Equador hoje: ditadura e falsa consciência

 Equador hoje: ditadura e falsa consciência

Dentro da coleção “Cadernos do pensamento crítico latino-americano”, o CLACSO apresenta “Equador hoje: ditadura e falsa consciência”, de Luis Herrera Montero.


Equador hoje: ditadura e falsa consciência

Luís Herrera Montero*

Primeiro, os fatos

No Equador, as recentes eleições suscitaram inúmeras questões. Lee Brown (2025), um dos observadores internacionais, apresentou uma análise dos acontecimentos que revela um claro autoritarismo por parte do regime de Daniel Noboa. O regime da oligarquia Noboa agiu fora dos limites da Constituição e das normas eleitorais: foi repetidamente denunciado o não cumprimento do período de afastamento obrigatório para qualquer candidato assumir o cargo, impedindo assim que o vice-presidente eleito assumisse a responsabilidade pelo Poder Executivo. Pelo contrário, o regime ousou nomear dois vice-presidentes por decreto. Essa omissão legal facilitou a campanha com recursos estatais, apesar da expressa proibição legal. Além disso, o observador internacional destaca que o autoritarismo se manifestou principalmente na declaração injustificada de "estado de emergência" durante o processo eleitoral.

Em relação aos abusos de poder mencionados, a Missão de Observação da OEA (2025) expressou sua preocupação com práticas desleais durante a campanha e indícios de uso indevido de recursos públicos e do aparato estatal para fins de proselitismo, caracterizando o ato como comportamento que mina a confiança pública. Essa postura foi bastante leniente diante dos fatos identificados, que constituíam motivo para desqualificação. Se a situação fosse inversa, toda a OEA certamente teria exigido o cumprimento da legalidade política e das instituições, acusando o movimento progressista de ter instaurado uma ditadura. Contudo, dada a consistente convergência da OEA com os interesses imperialistas dos Estados Unidos, ela acabou reconhecendo a vitória oligárquica.

Dada a gravidade da situação, o observador Lee Brown chegou a descrever a posição da candidata Luisa González como compreensível, devido à percentagem suspeitamente consistente de votos que recebeu no primeiro turno das eleições (44% e 44,37%, respetivamente), apesar dos acordos públicos com setores como o Pachakutik, uma força política que se posicionou em terceiro lugar com 5,25%. Cabe acrescentar, segundo o autor, que a grande maioria das pesquisas previa a vitória do candidato mencionado. Alfredo Serrano (2025), do programa “La Pizarra”, em um de seus programas recentes, também apresentou dados por região; por exemplo, na província de Guayas, 98% dos votos em disputa, curiosamente, foram para o candidato da ADN, enquanto apenas 2% foram para o candidato da RC, um fator que não condiz com uma projeção realista durante os processos eleitorais.

De um ponto de vista oposto, pode-se argumentar que as pesquisas nem sempre coincidem com a contagem oficial dos votos. O problema é que isso também não aconteceu com as pesquisas de boca de urna encomendadas, já que pelo menos uma delas deveria ter sido precisa. Vale ressaltar que as empresas contratadas nunca haviam divulgado dados com uma margem de erro significativa: a Servicios Telcodata SA, com uma margem de erro de ±0,59%, apresentou uma tendência inicial não oficial, com 51,2% dos votos para Daniel Noboa e 48,8% para Luisa González; enquanto a Corpmont Marketing & Publicidad (Corpmontpubli SA), com uma margem de erro de 3%, divulgou resultados mostrando Luisa González com 51.9% e Daniel Noboa com 48.01%. Em termos estatísticos e matemáticos, os resultados oficiais, que declararam uma vitória de 11 pontos percentuais (Daniel Noboa com 55,63% e Luisa González com 44,37%), também careceram de rigor. A inconsistência da questão fica ainda mais evidente ao considerarmos os resultados dos dois últimos segundos turnos eleitorais, nos quais o movimento progressista obteve 47,54% e 47,8% dos votos, respectivamente. Portanto, é incompreensível que a taxa de crescimento proporcional sequer tenha sido mantida.

