Diploma Avançado em Estudos do Tempo e da Vida (Bom)
1ª Turma | Modalidade Virtual
COORDENAÇÃO ACADÊMICA
René Ramírez Gallegos (UNA/UNEMI, Argentina-Equador) e Guadalupe Valência (UNAM, México)
CORPO DOCENTE
Guadalupe Valência (UNAM, México), René Ramírez Gallegos (UNA/UNEMI, Argentina-Equador), Alejandra González Bazúa (UNAM, México), Raúl Contreras (UNAM, México), Ana Grondona (Universidade de Buenos Aires, Argentina), Esteban Morera (Universidade de Tübingen, Alemanha), Gabriela Gallardo (Universidade de Groningen/Universidade Autônoma de Zacatecas, Países Baixos/México) Antônio Malo (Universidade de Girona, Barcelona), Luciana Cadahia (Universidade do Chile, Chile), Rodrigo Martín Iglesias (Universidade de Buenos Aires, Argentina), Lúcia Gallardo (GT CLACSO), Wolfgang Shäfner (UBA, Argentina/Universidade Humboldt de Berlim, Alemanha), María del Socorro Coco Gutiérrez Magallanes (Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, Estados Unidos) e Sebastián Irigoyen (Universidade de Rennes 1, França) | Gustavo Serrano Padilla (UNAM, México)
Formato virtual | Junho a setembro de 2024
¿"Tempo é dinheiro"Ou será o tempo a vida? A América Latina e o Caribe, por meio de práticas de resistência social criativa e lutas políticas, têm contestado nas últimas décadas processos destituintes/constituintes que propõem projetos de convivência onde o centro de valor é a boa vida, o Sumak kawsay, a vida plena, a alli kawsayA boa vida de sua população e da natureza. Isso implica uma mudança epistêmica social que desafia as raízes do neoliberalismo, da democracia representativa e de seu projeto civilizatório hegemônico, após a queda do Muro de Berlim e o fim dos projetos comunistas. Assim, na América Latina, após as ditaduras das décadas de 70 e 80, a díade democracia liberal e capitalismo buscou configurar um sentido unitemporal de vida social, história e futuro. Poderiam existir, na melhor das hipóteses, múltiplos passados, mas o projeto civilizatório consistia em construir um destino com um único futuro. A proposta social da boa vida envolvia a desconstrução de marcos teóricos e metodológicos de acordo com as expectativas sociais, visto que as teorias da justiça e do bem-estar não permitiam captar sua essência emancipadora. Dentro desse arcabouço, o desafio epistêmico era contestar o significado do valor social por meio do estudo da ordem e do significado do tempo. Se a (boa) vida é a questão social colocada por um intelecto geral (o povo), então o tempo seria seu avaliador, “porque a quem você dedica seu tempo, você dedica sua vida”, e “quem guarda seu tempo guarda sua vida” (Ramírez, R. 2012, 2019, 2022). O princípio central dessa estrutura propõe um desafio teórico, empírico e ético às teorias do valor nas ciências sociais, passando do valor de troca, do valor de uso ou do valor do trabalho para o valor da (boa) vida (humana e não humana). Se a chave para criticar o capitalismo é a reavaliação do valor, este trabalho delineia diretrizes para a construção de uma nova teoria do valor.
Paralelamente aos processos sociais e políticos vivenciados pelas sociedades da América, emergiu na região uma corrente de pensamento social que se concentra no tempo e nas temporalidades sociais. De fato, por meio de perspectivas interdisciplinares, esses estudos têm refletido sobre a ordem e o significado do tempo como uma estrutura epistemológica para analisar a democracia, bem como os sistemas econômicos, políticos, sociais e culturais. Historizar o significado do tempo é contestar o significado da história, e contestar o significado da história é contestar o futuro. Além disso, essas estruturas epistemológicas vão além. Elas investigam história alternativa O futuro (entendido como a imaginação de novas ordens temporais) para contestar a transformação social atual.
