"No século XXI, observa-se um ressurgimento da cooperação Sul-Sul."

 "No século XXI, observa-se um ressurgimento da cooperação Sul-Sul."

Transcrição da coluna de Karina Batthyány
Em InfoCLACSO – 24 de abril de 2024

Qual é o valor das universidades públicas hoje na Argentina e em qualquer lugar da América?

Esta é uma luta para toda a região. Hoje, ela atinge níveis alarmantes na Argentina devido aos ataques às universidades públicas, decorrentes da tendência à mercantilização do ensino superior e, consequentemente, do desrespeito ao direito à educação. Na CLACSO, defendemos o direito à educação para todos, em todos os níveis e ao longo de suas vidas. Em outras palavras, a educação deve ser entendida como um bem público, comum e universal.

As universidades públicas de nível superior desempenham um papel central na geração de conhecimento. Na Argentina e no Uruguai, por exemplo, 80% do conhecimento científico produzido tem origem em universidades públicas, financiadas com recursos públicos destinados à pesquisa, desenvolvimento, ciência e tecnologia.

Estamos profundamente preocupados com tudo o que está acontecendo em relação às universidades públicas, na perspectiva daqueles que detêm o poder no governo argentino. Eles querem promover um projeto profundamente conservador, neoliberal e mercantilista e, além disso, rejeitam todas as formas de intervenção estatal no conhecimento e no pensamento crítico. Hoje, as ruas da Argentina defendem o direito à educação pública e a universidades públicas de excelência.

– Estamos no Fórum sobre as Novas Dinâmicas das Relações Sul-Sul e os Desafios da Integração Latino-Americana. Qual é o contexto geopolítico da região mais desigual do planeta e qual a importância da integração entre os países da nossa América?

Gostaria de começar abordando dois pontos: primeiro, a integração da América Latina e do Caribe, uma questão pendente e inacabada em nossa região. Há evidências claras de que, se a América Latina e o Caribe avançassem em processos genuínos de integração, nossa história e realidade seriam muito diferentes, em termos de desenvolvimento, bem-estar e fortalecimento das diversas dimensões que contribuem para o bem-estar coletivo. Do ponto de vista geopolítico, se há algo que está sendo evitado, é a integração da América Latina devido ao seu poder: poder político, cultural e econômico, bem como sua influência sobre os recursos naturais e as questões ambientais.

Em segundo lugar, é importante destacar o ressurgimento que temos observado desde o século XXI em termos de cooperação Sul-Sul, ou seja, este espaço do Sul Global. Embora possamos traçar o início desse ressurgimento (a partir da década de 70) a um contexto complexo, marcado por processos de descolonização na África e na Ásia e por ditaduras militares no Cone Sul, a possibilidade de avançar nessa cooperação ou integração em nível do Sul Global era bastante difícil.

A cooperação Sul-Sul opera em vários níveis, incluindo os de Estados, organizações internacionais e instituições e organizações acadêmicas, onde a CLACSO desempenha um papel de liderança com seu programa Sul-Sul. Este programa visa promover metas de desenvolvimento com base nos princípios da solidariedade, equidade, intercâmbio horizontal entre os países do Sul Global e na premissa da interdependência. Todos os nossos países são interdependentes; ninguém pode encontrar alternativas ou soluções para as múltiplas crises que nos afetam individualmente ou dentro de cada país isoladamente.

Na CLACSO, a base dessas colaborações é o compartilhamento de conhecimento e a implementação de diversos programas de formação, pesquisa, publicações e comunicação. Isso também ocorre no âmbito do Programa de Avaliação do Conhecimento e Avaliação Acadêmica, que é o nosso Fórum Latino-Americano de Avaliação Científica (FOLEC). Este fórum já conta com a participação de países do Sul Global, o apoio do Conselho Africano, do Conselho Árabe de Ciências Sociais e da Academia Chinesa de Ciências Sociais, bem como o apoio da Índia e de outras partes do Sul Global.

Em última análise, o que propomos é como construir diferentes perspectivas sobre o processo de produção de conhecimento que nos permitam incorporar múltiplas formas de saber e realizar as críticas epistemológicas necessárias a partir do Sul Global. Devemos compreender essa noção de ecologia dos saberes — isto é, um diálogo e uma coexistência respeitosa entre diferentes formas de saber — que inclui o saber científico tradicional, mas também o saber de camponeses e movimentos camponeses na América Latina e no Caribe, movimentos indígenas e outras culturas não ocidentais.

Da mesma forma, trata-se de uma perspectiva intercultural e integrativa dessas diferentes dimensões culturais, com o objetivo de continuar a descolonizar o conhecimento que, infelizmente, ainda mantém hoje padrões extremamente hierárquicos, o que faz com que a excelência científica em todas as disciplinas se concentre e seja valorizada no Norte.

Além disso, o desenvolvimento científico na América Latina é significativamente prejudicado pelos critérios utilizados para bolsas de mérito na seleção de estudantes, contribuindo para a "fuga de cérebros" que resulta no desenvolvimento desses programas não no Sul Global, mas em universidades do Norte Global, principalmente nos Estados Unidos e na Europa. Considerando isso, acreditamos que esses são princípios fundamentais a serem levados em conta na discussão sobre a cooperação Sul-Sul, a realidade geopolítica e o papel da América Latina em todas essas questões.

A partir da FOLEC-CLACSO e da Avaliação do Conhecimento, propomos outros critérios que permitam o reconhecimento, a visibilidade e a valorização da produção científica dessas regiões do mundo. Entre outros elementos, isso implica mudanças na hierarquia do conhecimento e nas línguas em que esse conhecimento é disseminado. Há também a necessidade de colocar não apenas a diversidade linguística, mas também a diversidade cultural no centro dos critérios, para que as expressões de conhecimento mais regionais ou locais, associadas às culturas de diferentes partes do mundo, possam ser reconhecidas.

Propomos também a alteração das métricas de avaliação que atualmente são regidas quase exclusivamente pelo que pode ser publicado em certos periódicos científicos valorizados por indústrias que, na realidade, são editoras comerciais com objetivos políticos, distorcendo o panorama do conhecimento. Das centenas de periódicos produzidos na América Latina e no Caribe, muito poucos estão representados nesses catálogos, com exceção do prestigiado catálogo Redalyc, que torna visível, reconhece e prioriza o conhecimento produzido na América Latina e no Caribe.

– Quão importantes são esses encontros sobre Relações Sul-Sul, porque falar de geopolítica significa falar da lógica atual de um mundo multipolar, dos altos e baixos das relações internacionais entre países e povos ao longo do tempo, mas quantas outras questões estão incorporadas na lógica da geopolítica e, às vezes, não é tão claro qual é o impacto concreto, por exemplo, na pesquisa científica…

Quando falamos de cooperação Sul-Sul, tendemos a pensar em outros tipos de cooperação ou nos problemas geopolíticos que você mencionou. Na realidade, nossa principal atividade como CLACSO, que é a produção e articulação desse conhecimento com políticas públicas, movimentos sociais e organizações, também é afetada por essas discussões.

Gostaria também de enfatizar que todos esses elementos a serem discutidos no Fórum "As Novas Dinâmicas das Relações Sul-Sul e os Desafios da Integração Latino-Americana" estão inseridos no âmbito do nosso projeto Plataformas para o Diálogo Social, pois essas questões estão presentes nos eixos estratégicos que escolhemos para desenvolver nossas Plataformas para o Diálogo Social, que priorizam a América Latina, mas também se estendem para além da região da América Latina e do Caribe.


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