimento, Fundação Rosa Luxemburgo/Abya Ayala, La Paz.
Svampa, Maristella (2013). “Commodity Consensus” e linguagens de avaliação na América Latina. Em Nueva Sociedad, nº 244. Buenos Aires.
Uma revisão da produção do pensamento crítico nos últimos anos na América Latina nos fornece uma série de conceitos e teorias que permitem uma articulação estreita com o contexto expresso na seção anterior. Arturo Escobar (2016) propõe uma lista dessa diversidade de pensamento que amplia nossa imaginação crítica, a qual incluiria, entre outros: “críticas à modernidade e teoria decolonial; feminismos autônomos, decoloniais e comunitários; a diversidade de debates ecológicos e economias alternativas, ecologia política, economia social e solidária (ESS), economias comunitárias; as diferentes propostas de transições civilizacionais, pós-desenvolvimento, Buen Vivir (Bom Viver) e pós-extrativismo”. A partir do Grupo de Trabalho, temos nos empenhado em reconhecer a riqueza de nos situarmos nesse enclave de diálogos onde diversos sujeitos constroem, de forma poderosa, um pensamento crítico situado. As possibilidades dentro dessa lista são inúmeras. Para começar, estamos tecendo nossa primeira rede de pensamentos e relações em torno da necessidade de considerar a “outra mobilização social” que a região latino-americana vem abraçando, onde os múltiplos significados e práticas da reexistência e suas territorialidades desempenham um papel fundamental, e a partir de onde os limites do [sistema atual] estão sendo atualizados e desafiados. pensamento crítico tradicional.
Uma dimensão material e simbólica, frequentemente entendida como auto-organização comunitária (Svampa, 2008) surge como uma das características constitutivas dos movimentos sociais na região, tanto urbanos quanto rurais. Uma característica particular dos movimentos camponeses e indígenas é que eles associam sua luta pela defesa da terra e/ou do território não apenas à satisfação de necessidades básicas, mas também à reprodução de suas condições de vida – materiais, simbólicas e espirituais – bem como à (re)criação de formas alternativas de produção e vida comunitária que se opõem às lógicas territoriais da hegemonia capitalista. Nas áreas urbanas, os processos de gentrificação, os grandes mercados especulativos transnacionais, entre outros fatores, moldaram as políticas públicas em benefício do capital e geraram lutas muito intensas por autonomia e resistência popular. Na organização desses movimentos de resistência, as mulheres camponesas e indígenas, assim como as mulheres de bairros operários, desempenham um papel fundamental, articulando, juntamente com suas comunidades, a luta pela defesa da terra e do território a partir de uma perspectiva de produção e reprodução da vida em suas múltiplas formas. Essas lutas por território vão além das demandas exclusivamente baseadas em gênero, na medida em que questionam as múltiplas formas de opressão que são vivenciadas como corpos e vidas racializados e passíveis de destruição.
Assim, apesar das novas formas que a lógica da acumulação de capital adotou, sob o disfarce de “acumulação por desapropriação” (Harvey, 2004), com ênfase na especulação financeira, suas necessidades e seus efeitos, testemunhamos um novo ponto de inflexão nessa dimensão auto-organizativa. Por meio dessa inflexão, o território, como fundamento da vida, aparece no centro das demandas, reivindicações e ações coletivas dos movimentos indígenas e camponeses-indígenas, bem como nas lutas territoriais urbanas. Com esse roteiro, guiado pela vida, pela luta e pelo território, precisamos também de uma interpretação diferente dos conflitos sociais existentes. Há uma longa lista de termos como ambiental (Acselrad, 2004), socioambiental (Alier, 2004), socioterritorial (Fernandes, 2005) e/ou societal (Tapia, 2008) que consideram os diferentes motivos, sujeitos, discursos e práticas que se entrelaçam nos territórios latino-americanos e mundiais.