Considerando o contexto mencionado, a coligação eleitoral RC-RETO apresentou duas denúncias de fraude às autoridades eleitorais. Os seus argumentos incluíam folhas de apuração sem assinaturas conjuntas, folhas de apuração com inconsistências entre a contagem de votos e o número de eleitores registados (uma vez que havia mais votos do que eleitores registados), uma redução artificial do absentismo, uma diminuição invulgar de votos em branco e a utilização de canetas com tinta transferível que poderiam alterar os votos a favor do candidato adversário. Como era esperado, o Conselho Nacional Eleitoral (CNE) invalidou a denúncia e o Tribunal de Contencioso Eleitoral (TCE) decidiu indeferir a respetiva impugnação.

Com base nesses argumentos, também é inadequado reproduzir perspectivas analíticas de direita que acusaram o governo Correa dos perigos da desdolarização e de replicar a experiência venezuelana; acusações que são claramente falsas. A outra candidatura, por outro lado, foi associada à exportação de cocaína por meio da empresa Noboa Trading, além de ser acusada de crime de Estado pelo sequestro e assassinato de quatro crianças afro-colombianas por membros das Forças Armadas. Por fim, foi apontada como responsável pela sonegação fiscal causada pela família Noboa, no valor de US$ 94 milhões, segundo a Receita Federal (SRI). O aspecto ilógico é que, em um caso, supostamente existem razões explicativas para a derrota eleitoral, enquanto no outro, apesar de acusações mais graves, reconheceu-se a incomum margem de vitória de onze pontos percentuais.

Um fato igualmente grave é que as práticas clientelistas e corruptas, visando garantir maiorias no legislativo, têm sido uma constante ao longo de nossa história política. Desde o retorno à democracia em 1979, o uso político do "suborno" para comprar votos da oposição e direcioná-los ao executivo tornou-se comum. Não se deve ignorar que o poder de classe também se consolidou por meio de falsos consensos e subornos descarados. Seguindo essa lógica, um membro do partido Revolução Cidadã decidiu deixar o bloco para se juntar ao governo oligárquico e até mesmo assumir a terceira cadeira na Assembleia Nacional. O problema também se repetiu com sete dos nove membros eleitos do Pachakutik, que apareceram em uma foto com o atual Ministro do Interior. Por fim, no processo de nomeação das autoridades para a Assembleia Nacional, uma minoria de membros do Pachakutik se absteve, enquanto a maioria se aliou ao governo, em uma clara demonstração de falsa consciência.

O exercício do poder fora da Constituição e o uso indevido de recursos públicos em atividades de proselitismo são sintomas claros de uma ditadura. É importante notar que uma grande parcela do eleitorado não se interessa em questionar comportamentos que violam as normas democráticas; pelo contrário, acaba validando ações que refletem uma falsa consciência. É repreensível que grandes grupos de eleitores, facilmente manipuláveis, aceitem toda essa trajetória ditatorial como normal. Por essas razões, este texto considera importante revisitar uma explicação teórica, que não é apresentada tacitamente como costuma acontecer em análises de eventos atuais. Portanto, reexamina a questão da ideologia dominante como produtora e reprodutora de distorções da realidade, além de refletir sobre a comunicação política e as dinâmicas de poder, com base na relevância duradoura de autores considerados clássicos da filosofia e das ciências sociais.

Falsa consciência e poder oligárquico

O marxismo é a corrente filosófica e socioeconômica que melhor revelou e explicou o problema da alienação. Marx (1972) esclareceu que as classes dominantes aplicam processos de alienação, por meio dos quais as classes dominadas adotam os interesses e interpretações de seus exploradores como se fossem seus, quando na realidade lhes são completamente estranhos. O marxismo, em geral, baseia-se nas conceitualizações de Hegel (2009) sobre essas contribuições teóricas, para quem a alienação implica distorções quanto aos fundamentos próprios da verdade. .

Um exemplo recorrente da aplicação rigorosa do conceito de alienação, que demonstra essa tendência à distorção da realidade, reside na série de caracterizações negativas do socialismo como um regime que restringe as liberdades. Uma das instituições que liderou a disseminação de mensagens de alienação em favor das classes dominantes foi a própria Igreja Católica, que, ao deturpar a mensagem dos Evangelhos cristãos, apoiou os setores mais ricos. Na campanha para as últimas eleições no Equador, certos padres desacreditaram o movimento de unidade de centro-esquerda e esquerda. As mensagens desses padres nunca mencionaram as denúncias públicas de sonegação fiscal como crime, o crime de Estado de assassinar quatro crianças afrodescendentes, e muito menos o comportamento ditatorial de Noboa ao não cumprir as normas constitucionais para se candidatar ao cargo.

