Diploma Avançado em Sexualidades e Cidadania
1ª Turma | Modalidade Virtual
COORDENAÇÃO ACADÊMICA
Amaral Arévalo (Centro de Estudos de Gênero, Sexualidade e Saúde, Fundação Oswaldo Cruz / Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito, Universidade Federal Fluminense, Brasil)
CORPO DOCENTE
Amaral Arévalo (Centro de Estudos de Gênero, Sexualidade e Saúde, Fundação Oswaldo Cruz / Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito, Universidade Federal Fluminense, Brasil) | Jenny Vanessa Muñoz Moscoso (Departamento de Ciências Sociais da Universidade Nacional de Quilmes, Argentina) | Wilka Ñusta Taylor (Assexuais e Arromânticos, Chile) Yamirka Robert Brady (Centro de Estudos Sociais Cubanos e Caribenhos Dr. José Antonio Portuondo, Faculdade de Ciências Sociais, Universidade de Oriente, Cuba) | Diego Puntigliano Casulo (Departamento de Ciências Humanas e Sociais, Faculdade de Informação e Comunicação, Universidade da República, Uruguai) | Gustavo Gomes da Costa (Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direitos Humanos da Universidade Federal de Pernambuco, Brasil) | José Ernesto Ramírez (Departamento de Ciências Sociais da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Pedagógica Nacional, Colômbia) Débora Fernández Cárcamo (Universidade de Valparaíso, Chile) | Lázaro Marcos Chávez Aceves (Universidade de Guadalajara, México) | Iyamira Hernández Pita (Faculdade de Filosofia e História da Universidade de Havana, Cuba) | Luis Rojas Herra (Centro de Pesquisa, Cultura e Desenvolvimento, Universidade Estadual a Distância, Costa Rica) | Yacurmana de la Puente (Instituto de Análise de Políticas Públicas da Universidade Nacional de La Rioja, Argentina) | Raúl Anthony Olmedo Neri (Centro de Estudos em Ciências da Comunicação, Faculdade de Ciências Políticas e Sociais, Universidade Nacional Autônoma do México) | Maximiliano Marentes (Escola Interdisciplinar de Estudos Sociais Avançados da Universidade Nacional de San Martín, Argentina) | Eder van Pelt (Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito, Universidade Federal Fluminense, Brasil) | Nicolau Ballesteros (Universidade Nacional da Colômbia)
Formato virtual | Agosto a novembro de 2026
Início: 20/08/2026 | Inscrição: 15/05/2026 a 18/08/2026
O diploma faz parte da continuidade do esforço epistêmico de acadêmicos e ativistas LGBTIQA+ que empreendemos desde 2024 na escrita do livro Cidadanias Sexuais Viáveis na América Latina e no Caribe (CLACSO, 2025) e na estruturação da proposta do Grupo de Trabalho Ativismos Sexuais e Cidadanias: Diálogos Interdisciplinares para a chamada 2026-2028.
Este programa de diploma considera a cidadania sexual como um projeto político e acadêmico que visa articular pesquisa, ativismo e formulação de políticas, integrando os direitos sexuais na estrutura mais ampla dos direitos humanos universais. O programa propõe desconstruir a heteronormatividade arraigada nas democracias liberais e na cultura de consumo capitalista, entendendo a cidadania sexual como uma reinterpretação da cidadania que desafia as noções tradicionais de práticas sexuais, gênero e identidades, e introduz a intimidade como um campo legítimo de reflexão acadêmica e luta política pela autodeterminação como seres sexuais.
O curso está integrado em cinco módulos, nos quais serão analisados os seguintes pontos: a) Estruturas epistêmicas e políticas situadas; b) Avanços normativos e persistência da violência; c) Contraofensivas anti-gênero; d) Práticas de resistência, memória e cuidado coletivo; e e) Estruturas analíticas emergentes para pensar sobre cidadanias sexuais viáveis.
No contexto latino-americano contemporâneo, a ascensão de novos movimentos autoritários de direita, descritos como neofascismo ou “fascismo neoliberal”, os processos de refeudalização do capitalismo e a desdemocratização dos regimes políticos reconfiguraram o campo da cidadania sexual como um terreno privilegiado para a compreensão das recentes mutações do poder. Nessa linha, Wendy Brown (2019) argumenta que o neoliberalismo corrói a democracia ao produzir uma cultura antidemocrática “de baixo para cima”, enquanto consolida formas cada vez mais autoritárias de governança estatal “de cima para baixo”. Complementarmente, Olaf Kaltmeier (2022) conceitua a refeudalização para explicar a concentração patrimonial do poder, a captura oligárquica das instituições e a restauração das hierarquias de classe na América Latina. Essa estrutura nos permite situar as disputas sobre gênero e sexualidade não como questões “setoriais”, mas como indicadores estratégicos dos limites e possibilidades da democracia na região.
