O poder brando do Japão na América Latina: diplomacia corporativa sob a sombra da hegemonia dos EUA.
Dentro da Coleção "Cadernos de Pensamento Crítico Latino-Americano", a CLACSO apresenta "O Poder Brando do Japão na América Latina: Diplomacia Corporativa sob a Sombra da Hegemonia dos EUA" – Autora: Olga Rosa González Martín
O poder brando do Japão na América Latina: diplomacia corporativa sob a sombra de
Hegemonia dos EUA
Autores: Olga Rosa González Martín
Introdução: Assimetria e os limites do "poder brando" liberal
O Japão ocupa o quarto lugar no Índice Global de Soft Power de 2025 (Brand Finance), com uma pontuação de 71.5 em 100 — uma melhoria de um décimo de ponto em relação ao ano anterior (70.6) — logo atrás dos Estados Unidos, China e Reino Unido. É uma posição sólida e estável: o Japão mantém esse quarto lugar há anos, sustentado principalmente pelo pilar de Negócios e Comércio (9.2 em 10, um dos mais altos do ranking) e por Educação e Ciência (8.7). Mas um fato se destaca ao analisar a lista completa: nenhum país latino-americano sequer aparece entre os 30 primeiros. O Brasil, a maior economia da região, ocupa a 31ª posição com 48.8 pontos — 27 pontos abaixo do Japão; o México está em 43º, com 44.3; e a Argentina em 42º. A diferença não se resume ao tamanho econômico: é uma lacuna na percepção global que coloca toda a região na periferia estrutural do mapa cultural mundial.
Essa assimetria é o ponto de partida deste trabalho, mas também sua provocação teórica. Ler a influência do Japão na América Latina através da perspectiva liberal de Joseph Nye acarreta o risco de obscurecer as relações de dependência e poder que operam no que historicamente tem sido considerado o "quintal" do império americano. Diferentemente de outras regiões do mundo onde o soft power japonês compete abertamente com o da Coreia do Sul ou da China — ambas com estratégias culturais muito mais agressivas, como o K-pop sul-coreano ou a diplomacia de
Embora a infraestrutura da China seja um fator importante, a América Latina tem uma ligação mais antiga, discreta e menos visível com o Japão: comunidades Nikkei centenárias no Brasil, Peru e México; uma relação comercial modesta em comparação com a relação do Japão com a região Ásia-Pacífico; e uma imagem cultural construída mais em produtos culturais de massa — anime, gastronomia, tecnologia — do que em diplomacia cultural explícita.
A questão que norteia esta pesquisa, portanto, não é apenas como o Japão projeta sua cultura na região, mas também como a arquitetura do poder estadunidense — tanto corporativo quanto geopolítico — medeia, facilita, captura ou bloqueia a chegada da cultura asiática à América Latina. Para responder a essa questão, este artigo propõe uma mudança conceitual: abandonar a interpretação liberal de soft power e adotar uma perspectiva de economia política da comunicação, inspirada na tradição do pensamento crítico latino-americano, que nos permita desvendar as estruturas de dependência que sustentam — e limitam — a diplomacia corporativa japonesa no hemisfério.
II. Quadro teórico: do poder brando liberal à hegemonia imperial
O conceito de soft power, cunhado por Joseph Nye (2004) no final da década de 1980, tem sido a estrutura dominante para analisar a influência cultural dos Estados no sistema internacional por décadas. Segundo Nye, o soft power é a capacidade de alcançar o que se deseja por meio da atração, e não da coerção, e se baseia em três recursos: cultura (quando é atrativa para os outros), valores políticos (quando são vivenciados na prática) e política externa (quando é considerada legítima). Nessa perspectiva, o Japão seria um caso paradigmático: um país que, após sua derrota militar em 1945 e a perda de seu império territorial, reconstruiu sua posição internacional por meio da cultura, da tecnologia e de sua marca nacional.