É necessário, portanto, ampliar a noção de território para além de suas dimensões ancoradas no Estado-nação ou em sua teoria simplificada de um poder único monopolisticamente associado ao Estado. Os territórios onde se desenrolam as práticas alternativas dos movimentos sociais são aqueles onde se constrói uma insurgência social enraizada nas práticas de autogestão desses mesmos territórios: espaços de saúde comunitária, educação popular, economias autogeridas, experiências de agroecologia e agroflorestamento, relações recíprocas com a natureza e novos pactos territoriais urbano-rurais. Esses indicam a existência de “territórios insurgentes” (Giarracca, em Wahren, 2012), que são predominantemente munidos de significado e praticados por movimentos sociais, onde são postos em prática “campos de experimentação social” (Santos, 2007) que vão “além” dos esquemas do sistema mundial colonial e capitalista (Wallerstein, 2006). Esses “territórios insurgentes” são, portanto, espaços de poder onde as relações entre os habitantes desses territórios e a natureza giram em torno da reciprocidade, marcadas pela capacidade dos próprios atores sociais subalternos de autogerir esses territórios e a vida, a riqueza, os ecossistemas e os bens ali encontrados (reduzidos a “recursos naturais” pelos objetivos extrativistas do sistema). Mas são também territórios de corporações, de estados cúmplices e de sua desapropriação totalitária. São também territórios sujeitos à cooptação da vida indígena-camponesa e dos subalternos urbanos em uma mercantilização exacerbada e em processos produtivos que perdem o sentido do bem comum. Um território marcado pela multiplicidade de poderes, pelas assimetrias, pela mobilidade e pela flexibilidade com que acolhe/expulsa dinâmicas e sujeitos (Porto-Gonçalves, 2002; Haesbaert, 2011).
Os bens comuns, sua presença e sua expulsão, também reivindicam um papel importante na análise de uma realidade em profunda transformação. Os processos, espaços e formas de resistência, luta e defesa dos bens comuns por movimentos sociais e societários na América Latina contra a desapropriação capitalista em suas formas de acumulação por desapropriação e desterritorialização (extrativista, neoextrativista, neodesenvolvimentista e/ou neocolonial) influenciam fortemente as contribuições ao pensamento crítico feitas por organizações e indivíduos em processo de reconstituição. Os bens comuns não são vistos como um Éden pré-capitalista de um passado idealizado, mas como uma prática cotidiana no campo e na cidade de um segmento da população subalterna que gera um conjunto de possibilidades e críticas diante da dicotomia público/privado de nossa sociedade, com suas opções limitadas. Os bens comuns servem como uma imaginação de mudança que transcende as populações que ainda os cultivam e que também permeia o pensamento crítico no Norte Global. Essas experiências, principalmente de sujeitos territoriais de base comunitária, são organizadas e mobilizadas na América Latina em torno da defesa da terra, territórios ancestrais, direitos coletivos, bens comuns (Houtart, 2011) e/ou em torno da defesa de “outras territorialidades” (Porto-Gonçalves, 2010) ou “territórios insurgentes” diante de contextos de expansão da desapropriação capitalista, intensificação de seus processos de acumulação e luta por ambientes naturais ou pela comunalidade, em face de estratégias de contrainsurgência complexas, sofisticadas e atualizadas, cuja integralidade abrange um amplo espectro que vai desde ações repressivas e criminalização do protesto por estruturas estatais e governamentais contra tais resistências, até a cooptação, a compra e a ONG-ização que buscam capturar a totalidade dos movimentos sociais (Zibechi, 2010). Portanto, é urgente enfatizar a pesquisa e a ação a respeito da dinâmica da relação entre esses mecanismos de captura, seus atores e os impactos gerais, sobre os quais o conhecimento é muito limitado.
