Pesquisas sobre o impacto da pandemia nas mulheres
Karina Bidaseca, pesquisadora do IDAES e do CLACSO, está conduzindo uma pesquisa online para entender como a vida das mulheres mais vulneráveis da Argentina foi reorganizada desde o início da pandemia. A iniciativa conta com o apoio da Unidade COVID-19. Estudos anteriores mostram que as desigualdades aumentaram.
Um grupo de dezenas de pesquisadores de diversas instituições acadêmicas iniciou um levantamento sobre os impactos da COVID-19 em mulheres vulneráveis na Argentina, com o apoio da Unidade COVID-19 do Ministério da Ciência, da Agência Nacional de Promoção Científica e Tecnológica (ANPCyT) e do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica (CONICET). O projeto, intitulado “O Impacto da COVID-19 na Vida de Mulheres Afrodescendentes, Indígenas, Camponesas, Migrantes, Trans e Dissidentes, Trabalhadoras em Cooperativas, na Economia Solidária e em Bairros de Baixa Renda”, é liderado por Karina Bidaseca, pesquisadora do CLACSO e do CONICET no Instituto de Altos Estudos Sociais (IDAES) da Universidade Nacional de San Martín (UNSAM) e coordenadora científica das Redes Institucionais Orientadas para a Solução de Problemas (RIOSP) em Direitos Humanos do CONICET.
A fonte de dados da pesquisa consiste em dois questionários online autoaplicáveis. Um deles é direcionado a mulheres rurais e indígenas, e o outro a mulheres afrodescendentes, migrantes, trans e com diversidade de gênero, bem como mulheres que trabalham em cooperativas, na economia solidária e em bairros de baixa renda. Ambos os questionários têm a mesma estrutura: cinco seções de perguntas que podem ser respondidas em aproximadamente 15 minutos. A primeira seção visa reconstruir o perfil sociodemográfico; a segunda, o impacto do coronavírus na vida da respondente; a terceira foca na distribuição das tarefas domésticas e de cuidado; a quarta explora as ações comunitárias; e a quinta aborda a violência de gênero.
FORMULÁRIO: O IMPACTO DO CORONAVÍRUS NA VIDA DE MULHERES RURAIS E INDÍGENAS
FORMULÁRIO: O IMPACTO DO CORONAVÍRUS NA VIDA DAS MULHERES
O estudo visa alcançar mulheres vulneráveis em todo o país utilizando o método "bola de neve", com a participação de mais de 100 organizações localizadas na Cidade Autônoma de Buenos Aires, na Província de Buenos Aires, em Misiones, Santa Fé, Córdoba, Chubut e outras províncias. Os questionários foram distribuídos via WhatsApp entre 19 de maio e 1º de junho de 2020 (oitava e nona semanas de quarentena).
Ao ser questionada sobre as origens do projeto, Bidaseca explicou que a emergência da COVID-19 está tendo impactos específicos sobre as populações mais vulneráveis. “Organizações internacionais e pesquisadores estão falando sobre o aprofundamento das desigualdades baseadas em classe, gênero, etnia e raça, entre outras, tanto dentro das famílias quanto em instalações de saúde, hospitais, acesso a emprego e educação, e formas de participação política, entre outras áreas. Além disso, alguns estudos recentes mostram como as taxas de violência de gênero, feminicídios e assassinatos transfóbicos têm aumentado”, disse ela.
A professora da UNSAM também explicou que a emergência sanitária não afeta mulheres e pessoas LGBTQI+ da mesma forma que homens heterossexuais, mas que não existem estatísticas sobre isso. O relatório que produzirão como resultado desta pesquisa buscará preencher essa lacuna. “Além das persistentes desigualdades históricas e da vulnerabilidade das populações indígenas, afrodescendentes e LGBTQI+, há a falta de estatísticas que torna o impacto diferenciado invisível. Sentimos que era muito importante analisar o impacto da COVID-19 a partir de uma perspectiva feminista interseccional, utilizando uma metodologia feminista situada e decolonial de participação e ação”, afirmou Bidaseca. Nesse sentido, elas também lançaram a campanha #QuarantineWithRights para que mulheres e feminilidades marginalizadas possam amplificar suas vozes.
Mulheres que não vivenciam injustiças históricas, como as populações indígenas e afrodescendentes, ou que não se encontram em situação de emprego precário, vulneráveis devido à sua identidade de gênero ou vítimas de violência de gênero, não são consideradas vulneráveis neste estudo. “Para este estudo, a vulnerabilidade é estrutural e interseccional, uma vez que as condições de classe, gênero, raça, etnia, idade e outras multiplicam essas opressões e tornam a vida mais precária. Devemos ter em mente que a COVID-19 afeta desproporcionalmente essas populações, especialmente porque exacerba as desigualdades preexistentes. Esse novo paradigma da necropolítica, conforme definido por Achille Mbembe, dita quem deve viver e quem deve morrer”, afirmou Bidaseca.
Os questionários são anônimos e seguem as diretrizes éticas para o fornecimento de informações a povos indígenas (OIT). Eles não são representativos de toda a população de mulheres vulneráveis, pois se concentram principalmente na situação de mulheres vinculadas a mais de 100 organizações que colaboram no projeto.
Ao ser questionada sobre o trabalho colaborativo, Bidaseca afirmou: “Recebemos apoio da Secretaria de Extensão do IDAES/UNSAM e de cada uma das Universidades Nacionais de Córdoba, La Plata, Catamarca, Mar del Plata, Salta e Chubut, onde colegas e pesquisadores se disponibilizaram. Também recebemos apoio do RIOSP em Direitos Humanos, criado em 2015 no âmbito do CONICET, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, dos gabinetes dos Ministérios, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos e, mais recentemente, do Ministério da Igualdade de Gênero”.
Esta pesquisa é uma iniciativa dos programas "Pós-colonialidade, Fronteiras e Pensamento Transfronteiriço em Estudos Feministas" e "UNIAFRO" do IDAES. Está sendo realizada em conjunto com a Cátedra "Sociologia e Estudos Pós-coloniais: Gênero, Etnicidade e Sujeitos Subalternos" da Faculdade de Ciências Sociais (FSOC) da Universidade de Buenos Aires, com o apoio da RIOSP (Redes Institucionais Orientadas para a Solução de Problemas) de Direitos Humanos/CONICET e do Programa Sul-Sul do CLACSO. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MINCyT) apoia a pesquisa no âmbito das ações realizadas pela Unidade de Combate à COVID-19.
No Brasil, participam o Núcleo de “Gênero e Ruralidades” do Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade – CPDA/UFRRJ, Instituto PACs – RJ, GT Mulheres da Articulação de Agroecologia do Rio de Janeiro- AARJ, Rede Feminismo e Agroecologia do Nordeste, Núcleo JUREMA: Feminismos. Agroecologia e Ruralidades da UFRPE e Casa da Mulher do Nordeste- CMN/PE, Polo da Borborema e ASPTA – PB, Universidade Federal do Ceará -UFC, Centro de Estudo do Trabalho e Assessoria ao Trabalhador – CETRA/CE, Centro de Pesquisa e Assessoria – ESPLAR/CE, Movimento dos Atingidos por Barragens-MAB do Ceará.
Ver nota em: Notícias da UNSAM
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