Este diploma avançado busca destacar a mudança social epistêmica que a região está vivenciando e seu impacto no pensamento social latino-americano, colocando no centro do debate os estudos de tempo e temporalidades que emergiram na região e que acompanharam o senso de valor social que surgiu nas lutas democráticas.
O curso de especialização destaca a vasta literatura latino-americana que emergiu na região e que desafia a lógica e a noção de tempo que moldaram e continuam a moldar a modernidade ocidental no capitalismo tardio. O debate epistêmico envolve uma discussão teórica, metodológica e empírica que questiona a racionalidade instrumental e unitemporal da história.
O debate em torno do futuro como elo causal entre a história passada e a presente permite-nos delinear diretrizes para a concepção de futuros alternativos emancipatórios que ofereçam alternativas à crise civilizacional que o mundo atravessa. Este programa de diploma avançado assume o risco de explorar essa possibilidade porque o futuro o exige urgentemente.
Pode-se argumentar que, seguindo a teoria estrutural da modernização e da dependência que emergiu na América Latina e no Caribe, a região entrou em uma profunda crise de pensamento. Este curso buscará demonstrar que o paradigma do buen vivir (bem viver) constitui uma nova estrutura analítica que emergiu na região, uma que vai além da teoria desenvolvimentista da dependência, buscando romper com uma matriz cognitiva que impede a concepção de processos políticos viáveis de emancipação social para a construção de uma modernidade alternativa, ou mesmo para a própria concepção de uma alternativa à modernidade.
O tempo é dinheiro ou o tempo é vida? Essa será a questão central do debate do seminário, que destacará o dilema civilizacional enfrentado pela humanidade e pelos ecossistemas, refletindo sobre as disputas políticas e epistêmicas que surgiram na região nas últimas décadas. Para abordar essa questão, o seminário utilizará como arcabouço analítico os estudos sociais do tempo e das temporalidades e a socioecologia política da boa vida, que investigam as relações ecossociais e de poder que moldam uma determinada ordem temporal.
A lógica social do capitalismo é a acumulação de capital. Portanto, por meio da engenharia teórica e metodológica na academia e da construção de formas particulares de relações de poder no âmbito social, estabelece-se uma ordenação específica das sociedades. Essa estruturação social deriva de uma ordem temporal específica, na qual tempo é dinheiro porque dinheiro é tempo, configurada de acordo com a aceleração da produção (incluindo o trabalho), da circulação e do consumo de bens e serviços que se tornam capital para acumulação. De uma perspectiva acadêmica, essa configuração da noção de senso comum de que “tempo é dinheiro” ou “Tempo é dinheiro"Baseou-se em estruturas analíticas - como o utilitarismo econômico neoliberal - que permitem a multiplicação exponencial desse significado."
Em certos países da América Latina, durante as primeiras décadas do século XXI, as promessas lineares de progresso e modernidade, inerentes ao discurso e às práticas de desenvolvimento, foram desafiadas. Por meio de processos de resistência social criativa, tanto destitutiva quanto constituinte, ou por meio de políticas públicas promovidas por certos governos, suas sociedades propuseram a construção de uma sociedade do Buen Vivir (Bom Viver), da Vida Plena (Vida Plena), do Sumak Kawsay (Bom Viver), do Alli Kauwsay (Bom Viver), ou do viver bem. Os postulados da transição do antropocentrismo para o biocentrismo; das sociedades e estados coloniais para a construção de comunidades e instituições plurinacionais e interculturais; das economias de mercado para sistemas sociais e solidários com economias plurais; do patriarcalismo para uma sociedade feminista; de uma democracia liberal representativa para uma que não se limite ao voto e construa uma democracia participativa, deliberativa e comunitária (isto é, uma vida democrática) desafiam as teorias, os referenciais conceituais, as ferramentas metodológicas e as evidências empíricas atualmente existentes nas ciências sociais. Na melhor das hipóteses, a abordagem compartimentalizada dessas questões nos impede de observar a magnitude da mudança proposta pelas iniciativas sociais e, pior ainda, de apoiá-las na luta para implementá-las. De uma perspectiva epistemológica do Sul, poderíamos argumentar que a lacuna entre teorias e metodologias que são cegas ou surdas à realidade, e uma práxis que carece tanto de teoria quanto de metodologias para sua análise, tem prejudicado nossa capacidade de apoiar e avaliar os processos de mudança social na região.