Diante dessa riqueza de pensamento e ação das comunidades e suas organizações, o Grupo de Trabalho também busca reconhecer a dinâmica complexa e abrangente de expropriação e subjugação que marca a hegemonia da dominação na América Latina: a análise da desapropriação. Nesse sentido, os últimos anos têm sido denominados “neoextrativismo” na América do Sul (Gudynas, 2009; Svampa, 2011; Acosta, 2011), como uma forma de “desenvolvimento econômico” que baseia a produção de riqueza na apropriação da natureza e cuja venda determina a integração do país produtor de matéria-prima no mercado internacional, com os Estados desempenhando um papel de liderança nessas dinâmicas (Gudynas, 2009). Mas também critica a noção de extrativismo (Porto-Gonçalves e Betancourt, 2016) como uma categoria da moda na última década na região e que também se presta a confusões maniqueístas, como condenar um governo/país/região como extrativista, como se o discurso e a prática produtivistas (especialmente do norte “desenvolvido”) não fossem o que promove, sustenta e legitima a exploração constante, progressiva e intensiva da natureza, como se as suas “economias produtivistas”, apoiadas pelas tecnologias mais modernas, não pressionassem a intensificação permanente da exploração da natureza, mesmo nos seus próprios territórios nacionais.
Acreditamos que a relevância do trabalho proposto pelo Grupo de Trabalho reside também na imaginação metodológica necessária para consolidá-lo como um enclave, uma fronteira (que une mais do que separa), um espaço de diálogo entre diferentes formas de saber, frequentemente com um foco comum. Nesse sentido, o objetivo é reunir pesquisadores e cientistas sociais de diversos países da América Latina e do Caribe que estejam desenvolvendo pesquisas, reflexões, práticas e/ou processos de apoio (pesquisa-ação) com movimentos territoriais, atores comunitários e experiências de resistência territorial e defesa da vida e dos bens comuns. Assim, busca-se gerar um coletivo e espaços de pesquisa, discussão e reflexão em torno de contribuições que compartilhem experiências de diversas perspectivas empíricas, teóricas e epistemológicas, sempre pensando e repensando metodologias que abordem a complexidade para além de dicotomias simplistas como sujeito/objeto, teórico/empírico, rural/urbano, sociedade/natureza, etc.: metodologias horizontais, polifonia de sujeitos, mapeamento participativo, para a aproximação e o diálogo, para a escuta respeitosa e para o desenvolvimento de estratégias conjuntas. Com esse conjunto de desafios e pontos de partida, alguns dos tópicos e temas inicialmente propostos para exploração incluem reflexão e ação sobre:
• Estratégias territoriais e impactos do capitalismo neoliberal e pós-neoliberal global
• Movimentos territoriais e 'outras territorialidades'
• Resistência e coexistência da comunidade diante da desapropriação
• Territórios da vida, comunalidade, bens comuns e a política dos comuns
• Lutas territoriais contra o extrativismo/neoextrativismo e o chamado desenvolvimento
• Conflitos socioambientais e o papel dos atores sociais
• Direitos coletivos e territoriais (direito à consulta prévia)
• Contrainsurgência e captura: impactos e estratégias de reconhecimento e resistência
• Redes de resistência entre povos e processos enraizados nos territórios
• Mapeamentos coletivos dos processos de desapropriação e da construção de reexistências
Betancourt, Milson; Porto-Gonçalves, Carlos Walter (2016). “Em defesa do extrativismo, contra o produtivismo: em busca de rigor conceitual levando em conta as práticas políticas dos subalternos”. In: Anais do Terceiro Fórum Internacional Andino-Amazônico sobre Desenvolvimento Rural. CIPCA, La Paz.
De Sousa Santos, Boaventura (2006). Renovando a teoria crítica e reinventando a emancipação social, Encontros em Buenos Aires. Buenos Aires: UBA/CLACSO.
Escobar, Arturo (2015). “De baixo, da esquerda e com a Terra”. Discurso de abertura na IV Conferência CLACSO, Medellín, novembro de 2015.
Gudynas, Eduardo (2009). Dez teses urgentes sobre o novo extrativismo: contextos e demandas sob o atual progressismo sul-americano. In CAAP e CLAES e Fundação Rosa Luxemburgo (Orgs.) “Extrativismo, Política e Sociedade” (pp. 187-225) Quito.
Harvey, David (2004). Novo imperialismo e acumulação por desapropriação. Madrid: AKAL.
Haesbaert, Rogerio (2011, [2004]). O mito da desterritorialização. Do “fim dos territórios” à multiterritorialidade. México: Siglo XXI.
Houtart, François (2011), Dos bens comuns ao 'bem comum da humanidade'. Bruxelas, Bélgica: Fundação Rosa Luxemburgo.