Dessa perspectiva, as lutas LGBTIQA+ não são simplesmente uma agenda para o reconhecimento de “minorias”, mas podem ser interpretadas como práticas de democratização radical que questionam quem é reconhecido como sujeito de direitos, quais corpos são considerados legítimos na esfera pública e quais modos de vida são considerados dignos de proteção. A teoria da cidadania sexual mostra que a pertença política e a distribuição de recursos, afetos e reconhecimento são permeadas por uma gramática sexualizada; e que, quando consideradas a partir do Sul Global, essas disputas transcendem as estruturas eurocêntricas e exigem categorias situadas para compreender suas complexidades históricas e contemporâneas (Richardson, 2017).
Pensar em cidadanias sexuais a partir da perspectiva da América Latina e do Caribe implica também reconhecer uma condição estrutural dual: por um lado, um ciclo de expansão normativa e programática em relação à orientação sexual, identidade de gênero e expressão de gênero — em diálogo com os padrões internacionais de direitos humanos —; e, por outro, uma intensa contraofensiva reacionária impulsionada por elites conservadoras e fundamentalismos religiosos. Nesse contexto, Gabriela Arguedas (2024) conceitua a “reconquista reprodutiva” como um projeto voltado para a restauração de uma ordem sexual e reprodutiva hierárquica, reafirmando privilégios por meio da refeudalização dos corpos e dos futuros reprodutivos. A coexistência de avanços legais com a persistência da violência letal, populismos sexuais antigênero e redes transnacionais antigênero confirma que as cidadanias sexuais devem ser entendidas como lutas abertas, conflituosas e inacabadas.
Consequentemente, um programa de diploma em cidadania sexual é fundamental porque possibilita uma compreensão abrangente da questão: o cerne do debate não se limita ao reconhecimento formal de direitos, mas envolve a capacidade de redefinir cidadania e democracia em contextos marcados por persistentes desigualdades coloniais, autoritarismo punitivo, violência patriarcal e reestruturações econômicas refeudalizantes. Ao oferecer aos alunos participantes estruturas críticas e ferramentas analíticas situadas, o programa permite que eles questionem o significado do Estado em sua tensão constitutiva: como um aparato de controle e, simultaneamente, como um mecanismo para garantir direitos. Além disso, ao articular a teoria social crítica, uma perspectiva de direitos humanos e a análise contextual latino-americana, o programa de diploma fortalece as capacidades de influenciar políticas públicas, práticas institucionais e repertórios sociais de reconhecimento, contribuindo para imaginar e sustentar formas mais radicais, pluralistas e viáveis de vida democrática na região.
OBJETIVO GERAL
Refletir de forma interdisciplinar e intrarregional sobre as mudanças e os desafios para alcançar uma cidadania sexual viável para pessoas LGBTIQA+ nos países da América Latina e do Caribe.
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
- Reconstruir e sistematizar as estruturas epistêmicas e políticas situadas da cidadania sexual na América Latina e no Caribe, enfatizando como as lutas LGBTIQA+ transbordam a estrutura de “minorias” para desafiar a própria definição de sujeito de direitos, pertencimento político e modos de vida dignos de proteção.
- Analisar a discrepância entre os avanços legais e institucionais em matéria de direitos sexuais e de gênero e a persistência da violência letal e estrutural, com especial atenção às tensões entre o reconhecimento formal e o exercício efetivo dos direitos, em diálogo crítico com as políticas públicas dos Estados.
- Mapeando a contraofensiva anti-gênero e a “reconquista reprodutiva” na América Latina e no Caribe, identificando atores, discursos, mecanismos institucionais e estratégias estatais, empresariais, religiosas e midiáticas que buscam restabelecer uma ordem sexual e reprodutiva hierárquica e colonial.
- Analise as práticas de resistência, memória, luto, cuidado e apoio coletivo promovidas pelo ativismo e pelas comunidades LGBTIQA+, considerando sua aplicação multiescalar nos níveis local, nacional e regional, bem como em múltiplas esferas, como tribunais, ruas, artes, plataformas digitais, parlamentos, universidades e fóruns multilaterais.