A premissa deste curso é que cada período histórico se distingue por uma forma particular de ordenar e vivenciar o tempo. É impossível construir uma nova ordem social sem modificar a forma como concebemos a ordem do tempo e as experiências temporais. Dentro dessa estrutura, em contraste com a economia pecuniária, que utiliza o dinheiro como unidade de análise social e econômica, os estudos sociais do tempo e a socioecologia do bem viver propõem o "tempo" como variável central de análise. Essas abordagens inter e transdisciplinares analisam como ocorrem os processos de distribuição do tempo e a geração e apropriação de seus significados.
A ordem social vigente desmantela e mata a vida ao tentar (ficcionalmente) equiparar o tempo à velocidade ou à aceleração (já que esta última é o instrumento mais eficaz de acumulação de capital). Poderíamos argumentar implicitamente que a chave para criticar o capitalismo é, portanto, a reavaliação do valor. Diante dessa construção teórica e social do valor capitalista, o seminário propõe que a utopia denominada sociedade do bem viver, Sumak kawsayViver a vida plenamente, viver uma vida realizada, conforme proposto por um intelecto social coletivo em processos democráticos, exige e precisa ser construído a partir de cenários hipotéticos alternativos que configurem outros sentidos de valor; isto é, recuperar o valor do tempo como vida, e não apenas qualquer tipo de vida, mas como uma boa vida (Ramírez, 2012, 2019 e 2023). Com base no paradigma da boa vida, argumenta-se que esse cenário hipotético deve ser concebido no âmbito de uma abordagem de um corpo epistêmico diferente, tanto teórico quanto metodológico, que acompanha a luta pela construção de uma sociedade da boa vida, pois somente sua conquista implicará o nascimento de uma episteme social diferente. A dissertação propõe que, na análise dos estudos sociais do tempo e da socioecologia política do tempo (para a boa vida), instrumentos teóricos e metodológicos sejam configurados para permitir analisar, avaliar (as distâncias e/ou proximidades) e sugerir cursos de ação alternativos para avançar rumo à construção da sociedade da boa vida, a sociedade da Sumak kawsayO significado de uma vida plena. Por quê? Porque o tempo é vida, e a qualidade do tempo (e seu significado) determina se essa vida é boa ou não. Esse significado é questionado desde as raízes do valor que o capitalismo atribui ao tempo usurpado, explorado e alienado, que se torna capital. Em outras palavras, a luta pelo significado (objetivo e subjetivo; absoluto e relativo) do tempo é a luta pelo significado da existência; isto é, da própria vida. É por isso que uma ordem social diferente, como a sociedade do bem viver, precisa de uma ordem temporal diferente, como o tempo para uma boa vida.
Objetivo geral
Desenvolver nos alunos, no âmbito da reflexão sobre a crise do capitalismo, da democracia e da sustentabilidade ambiental que o mundo atravessa, a capacidade de compreender a mudança paradigmática social/epistêmica proposta na América Latina, que constitui a construção da sociedade do bem viver a partir da análise associada aos estudos do tempo e das temporalidades sociais, e lançar as bases para o pensamento — a partir da resistência criativa — sobre uma teoria da história alternativa Isso não é apenas crucial, mas – acima de tudo – nos permite conceber futuros emancipatórios para contestar a transformação social em nossa América.
Os objetivos específicos
- Para demonstrar a mudança social epistêmica implícita no paradigma da boa vida ou Sumak kawsay.
- Discutir epistemologicamente o que os debates teóricos e metodológicos implicam nos estudos do tempo social a partir da perspectiva da Nossa América.
- Reinterpretar o significado da díade tempo-vida no contexto das lutas subalternas pelo tempo e das diversas temporalidades contestadas nas democracias da nossa região.
