Emiliano Zapata, há um século
Nascido em Anenecuilco, estado de Morelos, em 8 de agosto de 1879, Emiliano Zapata foi assassinado a tiros, vítima de uma emboscada, há um século, em 10 de abril de 1919. Líder da Revolução Mexicana à frente do Exército Libertador do Sul, símbolo da resistência camponesa e das lutas agrárias em seu país, resgatamos sua figura através da pena do escritor e jornalista uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), em sua obra “Memória do Fogo III. Século do Vento”.
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Ele nasceu cavaleiro, muleteiro e domador de cavalos. Cavalga deslizando, percorrendo as pradarias a cavalo, cuidadoso para não perturbar o profundo sono da terra. Emiliano Zapata é um homem de silêncios. Ele fala através do seu silêncio. Os camponeses de Anenecuilco, sua aldeia, com suas casas de adobe e palha espalhadas pela encosta, fizeram de Zapata seu líder e lhe confiaram documentos da época dos vice-reis, para que ele os proteja e defenda. Essa coleção de documentos comprova que essa comunidade, enraizada aqui desde tempos imemoriais, não é uma intrusa em sua terra.
A comunidade de Anenecuilco está sendo sufocada, assim como todas as outras comunidades no estado mexicano de Morelos. Há cada vez menos ilhas de milho no oceano de cana-de-açúcar. Da aldeia de Tequesquitengo, condenada à morte porque seus índios livres se recusaram a trabalhar como diaristas, nada resta além da cruz na torre da igreja. As imensas plantações avançam, engolindo terra, água e florestas. Não deixam espaço nem mesmo para enterrar os mortos.
—Se você quiser plantar, plante em vasos.
Bandidos e advogados lidam com os desfalques, enquanto os devoradores de comunidades assistem a concertos em seus jardins, criam cavalos de polo e cães de exposição.
Zapata, líder dos oprimidos locais, enterra os títulos vice-reais sob o piso da igreja de Anenecuilco e parte para a batalha. Seu grupo de índios, bem posicionados, bem montados e mal armados, aumenta em número à medida que marcham.
—Lutamos pela terra —diz Zapata—e não por ilusões que não trazem comida à mesa… Com ou sem eleições, o povo continua remoendo a amargura.
Enquanto confiscava as terras dos camponeses de Morelos e arrasava suas aldeias, o presidente Carranza falava em reforma agrária. Ao mesmo tempo em que empregava o terror de Estado contra os pobres, concedia-lhes o direito de voto para os ricos e garantia liberdade de imprensa aos analfabetos.
A nova burguesia mexicana, voraz fruto da guerra e da pilhagem, canta hinos de louvor à Revolução enquanto a devora com faca e garfo numa mesa com toalha bordada.
1919 – Cuautla
Esse homem ensinou-lhes que a vida não se resume ao medo do sofrimento e à espera da morte.
Tinha que ser traiçoeiro. Fingindo amizade, um oficial do governo o atraiu para uma armadilha. Mil soldados o aguardavam, mil rifles o derrubaram do cavalo.
Então o levam para Cuautla. Mostram-no deitado de barriga para cima.
De toda a região rural circundante, chegam os camponeses. A procissão silenciosa dura vários dias. Quando chegam ao corpo, param, tiram os chapéus, olham atentamente e balançam a cabeça. Ninguém acredita: falta-lhe uma verruga, ele tem uma cicatriz a mais, este terno não é dele, este rosto, inchado por tantos tiros, poderia ser de qualquer um.
Os camponeses sussurram lentamente, debulhando as palavras como se fossem grãos de milho:
—Dizem que ele foi para a Arábia com um amigo.
—Não, o chefe Zapata não recua.
—Eles o viram nos picos de Quilamula.
—Eu sei que ele dorme em uma caverna em Cerro Prieto.
—Ontem à noite, o cavalo estava bebendo água no rio.
Os camponeses de Morelos não acreditam, nem jamais acreditarão, que Emiliano Zapata pudesse ter cometido a infâmia de morrer e deixá-los completamente sozinhos.
Infográfico: Agência de Notícias Notimex