Educação e “doutrinação ideológica”. Uma leitura crítica do discurso da extrema-direita.
Dentro da Coleção "Cadernos de Pensamento Crítico Latino-Americano", a CLACSO apresenta "Educação e 'doutrinação ideológica': uma leitura crítica do discurso da extrema-direita", de J. Fabián Cabaluz D.
Educação e “doutrinação ideológica”. Uma leitura crítica do discurso da extrema-direita.
Em termos gerais, a extrema-direita Possui presença internacional, com forte influência em países como Argentina, Hungria, Estados Unidos, Índia, Brasil, Turquia e Itália, entre outros. A literatura especializada concorda que se trata de uma força política e social profundamente neoliberal (diferentemente da natureza antiliberal do fascismo e do nazismo do século XX). Nesse sentido, Álvaro García Linera (2022) a caracterizou como uma espécie de “neoliberalismo fascista” que sacraliza o livre mercado, deslegitima qualquer tipo de empresa pública e/ou propriedade privada e, portanto, rejeita os direitos sociais; e se opõe a qualquer iniciativa que busque aumentar os impostos sobre o setor empresarial. Por sua vez, a extrema-direita é caracterizada como conservadora, nacionalista, racista, xenófoba, autoritária e promotora da aporofobia, entre outros traços. Denuncia a democracia liberal representativa, suas instituições e mecanismos, e também promove notícias falsas por meio de múltiplas redes e plataformas virtuais. São grupos reacionários, abertamente antidemocráticos e promotores do ódio e da violência. No atual cenário global, marcado pela crise estrutural do capital, a extrema-direita se posicionou como uma “alternativa política”, como uma possibilidade real de superar os problemas da insegurança, da incerteza e do medo, erguendo as bandeiras da segurança pública, da autoridade e da estabilidade. E, nesse processo, lança ataques frontais contra marxistas, comunistas, esquerdistas, feministas, ativistas pelos direitos indígenas e muitos outros grupos percebidos como “inimigos internos”, verdadeiros “bodes expiatórios” usados para promover ressentimento e incitar o ódio.
Os projetos atuais da extrema-direita, ou pelo menos aqueles delineados desde o século XXI, são expressões que compartilham elementos de continuidade com os projetos das ditaduras cívico-militares estabelecidas pela força na América Latina e no Caribe durante a segunda metade do século XX. Nesse sentido, afirmamos desde já que a atual extrema-direita é uma força política e histórica que revive projetos ditatoriais; ou seja, é herdeira e continuadora das ditaduras latino-americanas. E, a esse respeito, seus projetos incorporam numerosos elementos da agenda de privatização e mercantilização da vida social, antiestatismo, bem como lógicas autoritárias, militaristas, conservadoras, religiosas e moralistas, entre outras.
Agora, vamos nos aprofundar no cerne deste trabalho. O ensaio está organizado em quatro seções: (I) Começaremos revisitando algumas reflexões de Karl Marx sobre ideologia e, em seguida, (II) exploraremos o discurso de "doutrinação ideológica" promovido pela extrema direita. Depois, (III) refletiremos sobre como o discurso contra a "doutrinação ideológica" se manifestou no campo da educação. Finalmente, (IV) abordaremos algumas demandas e/ou desafios para perspectivas críticas no campo da pedagogia contemporânea.
I
O conceito de ideologia foi desenvolvido por Karl Marx em diversos textos e passagens de sua obra; portanto, é necessário abordá-lo como um conceito complexo, dinâmico e multifacetado, rico em inúmeras chaves interpretativas. O conceito de ideologia não foi tratado sistematicamente em nenhuma publicação específica, o que por vezes levou a interpretações ambíguas. Diante dessa dificuldade, é importante notar que o conceito de ideologia de Marx deve ser estudado dentro do contexto histórico mais amplo de seu pensamento, evitando a distinção forçada entre um Marx jovem, o filósofo, e um Marx maduro, o cientista e economista (Silva, 1985; Larraín, 2014; Rohbeck, 2016). Contudo, mesmo correndo o risco de cair em abordagens reducionistas e esquemáticas, apresentaremos agora algumas das ideias centrais sobre ideologia desenvolvidas por Karl Marx.