- Repensando a díade espaço-tempo a partir da defesa de uma teoria biocêntrica que coloca a natureza/pachamama como sujeito de direitos.
- Estudar a semântica histórica do futuro através de momentos exemplares específicos vivenciados na região.
- Propor diretrizes para a construção de uma teoria ucroniana (novas ordens temporais) que permita a concepção de futuros emancipatórios.
O Diploma Superior em Estudos do Tempo e da Vida (Bom) no Pensamento Social Latino-Americano Contemporâneo destina-se a estudantes de graduação e pós-graduação; professores de todos os níveis; ativistas e membros de organizações sindicais, movimentos sociais e partidos políticos; funcionários públicos; membros e gestores de organizações não governamentais e profissionais interessados no tema.
- Guadalupe Valência (UNAM, México)
- René Ramírez Gallegos (UNA/UNEMI, Argentina-Equador)
- Alejandra González Bazúa (UNAM, México)
- Raúl Contreras (UNAM, México)
- Ana Grondona (Universidade de Buenos Aires, Argentina)
- Esteban Morera (Universidade de Tübingen, Alemanha),
- Gabriela Gallardo (Universidade de Groningen/Universidade Autônoma de Zacatecas, Países Baixos/México)
- Antônio Malo (Universidade de Girona, Barcelona)
- Luciana Cadahia (Universidade do Chile, Chile)
- Rodrigo Martín Iglesias (Universidade de Buenos Aires, Argentina)
- Lúcia Gallardo (GT CLACSO)
- Wolfgang Shäfner (UBA, Argentina/Universidade Humboldt de Berlim, Alemanha)
- María del Socorro Coco Gutiérrez Magallanes (Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, Estados Unidos)
- Sebastián Irigoyen (Universidade de Rennes 1, França)
- Gustavo Serrano Padilla (UNAM, México)
O programa consiste em 5 módulos de 3 aulas semanais cada, ministradas consecutivamente e interligadas.
Carga horária total de 128 horas.
Os módulos que compõem o diploma avançado são:
Aula 1: Sobre o passado-futuro e a construção social do tempo
Professor: Guadalupe Valência
Resumo conceitual da aula
A primeira sessão apresenta o debate epistemológico e político em torno da disputa sobre a história e a historicidade do tempo, que engloba as diversas maneiras pelas quais o amanhã pode ser lembrado, bem como as formas pelas quais o passado, trazido ao presente pela memória, pode servir para construir futuros que estão sempre em constante confronto (as memórias do futuro e o futuro das memórias). Com base nessa reflexão, a construção social do tempo na pesquisa social é abordada a partir de uma perspectiva latino-americana. A reflexão sobre os tempos e as temporalidades como objetos de pesquisa é ilustrada com exemplos do sentido temporal do "agora" e seus diminutivos "ahorita-ahoritita-ahoritita" na cultura mexicana.
Aula 2: Hoje: Ética Moderna e Ética Barroca. Reviravoltas para uma História do Presente a partir do Sul da América Latina
Professor: Ana Grondona
Resumo conceitual da aula
Modernidade, suas promessas, tensões e descontentamentos, vistos das periferias capitalistas. Para compreender o debate no âmbito da disputa político-epistêmica nas ciências sociais, questiona-se: “Nosso presente? Presente de quem?”. Isso leva a uma análise conceitual da história contemporânea como a configuração de uma genealogia moderna, reinterpretada através do ethos barroco da modernidade para recuperar uma perspectiva do Sul Global. Assim, esta sessão se concentra nas limitações das perspectivas “pluralistas” ou “alterglobalização” quando confrontadas com a questão da alteridade constitutiva do “nós” do projeto iluminista. Especificidade latino-americana e sua marca global: o barroco e o modernismo como um lado obscuro que nos permite deslocar a totalidade das fissuras que as perspectivas eurocêntricas projetam ao imaginar a “modernidade”. Epistemologicamente, a disputa poderia ser resumida na frase da banda Sumo: “Eu estou de cabeça para cima, você está de cabeça para baixo”.