- Propor estruturas analíticas e ferramentas conceituais para pensar cidadanias sexuais viáveis, que permitam redefinir a democracia para além do reconhecimento legal, incorporando perspectivas interseccionais de gênero, sexualidade, raça, classe e territorialidades, orientadas para a transformação das estruturas de violência e desigualdade colonial.
O Diploma Superior em Sexualidades e Cidadania destina-se a estudantes de graduação e pós-graduação; professores de todos os níveis; ativistas e membros de sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos; funcionários públicos; membros e gestores de organizações não governamentais e profissionais interessados no tema.
O programa consiste em 5 módulos de 3 aulas semanais cada, ministradas consecutivamente e interligadas.
Carga horária total de 128 horas.
Os módulos que compõem o Diploma Superior são:
- Classe 1: Cidadanias sexuais viáveis na América Latina e no Caribe
Professora: Amaral Arévalo
Questões relacionadas à orientação sexual, identidade/expressão de gênero e características sexuais e afetivas ganharam visibilidade internacional nos últimos 40 anos. A visibilidade e a conquista de direitos pela população lésbica, gay, bissexual, trans, intersexo, queer, assexual e com outras identidades de gênero, sexuais e afetivas (LGBTIQA+) são marcas desse momento histórico, especialmente nas sociedades ocidentais contemporâneas. Esse processo não foi espontâneo, como análises simplistas poderiam sugerir. Pelo contrário, trata-se de um processo genealógico que envolve organização social, ação coletiva e ativismo político. Esta disciplina introdutória visa (re)constituir uma visão geral das cidadanias sexuais das pessoas LGBTIQA+ na América Latina e no Caribe. Para tanto, será realizada uma exploração histórica e conceitual. Em um nível histórico, serão apresentadas as mudanças sociais, culturais, institucionais e políticas relativas às pessoas LGBTIQA+, desde a criminalização até a aquisição da cidadania, todas por meio de ações coletivas realizadas por diversos movimentos LGBTIQA+ organizados desde a segunda metade do século XX, que se intensificaram na década de 1990 e a partir de 2000 com um claro impacto nas administrações públicas nos Estados, e um retrocesso a partir do segundo quinquênio da década de 2010 com o avanço de tendências políticas conservadoras e de extrema-direita nos países. - Aula 2: Morfologia Urbana do Desejo. O urbanismo da cidade latino-americana moderna como produto da sexualidade.
Professores: Jenny Vanessa Muñoz Moscoso e Nicolás Ballesteros
Esta disciplina tem como objetivo analisar a cidade e sua relação com as expressões da sexualidade humana. A partir da perspectiva da morfologia urbana, podemos abordar uma compreensão da dinâmica urbana, identificando formas distintivas na arquitetura, no tecido urbano e nos diversos usos do solo de áreas específicas da cidade que, por razões complexas, se consolidaram ao longo do tempo como as chamadas "zonas de prostituição" ou "zonas de tolerância". A disciplina começa com conceitos básicos voltados para a compreensão da complexidade de viver, circular, trabalhar e consumir em espaços que, longe de serem neutros e homogêneos em comparação com outras áreas da cidade, são historicamente marcados pelo proibido, pelo especial, pelo marginal e, em última instância, pelo desejado, como uma experiência de desejo situada nas margens da legitimidade e da legalidade. Esses conceitos são o direito à cidade e a morfologia urbana e social distintiva de áreas zoneadas ou segregadas. A disciplina busca estabelecer como o desejo é configurado espacialmente na cidade, nos casos de grupos sociais que constantemente usam, habitam, se apropriam e redefinem tais espaços. Por sua vez, para entender como esses espaços se relacionam com seu ambiente urbano, o que se traduz na especialização desses processos, o que implica o desenvolvimento de planos urbanos e cartografia. - Classe 3: Cidadanias assexuais e arromânticas
Professora: Willka Ñusta Taylor
Esta disciplina examina a luta pelo reconhecimento de pessoas assexuais e arromânticas como uma batalha cultural e social contra a alonormatividade e a amatonormatividade, que sustentam formas cotidianas de violência como a patologização, o assédio e a representação distorcida pela mídia. Diante da falta de espaços seguros e do constante apagamento social, surgiram comunidades e organizações assexuais e arromânticas, criando redes de refúgio, apoio e ajuda mútua, além de promover a conscientização e a mudança cultural. Somente nos últimos anos essas organizações começaram a dialogar com o Estado e as instituições, exigindo que o reconhecimento social seja acompanhado por maior transparência pública e respeito em todas as esferas. Enquanto essas mudanças não se consolidarem, pessoas assexuais e arromânticas continuarão a ser tratadas como cidadãos de segunda classe em uma sociedade que ainda as nega, em vez de reconhecê-las como sujeitos plenos de direitos, dignidade e existência.