Em sua crítica à religião, ou alienação religiosa, o jovem Marx argumenta que a religião realiza um exercício de inversão ideológica, tentando resolver ou fornecer soluções para as contradições do mundo real. A relação entre religião e ideologia refere-se a esse processo de distorção gerado pela religião em sua tentativa de recompensar a humanidade no paraíso pelo sofrimento real que existe na Terra. Da mesma forma, a concepção idealista do Estado é formulada por meio de um exercício semelhante, no qual a separação concreta entre sociedade política e sociedade civil é resolvida de maneira abstrata. Assim, para Marx, religião e Estado realizam um processo de inversão, mas — e isso é importante — trata-se de uma inversão realizada com base em uma realidade invertida, um mundo distorcido, um mundo “de cabeça para baixo”.
De acordo com o exposto, a ideologia realiza um processo de inversão de uma realidade que já está invertida. Nas palavras de Jorge Larraín (2014), um dos estudiosos do conceito de ideologia desenvolvido por Marx:Isso significa que Marx propôs a existência de dois tipos de inversão: a inversão da consciência — a ideologia — e a inversão da prática social objetificada — a alienação. A ideologia oculta a alienação; ela é uma inversão da inversão real.”(P. 49).
A isso, é importante acrescentar que, se a ideologia está associada à inversão da realidade e, portanto, a um conjunto de crenças falsas, então a crítica à ideologia não pode compartilhar de suas premissas, nem pode levar a outras formas de ver a realidade que sejam igualmente ideológicas ou distorcidas. Em outras palavras, a ideologia não pode ser combatida a partir de uma perspectiva ideológica; em vez disso, exige-se confrontá-la a partir de uma perspectiva radicalmente oposta, que para Marx seria o conhecimento científico da história e da sociedade (Villoro, 2007). Como afirmou diretamente o filósofo alemão:Onde a especulação termina na vida real, a ciência verdadeira e positiva também começa — a exposição da ação prática, do processo prático do desenvolvimento humano. Ali, as afirmações sobre a consciência cessam e o conhecimento real toma o seu lugar.”(Marx & Engels, 2020 [1845]: p. 22).
Além dos pontos já levantados, para o filósofo de Trier, a ideologia está intimamente ligada às classes dominantes. Por um lado, as classes dominantes controlam os meios de produção intelectual e cultural e, portanto, possuem as condições para produzir ou impor suas ideias como se fossem as da sociedade como um todo. Por outro lado, a ideologia dominante é funcional para a reprodução dos interesses das classes dominantes. A ideologia serve aos interesses das classes dominantes. Ou seja, por meio da ideologia, as classes dominantes podem apresentar seus interesses particulares como se fossem os interesses da sociedade como um todo. Isso fica evidente na famosa citação escrita por Marx (2020) [1845] em "A Ideologia Alemã":
"As ideias da classe dominante são as ideias dominantes de cada época; ou, dito de outra forma, a classe que detém o poder material dominante na sociedade é, ao mesmo tempo, a que detém o poder intelectual dominante. A classe que possui os meios de produção material também possui os meios de produção intelectual, o que significa que, em média, as ideias daqueles que não dispõem dos meios necessários para a produção intelectual estão sujeitas a ela.” (p.39).