Contudo, da perspectiva do pensamento crítico latino-americano, essa leitura é insuficiente. Como apontaram autores como Dorfman e Mattelart (1971) em sua análise do imperialismo cultural, ou Aníbal Quijano (2024) em sua teoria da colonialidade do poder, as relações culturais internacionais nunca são simétricas ou neutras: são permeadas por estruturas históricas de dominação que determinam quem produz, quem distribui, quem consome e quem se beneficia economicamente da circulação cultural. Na América Latina, essa advertência é particularmente relevante, visto que a região tem sido historicamente submetida ao que Cardoso e Faletto (2002) denominaram “situação de dependência”: uma condição estrutural na qual a acumulação e a reprodução cultural são subordinadas aos centros hegemônicos do sistema mundial.
Aplicar essa perspectiva ao caso japonês significa questionar não apenas o apelo de sua cultura, mas também as infraestruturas materiais, corporativas e geopolíticas que tornam esse apelo possível. O soft power não flui no vácuo: ele precisa de canais de distribuição, plataformas, licenças, vistos, acordos comerciais e marcos regulatórios. E na América Latina, esses canais são, em sua grande maioria, controlados por capital estadunidense ou sujeitos à jurisdição de Washington. Para operacionalizar essa abordagem, este artigo adota a estrutura das "três diplomacias" propostas por Barrón Soto e González Monte de Oca (2025), que identificam três canais complementares pelos quais o soft power japonês é construído na região: diplomacia pública (estratégias estatais como o Cool Japan, promovido pelos governos Koizumi e Abe), diplomacia cultural (a transmissão de valores por meio de anime, mangá, cinema ou gastronomia, com o Studio Ghibli e o washoku como exemplos paradigmáticos) e diplomacia corporativa (a ideia de que empresas japonesas — Nintendo, Bandai Namco, Sony Music Japan — atuam como embaixadoras do país, exportando não apenas bens, mas também uma imagem do Japão).
A tese dos autores é convincente: na América Latina, o mais ativo dos três pilares é a diplomacia corporativa. Mas este artigo vai além: argumenta que essa diplomacia corporativa japonesa, longe de operar de forma autônoma, é terceirizada, mediada e condicionada pela arquitetura do poder estadunidense na região. O Japão exporta o conteúdo; os Estados Unidos detêm os canais de distribuição, controlam a intermediação e capturam a maior parte da mais-valia.
III. Metodologia: Trabalho de campo institucional no Japão
Esta pesquisa baseia-se em trabalho de campo realizado no Japão entre 22 de junho e 23 de julho de 2026, como parte de uma estadia de pesquisa no Instituto para Economias em Desenvolvimento (IDE-JETRO). Durante esse período, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com especialistas de instituições-chave envolvidas na política cultural e comercial japonesa. Essas entrevistas foram complementadas por uma revisão sistemática de relatórios institucionais (JETRO São Paulo 2025, JETRO México 2026, Programa Estratégico de Propriedade Intelectual 2025, Nova Estratégia Cool Japan 2024), literatura acadêmica sobre a recepção da cultura japonesa na América Latina e estudos recentes sobre comunidades otaku cubanas. Essa comparação entre as fontes permite comparar o discurso oficial japonês com as práticas reais de intercâmbio cultural na região.
IV. O termômetro da percepção: o GSPI 2025 e seus silêncios
A análise por pilares do GSPI 2025 revela o tipo de soft power que o Japão projeta. Não se trata, sobretudo, de um país que se destaca pelo puro apelo cultural: em Cultura e Patrimônio, o Japão obtém 7.0 pontos, abaixo de seu desempenho em Negócios e Comércio (9.2) ou Educação e Ciência (8.7). O Japão acumula quatorze medalhas no ranking por atributos — o mesmo total do Reino Unido e do Canadá —, mas suas medalhas de ouro se concentram em sustentabilidade, tecnologia avançada e altos padrões éticos, e não nas categorias de entretenimento ou estilo de vida, onde se esperaria encontrar o apelo do anime ou da culinária japonesa ancorado no imaginário latino-americano.
Em outras palavras, trata-se de um poder brando construído sobre a reputação tecnológica e comercial, e não sobre...