- Aula 4: Cidadanias Sexuais Caribenhas: Perspectivas Cruzadas
Professora: Yamirka Robert Brady
Esta disciplina analisa a exclusão da população homossexual a partir de uma perspectiva bidimensional, entendendo-a não apenas como uma condição de “estar fora”, mas também como um processo social e histórico que produz desigualdade por meio de mecanismos institucionais e culturais que definem quem pode pertencer, participar e ser reconhecido como sujeito legítimo. A natureza bidimensional dessa exclusão se expressa, em primeiro lugar, em uma dimensão material-institucional, que abrange barreiras ao acesso efetivo a direitos, serviços e proteções, bem como práticas estatais de vigilância, controle ou “normalização”. Em segundo lugar, manifesta-se em uma dimensão simbólico-cultural, composta por discursos patologizantes ou moralizantes, estereótipos e formas de deslegitimação que degradam o status social, geram autocensura e restringem a presença pública. Essas duas dimensões não operam separadamente: elas se reforçam mutuamente e produzem uma cidadania sexual estratificada. A disciplina ilustra essa bidimensionalidade por meio de exemplos situados, incluindo Cuba e outros países caribenhos, para mostrar variações nos repertórios de exclusão de acordo com contextos políticos, marcos legais e gramáticas morais. - Aula 5: Nova agenda de direitos no Cone Sul
Professor: Diego Puntigliano Casulo
Esta disciplina visa incentivar a reflexão sobre a relação entre os Estados latino-americanos e os movimentos sociais no início do século XXI. O foco será nos movimentos sociais, compartilhando experiências transformadoras e a luta pelos direitos dos cidadãos, com o objetivo de complementar as discussões das demais disciplinas do módulo.
O ponto de partida teórico é o conceito de maré rosa de Bull (2013) e os referenciais teóricos propostos por Friedman et al. (2020), especificamente sobre questões de gênero e sexualidade, fornecendo um diagnóstico sociopolítico geral que permite enquadrar a situação geopolítica no paradigma dos direitos sexuais e reprodutivos. Assim, o objetivo é introduzir debates que nos permitam compreender por que falamos de novos movimentos sociais.
O arcabouço teórico da nova agenda de direitos (Bidegain et al., 2024) continua a explorar as noções de interseccionalidade nas ações políticas dos movimentos sociais, particularmente aquelas relacionadas à diversidade sexual. Esse arcabouço permite a observação de casos transfronteiriços específicos com modelos diferenciados para a promoção dos direitos sexuais e da cidadania no Cone Sul. O caso uruguaio será tomado como exemplo primordial para explicar o paradigma da diversidade em contraste com o orgulho tradicional (Sempol, 2016), ampliando a perspectiva sobre as causas, os discursos e os repertórios de ação defendidos por esses grupos (Puntigliano Casulo, 2025).
Em resumo, a disciplina busca abordar os novos marcos interpretativos e políticos provenientes dos movimentos sociais, reconhecendo as contribuições para a construção de conhecimento orientado para a transformação social e que devem continuar a fazer parte das práticas de formação universitária. -
Aula 6: A representação política das pessoas LGBTIQA+ na América Latina
Professor: Gustavo Gomes da Costa
Desde o início do século XXI, os direitos de lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, intersexuais, queer e assexuais (LGBTIQA+) na América Latina passaram por uma mudança paradigmática. Diversos países da região (Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, México e Uruguai) ganharam destaque internacional graças à aprovação de leis que ampliaram os direitos de pessoas que não se enquadram nos padrões cis-heteronormativos. Ao mesmo tempo, altos índices de violência LGBTfóbica persistem na região, e observa-se um aumento no número de líderes políticos com discursos explicitamente sexistas, homofóbicos e transfóbicos. É nesse contexto que vemos a crescente participação de pessoas abertamente LGBTIQA+ em partidos políticos e eleições em vários países da região, conquistando posições nos poderes executivo e legislativo em diferentes níveis de governo.