Nesse sentido, para Marx, a ideologia está diretamente relacionada à classe dominante, pois oculta contradições reais e justifica relações de dominação. Ou seja, a ideologia favorece a dominação de uma classe, mas não pode ser definida unicamente por sua origem de classe, visto que mesmo as classes dominadas podem definir e reproduzir acriticamente a ideologia dominante. Concordando com o filósofo marxista venezuelano Ludovico Silva (1985) e o filósofo mexicano Luis Villoro (2007), acreditamos que seria um afastamento da obra de Marx sustentar a existência de uma espécie de ideologia das classes dominadas. A proposição de Lenin de que existe uma “ideologia proletária” oposta a uma “ideologia burguesa” mostrou-se bastante confusa em termos analíticos e práticos, uma vez que, com base nessa ideia, desenvolveu-se uma concepção “ampliada” de ideologia, que dilui seu potencial explicativo. Em outras palavras, se todo conjunto de crenças ou pensamentos não científicos for considerado ideológico, a especificidade daquelas crenças que de fato falsificam ou distorcem a realidade torna-se turva. O que queremos deixar claro são duas coisas: Primeiro, para Marx, a ideologia é funcional aos interesses das classes dominantes. Ou, como apontou Luis Villoro (2007):A obra de Marx é tanto uma crítica radical ao pensamento ideológico quanto o fundamento de uma teoria racional da sociedade e da história.“(p. 88). E em segundo lugar, e isto não foi dito por Marx, mas podemos sustentar projetando as suas ideias, consideramos que o conceito de ideologia poderia ser estendido a outras formas de dominação: racial, colonial, de género, etc.
Dando continuidade aos argumentos marxistas, desejamos enfatizar que a ideologia está associada a uma prática material (invertida) que gera ideias, crenças e/ou preconceitos que representam a realidade de forma inadequada e distorcida, obscurecendo as contradições concretas de nossas sociedades. Em outras palavras, Marx desenvolveu uma concepção crítica de ideologia. Disso decorre que a luta contra a ideologia não pode se limitar a processos cognitivos, mas deve estar vinculada à transformação revolucionária da realidade prática. Se as contradições sociais não forem resolvidas por meio da prática revolucionária, a ideologia cumpre seu papel de ocultar ou deturpar essas contradições.
Considerando este ponto, uma observação se faz necessária: é inadequado opor a concepção marxista de ideologia à noção de ciência. A ideologia não é pré-científica nem anticientífica, mas sim um tipo específico de distorção e/ou ocultação de contradições reais. Para Marx, a ciência pode ser desumanizadora ou libertadora. E em sua dimensão libertadora, a ciência pode contribuir para a compreensão e o desmascaramento da ideologia; pode contribuir para a busca do que se esconde por trás das aparências. Mas, e Marx afirma isso em inúmeras ocasiões, a superação da ideologia não ocorrerá por meio de formulações científicas ou teóricas, mas sim pela transformação concreta e revolucionária da realidade (Lenk, 2001).
Os pontos levantados acima serão retomados com grande clareza pelo filósofo venezuelano e marxista herege Ludovico Silva (1985), que afirmou: “Marx nos ensina duas coisas cruciais: que uma teoria científica pode destruir uma fachada social que mascara ideologicamente a exploração social e que, no entanto, essa descoberta teórica por si só não basta para destruir verdadeiramente a exploração: sua forma material só é destruída na prática. Este é um alerta muito claro para aqueles que pensam que podem acabar com o capitalismo simplesmente destruindo a ideologia capitalista.” (p.61).
Por fim, a ideologia está ligada à distinção marxista entre formas aparentes (ou fenomênicas) e formas essenciais (ou reais). Para Marx, as formas essenciais ou reais não se revelam de forma transparente. A ideologia opera em duas frentes: por um lado, oculta ou disfarça as relações contraditórias da vida material e, por outro, apresenta uma realidade contrária à essência ou fundamento. A ideologia política burguesa finge igualdade e liberdade para os indivíduos, mas, na realidade, os trabalhadores são forçados a vender sua força de trabalho porque foram privados dos meios de produção. Igualdade e liberdade são mera ilusão, a fachada da sociedade burguesa moderna. Neste ponto, vale lembrar que a compreensão de ideologia na obra de Marx foi desenvolvida para explicar o ocultamento das contradições sociais e, especificamente, o ocultamento da contradição entre trabalho e capital, obscurecendo, assim, o caráter da luta de classes (Silva, 1985; Larraín, 2014).