Mançano Fernandes, Bernardo (2005) “Movimentos sócio-territoriais e movimentos sócio-espaciais”. Observatório Social da América Latina No. 16. CLACSO, Buenos Aires.
Martínez Alier, Joan, (2004). O ambientalismo dos pobres: conflitos ambientais e linguagens de valoração. Barcelona: ICARIA/FLACSO.
Porto-Gonçalves, Carlos Walter (2002) “Da geografia às geografias: um mundo em busca de novas territorialidades” em Ceceña, AE e Sader, E. (Coord.) A Guerra Infinita. Hegemonia e Terror Mundial, Buenos Aires, CLACSO.
Svampa, Maristella (2008) Mudança de época. Movimentos sociais e poder político. Buenos Aires, Siglo XXI Editores e CLACSO.
Tapia, Luís (2008). Política Selvagem. Buenos Aires: Muela del Diablo-CLACSO.
Wahren, Juan (2012). “A reconstrução organizacional do povo Guarani na Bolívia e suas ações coletivas pelo território”. In Sociedade & Equidade nº 4. pp. 44-63.
Wallerstein, Immanuel (2006). Análise de Sistemas Mundiais. México: Siglo XXI.
Zibechi, Raúl (2008). Autonomias e emancipações. América Latina em movimento. Cidade do México: Bajo Tierra Ediciones & Sísifo Ediciones.
(Ações de articulação para pesquisa social comparativa relevante e rigorosa)
2. Contribuir para a análise crítica e transversal das experiências e processos de construção, reconstrução e/ou ressignificação territorial como fundamento da vida social (territórios de reexistência) na América Latina.
3. Mapear as experiências de luta e resistência socioterritorial na América Latina.
2. Promover espaços de discussão e troca de ideias sobre os contextos sociopolíticos e geopolíticos da região.
3. Realizar um mapeamento das lutas socioterritoriais e da resistência na América Latina.
4. Duas reuniões GT.
2. Um mapa em escala latino-americana das lutas socioterritoriais e da resistência na região.
3. Elaboração de documentos de divulgação (livretos, brochuras, manifestos, mapas sociais, etc.) sobre o tema da GT e relacionados com experiências e processos específicos de reexistência territorial na AL.
4. Realizar um fórum internacional sobre os contextos e experiências de conflitos territoriais na região e as alternativas territoriais propostas por organizações sociais.
(Ações para formação, visibilidade e comunicação da produção)
2. Gerar e estabelecer processos de intercâmbio e discussão teórico-metodológica entre o GT e outros espaços acadêmicos (graduação e pós-graduação).
2. Organização de oficinas de divulgação e discussão em espaços acadêmicos no âmbito de processos de formação na América Latina (presencialmente e virtualmente).
2. Organização de um Curso Internacional de Especialização Avançada em Estudos Territoriais Críticos na América Latina. Em colaboração com alguns centros acadêmicos (a serem definidos) na América Latina.
3. Realizar 3 seminários/oficinas regionais em 3 países da América Latina (um por região: Mesoamérica; Andes e Cone Sul), sobre o tema trabalhado pelo GT.
Evento internacional em Bogotá sobre paz territorial e distribuição de terras na América Latina.
(Relações com organizações de ciência e tecnologia, organizações não governamentais, sindicatos, movimentos sociais, etc.)
2. Promover e propor espaços de encontro e disseminação com os atores responsáveis pelas políticas públicas nos países da América Latina onde a GT atua.
2. Um encontro/oficina de intercâmbio internacional com atores socioterritoriais, no âmbito dos três encontros regionais da GT.
2. Um documento de sistematização (relatório de reunião regional) das reuniões com atores socioterritoriais (movimentos, organizações, comunidades).
3. Publicação de manifestos e pronunciamentos da GT sobre algumas situações e circunstâncias locais, nacionais, regionais e internacionais relacionadas ao tema da GT.
(Redes científicas, organizações de cooperação internacional, instituições acadêmicas)
Evento em Bogotá sobre a questão agrária na América Latina, sob uma perspectiva territorial.
