Em defesa de uma academia crítica e pelo fim da criminalização de pesquisadores na Venezuela.
Grupos de Grupo de Trabalho CLACSO Nós, os abaixo-assinados, expressamos nossa profunda preocupação e rejeição às acusações infundadas contra acadêmicos e instituições de pesquisa na Venezuela.
Por meio da mídia estatal, foi sugerido que sociólogos como Edgardo Lander, Emiliano Teran Mantovani, Alexandra Martínez, o pesquisador e ativista ambiental Santiago Arconada e o antropólogo Francisco Javier Velasco atuam como “instrumentos de interferência política e coordenação internacional contra o Estado venezuelano” devido às suas posições críticas em relação às políticas do governo venezuelano e, especialmente, por questionarem a expansão extrativista na Venezuela.
Da mesma forma, apontaram o CENDES e o Observatório de Ecologia Política como instituições que fazem parte de uma "rede de organizações e atores" que estabelecem "quadros internacionais adversos às políticas de desenvolvimento do país".
Os acadêmicos mencionados possuem carreiras longas e distintas, tanto em âmbito nacional quanto internacional, com inúmeras publicações e atividades de ensino e pesquisa ligadas às abordagens da ecologia política, gestão ambiental e modelos de sociedade. Por sua vez, o CENDES tem mais de 60 anos de história e tem sido uma instituição de referência na Venezuela e na região, enquanto o Observatório tem dado contribuições inovadoras para as questões ambientais do país, tanto na perspectiva da pesquisa quanto por meio do trabalho com as comunidades. Ambas as instituições são Centros do Conselho.
Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais, CLACSO.
Rejeitamos veementemente a ideia. Condenamos os ataques contra acadêmicos e instituições de pesquisa e reafirmamos nosso compromisso com a defesa de uma academia crítica e independente na Venezuela e na América Latina. Essa situação aponta para uma perigosa regressão que pode levar a uma perseguição ainda mais intensa das vozes dissidentes neste país.
Críticas acadêmicas bem fundamentadas ao extrativismo forneceram informações essenciais e valiosas sobre os diversos impactos desse modelo e exploraram alternativas para a América Latina. Projetos de mineração como o Arco Mineiro do Orinoco, na Venezuela, deixaram cicatrizes profundas em nossos territórios e comunidades, e justificam análises críticas e informadas de suas consequências sociais e econômicas.
Condenamos o assédio à pesquisa sobre essas questões cruciais, especialmente no contexto de uma crise ambiental global.
A ascensão do autoritarismo em suas diversas vertentes e tendências em nossa região tem sido direcionada com particular força contra a academia e o pensamento crítico, desmantelando instituições e perseguindo acadêmicos para fomentar sociedades desprovidas de dissidência e dos recursos necessários para pensar a partir de perspectivas diferentes do status quo. Nós nos manifestamos contra isso.
Como Grupos de Trabalho, reiteramos nosso compromisso com os povos, comunidades e ecossistemas devastados pelo avanço do extrativismo, em qualquer país onde isso ocorra, sob qualquer governo que o promova. A tradição do pensamento crítico na América Latina, da qual a ecologia política faz parte, tem valor inestimável para nossa região, na medida em que confronta todas as formas de colonialidade e contribui para a libertação de nossos povos. Defendemos a continuidade dessa tradição.
Agora, mais do que nunca, precisamos de uma academia crítica, que não seja dócil nem complacente com o poder.
A defesa dos direitos humanos e da natureza, bem como a proteção ambiental, não podem ser demonizadas pelos governos em nome de um suposto ataque aos "interesses do Estado e da nação". Pelo contrário, tratam-se de avanços nas lutas populares que devem ser ampliadas.
Reiteramos nossa total solidariedade aos acadêmicos e às principais instituições da Venezuela e da região. Exigimos o fim da perseguição a todo pensamento acadêmico crítico e garantias de sua segurança e direitos. Diante de uma crise como a que estamos vivenciando, o que precisamos é de mais democracia, não menos.
Solicitamos e apelamos urgentemente ao Conselho de Administração da CLACSO para que se pronuncie sobre a gravidade da situação, em defesa desses acadêmicos, membros dos centros da CLACSO e da liberdade de pensamento.
18 agosto, 2025
Grupos de Trabalho da CLACSO:
Ecologia(s) política(s) do Sul/Abya-Yala
Povos indígenas, autonomias e direitos coletivos
Estudos críticos do desenvolvimento rural
Pensamento Geográfico Crítico na América Latina e no Caribe
Ruralidades e transições políticas na América Central e na Colômbia
Povos indígenas e disputas epistêmicas-territoriais
Feminismos, resistência e emancipação
Metabolismo social/Justiça ambiental
Memórias coletivas e práticas de resistência
Esta declaração expressa a posição do referido Grupo de Trabalho e não necessariamente a dos centros e instituições que compõem a rede internacional CLACSO, seu Comitê Diretivo ou seu Secretariado Executivo.