II
Tendo estabelecido esses elementos gerais do conceito de ideologia de Karl Marx, voltamos agora nossa atenção para a noção de doutrinação ideológica desenvolvida pela extrema-direita. Nesse sentido, é importante notar que o discurso da doutrinação ideológica é fundamental para a agenda global da extrema-direita; portanto, requer uma análise rigorosa e uma oposição vigorosa e clara. De nossa perspectiva, existem pelo menos duas ideias-chave que nos permitem compreender a noção de doutrinação ideológica; vamos examiná-las em detalhes.
Uma primeira ideia diz respeito à compreensão de ideologia pela extrema-direita, uma posição que parece consistente com as formulações da sociologia do conhecimento de Karl Mannheim. Após a publicação de seu livro "Ideologia e Utopia" em 1929 (publicado em espanhol em 1941), Mannheim criticou o marxismo por acusar outras abordagens teóricas ou escolas de pensamento de serem ideológicas, ao mesmo tempo que se distanciava dessa mesma acusação. Em outras palavras, segundo Mannheim, a crítica marxista à ideologia era considerada unilateral porque não questionava nem criticava a si mesma como ideologia. Para o sociólogo húngaro, o marxismo deveria ser considerado uma "teoria socialmente determinada" e, portanto, uma perspectiva limitada, parcial e ideológica. Contudo, como se pode observar ao comparar com os pontos levantados acima, a compreensão de ideologia por Mannheim difere da de Marx. O sociólogo omitiu a relação entre ideologia e ciência desenvolvida por Marx, que lhe permitiu vincular toda a produção teórica a uma concepção ideológica da realidade, possibilitando, assim, a relativização de todas as formas de pensamento. Em contraste, para Marx, todo pensamento era socialmente determinado, mas isso não o tornava uma ideologia que falsificava, distorcia e mascarava a realidade (Silva, 1985; Lenk, 2001; Villoro, 2007; Löwy, 2000 e 2008).
Considerando o exposto acima, e falando hipoteticamente, podemos afirmar que as posições atuais da extrema-direita são coerentes com a formulação de Mannheim e de outros intelectuais, inclusive dentro do campo marxista, que sustentam que o marxismo também é ideológico. Com base nisso, a extrema-direita tem concentrado seu discurso especificamente em apontar que o marxismo é uma das principais e mais perigosas ideologias de nosso tempo e que, portanto, é necessário combatê-lo com todas as forças e meios disponíveis.
Como segunda ideia-chave, podemos destacar que o discurso da extrema-direita contra a doutrinação ideológica coloca o problema da ideologia fora dos grupos dominantes e privilegiados, deslocando assim a perspectiva desenvolvida por Marx. Ou seja, há concordância com a formulação marxista da relação entre ideologia e classe, mas de forma invertida; isto é, são as classes dominadas e os grupos subalternos que produzem ideologia e a introduzem nos espaços educacionais e culturais. Para a extrema-direita, são as mulheres, os povos indígenas e os trabalhadores que, ao desafiarem a ordem, promoverem lutas e levantarem demandas e reivindicações, produzem ideologia. Essa estratégia de investimento oculta e naturaliza os elementos ideológicos da extrema-direita: seu ethos neoliberal (mercantil, lucrativo, individualista, meritocrático, enfatizando a acumulação, a iniciativa privada, a competição) e seu ethos conservador (autoritarismo, moralismo, militarismo, racismo, fundamentalismo religioso), reproduzindo, mais uma vez, uma concepção distorcida e deturpada da realidade social, educacional e cultural.