(Ações de articulação para pesquisa social comparativa relevante e rigorosa)
2. Problematizar e refletir teoricamente sobre as noções de território, territorialidades, movimentos socioterritoriais, 'outras territorialidades' e 'territorialidades em reexistência' na América Latina.
2. Duas reuniões de Grupos de Trabalho, no âmbito de eventos internacionais.
2. Realização de um colóquio internacional de teoria/prática sobre 'territorialidades na reexistência' na América Latina.
3. Publicação de um livro coletivo sobre abordagens teórico-metodológicas de territórios e territorialidades e sobre diversas experiências socioterritoriais e territórios em reexistência na América Latina.
3. Participação em painéis e reuniões de grupos de trabalho em eventos internacionais, como: Congresso da LASA (Guadalajara, 2020); Fórum Mundial de Sociologia (ISA FORUM), Porto Alegre 2020, etc.
(Ações para formação, visibilidade e comunicação da produção)
2. Participar e debater os resultados e argumentos temáticos do Grupo de Trabalho em publicações nacionais e internacionais e em espaços académicos.
3. Divulgar o trabalho do GT e seus resultados por meio de publicações da CLACSO e instrumentos de divulgação acadêmica.
2. Organizar um seminário virtual no Campus Virtual da CLACSO sobre o tema abordado pelo Grupo de Trabalho.
2. Um seminário virtual sobre 'territorialidades em reexistência' no Campus Virtual CLACSO.
3. Produção de um documentário em vídeo sobre conflitos territoriais na América Latina e suas resistências.
(Relações com organizações de ciência e tecnologia, organizações não governamentais, sindicatos, movimentos sociais, etc.)
2. Promover espaços de encontro e disseminação com os atores responsáveis pelas políticas públicas nos países da América Latina onde a GT atua.
2. Reuniões e encontros com gestores de políticas públicas em alguns países da América Latina.
2. Três relatórios das reuniões regionais.
3. Documentos com sistematizações, recomendações e/ou propostas relativas a políticas públicas sobre questões territoriais em alguns países da América Latina e perante organizações internacionais regionais.
4. Reunião sobre resistências territoriais em torno da defesa da água, a ser realizada em cooperação com redes do Chile neste país.
(Redes científicas, organizações de cooperação internacional, instituições acadêmicas)
- Rede Brasileira de Justiça Ambiental;
- Coordenador para a Defesa dos Territórios na Bolívia;
Geografia;
- Processo das Comunidades Negras, PCN, Colômbia;
- Assembleias contra a mega-mineração;
- Organizações sociais que lutam contra o fracking;
- Coordenador das Organizações Indígenas da Bacia Amazônica (COICA).
(Ações de articulação para pesquisa social comparativa relevante e rigorosa)
2. Discutir e sistematizar metodologias de pesquisa-ação participativa, metodologias horizontais e agendas de pesquisa compartilhadas com organizações sociais.
2. Organização de espaços para discussão e reflexão metodológica sobre o trabalho com movimentos e sujeitos socioterritoriais.
2. Publicação de um documento sobre metodologias para trabalhar com e a partir de movimentos e sujeitos socioterritoriais.
2. Realizar um evento internacional baseado em um 'diálogo de conhecimento' sobre processos de luta e resistência socioterritorial.
(Ações para formação, visibilidade e comunicação da produção)
2. Participação e apresentação em fóruns e congressos internacionais sobre os temas analisados, discutidos e/ou sistematizados no GT (através de painéis ou apresentações individuais).
2. Socialização e circulação de conhecimento através de um site GT, vinculado à rede CLACSO.
3. Produção de um documentário sobre as experiências de resistência territorial em áreas rurais e urbanas da América Latina.
(Relações com organizações de ciência e tecnologia, organizações não governamentais, sindicatos, movimentos sociais, etc.)
2. Debater, rever, reformular e sistematizar os principais avanços e conclusões da pesquisa empírica produzida durante o processo de trabalho do GT sobre as principais transformações socioterritoriais verificadas na América Latina, em suas diferentes escalas geográfico-políticas, nos últimos anos.