Esses setores da Igreja, que se identificam com a dominação de classe, nunca se preocuparam em estudar as contribuições de um dos principais precursores do socialismo: Saint-Simon (2004), que fundiu os princípios do liberalismo com o espírito das missões cristãs e, assim, inaugurou sua oposição ao capitalismo, tendo sido anteriormente um ativista liberal. Em seus postulados, esse autor francês considerava necessário libertar a sociedade dos parasitas capitalistas, que se enriqueceram por meio da exploração e do empobrecimento agudo da classe trabalhadora. Daí sua ideia de recuperar as missões cristãs e o pensamento liberal original, caminhando em direção a uma nova proposta, que ele chamou de socialismo e que se baseava em processos de educação para a classe trabalhadora nas áreas da ciência, da arte e da indústria (Rancière, 1991).

Como em qualquer processo social, as contradições não podem ser ignoradas. Dentro de diversas tradições cristãs, emergiram atores que desafiam as estruturas institucionais. Assim, devem ser consideradas as contribuições de João XXIII e as propostas do Concílio Vaticano II, pois constituíram um dos antecedentes do que mais tarde seria chamado de Teologia da Libertação, principalmente na América Latina, com expoentes de renome mundial como Gustavo Gutiérrez, Leonardo Boff e Leonidas Proaño, entre outros, claramente influenciados pelo marxismo. Essa perspectiva também encontrou eco na Europa com figuras como Julio Girardi e François Houtart. No protestantismo, por outro lado, surgiram contradições na luta pelos direitos dos negros nos Estados Unidos, sob a liderança de Martin Luther King Jr.

Em termos de acontecimentos atuais, o significado construído pelo Papa Francisco é relevante. Suas mensagens sempre estiveram alinhadas com os princípios da Teologia da Libertação Latino-Americana e sua opção preferencial pelos pobres e pela paz. Movido por humildade e dignidade, o Papa Francisco optou por se distanciar das hierarquias típicas da Igreja e propôs que seu sepultamento ocorresse na Basílica de São Pedro, em Roma, quando o costume é enterrá-lo no Vaticano. Como esperado, o funeral de Francisco recebeu ampla cobertura da mídia, que se concentrou mais em reforçar o poder da Igreja Católica e sua hegemonia como distorcedora dos princípios cristãos. Nessa cobertura, as imagens retrataram figuras como Trump e Milei de forma exagerada. Macron, Zelensky, entre outros.

Em relação ao papel da mídia e seu imenso poder, o Papa Francisco enfatizou quatro características negativas ou defeitos: desinformação, calúnia, difamação e coprofilia, ou seja, o gosto pelo sórdido, que publica até mesmo escândalos sangrentos. Em plena consonância com o que o Papa Francisco claramente categorizou, as alienações mais características da globalização capitalista neoliberal estão alinhadas às ideologias disseminadas pela mídia, que, longe de fomentar a comunicação, dedicam-se a generalizar processos de alienação ou falsa consciência, beneficiando os privilégios dos setores dominantes. Evidentemente, o trabalho da mídia tem sido fonte de reprodução dos interesses dos oligopólios globais, que têm servido em grande medida para distorcer a realidade; isto é, para massificar mensagens e estéticas que promovem diversos vícios em estilos de vida e hábitos de consumo capitalistas. A partir dessa alienação em massa, o capitalismo é promovido como um exemplo a ser seguido, quando na realidade, hoje, é a causa da crise civilizatória em todos os níveis: socioeconômico, político, ecológico, entre os fundamentais.

A comunicação, por outro lado, deriva da ação coletiva, para o bem comum, não para o privilégio. Ariel Dorfman e Armand Mattelart (1979), por um lado, e Martín Barbero (2003), por outro, entenderam a comunicação como uma alternativa na luta anticapitalista; os primeiros defendendo uma estratégia que se opõe ao imperialismo estadunidense, por meio de uma leitura crítica do Pato Donald; o segundo propondo como comunicação mediações que resistem à hegemonia midiática, aspecto que, em uma de suas últimas aulas, da qual tive a honra de participar, o autor abordou como caos narrativo e narrativas de resistência para contrapor o capitalismo. Tampouco se deve identificar minimamente a massificação neoliberal na ação comunicativa de Habermas (1988), que complementa muito bem a ação social de Weber com a cooperação marxista para a transformação.

