No México, 76% dos novos estudantes universitários são mulheres.
No contexto do XIV Congresso Internacional de Ensino Superior "Universidade 2024", em Havana, Cuba, e do Fórum "Ensino Superior e Transformação Social", organizado pela CLACSO em 6 de fevereiro, ele conversou com a CLACSO.tv. Luciano Concheiro BórquezSubsecretário de Educação Superior do México
– Quais são os principais desafios atuais para o ensino superior na América Latina e no Caribe diante de uma forte luta pelo poder?
– No México, compartilhamos a necessidade de inclusão, o que talvez não seja um problema na Argentina. Hoje, mais de 50% dos jovens em nosso país ainda estão fora do ensino superior. Mesmo com todo o progresso que fizemos na integração de recém-formados do ensino médio.
O neoliberalismo avançou por meio de um processo de mercantilização que assumiu formas perversas em toda a América Latina, como descreveu José Martí. Essencialmente, isso se manifestou na mercantilização da educação, colocando a questão da qualidade educacional no centro e revisando currículos e programas para padronizá-los.
Temos outros problemas centrais que exigiram um confronto firme. Por exemplo, existe um processo de exclusão relacionado ao gênero, mas também em questões que dizem respeito às comunidades indígenas e afrodescendentes. Regredimos em termos da possibilidade de incluir a diversidade cultural, uma perspectiva que permitiria uma visão abrangente.
Para o México, uma de suas características definidoras gira em torno da desconexão entre o ensino superior e a sociedade, com seus problemas e necessidades. Até mesmo a ligação com a indústria e a agricultura se perdeu; esses setores deixaram de ser relevantes. A vida centrada em prêmios e incentivos acabou substituindo o significativo desenvolvimento do potencial do ensino superior. Em 1918, Córdoba, na Argentina, mostrou que a autonomia e a luta por uma universidade estavam ligadas à conexão e ao compromisso social. Esses princípios haviam se perdido completamente no México.
– Nesse contexto muito particular, houve muita discussão sobre ciência aberta e a importância da ciência na lógica da transformação. Qual a importância para o México de se considerar questões relacionadas não apenas ao acesso aberto, mas também aos métodos de avaliação?
– Vamos voltar ao ponto principal: para nós, no México, isso significou mudar a Constituição, especificamente o Artigo Terceiro, para consagrar a ideia do direito humano à educação, mas também à ciência. A questão central era como a ciência e a tecnologia estavam funcionando.
Como alguém que trabalha no governo, na ciência, na tecnologia e na educação, acho surpreendente a simples desconexão entre os títulos das pesquisas e os problemas sociais. Para abordar essa questão, foi adicionado um "H" de Humanidades ao Conselho Nacional de Humanidades, Ciência e Tecnologia. Esse "H" não apenas enfatizou a importância dessa perspectiva, mas também a relevância da conexão humanística, a ética do desenvolvimento científico e tecnológico e sua direção.
Todo o sistema de avaliação de pós-graduação foi completamente reformulado. Nesse sentido, o Conselho Nacional delegou a responsabilidade integral pelo sistema de avaliação de pós-graduação às instituições de ensino superior, a fim de reconectar a pesquisa ao ensino e à extensão. Para nós, isso é essencial, pois se fosse implementado com o poder que o CONICET ou o CONACYT poderiam exercer, separaria as duas esferas: aquela que une a pesquisa generativa à pesquisa formativa. Esta conferência de pesquisa busca abordar os problemas que afligem nossas sociedades.
– Este tema parece central. Dá a impressão de que, em alguns círculos ao redor do mundo, está sendo discutida uma ciência que não transforma as comunidades que estuda…
– Exatamente. Nos vimos diante das principais empresas de refrigerantes realizando pesquisas em um país onde o investimento de grandes corporações em pesquisa é quase inexistente, onde todo o dinheiro é público e usado por grandes corporações transnacionais no México. Em outras palavras, estávamos transferindo dinheiro (com recursos públicos) para esse processo de transnacionalização.
– Nesse contexto, falamos, por um lado, de avaliação, de pesquisa adequada às sociedades em que se insere, mas e o processo de publicação? Porque a publicação também possui uma lógica complexa de mercantilização que levou à privatização do conhecimento subsequente.
– Absolutamente. E está ligado à meritocracia. O problema era construir um grupo de pesquisadores que seriam recompensados por meio de publicações. Qual era o sentido? Nenhum. Há um excesso (isso é comprovado) de publicações sobre tudo. Publicações repetitivas, ou seja, ficção acadêmica, acabaram desempenhando um papel muito importante, publicar por publicar. Você publica um artigo acadêmico no exterior que não tem impacto no país, mas como foi publicado no periódico "x" ou "y" nos Estados Unidos, isso basta. Isso lhe dava reconhecimento, e não importava se alguém o lesse no México ou se tivesse algum efeito. Então, estabelecemos uma série de linhas de pesquisa acordadas em nível nacional, em discussão com as próprias instituições de ensino superior, mas sobretudo em conexão com os principais problemas nacionais. E a relação que temos em termos de ciência e tecnologia foi modificada.
– Estamos falando de muito mais do que leis, regulamentos e acordos, mas de uma transformação cultural, pois tem uma profundidade diferente.
