Em defesa da vida, da autonomia e daqueles que as defendem.
DEFENDER A VIDA, AS PESSOAS E AQUELES QUE AS DEFENDEM.
Como pesquisadores comprometidos com o pensamento crítico, a defesa dos povos e a documentação rigorosa dos processos emancipatórios contemporâneos, compartilhamos esta reflexão sobre os comunicados emitidos pelo Congresso Nacional Indígena (CNI), pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) e pelo Centro de Direitos Humanos Fray Bartolomé de las Casas (Frayba), nos primeiros dias de novembro de 2025.
Ponto 1. Violência sistemática e continuidade da guerra contra os povos.
A declaração conjunta do Congresso Nacional Indígena (CNI) e do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) denuncia o ataque armado de 31 de outubro deste ano contra membros do Conselho Indígena e Popular de Guerrero – Emiliano Zapata (CIPOG-EZ) e do Comitê Regional de Coordenação das Autoridades Comunitárias – Polícia Comunitária – Povos Fundadores (CRAC-PC-PF). Este ato, perpetrado pelo grupo criminoso Los Ardillos, faz parte de uma estratégia prolongada de violência narco-paramilitar e desapropriação territorial que afeta comunidades na região da Baixa Serra de Guerrero. A declaração responsabiliza os três níveis de governo por sua cumplicidade e impunidade, aludindo à continuidade da guerra contra os povos indígenas, agora sob o disfarce da Quarta Transformação. Ao longo da última década, 66 membros do CIPOG-EZ foram assassinados e 23 estão desaparecidos, demonstrando uma ofensiva sistemática destinada a destruir a autonomia indígena e punir a organização comunitária que defende a vida.
Ponto 2. Criminalização dos defensores e deslegitimação institucional.
A segunda declaração, publicada pelo jornal Desinformémonos e endossada pela Rede Nacional de Organizações Civis de Direitos Humanos "Todos os Direitos para Todos" (Red TDT) e pelo Centro de Direitos Humanos Fray Bartolomé de las Casas (Frayba), denuncia as declarações da congressista Judith Vanegas Tapia (do partido Morena) contra o advogado e defensor de terras Carlos González García, assessor jurídico do Congresso Nacional Indígena (CNI), a quem ela rotulou de "inimigo histórico". A Frayba destaca que tais expressões, proferidas de uma plataforma institucional, constituem uma forma de criminalização discursiva que põe em risco a segurança daqueles que defendem a causa coletiva dos povos indígenas. A declaração reafirma a trajetória de González como jurista comprometido com a autodeterminação e a justiça comunitária e exige o fim imediato da retórica de assédio e deslegitimação contra defensores de direitos humanos.
Ambas as declarações revelam o mesmo padrão estrutural: violência física e paramilitar contra comunidades organizadas, estigmatização institucional e midiática de seus defensores e desapropriação territorial como parte de uma reorganização neoliberal do espaço. Em resposta, as comunidades e organizações reafirmam seu compromisso ético com a vida e a autonomia, mantendo que sua dignidade e suas vozes não serão silenciadas.
Do Órgãos do Grupo de Trabalho CLACSO, Territórios, Resistências Reconhecemos nessas lutas a continuidade do horizonte emancipatório latino-americano que busca reconstituir o comum diante da violência do capital e da destruição dos territórios.
Manifestamos nossa veemente rejeição às ameaças, difamações e atos de criminalização cometidos contra o advogado e defensor dos povos Carlos González García, membro fundador do Congresso Nacional Indígena – Conselho de Governo Indígena (CNI-CIG).
Carlos González García tem apoiado processos agrários, autônomos e legais em Milpa Alta, Tláhuac, Xochimilco, Oaxaca e Chiapas; ele tem defendido a água, a terra, a educação comunitária e a organização autônoma. Sua prática jurídica não é movida pelo poder, mas por liderar obedecendo, caminhando ao lado das comunidades que escolhem a autonomia e a vida.
Nos solidarizamos com Carlos González García e com todos os povos que defendem seus territórios contra o capital extrativista e políticas que, sob discursos progressistas e humanistas, aprofundam a desapropriação e a militarização.
Exigimos:
- Garantias de segurança e plena liberdade para Carlos González García.
- Cessação imediata da criminalização dos defensores dos direitos coletivos.
- Respeito irrestrito pela autonomia dos povos indígenas e suas decisões relativas aos seus territórios.
- Exigimos que as instituições estatais investiguem e punam as declarações ameaçadoras feitas pela Deputada Judith Vanegas Tapia.
A história da América Latina nos lembra que defender território é defender a vida. No Brasil, na Palestina, no Sudão ou no México, o necrocapitalismo se manifesta de diferentes formas: massacres, desapropriações, perseguições. Mas em todos os lugares, o povo resiste.
Reafirmamos que o direito à vida e ao território não se reivindica: ele se exerce e se defende.
Todo o nosso apoio e solidariedade a Carlos González García!
Parem a perseguição daqueles que defendem a terra e a vida!
Contra o necrocapitalismo e a criminalização, o povo continua a marchar com dignidade!
Planeta Terra
10 novembro 2025
Órgãos do Grupo de Trabalho CLACSO, Territórios, Resistências
Este texto expressa a posição do referido Grupo de Trabalho e não necessariamente a dos centros e instituições que compõem a rede internacional CLACSO, seu Comitê Diretivo ou seu Secretariado Executivo.