Por meio de um diálogo com a literatura acadêmica sobre gênero e política, com foco particular em discussões sobre cotas de gênero, representação descritiva e violência política, este curso busca examinar os obstáculos enfrentados por políticos abertamente LGBTQIA+, desde os estágios iniciais de suas candidaturas até seu desempenho em órgãos parlamentares. As discussões serão baseadas em estudos empíricos sobre a participação LGBTQIA+ em países da América Latina. As análises visam compreender como a violência política de gênero afeta as ações desses parlamentares e seu potencial impacto na participação de pessoas LGBTQIA+ na política institucional e na política LGBTI+ em geral na América Latina.
- Aula 7: Feminismos-Transfeminismos e Terfeminismos Transfóbicos
Professor: José Ernesto Ramírez
Esta disciplina aborda a dinâmica da segmentação nas práticas de construção de sujeitos políticos propostas como versões situadas de feminismos e transfeminismos, bem como os discursos sociais nos quais as concepções de identidade e constituição como comunidades de ação convergem e divergem. Analisa diferentes posições e os argumentos científicos e/ou ideológicos que as sustentam em torno das definições da objetificação dos fenômenos da sexualidade humana em sua subjetivação e sociogênese, a partir de perspectivas médicas, psicológicas, jurídicas e políticas. Enfatiza-se a configuração das principais tensões e lutas para monopolizar a definição dominante para condições e realidades específicas em qualquer sociedade — confrontos que, em última análise, constituem os marcos para as ordenações sociais em seus níveis normativo e simbólico. Propõe-se uma abordagem metodológica que permita um mapeamento cartográfico social do espaço de agentes, recursos e objetivos mobilizados nas estratégias de reprodução ou transformação das relações e direitos de gênero em casos específicos, à semelhança dos sistemas nacionais de relações sexuais e de gênero. - Aula 8: Fundamentalismos e autoritarismos na América Central
Professora: Amaral Arévalo
Os países da América Central estão vivenciando um retrocesso democrático e um aumento do autoritarismo, expressos no enfraquecimento dos mecanismos institucionais de controle e equilíbrio de poderes, na concentração de poder no Poder Executivo, no uso instrumental dos aparatos de justiça e segurança para perseguir opositores e silenciar a imprensa crítica, bem como na restrição dos espaços cívicos e na deterioração sistemática do Estado de Direito.
Esta disciplina analisará como a circulação da estratégia político-discursiva da “ideologia de gênero”, promovida por setores fundamentalistas, impactou as dinâmicas autocráticas e a violação dos direitos humanos na América Central, legitimando projetos de “restauração moral” que restringem a educação sexual integral, criminalizam a dissidência sexual e de gênero, corroem os marcos de proteção dos direitos reprodutivos e enfraquecem o espaço cívico por meio de campanhas de desinformação, discurso de ódio e instrumentalização das instituições estatais para perseguir ativistas feministas e LGBTIQA+.
Nos estados da América Central, cada vez mais comprometidos com a restauração moral como projeto político de poder, a presença de dissidentes políticos e alteridades de gênero, raciais e sexuais não encontra espaço social, lugar político ou território para existir, sendo empurrada para a clandestinidade, o exílio ou o desaparecimento simbólico por meio de mecanismos de criminalização, patologização, censura e violência letal, que buscam reinstaurar uma ordem heteropatriarcal, racista e autoritária como a única forma legítima de vida e cidadania. -
Aula 9: Retóricas do “perigo trans*”: Pânicos morais de gênero e (des)reconhecimento na cidadania sexual contemporânea
Professora: Débora Fernández Cárcamo
Esta disciplina aborda os pânicos morais de gênero como um fenômeno psíquico, afetivo e político que transforma identidades trans* e de gênero diverso em um novo “perigo social”, articulando desinformação, fantasias de contágio e retórica protetora. O pânico moral é analisado como uma economia libidinal e um regime de fruição que organiza medos, ódios e desejos em torno da categoria de gênero. Com base em autores como Konstantinos Argyriou, Judith Butler e Víctor Mora, a disciplina apresenta como a antiga gramática dos “perigos sexuais” foi reativada hoje em torno da figura trans*, concebendo-a como uma ameaça imaginária à família, à nação e à diferença sexual. A disciplina problematiza o lugar contemporâneo da disforia de gênero, o papel das terapias de conversão e o uso estratégico de “evidências científicas”, entre outros dispositivos de articulação transfóbica, como uma superfície de disputa onde a legitimidade do sofrimento, as possibilidades materiais da transição de gênero e a própria inteligibilidade social são negociadas.