Exportação cultural direta. O contraste com a Coreia do Sul é instrutivo. A Coreia subiu para o 12º lugar este ano — a nação que mais rapidamente ascendeu entre as já estabelecidas no top 100 — impulsionada explicitamente pelo K-pop e pelo sucesso global de sua indústria audiovisual, de acordo com o próprio relatório da Brand Finance (2025). O Japão, por outro lado, está melhorando de forma mais lenta e constante, sem um salto comparável. Isso levanta uma questão à qual retornarei mais tarde: se a vantagem do Japão não reside na cultura pop em sentido estrito, onde reside, de fato, sua influência na América Latina? Ela se alinha com o que o índice global mede?
Esses números, porém, são meramente um indicador agregado: medem a percepção, mas não explicam suas fontes nem nos permitem distinguir o que está acontecendo especificamente na relação do Japão com a América Latina, uma região que o índice mal torna visível. Para isso, a estrutura das três diplomacias, agora sujeita a escrutínio crítico, é mais útil: quem detém a infraestrutura que permite o funcionamento dessa "diplomacia corporativa"?
V. A infraestrutura de distribuição dos EUA: Brasil e os oligopólios do streaming
Se a diplomacia corporativa japonesa envolve suas empresas atuando como embaixadoras do país, o Brasil oferece um dos exemplos mais claros de como esse mecanismo funciona na América Latina — e, ao mesmo tempo, como é mediado por oligopólios estadunidenses. De acordo com o relatório JETRO São Paulo (2025), o Brasil é hoje um dos mercados de anime mais importantes do mundo fora da Ásia, uma posição que não é recente: ela se baseia em três décadas de exposição televisiva — de Cavaleiros do Zodíaco e Pokémon a Naruto e Bleach — e na maior comunidade Nikkei fora do Japão, fatores que ajudam a explicar por que o país ostenta, segundo especialistas consultados pela JETRO, quase três milhões de fãs de mangá.
O que mudou nos últimos anos foi a escala. A enorme quantidade de animes na Netflix, Amazon Prime Video e Crunchyroll tirou o gênero do nicho otaku e o inseriu no consumo audiovisual cotidiano: produções como Dandadan, Demon Slayer, One Piece e Sakamoto Days permaneceram no top 10 da Netflix Brasil por semanas — Dandadan por onze semanas consecutivas — e o relatório projeta um crescimento de mercado superior a 13% ao ano até 2030. Mas é aqui que a análise crítica revela o que o discurso liberal do soft power obscurece: essas plataformas não são neutras. Elas são os braços de distribuição do capital tecnológico e audiovisual americano. O consumo em massa de Dandadan ou Demon Slayer enriquece os oligopólios do Vale do Silício e de Hollywood, que atuam como intermediários indispensáveis entre a indústria japonesa e o público latino-americano. E há um fato crucial: a Crunchyroll, a plataforma de anime mais especializada, foi adquirida pela Sony (uma corporação americana) em 2021, consolidando ainda mais o controle do capital estadunidense sobre a distribuição da cultura japonesa na região.
A JETRO é explícita em um ponto de particular interesse para a lógica da diplomacia corporativa: esse consumo em massa ainda não se traduziu totalmente em negócios. O licenciamento oficial permanece limitado pela lentidão das negociações de direitos, pela concorrência de produtos localizados e pela falta de coordenação entre empresas japonesas e parceiros locais — uma lacuna entre popularidade cultural e exploração comercial que o próprio relatório insta a ser superada. A recomendação é dupla: acelerar o licenciamento e investir na localização, começando pela dublagem, que especialistas identificam como um fator decisivo para evitar que o anime seja percebido como um produto estrangeiro.
O relatório também documenta algo que ilustra quase literalmente a ideia de empresas como embaixadoras: a crescente participação institucional japonesa em grandes festivais de anime — Anime Friends, CCXP, SANA, AnimeXtreme — incluindo a presença da própria Embaixada do Japão no Anime Summit, onde o embaixador compareceu de cosplay na cerimônia de abertura. Nesse gesto, promoção comercial e projeção cultural se tornam uma só. Mas mesmo esse sucesso tem seu lado negativo: os principais festivais onde o anime brilha são, em grande parte, eventos organizados por empresas de entretenimento locais ou multinacionais que operam sob a lógica de conglomerados americanos.
