Estado e lutas populares na América Latina: cartografias para uma mudança de era

 Estado e lutas populares na América Latina: cartografias para uma mudança de era


Seminário 2343

Coordenação: Mabel Thwaites Rey (Universidade de Buenos Aires, Argentina), Sandra Carolina Bautista (Universidade Nacional Aberta e a Distância, Colômbia) e María Josefina Torres (Universidade Central do Equador)

Equipe de ensino: Julieta Paula Mellano (Programa de Pós-Graduação em Estudos Latino-Americanos, México), Hernán Darío Ouviña (Universidade de Buenos Aires, Argentina), Javier Leonardo Moreira Slepoy (Universidade Nacional de Córdoba, Argentina), Danilo Enrico Martuscelli (Universidade Federal de Uberlândia, Brasil), Anahí Durand Guevara (Universidade Nacional de San Marcos, Peru), Mariana Andrea Giaretto (Universidade Nacional de Comahue, Argentina), Victoria Darling (Universidade Federal para a Integração Latino-Americana, Brasil), Jorge Viaña (Universidade Superior de San Andrés, Bolívia), Rodolfo Gómez (Universidade de Buenos Aires, Argentina), Juan José Martínez Volkmar (Coletivo Colombiano pela Paz do México), Adrián Piva (CONICET, Argentina), Santiago Eugenio Ortiz Crespo (FLACSO, Equador), Milton Piñeros Fuentes (Universidade Nacional da Colômbia), Rafael Magdiel Sánchez Quiroz (Programa de Pós-Graduação em Estudos Latino-Americanos Latino-Americanos (México), Lucio Fernando Oliver Costilla (Universidade Nacional Autônoma do México), Darío Clemente (FLACSO, Argentina) e Juan Carlos Monedero Fernández (Universidade Complutense de Madrid, Espanha)

Início: 07/08/2023 | Inscrição: 08/05/2023 a 06/08/2023

Carga horária: 12 semanas – 90 horas.



A questão do Estado, enquanto locus de poder concentrado, arena privilegiada para disputas e território para as lutas e a construção da hegemonia e da contra-hegemonia, retornou ao centro do debate político nos últimos 20 anos. Isso significou reviver a discussão fundamental em torno do poder, não apenas em sua dimensão restrita, mas também em relação ao amplo significado econômico e sociopolítico que expressa como núcleo da concentração das relações de poder. Não é coincidência que, em momentos históricos de ascensão das lutas populares, mas também naqueles marcados por uma tendência desestabilizadora e/ou restauracionista por parte das classes e elites economicamente dominantes, a “questão do Estado” reapareça com maior força, na medida em que se levanta a luta substantiva pelo poder. Sem dúvida, essa centralidade se evidenciou nos processos que buscaram promover propostas alternativas mais radicais ao neoliberalismo predominante na década de 90, bem como naqueles que, de forma mais ambígua, procuraram romper ou se distanciar de alguns de seus princípios fundadores, mas também nos países onde a hegemonia neoliberal ainda persiste e parece não apresentar grandes fissuras. O Seminário visa justamente abordar essa dimensão de grande relevância, sem separá-la das lutas populares e das dinâmicas de poder que moldam e dilaceram as sociedades latino-americanas como um todo.

A proposta do seminário baseia-se na enriquecedora experiência analítica sobre os Estados da América Latina e do Caribe que, há mais de dez anos, vem sendo desenvolvida pelos grupos de trabalho da CLACSO, que têm como foco central a questão do Estado e são compostos por todos os membros da atual equipe docente.