A disciplina explora uma leitura transafirmativa dos pânicos morais baseados em gênero, examinando como eles, na prática, remodelam os critérios de proteção, reparação e luto. Em vez de aceitar o cenário em que essas vidas aparecem apenas como uma ameaça a ser contida, corrigida ou sacrificada, questiona-se o tipo de mundo comum que é afirmado quando sua precariedade se torna um custo aceitável para a preservação de uma determinada ordem sexual e social. Nesse contexto, são abordadas as estratégias de atores transafirmativos que desafiam o monopólio interpretativo do pânico moral e produzem critérios alternativos de legitimidade, cuidado e justiça. Assim, examina-se como esses pânicos organizam a desinformação, capturam emoções e sustentam infraestruturas de violência, enquanto simultaneamente criam fissuras que filtram contra-emoções, contra-narrativas e práticas críticas que resistem à lógica do bode expiatório.
- Aula 10: Dissidências de sexo e gênero nas universidades da América Latina e do Caribe
Professores: Lázaro Marcos Chávez Aceves e Iyamira Hernández Pita
Analisar criticamente a função histórica da universidade como um aparato reprodutivo da hegemonia ocidental e avaliar, na perspectiva do Sul Global, as estratégias de resistência (ativismo digital) e os marcos normativos que a redefinem como agente de transformação e promotora de cidadanias sexuais viáveis para as populações LGBTIQ+ na América Latina e no Caribe. - Aula 11: Arquivos de pessoas vivendo com HIV na América Latina e no Caribe
Professor: Luis Rojas Herra
Este curso oferece uma abordagem crítica à construção da memória queer e de pessoas vivendo com HIV na Costa Rica durante os primeiros anos da pandemia de HIV/AIDS, em um contexto marcado por perseguição estatal, estigmatização social e violência estrutural contra pessoas queer e vivendo com HIV. Por meio da análise de fontes históricas e da recuperação de histórias orais de ativismo, o curso busca compreender como os mecanismos de controle, moralidade e exclusão operavam e como as comunidades afetadas geraram respostas políticas e organizacionais de resistência. De modo geral, o curso busca reconhecer o poder político das memórias de pessoas vivendo com HIV como uma ferramenta para desafiar o esquecimento, reescrever genealogias queer e fortalecer perspectivas críticas sobre saúde, direitos e cidadania sexual na América Latina. - Aula 12: Espiritualidades Queer: Teologia, Corpo e Resistência na América Latina
Professor: Yacurmana de la Puente
Esta disciplina oferece uma introdução crítica às espiritualidades queer na América Latina, entendidas como práticas teológicas, políticas e corporais de resistência contra a colonialidade do poder, o patriarcado religioso e as normas sexuais. A partir de contribuições da teologia feminista e queer — particularmente a obra de Marcella Althaus-Reid e os desenvolvimentos contemporâneos em torno das teologias indecentes — a disciplina explorará a relação entre religião, corpo, desejo e território. A abordagem é situada: as espiritualidades queer latino-americanas não emergem como um exercício abstrato de reinterpretação doutrinária, mas sim como uma resposta corporal à exclusão, à violência simbólica e ao silenciamento da dissidência sexual dentro das tradições religiosas. A disciplina refletirá sobre como essas espiritualidades reinventam as linguagens do sagrado, expandem os limites da teologia e moldam formas comunitárias de cuidado, memória e prazer, em diálogo com o transfeminismo e as epistemologias decoloniais. Dessa perspectiva, a disciplina nos convida a pensar a espiritualidade como uma prática de liberdade que erotiza a teologia e politiza o corpo, abrindo caminhos para imaginar o divino a partir das experiências vividas pelas comunidades LGBTIQ+ no Sul Global.