Além de ocultar, naturalizar, distorcer e deturpar a realidade, a extrema-direita emprega um conjunto de mecanismos de subjugação que lhe permitem reproduzir a dominação ideológica. Para os fins desta seção, interessa-nos destacar os seguintes: (1) O mecanismo de “adaptação”, que se refere à justificativa, pelas classes e setores dominados, do estado atual das coisas e da sua indiferença às reivindicações e lutas sociais, com base na ideia de que existem elementos vitais mais relevantes do que a dominação, como, por exemplo, a necessidade de trabalhar diariamente, independentemente do que aconteça no país. (2) O mecanismo da “inevitabilidade”, que naturaliza a status quo (3) O mecanismo de “senso de representação” dissemina a ideia de que os grupos dominantes governam em benefício da maioria, projetando uma imagem de superioridade e/ou qualidades excepcionais por parte dos setores dominantes. (4) O mecanismo do “medo” é usado para mostrar às classes subordinadas que a desobediência, o desafio e a rebelião têm sérias repercussões. O medo também é usado para deslegitimar aqueles que promovem transformações sociais, ativando o medo da incerteza, da pobreza, do caos e da crise. E (5) o mecanismo da “resignação”, que conota visões pessimistas da realidade e do futuro, negando a possibilidade de construção e consolidação de processos de mudança histórica, tudo isso desencadeando concepções conformistas da realidade (Therborn, 2005).
III
Em seguida, tentaremos caracterizar as formas como o discurso contra a “doutrinação ideológica” desenvolvido pela extrema-direita se expressou no campo educacional.
Na educação, a extrema-direita latino-americana e global tem erguido a bandeira da crítica contra a “doutrinação ideológica”. Esse componente é um dos elementos mais recorrentes da agenda educacional e cultural desse setor político e, em graus variados, conseguiu permear o senso comum de nossas sociedades. O discurso contra a “doutrinação ideológica” revela um componente de medo e ódio a tudo que desafia ou tensiona a tradição conservadora e neoliberal. É a máscara por trás da qual escondem sua defesa de privilégios, segregação, xenofobia, homofobia e racismo, “supremacia branca”, violência sexista e patriarcal, aporofobia e colonialismo.
Atualmente, no campo da educação, o ataque frontal da extrema-direita à "doutrinação ideológica" pode ser resumido sucintamente em alguns pontos. Examinaremos alguns deles a seguir. Primeiro, todo esse discurso é claramente direcionado contra os professores e seu potencial de contribuir para o desenvolvimento da consciência e do pensamento crítico nas novas gerações. Os professores são percebidos como um inimigo em potencial, como um sujeito perigoso que deve ser controlado, monitorado e regulamentado. Tudo isso se materializa na criação de mecanismos e dispositivos que incentivam alunos, famílias, outros professores ou trabalhadores da educação a denunciá-los. Dessa forma, promove-se a denúncia entre os membros de uma comunidade (gravação de aulas, denúncia de professores), buscando semear medo, silêncio e submissão. Estabelece-se uma cultura de censura, desconfiança e controle contra os professores, que, por sua vez, se articula com mecanismos de judicialização dentro dos espaços educacionais, que Díez (2022) denominou "estratégia de litígio educacional“(p. 30) ou assédio por meios judiciais às práticas e valores democráticos, que corroem a confiança do corpo docente e promovem a “autocensura”.
Outro ponto relevante na luta neofascista é contra a “ideologia de gênero”, que busca o objetivo fundamental de deter os avanços do feminismo em múltiplas dimensões. A extrema direita se apropria e promove, de diversas maneiras, uma espécie de “desconforto” ou “raiva” entre os homens em relação às diferentes abordagens das feministas e dissidentes sexuais. Vários mecanismos são empregados para reinstaurar uma agenda conservadora sobre sexualidade, direitos reprodutivos e identidades de gênero. A violência patriarcal é negada como um problema a ser abordado nas escolas, a educação sexual abrangente é combatida, o uso de linguagem inclusiva é rejeitado e as demandas, reivindicações e conquistas feministas são ridicularizadas (Díez, 2022).