Em tempos de eleições, essas lógicas alienantes priorizam o que se conhece como marketing político. O marketing político só poderia ser integrado como uma das atividades dentro de um sistema, e nem mesmo como uma área prioritária na definição sistêmica de comunicação de Luhmann (2007), que o conceitua dentro da complexidade social como a interação de vários subsistemas, incluindo política, economia, meio ambiente e assim por diante. Seria mais apropriado, então, entender o marketing político como uma ferramenta para processos que geram pensamento crítico e consciência, o que eu definiria mais como pedagogia comunicacional e política; sobretudo, com o objetivo de superar as demonizações, distorções e difamações com que oligopólios e oligarquias transnacionais e globais governam por meio do neoliberalismo.

A falsa consciência, portanto, constitui toda uma engrenagem do capitalismo, que levou ao colapso das estruturas familiares e comunitárias por meio da publicidade em massa, promovendo não apenas o consumo compulsivo, mas também empreendimentos individualistas idealizados. A gravidade da questão reside no fato de que até mesmo populações indígenas sucumbiram a tais idealizações individualistas, onde a economia coletiva e solidária está sendo substituída por empresas pequeno-burguesas e burguesas: a Cooperativa de Poupança e Crédito Mushuk-Runa, de propriedade de Luis Chango, é um exemplo. Tal ingenuidade é incompreensível, visto que a lógica da concentração e centralização do capital jamais democratiza a propriedade oligopolista da riqueza (Marx, 1977). Portanto, os sonhos dos empresários que trilham o caminho para a pequena burguesia e até mesmo para a própria burguesia são meras alienações.

Atualmente, Deleuze trouxe à tona o tema da sociedade de controle (Deleuze, 1990), onde se pressupõe a superação do panóptico de Foucault, por meio da subjetivação global do capitalismo, através de indivíduos identificados com a dominação estrutural da lógica do capital, que inclusive promove a autoexploração e a autovigilância. Um estudo que lança luz sobre o conceito de sociedade de controle e economia política marxista é evidente no conceito de sociedade da fadiga (Han). Sem dúvida, o marxismo, muito antes, acusou o sistema capitalista de destruir o descanso e o direito da classe trabalhadora à recuperação de energia. A diferença em relação ao marxismo é que Deleuze e Han explicam a autoexploração e a automonitorização como subjetividades de subordinação no mundo contemporâneo. Sobre esse tema, pode-se argumentar que tal subjetivação é, sem dúvida, uma alienação dos sujeitos, que devemos reconstruir de forma articulada em nossas teorias. A esse respeito, Walter Benjamin, há algumas décadas, projetou o conceito de alienação não apenas para a sociedade de seu tempo, mas também como uma ferramenta para analisar o estado do capitalismo global atual. “A humanidade tornou-se agora um espetáculo de si mesma. Sua autoalienação atingiu um grau que lhe permite experimentar sua própria destruição como um prazer estético de primeira ordem.”

O problema fundamental da alienação reside na capacidade das classes dominantes de apresentar narrativas distorcidas como verdades aceitas por amplos setores da população. No caso equatoriano, como já foi demonstrado, os poderes econômico, midiático, eclesiástico e estatal convergiram com o único propósito de retratar a oposição como aliada ao narcotráfico, à corrupção e ao socialismo demonizado, tratando-os como sinônimos. Dessa forma, todo esse poder consegue reforçar a normalização do abuso de poder e da manipulação. 

Entre os aspectos mais nocivos de um sistema com as conotações mencionadas está a exibição descarada de falsa consciência. Vemos evidências disso na demonização do governo democrático de Allende, seguida por justificativas genéricas baseadas na ditadura totalitária e genocida de Pinochet. León Febres Cordero, o líder histórico do Partido Social Cristão no Equador, argumentou durante as campanhas eleitorais de 1979 que uma repetição dos eventos do Chile deveria ser evitada para minar o apoio a Jaime Roldós Aguilera, cujo governo estava longe de ser socialista. Roldós também não conseguiu concluir seu mandato devido a um misterioso acidente de avião. A verdade é que governos como os de Allende e Roldós se opunham à lógica imperialista dos Estados Unidos e de certos oligopólios locais: no caso de Roldós, por seu reconhecimento da revolução sandinista.

