O feminismo como fio condutor que une regiões e combate as desigualdades.

DO SUL AO NORTE. TECENDO O PACTO DE CUIDADOS BI-REGIONAL PARA UMA COOPERAÇÃO FEMINISTA E JUSTA

O feminismo como fio condutor que une regiões e combate as desigualdades.

Nora Goren e Cecilia Gofman

durante o XVI Conferência Regional sobre Mulheres na América Latina e no Caribe (CRM), celebrado em Agosto de 2025 na Cidade do MéxicoO evento ocorreu “Construindo o Pacto de Cuidados Birregionais”, que abordou a necessidade de avançar rumo a uma sociedade do cuidado a partir de uma perspectiva birregional, entre a América Latina, o Caribe e a Europa.

O encontro teve como foco o debate sobre os eixos substantivos do Pacto Birregional de Cuidados, que visa reconhecer o cuidado como um direito, uma responsabilidade coletiva e um pilar para a sustentabilidade democrática.

Nesse contexto, as vozes da sociedade civil, dos movimentos feministas e de diversos atores institucionais foram colocadas em diálogo, contribuindo para o fortalecimento de uma agenda comum capaz de orientar políticas públicas transformadoras.

Impulsionada por redes feministas, sindicatos e organizações da sociedade civil, incluindo a Rede de Cuidados com Tranças, da qual faz parte CLASSOA reunião forneceu elementos substanciais para os debates que ocorrerão no futuro. III Cimeira CELAC-UE (Cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos e da União Europeia), que ocorrerá entre 7 e 10 de novembro de 2025 em Santa Marta, Colômbia, onde a discussão ocorrerá no Pacto de Cuidados Birregionais.

Este processo foi desenvolvido e reforçado no âmbito do Conferência Regional sobre Mulheres (RCM), onde foram alcançados progressos na coordenação entre os atores de ambas as regiões e nos debates em torno dos compromissos que alimentarão o debate político da Cúpula.

A iniciativa, apoiada pela ONU Mulheres e pela Fundação UE-CELAC, reuniu representantes de ambos os continentes para debater os desafios políticos, económicos e culturais que a agenda do cuidado enfrenta, dando destaque à voz da sociedade civil num contexto de crise e retrocessos democráticos, e reafirmando que não haverá igualdade nem desenvolvimento sustentável sem uma sociedade do cuidado.

Um debate sobre cooperação, direitos e democracia.

A discussão começou com um diagnóstico compartilhado: o mundo atravessa uma crise de cuidados que se entrelaça com crises econômicas, ambientais e democráticas. Os participantes concordaram que o cuidado deve ser reconhecido como um direito humano, como trabalho e como um pilar fundamental para a sustentabilidade da vida; e que as políticas públicas devem ir além da mera assistência e se tornarem estratégias estruturais para a redistribuição e a responsabilidade compartilhada.

Foi enfatizado que não haverá sistemas de cuidado sem democracia, nem sem a garantia dos direitos sexuais e reprodutivos, e que o Pacto Birregional de Cuidado deve se tornar uma ferramenta concreta para redistribuir poder, tempo e recursos, fortalecendo a voz daqueles que historicamente sustentaram a vida: as mulheres em toda a sua diversidade, especialmente as cuidadoras remuneradas e não remuneradas, bem como as migrantes.

Financiamento e corresponsabilidade

Um dos temas centrais do debate foi a necessidade de assegurar mecanismos de financiamento sustentáveis, progressivos e multissetoriais que envolvam os setores público, privado, comunitário e cooperativo, bem como a criação de fundos de assistência específicos que garantam a institucionalização de políticas abrangentes.

Propôs-se também incorporar ao pacto a justiça ambiental, os direitos sexuais e reprodutivos e a situação dos migrantes, reconhecendo que o cuidado é uma questão global que exige cooperação, inovação e plena participação da sociedade civil.

Nesse sentido, foi enfatizado que, sem financiamento adequado e responsabilidade compartilhada genuína, os compromissos correm o risco de permanecerem meras declarações. Além disso, foi ressaltada a importância de evitar que o investimento em cuidados leve à privatização ou à mercantilização, o que perpetuaria as desigualdades e colocaria o ônus do cuidado mais uma vez sobre as mulheres, especialmente aquelas de comunidades de baixa renda.

Em direção a uma sociedade de cuidados

O debate reafirmou a liderança da América Latina e do Caribe na construção do paradigma de uma sociedade do cuidado, que emergiu fortemente do Consenso de Buenos Aires e agora é proposto como um horizonte compartilhado com a Europa. Essa abordagem busca substituir a lógica do assistencialismo por uma nova forma de organização social, política e econômica baseada na interdependência, na solidariedade e na sustentabilidade da vida.

Neste contexto, foi destacada a oportunidade para a Cimeira UE-CELAC incorporar um compromisso explícito com o direito ao cuidado e ao autocuidado, e para o Pacto Birregional de Cuidados se tornar um instrumento birregional de cooperação e justiça social, capaz de orientar políticas públicas transformadoras.

Ao mesmo tempo, foram emitidos alertas sobre a necessidade de impedir que os acordos birregionais conduzam a processos de privatização ou mercantilização dos cuidados, ou a novas formas de precariedade, em que o fardo continue a recair desigualmente sobre as mulheres, especialmente as mais pobres.

As organizações participantes enfatizaram que o pacto deve fortalecer a responsabilidade pública e social pelos cuidados, garantindo que estes não sejam tratados como um serviço comercial ou um fardo individual, mas como um direito coletivo, um bem comum e uma condição indispensável para a sustentabilidade da vida.

Um novo horizonte político

As intervenções concordaram que o Pacto Birregional de Cuidados representa muito mais do que um acordo técnico; constitui uma proposta civilizacional que redefine a relação entre as regiões, promove o multilateralismo inclusivo e recupera o significado político do feminismo como motor de transformação social.

Este processo não termina na mesa de negociações, mas projeta um caminho político rumo à Cúpula UE-CELAC, que ocorrerá entre 8 e 10 de novembro de 2025 na Colômbia, onde a sociedade civil e os movimentos feministas buscarão consolidar compromissos reais e mecanismos de monitoramento birregional.

O Pacto Birregional de Cuidados é proposto como um compromisso transformador, não apenas para redistribuir poder e recursos, mas também para redefinir a cooperação internacional a partir de uma perspectiva feminista, popular e latino-americana.

Num contexto de retrocessos democráticos e desigualdades crescentes, as vozes reunidas no CRM reafirmaram que o cuidado não é uma questão setorial ou assistencialista, mas sim uma questão de justiça, democracia e futuro.

Em última análise, forjar este pacto significa tecer uma esperança coletiva. Uma aliança birregional que coloca a vida, a igualdade e a dignidade no centro da política e que resiste a qualquer tentativa de mercantilizar, fragmentar ou esvaziar este horizonte feminista de transformação do seu significado.