Evocação em meio a crises socioeconômicas e de saúde

 Evocação em meio a crises socioeconômicas e de saúde

Carlos Fidel

Nos últimos anos, a crescente volatilidade e expansão da esfera financeira global, aliadas à absorção cada vez maior de capital fictício excedente, levaram a uma superabundância de capital financeiro. Isso ocorreu em um processo que tendeu a operar de forma autônoma em relação às estruturas tecnológicas de acumulação de capital concreto e localizado. Assim, surgiram as possibilidades de uma crise na reprodução de bens e serviços. No contexto da globalização, essa crise pode ter efeitos quase instantâneos em escala planetária.

A rápida e generalizada transmissão da pandemia global de COVID-19 criou condições que interromperam o fluxo de produção e distribuição de bens e serviços. A isso se somou a resposta errática e unilateral dos governos, que desmantelou blocos regionais que vinham se desenvolvendo institucionalmente há décadas. Esses fatores exacerbaram os riscos e a iminente crise econômica e financeira.

Entre outras questões, ele destacou a fragilidade e a desigualdade sanitária, urbana e ambiental do capitalismo em escala global, e especialmente como suas repercussões são mais graves em países que adotaram estratégias governamentais neoliberais.

Diante desse cenário de crise, observamos o ressurgimento de certas medidas, de políticas heterodoxas que visam à intervenção estatal, utilizando um conjunto variado de ferramentas derivadas do pensamento keynesiano.

É precisamente neste momento que é oportuno recordar o economista argentino Edgardo Lifschitz (1941-2016). Ele foi um dos pioneiros nos estudos dos chamados “complexos de produção”, uma metodologia que reconhece os antecedentes da abordagem matricial “insumo-produto”, modelos desenvolvidos pelo economista russo-americano Wassily Leontief (1906-1999).

Edgardo Lifschitz iniciou seu trabalho com a metodologia dos "complexos produtivos" na Argentina; posteriormente, durante seu exílio da última ditadura cívico-militar, continuou-o no México, na Universidade Autônoma do México, campus de Acapulco (UAM-A). Ao retornar à Argentina, prosseguiu com esse trabalho no Ministério da Economia. Por fim, realizou seus últimos projetos na Escola de Engenharia e Ciências Naturais (EEyN) da Universidade de San Martín.

A ideia central da metodologia analítica é elaborar um mapa produtivo da comercialização de bens e serviços em um país, com base na análise da cadeia de relações estabelecida na geração e distribuição de um produto ou serviço. O método envolve o processamento de dados empíricos, que consistem em configurar a rede de relações entre as diferentes fases das atividades de um país.

Uma vez elaborado um mapa representativo dos setores produtivos, é possível identificar os agentes empresariais que atuam em cada fase do circuito de atividades e, posteriormente, determinar se o agente possui alguma associação (e qual a sua forma) com um grupo econômico mais desenvolvido em nível nacional ou transnacional.

Como resultado da aplicação desta metodologia, obtém-se uma descrição precisa e atualizada da reprodução material e virtual, com foco na formação de sociedades empresariais que operam em uma geografia ambiental rural ou urbana específica.

Neste momento que a Argentina e outros países, especialmente na América Latina, atravessam, as políticas destinadas a superar os efeitos adversos da epidemia e da crise socioeconômica e financeira são prejudicadas por grupos empresariais concentrados.

Uma das frentes de tempestade é o aumento injustificado de preços por parte de empresários que se aproveitam de posições monopolistas em alguma fase da produção e/ou distribuição.

Outro problema é a escassez de certos produtos, situação que certamente também se explica pela concentração de negócios em algum ponto da cadeia de suprimentos.

Outro aspecto da transição, considerado a médio prazo, é o aumento da produção no âmbito de uma distribuição de rendimentos mais justa, acompanhado de uma política social baseada na igualdade social e no direito de acesso a bens básicos: educação, saúde, alimentação, habitação, entre outros. Estes aspetos exigem a conceção de uma estratégia de intervenção estatal que envolva:

- Apoio de atores sociais que promovem o emprego e o desenvolvimento industrial.

-Regular as margens de lucro, impedindo a obtenção de lucros e rendas extraordinárias.

-Reduzir as fases improdutivas da cadeia de produção, distribuição e comercialização.

- Apoio e desenvolvimento do setor da economia social.

- Expandir a produção de bens e serviços básicos para os segmentos desfavorecidos da população.

As tarefas e os desafios do Estado são muito maiores. Ele deve agir com inteligência, decisão e precisão, utilizando toda a força da lei.

Para alcançar esse objetivo, a equipe governamental deve perseverar na coleta de informações concretas e rigorosas sobre o funcionamento dos circuitos reais e financeiros da economia, determinando a localização rural e urbana.

Quando a intervenção estatal se torna ativa, o trabalho realizado por Edgardo Lifschitz não é apenas memorável, mas essencial para garantir uma intervenção governamental eficaz e eficiente com objetivos específicos.


Professor consultor de pesquisa na Universidade Nacional de Quilmes (UNQ). Coordenador do Grupo de Trabalho da CLACSO sobre Pobreza e Políticas Sociais.


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