VI. México: um centro logístico sob a órbita de Los Angeles
Enquanto o Brasil exemplifica um mercado maduro com atritos comerciais, o México oferece um exemplo distinto e ainda mais revelador de subordinação estrutural aos Estados Unidos. O relatório JETRO México (2026) não se limita a animes, mas analisa todo um ecossistema de indústrias de conteúdo — cinema, streaming, mangá, música e videogames — sustentado por condições estruturais favoráveis: mais de 130 milhões de habitantes, uma idade mediana próxima dos trinta anos e mais de 80% de penetração da internet em um país onde o smartphone é a porta de entrada para o consumo audiovisual.
Aqui também, as raízes são históricas. O relatório atribui a consolidação desse fenômeno a duas séries transmitidas nas décadas de 1970 e 1980, Cavaleiros do Zodíaco e Dragon Ball, cujo sucesso é explicado por uma conexão emocional inesperada: temas como amizade, lealdade e autoaperfeiçoamento ressoavam com a tradição mexicana das telenovelas. Décadas depois, essa ligação permanece forte — concertos sinfônicos de Dragon Ball lotam auditórios, a série ainda é exibida na televisão aberta — enquanto o streaming adiciona uma nova camada de consumo em massa, com títulos como Dandadan e SPY×FAMILY entre os mais assistidos no país. No entanto, o trabalho de campo com fontes institucionais ligadas à promoção cultural no México matiza e aprofunda essa dinâmica de maneiras cruciais. O México não é apenas um mercado final, mas um centro linguístico e logístico: como apontaram os entrevistados, grande parte do conteúdo distribuído nos Estados Unidos chega ao México e, de lá, é legendado ou dublado para distribuição no restante da região. Essa posição de centro regional não é resultado de uma estratégia japonesa soberana, mas sim da lógica de suas subsidiárias nos EUA. Empresas japonesas como a Aniplex operam a partir de Los Angeles para o México (levando Demon Slayer para a TV Azteca, por exemplo). Empresas japonesas de videogames e brinquedos usam o México como base para se expandir para a Colômbia, Peru ou América Central porque grandes distribuidoras internacionais — como a Sony, dona da Crunchyroll, ou a própria Netflix e Amazon — dividem suas licenças continentais entre os Estados Unidos e uma subsidiária mexicana.
A entrevista com a equipe da JETRO México revela um consumidor mexicano com uma característica peculiar: ele é "apaixonado, mas muito crítico". Essa natureza exigente fica evidente no processo de localização. Um executivo consultado explicou que a dublagem não é uma mera formalidade, mas um gargalo contratual e criativo: empresas locais como a Anime Onegai contratam atores e precisam consultar a matriz no Japão para cada decisão. Dublagens de baixa qualidade são inaceitáveis para os fãs mexicanos, tornando a indústria local de dublagem um pilar involuntário do soft power japonês. Mas mesmo essa indústria local de dublagem — que poderia ser interpretada como uma forma de apropriação cultural — opera sob contratos ditados por Los Angeles ou Tóquio, por meio de intermediários americanos.
O que diferencia o relatório mexicano é a sua interpretação do anime como uma porta de entrada para todo um ecossistema de propriedade intelectual: ele impulsiona o mercado editorial de mangás, financia turnês de artistas japoneses e sustenta o consumo de videogames. Em grandes eventos (AniMole, CCXP México, Expo TNT), grandes corporações e empresas de fora da indústria do entretenimento já estão incorporando personagens de anime em suas próprias estratégias de marketing.
Além disso, os escritórios de promoção começaram a aproveitar esse ecossistema no país. Por meio de plataformas como o "Japan Street" — um diretório de negócios B2B — e sua presença em feiras como a MIP Cancun, eles passaram da observação à ação. O primeiro webinar focado no mercado de conteúdo japonês no México (2025) reuniu mais de 150 empresas, demonstrando que o interesse em monetizar essa relação deixou de ser teórico. No entanto, o próximo desafio é o merchandising: atualmente, não existem empresas mexicanas fortes que gerenciem licenças para produtos físicos, uma lacuna identificada como uma oportunidade fundamental. E essa lacuna, mais uma vez, beneficia grandes distribuidores americanos, que capturam o valor agregado do merchandising físico por meio de suas redes regionais.