Décadas depois, a mesma propaganda enganosa foi usada contra Rafael Correa. Nesse caso, ele foi associado aos regimes de Cuba e Venezuela, sabendo-se perfeitamente que o socialismo no Equador tem sido historicamente denunciado em massa pelas oligarquias e sua manipulação ideológica de mensagens em diversas esferas de poder, como os sistemas educacional, religioso e midiático, mesmo que estas desconheçam completamente o que o sistema socialista realmente implica. Felizmente, o eleitorado não apoiou tal propaganda política. Durante o governo progressista, foi instaurada uma Assembleia Constituinte, resultando na Constituição mais significativa da nossa história, reconhecida como uma das mais democráticas e inovadoras da região e do mundo.

Na realidade, o período progressista no Equador implementou um sistema de bem-estar social e desenvolvimento sob as estruturas de um capitalismo racional, distinto do neoliberalismo. É surpreendente que aqueles que votaram em Noboa estejam agora focados em difamar o progressismo equatoriano, visto que os dez anos do governo progressista testemunharam crescimento econômico nos setores público, privado e até mesmo financeiro. Da mesma forma, o aumento significativo nos investimentos públicos e nos indicadores de desenvolvimento social deve ser reconhecido. Quanto à redução da violência e ao aumento da segurança alcançados durante esses dez anos, há uma preferência dogmática por acusar Correa de ser permissivo e de ter acordos não comprovados com narcotraficantes.

Nas últimas eleições, a estratégia de comparar a candidatura progressista de González ao regime de Maduro ressurgiu, baseada em relatos da população imigrante venezuelana no país. Cabe ressaltar que o Equador também vivenciou uma emigração significativa como consequência da crise bancária. Contudo, durante o governo progressista, um número considerável de cidadãos venezuelanos retornou ao país. Esse fenômeno ressurgiu agora; a emigração de compatriotas voltou a ocorrer, novamente devido às políticas neoliberais. Não obstante, persiste a alegação de que o Equador é uma réplica do que percebem como ditadura na Venezuela, argumento inclusive defendido pelo jornalista Fernando del Rincón em sua entrevista com Luisa González. Para a ideologia imperialista neoliberal dos Estados Unidos e seus seguidores, governar fora dos limites da Constituição, impedir o vice-presidente de exercer o poder, usar indevidamente recursos públicos para campanhas eleitorais e não pagar impostos conforme exigido por lei não são considerados ditaduras. É importante destacar que os índices de violência e mortalidade no Equador são muito superiores aos da Venezuela.

A falsa consciência também é produzida por meio de encenações. A análise não pode ignorar o que, em termos de antropologia política, tem sido denominado dramatização ou teatralidade. Balandier (1969), autor clássico sobre o tema, após analisar diversos contextos, demonstrou que o poder utiliza o teatro para se consolidar e alcançar o reconhecimento sociocultural desejado. Um exemplo doloroso disso foi a acusação infundada de que o governo Correa assassinou Fernando Villavicencio. Hoje se sabe que essa acusação carecia das provas necessárias; no entanto, foi utilizada como parte de uma estratégia para demonizar a candidatura progressista. A família de Villavicencio responsabiliza o regime por ocultar a verdade sobre o crime, mas o Ministério Público persiste com falsas acusações contra líderes progressistas, apesar das informações obtidas no celular de Villavicencio.

Durante o governo de Noboa, a dramatização de eventos também foi empregada, como visto na tomada simulada da emissora de televisão TC. Um pequeno grupo de jovens criminosos inexperientes invadiu de forma duvidosa a segurança da emissora e foi posteriormente subjugado por um grande contingente policial. Esse evento, transmitido por um veículo de comunicação privado, a Teleamazonas, gerou considerável suspeita, inclusive na imprensa, que foi expressa durante a coletiva de imprensa presidencial. Agora se sabe que essa ação teve como objetivo justificar medidas relacionadas a um conflito interno que foi apresentado como uma guerra contra narcotraficantes e terroristas e, consequentemente, a declaração oficial de estado de emergência. Embora a luta contra o narcoterrorismo possa ser compreensível, a justificativa para tais decretos não o é, visto que as medidas tomadas não reduziram os índices de violência e mortes; os dados demonstram claramente o contrário. O Equador registrou o início de ano mais violento de sua história em janeiro de 2025. “Dados do Ministério do Interior, atualizados nos últimos dias, indicam que em janeiro deste ano foram registrados 781 homicídios, 276 a mais que os 505 registrados em 2024 e 247 a mais que os 534 de 2023, ano em que o Equador liderou o índice de mortes violentas na América Latina” (Swiis.info.ch, 2025).