— Absolutamente. Podemos medir isso de várias maneiras. Conversando com a CLACSO, aprecio que eles abordem a questão de gênero. No México, primeiro houve uma emenda constitucional, depois passamos para a primeira Lei Geral do Ensino Superior, que delineou não apenas o que deveria ser, mas também o que deveria ser feito. Assim, a construção em torno de elementos relacionados a uma visão de mundo levou a um aumento significativo no número de estudantes — 700 mil novos estudantes até agora durante este governo. Mas a estatística chave dessa mudança cultural é que 76% são mulheres. Foi um divisor de águas para o país. Agora não há um único estado que não tenha mais mulheres, tanto estudantes quanto professoras. Portanto, essa mudança, aliada a uma forte campanha contra a violência, além do enfrentamento direto do assédio e de todas as condições que levam a uma vida de insegurança, nos levou a uma verdadeira mudança cultural. Quando chegamos à associação de universidades mais importante, havia apenas três mulheres. Estamos falando de centenas e centenas de homens de terno e gravata (é claro). Atualmente, 43% de todas as nossas instituições de ensino superior são lideradas por reitoras e diretoras-gerais. Trata-se de uma grande transformação cultural.
– Nesse sentido, há efeitos dominó decorrentes de algumas medidas muito centrais. Estou pensando nas responsabilidades subsequentes de cuidado para que essas mulheres possam estudar, e há uma série de questões que precisam ser consideradas ao implementar uma medida tão importante, certo?
– Exatamente. Além de nos perguntarmos se basta oferecer boas condições de ingresso, também concedemos bolsas de estudo para mulheres, que tiveram que ser mais numerosas que os homens.
Mas fomos além. Começamos com uma política de interculturalidade, que é outra das nossas principais características e mudanças culturais. Essa política não se baseia em aceitar e encarar a diferença a partir de uma perspectiva de alteridade, mas sim de uma perspectiva de alteridade e compreensão compartilhada. A interculturalidade é para todos, ou não é intercultural de forma alguma.
Outro ponto é o multiculturalismo, que é o novo discurso da construção ideológica central da direita em todo o mundo. Essa visão vem avançando na Europa em termos protofascistas em relação à cultura e às outras culturas, dizendo: "Eu te aceito", mas no seu bairro, no Norte da África ou em algum outro lugar. Portanto, há uma mudança aí.
– Estávamos conversando com René Ramírez, ex-funcionário do governo equatoriano na área de educação superior, que mencionou um novo estudo sobre o número de estudantes que frequentam universidades públicas na América Latina, mas que, na hora de votar, optam por propostas de direita que tornariam essas universidades pagas, fechadas e restritas a determinados setores. Como o senhor explica essa situação?
– No México, felizmente, isso não está acontecendo conosco. Mas existe um grupo dentro da classe docente. Essa casta aspiracional criou a imagem de que você eventualmente alcançará essas melhores condições. Mas quando você consegue aumentar o número de alunos da faixa de renda mais baixa em 36% em cinco anos, não vemos esses resultados (de votos da direita).
Hoje, estamos falando de um processo de territorialização da política que acompanha um processo de territorialização da universidade. A desconexão entre territórios e território entendido como construção de poder, autogestão e participação social nos permitiu operar de uma maneira diferente. Estou muito satisfeita que esse processo, que não pretendia se impor, tenha conseguido abrir caminhos significativos. Diante de um Estado conservador, inauguramos uma universidade intercultural para a igualdade, idealizando também uma universidade com foco em gênero. Ao entrar na instituição, o projeto é belíssimo; há uma área de creche para crianças dentro da universidade, mas também uma área para pais idosos, porque as mulheres, nesse contexto de cuidado, muitas vezes acabam cuidando dos idosos em casa.
Esta universidade está localizada no estado de Aguascalientes, que tem uma governadora. Conversamos bastante com ela. Inicialmente, ela nos disse: "Quero uma universidade para mulheres", mas, em um estado como Aguascalientes, tivemos a honestidade de lhe dizer que as pessoas poderiam erroneamente acreditar que nossa proposta era simplesmente ensinar mulheres a cozinhar melhor, lavar roupa e passar, dados todos os preconceitos que cercam esses assuntos. Então, à medida que avançávamos em nosso diálogo sobre interculturalidade e igualdade, a governadora adorou a ideia e acabamos desenvolvendo uma abordagem completamente diferente.
Assim como a Afro-Universidade. No México, temos uma universidade chamada Afro-Universidade na Costa Chica, em Oaxaca. Toda essa questão abalou a região porque a identidade negra é uma das mais invisíveis. Estamos transformando aquilo que nos rejeita em um elemento de identidade e uma forma de confrontar o racismo.
– Com base no que estamos vendo no mapa político futuro, tudo aponta para uma possibilidade de continuidade das ideias políticas. Como projetamos a lógica futura, considerando que, se essas políticas não continuarem, será muito difícil para elas criarem raízes culturais profundas?
— Em princípio, eu diria que precisamos pensar em educação e saúde, em uma política estatal. Políticas governamentais na área da educação que se esgotam em um único mandato, francamente, não têm nenhuma visão de longo prazo.
Em contrapartida, uma lei derivada do Artigo Terceiro da Constituição Mexicana possui uma base muito mais sólida, visto que sua revogação exige uma votação de dois terços. Devemos dar considerável peso a um projeto verdadeiramente alternativo, já que grande parte de sua força reside em abordar políticas governamentais, mas, em termos de educação, estamos inevitavelmente falando de política estatal.
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