VII. Limites Estruturais: Pirataria, IA e a Geopolítica da Propriedade Intelectual
Se o trabalho de campo revela alguma coisa, é que o soft power corporativo japonês na América Latina não está isento de atritos, e que muitos desses atritos têm menos a ver com a cultura do que com a arquitetura jurídica e comercial que sustenta essa cultura — uma arquitetura que, mais uma vez, é profundamente marcada pela hegemonia dos EUA.
A questão mais proeminente é a pirataria. Como explicou a esta investigação um especialista em propriedade intelectual do Gabinete Japonês, o combate às cópias não autorizadas é delegado a uma agência específica, a Associação de Distribuição de Conteúdo no Exterior (CODA), e o problema é de uma magnitude que o próprio governo japonês considera crítica: perdas de 30 bilhões de ienes apenas em animação e cinema. Este é o outro lado da moeda dos números de crescimento: o mesmo consumo em massa que alimenta o setor também alimenta a falsificação. De uma perspectiva crítica, a pirataria na América Latina não é apenas um “problema cultural” — como tendem a enquadrar os relatórios oficiais japoneses — mas também um sintoma das desigualdades econômicas da região e da incapacidade das indústrias culturais formais de oferecer preços e acessibilidade compatíveis com o poder aquisitivo local.
A perspectiva dos escritórios de ligação no México acrescenta uma camada de complexidade. Para os executivos japoneses no terreno, a pirataria na América Latina também é sintoma da falta de acesso formal e de uma “diferença cultural” na percepção da propriedade intelectual. A solução proposta envolve não apenas litígios — processos longos e dispendiosos —, mas também educação: ensinar aos consumidores latino-americanos que a pirataria “não é algo bom”. Este é um desafio que revela até que ponto o soft power exige não apenas apelo, mas também mudança nos hábitos de consumo, uma pedagogia que, vista sob uma perspectiva crítica, apresenta um claro viés disciplinar voltado para a proteção dos interesses corporativos.
O modelo de licenciamento também está mudando de maneiras que reduzem a flexibilidade regional. Há uma década, as licenças eram concedidas país por país; hoje, são organizadas por idioma, e as principais plataformas americanas — Netflix, Amazon Prime Video e uma subsidiária da Sony que distribui animações japonesas por toda a América Latina — competem entre si para adquirir os direitos. O México continua a funcionar como uma espécie de porta de entrada regional, não necessariamente porque as empresas japonesas optem por negociar diretamente lá, mas porque as principais distribuidoras internacionais dividem suas licenças continentais entre os Estados Unidos e uma subsidiária mexicana. A geografia comercial da cultura japonesa na América Latina é, literalmente, mapeada a partir de Los Angeles.
O outro desafio, mais para o futuro, é a inteligência artificial generativa. Fontes do governo japonês alertaram que grande parte do conteúdo de anime é relativamente fácil de imitar com IA e que nem o público em geral, nem muitos adultos, conseguem distinguir entre conteúdo original e falsificado, prenunciando um problema de propriedade intelectual distinto da pirataria tradicional. O Programa Estratégico de Propriedade Intelectual 2025 confirma que essa preocupação já é uma questão de política estatal: propõe adaptar a legislação de direitos autorais à era da IA, esclarecendo a proteção de invenções assistidas por esses sistemas e estabelecendo regras claras sobre os dados usados para treinar modelos, além de continuar usando a própria IA como ferramenta para acelerar a produção de conteúdo.
Esse documento — que coloca anime, mangá e videogames no mesmo nível estratégico que a pesquisa científica ou a inovação tecnológica, como parte do "capital intelectual nacional" — também quantifica a ambição do Japão: até 2033, o governo pretende gerar 50 trilhões de ienes em exportações de conteúdo (New Cool Japan Strategy, 2024). O soft power deixou de ser um efeito colateral da popularidade cultural e se tornou uma meta de política pública com objetivos quantificáveis. Mas mesmo essa ambição se desenrola em um cenário onde as regras do jogo — as plataformas, os algoritmos, as estruturas de propriedade intelectual — são amplamente definidas em Washington.