Aula 3: Sobre o Valor: O Tempo e a Boa Vida como Vanguarda Epistêmica do Intelecto Geral Latino-Americano
Professor: René Ramírez Gallegos
Resumo conceitual da aula
“A quem você dedica seu tempo, você dedica sua vida”; “quem guarda seu tempo, guarda sua vida”; e “com quem você compartilha seu tempo (de lutas), você compartilha/(constrói) seu (destino) de vida(s)”. Essas três afirmações sintetizam a essência da luta para construir uma epistemologia da boa vida, uma luta que está moldando (sempre no presente contínuo) uma mudança paradigmática no pensamento social latino-americano. Esta sessão apresenta os fundamentos do que tem sido denominado socioecologia política da boa vida (Ramírez, 2012; 2019; 2023) e sua articulação sobre por que o tempo, ou melhor, os tempos, para a boa vida podem constituir uma unidade de análise alternativa à hegemônica (dinheiro), para contestar o significado de uma nova teoria do valor da vida e, consequentemente, um novo projeto político soberano e libertador. Este artigo apresentará uma hipótese sobre como a produção de pensamento na região está passando por uma mudança paradigmática, na qual o papel do intelectual/acadêmico que gera a vanguarda das ideias está se transformando em um papel em que ideias transformadoras são geradas por um intelecto geral em processos vivos de resistência criativa. Em meio a uma crise hegemônica e civilizacional, a América Latina e o Caribe vivenciam processos destituintes/constituintes que, embora potencialmente abranjam projetos sociais distópicos, também oferecem vislumbres claros de cenários de história alternativa potencialmente emancipatórios.
Classe 4: Bem-viver e democracia feminista: o tempo do cuidado individual e comunitário entre as catadoras de materiais de construção da cidade de Quito e as mulheres da comunidade Tzawata, em Napo, Equador.
Professor: Gabriela Gallardo
Resumo conceitual da aula
De Dentro da estrutura da epistemologia feminista decolonial, este artigo apresenta um debate crítico sobre o conceito de Buen Vivir (Bem Viver) estudado a partir da perspectiva democrática do trabalho de cuidado não remunerado realizado por mulheres subalternas racializadas e empobrecidas. A análise centra-se no tempo de mulheres catadoras indígenas e mestiças no Equador, com base em seus diários de tempo. Essa perspectiva permite examinar a democratização do tempo “objetivo” e os significados e sentimentos que essas mulheres atribuem ao cuidado com seus familiares, sua comunidade e a própria natureza.
Classe 5: Mudanças sociais nos sonhos humildes da vida cotidiana: um estudo antropológico do tempo no Vale do Mezquital, México.
Professor: Raúl Contreras
Resumo conceitual da aula
Com base em uma abordagem etnográfica desenvolvida entre 2012 e 2019 em comunidades indígenas Otomi-Hñahñu do Vale do Mezquital, esta sessão examina questões antropológicas relativas à temporalidade da migração e da espera. A sessão abordará as múltiplas maneiras pelas quais o tempo incerto da migração é gerenciado pelas comunidades de origem. Tanto aqueles que ficam quanto aqueles que partem participam do projeto migratório e de suas temporalidades, engajando-se em práticas concretas para lidar com as ausências e navegar a espera. As comunidades do Vale do Mezquital são atualmente comunidades em estado de espera. Essa espera, embora marcada pela cronopolítica da migração, traz à tona a promessa do futuro e orienta temporalmente os projetos migratórios, construindo sonhos modestos de mudança. Através da antropologia do tempo, a "densidade" do tempo presente é analisada, e os desafios das metodologias antropológicas tradicionais são refletidos, as quais historicamente se concentraram no estudo de culturas e sociedades como se fossem entidades estáticas separadas do fluxo do tempo.