(Redes científicas, organizações de cooperação internacional, instituições acadêmicas)
Número total de pesquisadores admitidos: 43
Instituto de Estudos Interculturais
Pontifícia Universidade Javeriana, Filial Cali
Colômbia
Centro de Estudos de Desenvolvimento Regional e Políticas Públicas
Universidade de Los Lagos
Chile
Instituto de Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais .IDIHCS/UNLP/Conicet
Argentina
Centro de Pesquisa sobre Dinâmica Social
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Extership universitário da Colômbia
Colômbia
Programa de Pós-Graduação em Estudos Latino-Americanos
Área de Coordenação de Pós-Graduação, Faculdade de Filosofia e Letras
Universidade Nacional Autônoma do México
México
Programa de Doutorado em Ciências Humanas
Faculdade de Ciências Humanas
Universidade Nacional de Catamarca
Argentina
Programa de Pós-Graduação em Geografia
Instituto de Ciências, Campus da Praia Vermelha, Departamento de Geografia
Universidade Federal Fluminense
Brasil
Programa de Doutorado em Ciências Humanas
Faculdade de Ciências Humanas
Universidade Nacional de Catamarca
Argentina
Programa de Pós-Graduação em Geografia
Universidade Federal de Sergipe
Brasil
EXTERNADO UNIVERSIDADE DA COLÔMBIA-CIPE (CENTRO DE PESQUISA DE PROJETOS ESPECIAIS)
Colômbia
Divisão de Ciências Sociais e Humanas
Universidade Autônoma Metropolitana - Unidade Azcapotzalco
México
Centro de Estudos de Desenvolvimento
Universidade Central da Venezuela
Venezuela
Universidade de Viena
Áustria
Escola de Serviço Social. Universidade de Valparaíso
Chile
Departamento de Serviço Social, Universidade Tecnológica Metropolitana
Chile
Programa de Doutorado em Ciências Humanas
Faculdade de Ciências Humanas
Universidade Nacional de Catamarca
Argentina
Universidade Nacional da Colômbia
Colômbia
Centro de Pesquisa sobre Dinâmica Social
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
Extership universitário da Colômbia
Colômbia
Universidade Nacional da Colômbia
Colômbia
Centro de Estudos Jurídicos e Pesquisa Social
Bolívia
Departamento de Planejamento Territorial e Sistemas Urbanos, Faculdade de Ciências Ambientais, Universidade de Concepción.
Chile
Universidade de Toronto
Canadá
Censat Água Viva
Colômbia
Pontifícia Universidade Católica do Peru
Peru
Programa de Pós-Graduação em Sociologia
Instituto de Ciências Sociais e Humanas
Benemérito Universidad Autónoma de Puebla
México
Programa de Pós-Graduação em Geografia
Instituto de Ciências, Campus da Praia Vermelha, Departamento de Geografia
Universidade Federal Fluminense
Brasil
Universidade americana
Estados Unidos
Universidad del Valle
Colômbia
Instituto de Pesquisa Gino Germani
Faculdade de Ciências Sociais
Universidade de Buenos Aires
Argentina
Instituto de Geografia, Pontifícia Universidade Católica de Valparaíso
Chile
Divisão de Ciências Sociais e Humanas
Universidade Autônoma Metropolitana - Unidade Xochimilco
México
Universidade Agostiniana
Colômbia
Centro de Estudos Jurídicos e Pesquisa Social
Bolívia
Universidade Carlos III de Madrid, Departamento de Ciências Sociais
Espanha
Estudos Endêmicos
Colômbia
Programa de Pós-Graduação em Geografia
Instituto de Ciências, Campus da Praia Vermelha, Departamento de Geografia
Universidade Federal Fluminense
Brasil
Observatório de Ecologia Política da Venezuela
Venezuela
Universidade de Ottawa
Canadá
Universidade de Barcelona
Espanha
Instituto de Pesquisa Gino Germani
Faculdade de Ciências Sociais
Universidade de Buenos Aires
Argentina
Departamento de Antropologia, Universidade da Carolina do Norte
Estados Unidos
University of York
Reino Unido
Base de Pesquisa Social
Paraguai
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