VIII. Extraterritorialidade imperial: o cerco de Cuba
Enquanto no Brasil e no México a hegemonia dos EUA se manifesta por meio do controle de plataformas tecnológicas e da distribuição comercial, em Cuba ela se revela em sua forma mais pura e coercitiva: o imperialismo geopolítico e o bloqueio extraterritorial. Este caso é talvez a demonstração empírica mais convincente de como a política externa dos EUA em relação à América Latina condiciona a soberania de terceiros países e suas relações com potências extrarregionais.
Ao serem questionados sobre Cuba, um dos entrevistados compartilhou um fato revelador: há uma década, a promoção japonesa participava da Feira Internacional de Havana com seu próprio pavilhão, embora os produtos expostos não fossem especificamente das indústrias criativas. Contudo, hoje essa presença desapareceu. O motivo não é apenas a falta de interesse cultural, mas também o embargo imperial dos EUA.
O Japão faz parte do Programa de Isenção de Vistos dos Estados Unidos, que permite que seus cidadãos viajem a negócios utilizando o Sistema Eletrônico de Autorização de Viagem (ESTA). No entanto, a legislação americana determina que viagens a Cuba resultam na perda automática dessa autorização, obrigando o executivo japonês a passar por um processo de visto tradicional, que é muito mais caro e incerto. Isso ilustra um cálculo de custo-benefício corporativo: dado que os Estados Unidos são o maior parceiro comercial do Japão globalmente, os empresários japoneses priorizam pragmaticamente a proteção de seu acesso a esse vasto mercado. Nenhum executivo arriscaria sua agilidade comercial na América do Norte para explorar um mercado pequeno com sérias restrições logísticas como Cuba.
Este caso é uma prova empírica de como a política externa dos EUA em relação a Cuba tem um efeito extraterritorial, forçando uma potência como o Japão a exercer autocensura em suas atividades comerciais na região. A hegemonia de Washington não apenas sufoca Cuba; ela também dita os limites da ação diplomática e corporativa de potências extrarregionais no hemisfério. O "poder brando" do Japão cede ao "poder duro" dos EUA.
Na perspectiva da teoria da dependência, esse fenômeno ilustra claramente como a periferia latino-americana — inclusive em suas relações com terceiros países — é estruturada pela arquitetura do poder imperial. O Japão, apesar de ser a quarta maior potência mundial em termos de influência cultural, precisa acatar as diretrizes de Washington quando se trata de operar no Caribe. Nesse caso, a soberania comercial de Tóquio está subordinada à soberania geopolítica de Washington.
Essa lacuna institucional, contudo, não se traduz em uma lacuna cultural. Um artigo recente sobre comunidades otaku cubanas no Facebook (Torres, Fonseca, Villafaña e González, 2026) mostra que, na ausência de infraestrutura comercial oficial, o anime em Cuba nunca deixou de circular: seus usuários se apropriaram dele. Os jovens cubanos não recebem o anime passivamente, mas o reinterpretam e o misturam com referências locais — Luffy com a bandeira cubana, Naruto vagando pela Havana Velha — dando origem ao que o artigo chama de "cultura otaku crioula", caracterizada por hibridização, autonomia em relação ao Estado e às grandes indústrias culturais, e uma forma de resistência simbólica contra a cultura comercial oficial e dominante.
Dentro dessas comunidades, opera uma hierarquia distinta de prestígio e conhecimento — "gurus", criadores, consumidores comuns — que organizam eventos, traduzem materiais e sustentam uma economia da dádiva baseada no reconhecimento, e não no dinheiro. Essa dinâmica é de vital importância para o pensamento crítico latino-americano: representa uma forma de resistência simbólica e autonomia diante de duas hegemonias. Por um lado, apropriam-se da cultura japonesa fora dos circuitos comerciais estadunidenses (que não podem operar em Cuba devido ao embargo). Por outro, funcionam como uma cultura jovem que negocia, e por vezes resiste, aos discursos da cultura oficial e estatal local. Nas margens do mapa imperial, o soft power não depende mais de Tóquio ou do Vale do Silício, mas de redes de solidariedade, da economia da dádiva e da criatividade daqueles que optam por se apropriar dela, apesar de todas as fronteiras.