Classe 6: Tempos do Sul no Norte: Tempos de Nepantla e as possibilidades de criar outro mundo: conhecimento, resistência e transformações
Professor: María del Socorro Coco Gutiérrez Magallanes
Resumo conceitual da aula
Nepantla é uma palavra náuatle que significa "lugar entre". Ela designa o espaço liminar, o limiar, o espaço de transição. Por um lado, sua origem reside em uma série de registros do período colonial (México) no século XVI, fonte a partir da qual é compreendida e traduzida como uma forma de negociação e resistência exercida pelos povos indígenas dentro e com o vice-reinado, entre suas práticas espirituais e culturais e a evangelização à qual foram submetidos. Por outro lado, Gloria Anzaldúa, entre outras pensadoras chicanas, utilizou esse termo no final do século XX e início do século XXI nos Estados Unidos para desenvolver sua teoria e poética da fronteira como uma ferida (colonial) aberta. Ela propõe e pratica uma práxis referente à encruzilhada, ao tempo de crise, à ferida, ao tempo de doença, ao estado Coatlicue, ao espaço liminar e ao processo de resistência, mudança e transformação. Consideramos esta concepção de Nepantla em relação ao tempo como um TEMPO DE NEPANTLA. Neste momento, no século XXI, a América Latina, o Caribe, Abya Yala, Aztlán na Ilha Tortuga, o próprio planeta, encontram-se numa encruzilhada, num ponto de virada, num estado de mudança e transformação. Vivenciamos uma profunda crise civilizacional, marcada pela toxicidade e por conflitos profundos, e, ao mesmo tempo, estamos também envolvidos em processos de conexões globais, intercâmbios, resistência e transformação. Nesta sessão, tendo em conta os temas do tempo que nos unem, convidamos você a refletir sobre os tempos de troca de conhecimento, lutas e transformações em todo o nosso hemisfério, guiados por esta concepção — ou formulação — do tempo como Tempos de Nepantla, baseada na proposta poética de Gloria Anzaldúa e Cherrie Moraga, e em diálogo com uma constelação de autores, poetas, artistas e pensadores que nos ajudarão a expandir as nossas noções de tempo e, talvez, a imaginar outras possibilidades e horizontes de temporalidades futuras.
Classe 7: Geopolítica do extrativismo e os direitos da natureza: o caso Yasuní ITT.
Professor: Lúcia Gallardo
Resumo conceitual da aula
A modernidade capitalista nos separou da natureza, causando uma ruptura no tecido social, cultural, emocional e cognitivo. O petróleo é um excelente exemplo de como não apenas deixamos de nos relacionar com ele em sua "forma natural", mas também o privamos de seu status como natureza. O petróleo não tem valor intrínseco; no entanto, tem um preço! No extrativismo, o petróleo serve apenas para a acumulação de capital e é considerado uma mercadoria. Sua superexploração causa decadência social, destruição cultural e uma constante redefinição de direitos em favor do capital. Com a proposta de não explorar ou pagar pela não produção no caso da Yasuní-ITT (Equador), veremos como a não produção de petróleo permite a reconstrução de um momento político fundamental e emancipatório: o momento em que as comunidades decidem como se relacionar com o petróleo. Além disso, com o pagamento social pela não produção de petróleo, as comunidades transformam um ativo tóxico em um ativo social. Para resgatarmos nossa relação com o petróleo como natureza, precisamos de novas racionalidades, novos desafios cognitivos, como o conceito de bem-viver, e desafios ontológicos que nos permitam reconhecer a dignidade inerente à natureza e recuperar nossa capacidade de libertar o petróleo da tirania do capital. Esta sessão centrará o debate no valor da vida na natureza e, portanto, na relação indissociável entre tempo e espaço, a partir de uma perspectiva geopolítica de centros e periferias.
Classe 8: Ecologia política do tempo, a temporalidade do espaço e os conflitos socioambientais.
