Em condenação ao assassinato do guia espiritual maia Q'eqchi, Tata Domingo Choc Ché, na Guatemala.
Declaração do Grupo de Trabalho da CLACSO sobre Povos Indígenas e Projetos Extrativistas
O Grupo de Trabalho CLACSO Povos Indígenas e Projetos Extrativistas Expressamos nosso profundo repúdio ao assassinato de Tata Domingo Choc Ché, Ajkun – curandeiro tradicional e Ajq'ij – guia espiritual e especialista em ervas medicinais (Aj ilonel) do povo maia Q'eqchi e membro da associação espiritual Relebaal Saq'e – Nascer do Sol, um crime hediondo ocorrido em 6 de junho na aldeia de Chimay, município de San Luis, departamento de Petén, Guatemala.
O crime cometido contra o curandeiro tradicional e guia espiritual maia é resultado do fundamentalismo e fanatismo cristão impostos desde o início do colonialismo e ainda reproduzidos por membros de sua aldeia, que o acusaram de bruxaria, o detiveram, o espancaram a noite toda e o mataram ateando fogo em seu corpo, sem receber ajuda de nenhuma das numerosas pessoas presentes, falecendo no local.
Tata Domingo Choc retorna à Mãe Terra para se reunir com seus ancestrais, cujo conhecimento ele respeitou, preservou e compartilhou generosamente.
Como Grupo de Trabalho, acreditamos que este crime não é um incidente isolado, mas sim uma das muitas faces do racismo, do fundamentalismo religioso etnocida e da colonialidade do saber que nega e persegue o conhecimento indígena e aqueles que o preservam e praticam.
Alertamos para a ascensão de uma nova onda de evangelização etnocida do colonialismo na América Latina por correntes dogmáticas e conservadoras dentro das igrejas católica, protestante e neopentecostal, que buscam se impor contra a espiritualidade, as celebrações sagradas, os locais sagrados, os símbolos e os líderes espirituais dos povos indígenas. Alertamos especialmente para a influência desses setores da igreja nos governos da região, como no Brasil, onde o presidente Jair Bolsonaro defende setores abertamente racistas de igrejas cristãs, e na Bolívia, onde no ano passado Jeanine Añez tomou posse como presidente interina com uma Bíblia na mão, após declarar que "a Bíblia retorna ao palácio", uma posição que denigre abertamente as espiritualidades indígenas.
Reconhecemos o enorme valor da espiritualidade e do conhecimento indígena para o bem comum no cuidado com a Mãe Terra, suas florestas e a diversidade da vida, que são essenciais para combater os efeitos da crise civilizacional da modernidade/colonialidade, como a crise climática e a devastação ambiental, e são essenciais para construir uma sociedade que fortaleça uma matriz civilizacional baseada na comunidade.
Reconhecemos o direito humano dos povos indígenas de preservar, transmitir, proteger e praticar seus conhecimentos tradicionais.
Instamos o Estado da Guatemala, em particular o Ministério Público, a investigar e levar à justiça os responsáveis pelo assassinato do curandeiro tradicional Domingo Choc e a proteger a integridade física das famílias de tradição espiritual maia na aldeia de Chimay.
Instamos o Estado da Guatemala a respeitar as organizações e instituições legítimas das autoridades ancestrais maias na resolução e transformação dos conflitos gerados desde o período colonial e que estão causando problemas na convivência coletiva.
Instamos os Estados da América Latina a concederem proteção especial às autoridades indígenas detentoras de conhecimentos tradicionais em seu papel de preservar, proteger, praticar e transmitir esse conhecimento, incluindo a adoção de medidas especiais para protegê-las de igrejas fundamentalistas em territórios indígenas que as perseguem ou discriminam.
Junho 12 por 2020
Grupo de Trabalho CLACSO
Povos indígenas e projetos extrativistas
Esta declaração expressa a posição do Grupo de Trabalho sobre Povos Indígenas e Projetos Extrativistas e não necessariamente a dos centros e instituições que compõem a rede internacional da CLACSO, seu Comitê Diretivo ou seu Secretariado Executivo.