Essa lógica de distorcer a realidade por meio de pronunciamentos que levantam mais perguntas do que respostas tornou-se, mais uma vez, o denominador comum. Nos últimos dias, após a declaração de vitória de Noboa nas eleições, as Forças Armadas emitiram um comunicado alegando que assassinos internacionais, principalmente mexicanos, tentariam assassinar o presidente Noboa. Como esperado, essa afirmação desencadeou sérios atritos diplomáticos com o México, que questionou a veracidade da informação e o completo absurdo da declaração. O objetivo, no entanto, poderia levar à reinstalação de novas declarações de estado de emergência, um fenômeno que também ocorreu durante as eleições de 13 de abril de 2025, com uma militarização excessiva de diversas seções eleitorais, uma medida estranhamente apresentada como precaução para a paz e o bom andamento do processo eleitoral.

Desde o governo Lenín Moreno, os estados de emergência tornaram-se medidas normais e ordinárias, quando legalmente deveriam ser extraordinários e excepcionais, com as necessárias justificativas legais e políticas para lidar com emergências inegáveis. Essas medidas geralmente visam situações de extrema gravidade e sua aplicação não pode ser considerada uma prática recorrente, como estabelecido constitucionalmente. Desde o retorno aos regimes e governos neoliberais, tem havido um uso recorrente de decretos que declaram estados de emergência, os quais, longe de reduzir a intensidade do problema da violência e da insegurança, têm, na verdade, apresentado aumentos desenfreados, colocando-nos como o país mais violento da América Latina (Maldonado e Vera, 2025).

Anteriormente, escrevi textos apontando que esses estados de exceção são uma resposta às políticas autoritárias do capitalismo global, que classifiquei politicamente como um regime totalitário (Herrera e Vera, 2018; Herrera, 2022). Isso se baseia nas rigorosas políticas de demonização propagandística e na obrigação generalizada que exige que os militares desempenhem papéis de alta repressão policial (Arendt, 2004), que atualmente caracterizam os decretos dos estados de exceção (Agamben, 2005), e na transnacionalização imperialista do Estado como necropolítica (Mbembe, 2012). Em suma, esses estados de exceção servem, em última análise, aos interesses da intimidação social e da perseguição de povos organizados que se opõem às ditaduras neoliberais.

A resposta unitária

Em contextos sociais como os do México e da Colômbia, houve diversas derrotas eleitorais até que se tornou possível reverter esses resultados com vitórias sustentáveis. Em nosso país, o fenômeno ocorreu de forma inversa, com a possibilidade de reeleições que trouxeram dez anos de estabilidade social, embora também tenham ocorrido períodos de conflito social, especialmente com a CONAIE, o movimento indígena mais representativo do país desde o final da década de 80.

O fato de termos alcançado percentagens significativas nas últimas três eleições (duas acima dos 47% e uma praticamente empatada em torno dos 50%) não deve ser subestimado, nem deve levar a rupturas que nos prejudicariam da pior maneira possível, fazendo-nos retroceder às décadas de 1980 e 90, caracterizadas pela constante divisão entre esquerda e centro-esquerda. Uma recomposição purista da esquerda também afetaria as trajetórias e perspectivas futuras, devido à sua inadequação em termos de correlação de forças e relações de poder, um aspecto que deve ser sempre cuidadosamente considerado, com base nas contribuições de Foucault (80) e Deleuze (1987). Inevitavelmente, cairíamos numa ilusão revolucionária; o conceito de ilusão tem sido fortemente questionado por contribuições filosóficas desde Spinoza até pensadores contemporâneos da estatura de Deleuze (2004) e Hardt (2004).