Outro ponto levantado pela extrema-direita é a crítica à presença, nos sistemas educacionais, de temas e questões relacionados à memória e aos direitos humanos. O neofascismo tem se esforçado para cultivar o esquecimento, o silêncio e a impunidade em relação aos recentes processos ditatoriais vivenciados no Chile, na América Latina e no mundo. Nesse sentido, negam a memória coletiva, a memória dos povos, invisibilizam as violações sistemáticas dos direitos humanos, omitem o terrorismo de Estado e silenciam a responsabilidade direta pela repressão. O discurso negacionista e a falsificação histórica são promovidos e defendidos por esses setores, a ponto de profanar e destruir memoriais, centros de detenção e tortura, e diversos locais e símbolos que homenageiam o terrorismo de Estado. Diante disso, professores de disciplinas relacionadas à história, ciências sociais e humanidades estão no centro do ataque neofascista.
Além de tudo isso, a extrema-direita promove a militarização da educação, criando escolas e campos militares — espaços onde são promovidos “valores patrióticos”, associados a símbolos tradicionais (bandeira, hino, brasão, etc.) e a um nacionalismo obsoleto que remete a grandes propriedades, ordem e autoridade. Em todos esses espaços, a extrema-direita exacerba o discurso da “insegurança” e do “inimigo interno”, o que leva certos setores da sociedade a se armarem para se defenderem do crime, do vandalismo e do terrorismo (Díez, 2022; Sena, 2022).
Como mencionado anteriormente, a extrema-direita e seu discurso contra a “doutrinação ideológica” têm promovido o discurso neoliberal na educação, legitimando e defendendo privatizações, a busca pelo lucro, a liberdade de ensino, a segregação escolar, o endividamento familiar, a teoria do capital humano, a meritocracia, o individualismo, a competição, o pensamento voltado para o sucesso, a lógica gerencial, a defesa de privilégios, a promoção da eficiência e da eficácia, a padronização, entre outros (Ruíz, Reyes e Herrera, 2018; Cabaluz, 2022). Nesse sentido, a extrema-direita tem defendido veementemente o ensino religioso nas escolas. Sob o pretexto da “liberdade de ensino”, protegem os projetos educacionais de ordens religiosas conservadoras como o Opus Dei e os Legionários de Cristo. Obviamente, esses defensores da ordem e da liberdade de ensino não acusam as escolas que promovem dogmas religiosos de “doutrinação ideológica” (Díez, 2022; Sena, 2022).
Obviamente, cada um dos pontos mencionados contribui sistematicamente para o descrédito da educação pública e dos espaços educativos democráticos e pluralistas. A profissão docente é questionada, seu trabalho diário é visto com suspeita, sistemas de controle e vigilância são implementados, os espaços educativos são submetidos a processos judiciais e perspectivas conservadoras, tradicionais, militaristas e autoritárias são promovidas. E com isso, não apenas as condições de trabalho dos professores são prejudicadas, mas também todos os direitos das crianças e jovens à educação em democracia, pluralismo, justiça e direitos humanos são violados.
IV
No século XXI, a extrema-direita não só avançou globalmente na conquista de representação política, assentos parlamentares e cargos governamentais, como, mais importante ainda, ganhou terreno no entendimento comum de nossas sociedades. Nesse sentido, a ascensão do Bolsonaro, do Trumpismo, do Pinochetismo e de outras ideologias é evidente e profundamente preocupante para nós, que trabalhamos na área da educação. Elas representam o desafio incontornável de combater a extrema-direita não apenas na arena política, mas também nas esferas cultural e educacional. Portanto, as organizações educacionais e pedagógicas — incluindo grupos profissionais, sindicais, comunitários e de base — necessitam de uma análise precisa e rigorosa que permita uma resposta coordenada de diversas organizações sociais e políticas contra a ameaça real da extrema-direita.
Os casos recentes em que a extrema-direita esteve no governo mostram o que está verdadeiramente em jogo: a possibilidade de aniquilação dos direitos sociais e das conquistas alcançadas por meio das lutas da classe trabalhadora e de grupos marginalizados. Particularmente na educação, a experiência brasileira sob o governo Bolsonaro demonstra os altos níveis de violência que podem eclodir em escolas, universidades e instituições de ensino se o discurso contra a “doutrinação ideológica” proliferar. Isso ocorre porque os ataques de ódio (tanto presenciais quanto online) aumentam, e o trabalho acadêmico, científico, pedagógico e político é deslegitimado, corroendo gravemente a democracia e as possibilidades de avanço da justiça social (Sena, 2022).