Essa experiência nos permitiu aprofundar-nos em referenciais teóricos e, sobretudo, nas particularidades, pontos em comum e metamorfoses da condição de Estado na América Latina e no Caribe, tanto em termos de sua configuração e desenvolvimento histórico quanto no contexto continental instável dos últimos anos. Partimos do pressuposto de que o Estado — como condensação material de uma correlação de forças, por definição assimétrica e instável — embora não seja uma entidade neutra, não pode ser considerado um bloco monolítico a serviço das classes dominantes, mas sim uma esfera constitutivamente conflituosa. Entre 2010 e 2022, analisamos detalhadamente a morfologia interna dos Estados latino-americanos, atentando para suas mudanças e continuidades em relação à evolução das dinâmicas de poder, bem como às restrições regionais e às impostas pelo sistema capitalista global. A partir de diversas perspectivas e interpretações, pudemos compreender a complexa realidade desses Estados, tanto em seus aspectos mais gerais quanto em relação a questões nacionais e/ou plurinacionais específicas. Caracterizamos o período que se iniciou após a onda de ajustamento estrutural e políticas pró-mercado no alvorecer do novo século na região, em que o papel do Estado adquiriu renovada centralidade, como o "Ciclo de Desafio ao Neoliberalismo na América Latina", que teve início com os governos genericamente denominados progressistas. Contudo, consideramos que esse ciclo possui suas próprias etapas e especificidades, e que sua continuidade é contestada tanto em termos de durabilidade quanto no questionamento do arcabouço neoliberal tradicional, que atualmente vivencia sua segunda onda em nossa região e parece enfrentar limitações sociais à sua perpetuação. Até o momento, no século XXI, nosso continente permanece um território emblemático de significativas lutas e disputas em torno do Estado como local de concentração de poder, arena privilegiada para conflitos e território de luta e construção da hegemonia. Este cenário de experimentação política também deve ser compreendido à luz dos efeitos do aprofundamento da crise global iniciada em 2008, seguida pela pandemia de Covid-19, o conflito Rússia-Ucrânia, a revelação da luta pela hegemonia estadunidense e a contraofensiva imperial. Por um lado, parece ter alimentado a ascensão de opções políticas de direita com viés autoritário e conservador, até mesmo fascista. Por outro lado, lutas antineoliberais foram revitalizadas, com vislumbres de resistência anticapitalista, antipatriarcal e anticolonial. Além disso, a análise de experiências de outras formas de poder popular, como as da Venezuela e de Cuba, nos ajudará a contrastar criticamente os demais casos latino-americanos.

Nesse sentido, questionamo-nos: em que medida o pós-neoliberalismo se mostrou mais uma posição retórica e discursiva do que uma realidade concreta em termos de políticas públicas e da configuração de um Estado totalmente resistente à sua lógica? O que a pandemia da Covid-19 e a presença do narcocapitalismo revelam sobre a direção política do Estado, organizador indispensável da infraestrutura dos bens comuns? Podemos falar de processos relacionados ao que Antonio Gramsci chamou de “revolução passiva”? Ou estamos, antes, testemunhando uma mudança relativa e parcial no equilíbrio de poder, sem ainda podermos anunciar o fim do ciclo iniciado há 20 anos na região? Quais perspectivas democratizantes emergem em relação à ligação entre o Estado e as lutas populares na América Latina e no Caribe?

OBJETIVOS GERAIS

- Analisar e comparar diferentes visões sobre a conceitualização e a realidade dos Estados latino-americanos e caribenhos na era pós-pandemia contemporânea, a partir de uma perspectiva interseccional e crítica.

-Investigar as transformações concretas pelas quais passaram os Estados da América Latina e do Caribe no atual contexto regional e global de conflito entre a hegemonia dos EUA e da China, bem como as particularidades de cada situação nacional e/ou plurinacional.

-Ampliar as perspectivas sobre as disputas relativas à esfera público-estatal, o desenvolvimento e a implementação de políticas públicas e seu potencial de democratização por meio da participação direta de movimentos sociais e organizações políticas na região (movimentos e organizações populares, partidos, sindicatos, plataformas unitárias, etc.).

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

- Analisar a relação que os movimentos sociais contemporâneos e as organizações populares estabelecem com o Estado, em termos de confronto, tensão, negociação, articulação e/ou complementaridade.

- Investigar as estratégias utilizadas por esses movimentos e organizações para defender e/ou expandir direitos, obter recursos fiscais e influenciar o quadro institucional do Estado, bem como o desenvolvimento e a implementação de políticas públicas participativas.

-Avaliar as modalidades através das quais é viável (ou não) para essas organizações e movimentos influenciarem a ordem jurídico-estatal e inserirem nela “elementos” da sociedade futura, mesmo antes da conquista plena do poder.

- Analisar as formas específicas de constituição dos sujeitos políticos e sua relação (de tensão, oposição e/ou complementaridade) com os Estados periféricos da América Latina nas últimas décadas, e em particular nos últimos anos.