IX. Reflexões finais: o poder brando na periferia do império
No início deste trabalho, levantei uma assimetria incômoda: o Japão, quarto colocado no Índice Global de Soft Power de 2025, e nenhum país latino-americano entre os trinta primeiros. Após examinar a estrutura das três diplomacias, os casos do Brasil e do México, os desafios estruturais e o caso extremo de Cuba, essa lacuna se torna mais clara — e, sobretudo, politizada.
O que fica claro é onde a vantagem do Japão não reside: não no puro apelo cultural medido pelo GSPI, nem em uma ofensiva cultural comparável à do K-pop sul-coreano. Em vez disso, reside em algo mais sutil e antigo: gerações de consumidores latino-americanos que cresceram assistindo a Cavaleiros do Zodíaco, Dragon Ball ou Pokémon na televisão aberta e que hoje mantêm, talvez sem se darem conta completamente, uma relação com o Japão mediada quase que inteiramente por corporações — Nintendo, Bandai Namco, Crunchyroll — em vez de embaixadas ou programas culturais. É a diplomacia corporativa que Barrón Soto e González Monte de Oca (2025) descrevem como funcionando, literalmente, como o mais ativo dos três pilares.
Mas o trabalho de campo também complica a narrativa linear de sucesso. Por trás dos números de crescimento, existe uma tensão não resolvida entre popularidade cultural e exploração comercial — consumo em massa que nem sempre se traduz em licenças, royalties ou negócios formais — e um choque cultural na percepção da pirataria que exige tanto educação quanto litígios. A inteligência artificial generativa ameaça tornar esse problema ainda mais difícil de conter.
O que este artigo procurou demonstrar, no entanto, é algo mais profundo: o soft power japonês na América Latina não se resume a uma política uniforme em relação à “região”, mas sim a uma geometria desigual ditada por duas hegemonias interligadas. Em grandes mercados (Brasil, México), a diplomacia corporativa japonesa é bem-sucedida, mas terceirizada para oligopólios americanos de tecnologia e streaming, que controlam a distribuição e a monetização. Em mercados bloqueados (Cuba), a jurisdição extraterritorial do imperialismo estadunidense força as corporações japonesas a abandonar o território, demonstrando que, no hemisfério, a soberania de terceiros países e suas relações com as potências asiáticas estão subordinadas aos planos de Washington.
O soft power japonês na América Latina é, em última análise, um fenômeno que ocorre através e apesar da hegemonia dos EUA. Compreender essa tensão é fundamental para os estudos latino-americanos, pois nos lembra que, em nossa região, nenhuma cultura estrangeira — nem mesmo a da quarta maior potência mundial em soft power — escapa à longa sombra do império. Lembra-nos também que, nas margens desse império, como demonstra o caso cubano, as comunidades populares continuam a encontrar maneiras de se apropriar, hibridizar e ressignificar a cultura global, construindo formas de autonomia que nem Tóquio nem Washington conseguem capturar completamente.
Referências
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Dorfman, Ariel e Mattelart, Armand. (1971). Como ler o Pato Donald. Século XXI Editores.
Sede da Estratégia de Propriedade Intelectual. (2024). Nova Estratégia Cool Japan. Gabinete do Governo do Japão. https://www.cas.go.jp/jp/seisakukaigi/titeki2/chitekizaisan2024/pdf/siryou4_e.pdf Estratégia de Propriedade Intelectual
Sede. (2025). Programa Estratégico de Propriedade Intelectual 2025. Gabinete do Primeiro-Ministro, Governo do Japão. Escritório do Japão no México da Organização de Comércio Exterior. (2026). Relatório sobre o Mercado de Conteúdo no México. JETRO.
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Quijano, Aníbal. (2024). Colonialidade do poder e classificação social. Journal of World-Systems Research, 11(2), 342-386. https://jwsr.pitt.edu/ojs/jwsr/article/view/228/240
Torres Rodríguez, Alejandro, Fonseca Muñoz, Beatriz, Villafaña Cruz, Jennifer e González Martín, Olga Rosa. (2026). Da tela ao feed: O consumo cultural da anime e a construção da identidade otaku nas comunidades digitais cubanas. Estudios del Desarrollo Social: Cuba y América Latina, 14(1), 123–137. https://revistas.uh.cu/revflacso/article/view/12421/10721