Olhando para trás, na década de 10, o centro-esquerda e a esquerda não conseguiram avançar para o segundo turno das eleições devido a um vanguardismo fragmentado e não unificado. Obviamente, as vitórias oligárquicas levaram ao estabelecimento de um quadro constitucional neoliberal em 1998, bem como à instalação de uma base militar americana e aos resgates bancários e sua consequente crise financeira. É importante destacar que, imediatamente depois, ocorreram levantes indígenas e um motim militar, que levaram à queda do governo e, posteriormente, a uma aliança eleitoral entre o Partido da Sociedade Patriótica (PSP) e o Pachakutik (PK), que obteve a vitória em 2005. No entanto, essa aliança foi de curta duração, porque o PSP ostentava seu suposto esquerdismo enquanto, na verdade, se alinhava à direita neoliberal, concedendo ao PK um papel muito pequeno nos poderes executivo e legislativo. Felizmente, essa situação foi revertida em pouco tempo graças às poderosas e massivas mobilizações dos cidadãos de Quito, que exigiram a renúncia do PSP da presidência e a criação de uma Assembleia Constituinte. Isso levou a uma vitória eleitoral incontestável em 2007, uma nova Constituição em 2008 e dez anos de estabilidade social.

No contexto atual, o neoliberalismo visa eliminar a Constituição de 2008, considerada uma das mais democráticas, ecológicas, interculturais e plurinacionais do mundo. É, portanto, urgente evitar a repetição dos eventos de 1998. A unidade social e popular deve ser mantida nas atividades sociopolíticas de todo o país. Houve experiências muito negativas com governos que servem às políticas imperialistas do FMI e à pilhagem nacional por oligopólios. A ditadura oligárquica-oligopolista destruirá o país e suas próprias perspectivas de governança, devido à sua dependência do enriquecimento excessivo a curto prazo; a popularidade de Noboa certamente despencará em breve. A unidade garantiria uma forte força de oposição em nível nacional, embora alguns legisladores tenham se distanciado do processo de unificação. O contrário nos mergulharia ainda mais na trágica realidade do neoliberalismo e da narcoviolência, que coloca em risco até mesmo membros do exército, que nos últimos dias sofreram o assassinato de onze de seus companheiros em um território próximo a uma das fronteiras amazônicas com a Colômbia e cuja elucidação, como em outros casos, não é garantida.


Bibliografia

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Saint-Simon, Conde de (2004). O Novo Cristianismo. Biblos


* Coordenadora do Grupo de Trabalho da CLACSO sobre Territorialidades, Espiritualidades e Corpos. Coordenadora de publicações da Faculdade de Direito e Ciências Políticas e Sociais da Universidade de Cuenca, Equador.


[1] Para o segundo turno das eleições em 13 de abril de 2025, as alianças foram formadas com muito maior eficácia e visibilidade pública.

Hegel acreditava que a mera observação material impedia o acesso à verdade, o que ele contrastava com a fenomenologia do espírito. A matéria é alienante. Hegel concebeu sua epistemologia do espírito a partir do método dialético, como um dinamismo progressivo e, ao mesmo tempo, contraditório. Assim, por exemplo, a existência do povo tem uma condição material, mas o que interessa é a sua consciência em e para si mesma, portanto, a sua espiritualidade reconstitutiva do espírito inicial, mas em um estado de síntese progressiva ou superior. Marx (2011), por sua vez, considerava que a verdade é descoberta por meio de esforços iniciais de abstração, mas que esses esforços devem retornar ao concreto como uma descoberta científica e práxis revolucionária, através da qual a consciência social se liberta da dominação ideológica e alienante das classes dominantes, que falsificam a realidade para seu próprio benefício e privilégio. A diferença com Hegel reside na compreensão da dialética, porque para Marx o idealismo hegeliano a entendia de forma inversa, a partir do espírito, e não como deveria ser: a partir da matéria.

César Piechestein, um padre que alerta que votar no socialismo de Luisa González ameaçaria nossa liberdade religiosa.

É essencial recordar os Evangelhos, segundo os quais Jesus, com o chicote na mão, expulsou os mercadores da casa de Deus Pai. De modo semelhante, Jesus concluiu que é mais fácil uma joia passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Ele também priorizou a opção preferencial pelos pobres, o amor ao próximo como a si mesmo, a fome e a sede de justiça e, acima de tudo, dar a César o que é de César — ​​uma declaração que inclusive inspirou diversas utopias revolucionárias.

Ele o acusou de ser leniente com criminosos de esquerda.

Deleuze define a sociedade de controle como algo que vai além do panóptico da sociedade disciplinar de monitoramento e punição.


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