- Aula 13: Tecnocomunicação e cidadanias sexuais: da apropriação à nova luta ideológica
Professor: Raul Antonhy Olmedo Nery
Este curso visa apresentar aos alunos as formas sociotécnicas pelas quais a luta pelo reconhecimento dos direitos LGBTIQA+ se manifesta na região da América Latina e do Caribe. Nesse sentido, a atenção se volta para as formas comunicativas que se desenvolveram na região, particularmente em duas tendências: uma relacionada à apropriação social das Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) por ativistas, coletivos e membros da população LGBTIQA+ para tornar sua presença visível no mundo e participar ativamente da esfera pública digital emergente. Esse processo se manifesta na formação de comunidades virtuais, no desenvolvimento de projetos independentes de comunicação LGBTIQA+ e na construção de seus próprios repertórios de ação conectiva. A segunda tendência se concentra nas novas lutas ideológicas que emergem dentro das redes transnacionais de informação digital. Refere-se à produção midiática de conteúdo originário do Norte Global, seja ele positivo ou punitivo em relação às pessoas LGBTQIA+, que é produzido, distribuído e consumido globalmente por meio de sistemas digitais como Vídeo sob Demanda (VoD) e plataformas de mídias sociais. Esta segunda área oferece elementos para uma crítica ideológica que agora avança para um segundo nível: a questão não é mais se as pessoas LGBTQIA+ estão ou não representadas na mídia tradicional e digital, mas sim como essas representações formam padrões hegemônicos que, por um lado, legitimam a perspectiva do Norte Global para além de suas fronteiras e, por outro, implementam novos mecanismos de exclusão ao não reconhecerem as realidades periféricas. Esses elementos são cruciais porque a comunicação e o ecossistema midiático são apresentados como instituições ideológicas fundamentais para a legitimação ou repressão das populações LGBTQIA+ na região. - Aula 14: Famílias, parentesco e arranjos afetivos não normativos
Professor: Maximiliano Marentes
O que é família e vida familiar para pessoas LGBTQ+? Representa uma mudança em relação aos critérios cis-heteronormativos? Como elas constroem o parentesco? Produzem outros tipos de relações íntimas? O objetivo desta disciplina é refletir sobre as novas tendências no pensamento a respeito de parentesco, vida familiar e relações afetivas no caso da população LGBTQ+ da América Latina. Para tanto, propomos uma exploração que nos leve a considerar o lugar que a “família” ocupou no âmbito dos movimentos LGBTQ+. Enquanto desde a década de 70, no contexto das demandas revolucionárias em torno da sexualidade, a família foi denunciada como uma unidade normativa e repressiva que reproduzia mandatos burgueses, uma mudança começou a ocorrer nos anos 2000. Para lésbicas e, em menor grau, para gays, formar famílias com seus parceiros tornou-se uma possibilidade mais viável. Para pessoas trans e com diversidade de gênero, a família de origem continuou, e continua, a funcionar como uma instituição que as expulsa ainda jovens. Simultaneamente, em diferentes momentos e para as diversas identidades de gênero que compõem a população LGBTIQ+, outras formas de relações íntimas e afetivas começaram a emergir como “famílias por escolha”. Estas representam um reexame crítico do conceito de laços de parentesco. Nos últimos anos, além das disposições legais que permitiram o reconhecimento legal de casais do mesmo sexo, surgiram também possibilidades de reconhecimento de paternidade por meio de técnicas de reprodução assistida e adoção. Em suma, nesta disciplina, propomos explorar as múltiplas maneiras pelas quais a família, o parentesco e as relações íntimas se articulam, de forma específica, com diferentes identidades de gênero. - Aula 15: Metodologias jurídicas críticas e pensamento queer situado
Professor: Eder van Pelt
Esta disciplina visa apresentar metodologias jurídicas críticas a partir de uma perspectiva queer situada na América Latina, deslocando a análise do reconhecimento de sujeitos para a problematização dos próprios limites do direito moderno. Tomando como ponto de partida a figura de Oroyá, a disciplina explorará a crítica como uma política do desconforto que não busca reconciliação ou estabilização, mas sim abrir fissuras nas formas jurídicas que capturam a dissidência de gênero e sexual. Nesse sentido, a disciplina propõe pensar o direito não como um horizonte final, mas como um campo de tensão entre práticas de libertação e práticas de liberdade, explorando possibilidades que o transcendem e apontam para algo além da própria ordem jurídica.