  • Teorias críticas do Estado - Visões clássicas e revisões a partir da dimensão Estado-gênero. 
  • Teorias Críticas do Estado - Perspectivas Latino-Americanas
  • O Estado e o ciclo de desafio ao neoliberalismo na América Latina: chaves para a compreensão
  • Lutas estatais e populares no México.
  • Lutas estatais e populares na Colômbia.
  • Estado e lutas populares no Peru
  • Lutas estatais e populares na região andina. Os casos da Bolívia e do Equador.
  • Lutas estatais e populares no Brasil.
  • Estado e lutas populares na Argentina
  • Lutas estatais e populares na Venezuela e em Cuba
  • Gramsci, Antonio (1999) Cadernos do Cárcere (seleção de notas), Editorial Era, México.
  • Horkheimer, Max (2006), O Estado Autoritário, México, Itaca.
  • Jessop, Bob (1980) "Teorias recentes sobre o Estado capitalista", em Revista Crítica de Economia Política Número 16/17, México.
  • Federici, Silvia (2004), Caliban e a Bruxa, Buenos Aires, Traficantes de sueños.
  • Zavaleta, René (1987) O Estado na América Latina, Editorial Los amigos del libro, La Paz.
  • Aricó, José (1999) “A América Latina como unidade problemática”, na hipótese de Justo, Editorial Sudamericana, Buenos Aires.
  • Thwaites Rey, Mabel e Ouviña, Hernán (2012) “A condição de Estado latino-americano revisitada: reflexões e hipóteses em torno do problema do poder político e das transições”, em
  • Thwaites Rey, Mabel (org.) O Estado na América Latina: continuidades e rupturas, Editorial Arcis-CLACSO, Santiago do Chile.
  • Thwaites Rey, Mabel e Ouviña, Hernán (2019) "O ciclo de desafio ao neoliberalismo na América Latina: ascensão e fratura", em Ouviña, Hernán e Thwaites Rey, Mabel (orgs.) Estados em disputa. Ascensão e fratura do ciclo de desafio ao neoliberalismo na América Latina, CLACSO e Editorial El Colectivo, Buenos Aires.
  • Modonesi, Massimo (2017) "Revoluções Passivas e Governos Progressistas no Início do Século", em Revoluções Passivas na América Latina, Editorial Itaka, México.
  • Monedero, Juan Carlos (2019) "Seletividade estratégica do Estado e mudança de ciclo na América Latina", em Ouviña, Hernán e Thwaites Rey, Mabel (orgs.) Estados em disputa. Ascensão e fratura do ciclo de desafio ao neoliberalismo na América Latina, CLACSO e Editorial El Colectivo, Buenos Aires.
  • Oliver, Lucio (2016) "México. O Estado integral no século XXI: crise de hegemonia e mudanças na equação Estado-sociedade. Um olhar com Gramsci", em Oliver, Lucio (coord.) Transformações recentes do Estado integral na América Latina, UNAM, México.
  • González Casanova, 50 anos do PRI. O Partido do Estado: https://nexos.com.mx/?p=3334
  • Mellano, Julieta e Sánchez Quiroz, Magdiel (2019) "México dentro e fora do CINAL: A exceção ou o espelho do futuro?", em Ouviña, Hernán e Thwaites Rey, Mabel (orgs.) Estados em disputa. Ascensão e fratura do ciclo de desafio ao neoliberalismo na América Latina, CLACSO e Editorial El Colectivo, Buenos Aires.
  • Bautista, Sandra Carolina (2019). Paz, Guerra e os Caminhos da Transformação do Estado na Colômbia. In: Estados em Disputa: Ascensão e Fratura do Ciclo de Desafio ao Neoliberalismo na América Latina. Hernán Ouviña; Mabel Cristina Thwaites Rey (organizadores). Editorial El colectivo, CLACSO. Buenos Aires.
  • Cruz Rodríguez, Edwin (2016). O ciclo de protestos de 2010-2016 na Colômbia. Uma explicação. Jurídicas CUC, Vol 12, No. 1, 31-62.
  • Estrada Álvarez, Jairo (2021). A rebelião social como produção de poder e a perspectiva política. Revista Izquierda, nº 97, 53-63.
  • Quijano, Anibal (1978) Imperialismo, classes sociais e Estado no Peru, Centro de Pesquisas Sociais, Mosca Azul Editores, Lima.
  • Ugarteche, Oscar (2004) Estado de Adeus, mercado de boas-vindas, Fundação Ebert-Universidade Nacional de San Marcos, Lima.
  • Crabtree, John e Durand, Francisco (2017) Peru: Elites do Poder e Captura Política do Estado, Pontifícia Universidade Católica, Lima.

 



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Perguntas frequentes

Os requisitos básicos para participar de um seminário são:

  • Disponibilidade de pelo menos 4 horas por semana para se dedicar ao curso do seminário.
  • Acesso à Internet.
  • Domínio adequado das ferramentas de comunicação e informática.
  • Proficiência no idioma em que o curso será ministrado. Os idiomas oficiais são o espanhol e o português.

Os seminários têm duração de 12 semanas, além da conclusão de um projeto final. Um total de 90 horas de dedicação será creditado.

O curso é composto por doze aulas, cada uma acompanhada de bibliografia obrigatória, bibliografia complementar, fóruns de discussão e atividades de formação propostas pela equipe docente, trabalhos parciais e um projeto final.
O curso é online e assíncrono. Alguns instrutores podem propor atividades síncronas. Nesses casos, a data e o horário serão combinados previamente entre a equipe docente e os alunos para garantir a participação de todos.
Para ser aprovado no seminário, você deve participar de pelo menos 80% dos fóruns de discussão e atividades propostas pelos professores, ter concluído as entregas parciais programadas e ser aprovado no trabalho final.

 



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