Francia Márquez: a dignidade torna-se vida quotidiana
No último domingo, 13 de março, foram realizadas eleições legislativas na Colômbia para representantes da Câmara dos Deputados e do Senado, juntamente com eleições primárias para as indicações presidenciais das diversas coalizões que compõem o cenário político do país. O Pacto Histórico, uma aliança progressista, venceu as primárias com Gustavo Petro. Em seguida, foi escolhida Francia Márquez, líder afro-colombiana, feminista e ambientalista. Ela é conhecida por sua liderança comunitária e por ser porta-voz das comunidades. Sua posição como a terceira mais votada demonstra suas qualificações para integrar a chapa do Pacto Histórico como candidata a vice-presidente.
El Grupo de Trabalho da CLACSO: Crise Civilizacional, Reconfigurações do Racismo, Movimentos Sociais Afro-Latino-Americanos A organização endossa o apoio dado pelas diversas plataformas populares e, em especial, pela Articulação Regional de Afrodescendentes das Américas e do Caribe.

Declaração da ARAAC – Articulação Regional de Afrodescendentes das Américas e do Caribe
FRANCIA MÁRQUEZ: A DIGNIDADE SE TORNA PARTE DO COTIDIANO
Numa Colômbia assolada pela desigualdade e pela morte, por um aparato estatal que viola direitos humanos fundamentais, numa terra de pobreza indizível. Nessa Colômbia de velórios e enterros diários de inocentes, hoje os filhos exterminados do povo ressurgem nas vozes corajosas das massas desobedientes, confrontando os sistemas partidários fossilizados, os sangrentos cartéis de drogas e as ações paramilitares que semearam medo e terror. Em nossa irmã Colômbia, qualquer um que levante a cabeça é alvo de uma bala mal paga, ou enfrenta assassinatos na mídia e é forçado ao exílio. Onde eles imaginavam que a esperança e os sonhos não poderiam existir. Os propagadores do ódio estavam enganados. O povo colombiano continua vivo.
O triunfo do Pacto Histórico como coalizão e o apoio ao seu líder incontestável, Gustavo Petro, foram proclamados em seu discurso de celebração: “Chegou a hora da Colômbia, uma bela hora para se viver. Uma hora intensa. Uma hora na história, em que finalmente temos, como geração, uma segunda chance. Chegou a hora de sermos uma potência mundial da vida.” Ao longo de seu discurso, permearam-se os termos paz, amor, inclusão, não violência, diálogo e reconhecimento. Em suma, uma Colômbia que reconhece suas feridas abertas e une seus corações para curá-las. Ao seu lado, Francia Márquez Mina, superando com dignidade a invisibilidade da mídia e seus aliados, que se concentraram unicamente no triunfo do Pacto Histórico e ignoraram a bela vitória da plataforma de luta e sonhos que ela lidera: Soy Porque Somos (Eu Sou Porque Nós Somos). A importância histórica de uma mulher negra, líder de movimentos populares, tornar-se a terceira candidata mais votada no país, emerge não apenas na Colômbia, mas em toda a América e Caribe.
Francia Márquez deu a sua palavra; não espera reciprocidade pessoal porque representa e personifica um projeto coletivo de libertação e dignidade. Retribua essa lealdade às milhares de vítimas, estanque as lágrimas das mães e viúvas, dê esperança aos jovens aprisionados pelos narcotraficantes e impeça as despedidas dos familiares que partem para a guerra. A sua palavra é com os afro-colombianos, palenqueros, raizais e indígenas, com as feministas, com as crianças e com todos os cidadãos colombianos que costumavam caminhar com os olhos fixos no chão. Hoje, Francia Márquez deixa para trás a sua vontade de viver.
A promessa deve ser cumprida; a evidente liderança de Francia Márquez Mina é um mérito reconhecido pela maioria que a quer como vice-presidente. Nas suas palavras, "Vamos lá, Colômbia: da resistência ao poder até que a dignidade se torne a norma", uma declaração da nova líder daquela outra Colômbia que deixou de sonhar e agora luta.
15 de março de 2022
Grupo de Trabalho CLACSO
Crise civilizacional, reconfigurações do racismo, movimentos sociais afro-latino-americanos
Articulação Regional de Afrodescendentes das Américas e do Caribe – ARAAC
Esta declaração expressa a posição do Grupo de Trabalho. Crise civilizacional, reconfigurações do racismo, movimentos sociais afro-latino-americanos e não necessariamente a dos centros e instituições que compõem a rede internacional da CLACSO, seu Comitê Diretivo ou seu Secretariado Executivo.