- Amaral Arévalo (Centro de Estudos de Gênero, Sexualidade e Saúde, Fundação Oswaldo Cruz / Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito, Universidade Federal Fluminense, Brasil)
- Jenny Vanessa Muñoz Moscoso (Departamento de Ciências Sociais da Universidade Nacional de Quilmes, Argentina)
- Wilka Ñusta Taylor (Assexuais e Arromânticos, Chile)
- Yamirka Robert Brady (Centro de Estudos Sociais Cubanos e Caribenhos Dr. José Antonio Portuondo, Faculdade de Ciências Sociais, Universidade de Oriente, Cuba)
- Diego Puntigliano Casulo (Departamento de Ciências Humanas e Sociais, Faculdade de Informação e Comunicação, Universidade da República, Uruguai)
- Gustavo Gomes da Costa (Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direitos Humanos da Universidade Federal de Pernambuco, Brasil)
- José Ernesto Ramírez (Departamento de Ciências Sociais da Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Pedagógica Nacional, Colômbia)
- Débora Fernández Cárcamo (Universidade de Valparaíso, Chile)
- Lázaro Marcos Chávez Aceves (Universidade de Guadalajara, México)
- Iyamir Hernández Pita (Faculdade de Filosofia e História da Universidade de Havana, Cuba)
- Luís Rojas Herra (Centro de Pesquisa, Cultura e Desenvolvimento, Universidade Estadual a Distância, Costa Rica)
- Yacurmana de la Puente (Instituto de Análise de Políticas Públicas da Universidade Nacional de La Rioja, Argentina)
- Raúl Anthony Olmedo Neri (Centro de Estudos em Ciências da Comunicação, Faculdade de Ciências Políticas e Sociais, Universidade Nacional Autônoma do México)
- Maximiliano Marentes (Escola Interdisciplinar de Estudos Sociais Avançados da Universidade Nacional de San Martín, Argentina)
- Éder van Pelt (Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito, Universidade Federal Fluminense, Brasil)
- Nicolau Ballesteros (Universidade Nacional da Colômbia)
| Inscrições antecipadas (até 07/07) | Inscrições gerais (6 a 12 de maio) | Inscrições sem desconto (de 13 a 19 de maio) | Pagamento em 3 parcelas | |
| Centro de Membros Plenos ou Associados | 190 USD | 260 USD | 340 USD | USD 420 (3 x USD 140) |
| Sem link | 340 USD | USD 410 | 460 USD | USD 630 (3 x USD 210) |
* Os residentes da Argentina pagarão o equivalente em pesos argentinos de acordo com a taxa de câmbio oficial do Banco de la Nación Argentina (BNA) no dia do pagamento.
Você precisa estar cadastrado no Sistema Único de Cadastro da CLACSO (SUIC) e inserir seu nome de usuário e senha. Se você não estiver cadastrado, clique aqui. aquiPara acessar o formulário de inscrição, você deve clicar no botão "Inscrever-se" na página do diploma de seu interesse.
Após a conclusão do processo de inscrição, você receberá uma confirmação por e-mail.
As aulas começarão em agosto e terminarão em dezembro de 2026.
Todos os participantes inscritos receberão, no primeiro dia de atividades, as instruções necessárias para acessar as aulas, a bibliografia e os fóruns de discussão por meio do [inserir plataforma/plataforma]. Espaço de Treinamento Virtual CLACSO.
Acessar e navegar no Ambiente Virtual de Aprendizagem é muito simples e intuitivo. Em qualquer caso, uma equipe de suporte técnico e acadêmico estará sempre disponível. Para dúvidas, entre em contato pelo e-mail [inserir e-mail aqui]. [email protected]
Você deve enviar um e-mail com a solicitação para [email protected] Enviaremos o certificado solicitado assim que possível.
Critérios excepcionais: Em casos excepcionais e nos primeiros 20 dias de início do Diploma Superior, o aluno poderá escrever para [email protected] O pedido de cancelamento de matrícula deve ser feito mediante justificativa. Após avaliação do caso, uma resposta será enviada. Se aprovado, o aluno poderá retomar o programa de Diploma Superior caso uma nova turma seja formada no ano seguinte. Após decorrido esse período desde o início do curso, nenhum pedido será aceito.
O valor pago só será reembolsado nos casos em que as instituições organizadoras decidirem cancelar a atividade.
Sim, o diploma avançado é certificado pela CLACSO. O diploma será enviado digitalmente e é totalmente gratuito.
O pagamento pode ser feito em uma única parcela, por cartão de crédito ou transferência bancária. Também oferecemos a opção de pagamento em 3 parcelas.
Sim. Haverá descontos para estudantes pertencentes a Centros Membros da CLACSO e Centros Associados da CLACSO, para Pesquisadores Associados da CLACSO e para todos aqueles que pagarem dentro do período de desconto.
Você pode verificar se pertence a um centro de membros aqui:
O programa de Diploma Avançado integra uma dinâmica de aulas assíncronas e síncronas. As aulas são predominantemente assíncronas. O cronograma das sessões síncronas será comunicado pelo coordenador do Diploma no início do programa, e a participação nessas sessões não é um pré-requisito para a aprovação.
Consultas: WhatsApp: +54 9 11 3880 – 1388
E-mail: [email protected]