Por fim, para concluir este ensaio, estamos interessados em destacar duas táticas que têm sido utilizadas por organizações de professores, trabalhadores da educação e educadores populares na América Latina para confrontar o discurso da extrema-direita em torno da "doutrinação ideológica".
Uma tática inicial reconheceu que a educação é uma arena de disputas e contradições ideológicas e que, portanto, assim como os setores neoliberais e conservadores promovem ideologias meritocráticas, individualistas, autoritárias e outras, é legítimo confrontá-los com posições “ideológicas” que promovam a democracia, a justiça, a igualdade, a dignidade e assim por diante. Essa posição implica aceitar, tanto teórica quanto politicamente, que o papel da educação crítica e transformadora envolve confrontar a ideologia dominante e promover, por meio de processos democráticos ou da construção de um “consenso comunitário de baixo para cima”, uma ideologia que defenda e promova os interesses populares. Ao empregar essa tática, assume-se uma concepção ampliada de ideologia. Mobiliza-se um recurso discursivo que se baseia na acusação da extrema direita, a fim de devolver a mesma acusação aos grupos dominantes.
E uma segunda tática enfatiza o reconhecimento de que a educação é um espaço de luta e contradição contra todas as ideologias, entendidas como aquelas concepções da realidade que a distorcem para legitimá-la e validá-la.. Dessa perspectiva, a abordagem defende uma forte crítica à ideologia neoliberal e conservadora que privilegia a vida de poucos em detrimento da vida da grande maioria. Essa tática engaja educadores em processos de desnaturalização e problematização da vida social, valorizando o conhecimento científico e disciplinar na medida em que ele serve aos processos de justiça social. A utilização dessa tática implica uma compreensão limitada de ideologia. Ela mobiliza um recurso discursivo contrário às alegações da extrema direita, enfatizando que os professores da rede pública não doutrinariam ideologicamente, mas sim forneceriam recursos epistemológicos, teóricos, conceituais, metodológicos e práticos para se opor, criticar e superar ideologias.
Obviamente, a escolha de uma tática ou outra, em vez de responder a concepções teóricas e políticas abstratas, responde e/ou deveria responder a uma análise histórica concreta, que considere os cenários, os sujeitos, os recursos e as relações de poder que de fato existem em nossa sociedade, a fim de definir possíveis linhas de ação com base nessa análise.
E acreditamos ser relevante, como observado na seção sobre as reflexões de Marx sobre a ideologia, reconhecer que a única oposição real à ideologia é a transformação concreta e radical dessa realidade invertida. Táticas que apenas sabem como confrontar discursivamente a extrema direita são insuficientes. Nesse sentido, não podemos esquecer a importância de manter vivas as organizações, mobilizações e lutas concretas e materiais realizadas por professores, educadores e trabalhadores da educação.
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Docente e pesquisador da Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Playa Ancha e do Departamento de Educação da FACSO, Universidade do Chile. É membro do Grupo de Trabalho de Educação Popular e Pedagogias Críticas do CLACSO. Coordenador do Grupo de Pesquisa em Pedagogias Latino-Americanas da UPLA. https://upla-cl.academia.edu/FabianCabaluz
Para uma caracterização mais aprofundada da extrema-direita hoje, sugere-se a leitura de: Stefanoni (2021), Mudde (2021) e García Linera (2023).
É o próprio Lenin, em seu livro Que Fazer?, quem se refere ao conceito de “ideologia socialista” em contraste com a “ideologia burguesa”, mas quando se refere à ideologia socialista, o faz em alusão à teoria do socialismo científico, ou seja, como o conhecimento científico pode orientar a prática revolucionária. Essas formulações de Lenin tiveram um profundo impacto nos partidos comunistas e no marxismo soviético e suas esferas de influência (Markovic, 1978).
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