Professor: Antônio Malo
Resumo conceitual da aula
Esta sessão explora o tempo como uma expressão viva. Dentro do contexto epistêmico de Sumak Kawsay (Boa Vida) e da cosmovisão andina de Pachamama (Mãe Terra), discute-se a relação entre tempo e espaço. Como arcabouço teórico complementar, utiliza-se a noção de metabolismo social, proveniente da Economia Ecológica como uma ciência pós-normal e complexa. Tempo e espaço são a mesma entidade para a cosmovisão andina. Pachamama, Mãe Terra, abrange tanto a terra quanto o tempo. Nesse contexto, Pachamama difere da natureza; trata-se de um conceito muito mais profundo. Essa estrutura epistêmica sustenta a proposta de utilizar o tempo de Boa Vida para avaliar economias. A sessão apresenta uma proposta metodológica que busca definir um conjunto de indicadores para avaliar o tempo de Boa Vida de ecossistemas selvagens, centrando-se na valorização da boa vida dos ecossistemas. A discussão é contextualizada no âmbito dos conflitos socioambientais sobre recursos naturais na região com a maior biodiversidade do mundo.
Classe 9: Do tempo como velocidade ao tempo como espaço no capitalismo digital: o materialismo histórico biocêntrico como uma superação do materialismo histórico da revolução industrial.
Professores: Wolfgang Shäfner e René Ramírez
Resumo conceitual da aula:
Esta sessão apresenta a transição do capitalismo industrial para o que tem sido denominado capitalismo cognitivo (financeiro). No âmbito do estudo da virtualidade como um espaço a ser colonizado na transição capitalista, reflete sobre o papel que a ciência e o desenvolvimento tecnológico desempenharam na geração de um sistema econômico e social centrado na aceleração (Rosa: 2014): o tempo como velocidade. Superar a crise do capitalismo implica reivindicar o tempo como espaço (virtual), mas sem perder a essência da busca pela aceleração exponencial para aumentar o lucro. Por meio da análise crítica, propõe-se uma reconfiguração da ciência, em conjunto com as artes e humanidades, para construir um materialismo histórico biocêntrico alinhado a uma temporalidade que garanta a sustentabilidade da reprodução da vida: dos seres humanos e da natureza. Nesse contexto, a sessão destaca a insustentabilidade da fisicalidade do espaço virtual e problematiza a necessidade de repensar uma mudança no paradigma científico que permita um retorno ao analógico por meio da construção de sistemas produtivos de materiais ativos (biomateriais).
Classe 10: Risco e esperança: a semântica do futuro no México em 2018.
Professor: Gustavo Serrano Padilla
Resumo conceitual da aula
Pensar no futuro se apresenta hoje como um dos desafios fundamentais para as ciências sociais como um todo. A presença e a emergência desse problema decorrem, em certo sentido, da série de transformações, crises e convulsões estruturais que ocorreram recentemente em diversas partes do mundo. Frequentemente, o futuro tem sido submetido a diagnósticos fatalistas; discursos que se concentram no declínio, na catástrofe ou na ruína são comuns em muitas reflexões contemporâneas dentro das ciências sociais. No entanto, ao contrário desses diagnósticos e previsões, a constelação de crises que molda o nosso presente pode — e deve — ser considerada a partir de diferentes perspectivas temporais. Como o deus Jano, que olhava para os dois lados, a crise contemporânea também deve permitir a possibilidade de propor novos horizontes para o futuro, horizontes que necessariamente devem ser capazes de desafiar a posição hegemônica que envolve a tomada de decisões e as escolhas políticas que serão feitas no futuro. A realidade política latino-americana contemporânea testemunhou inúmeras promessas, projetos e discursos enraizados na esperança; Contudo, também testemunhou desvios, o perigo do nada e a distorção dos projetos utópicos fundamentais que a sustentaram. Nesse sentido, a tríade esperança, risco e responsabilidade emerge como um quadro conceitual que permite, em termos teóricos e políticos, um compromisso com um futuro novo e, dadas as nossas esperanças, mais humano. Após uma análise teórica, a sessão apresenta a semântica discursiva que envolve os eventos de 2018 no México.
Classe 11: Populismo a partir da temporalidade do povo: comunicação política popular em Gaitanismo, Colômbia.
Professor:Esteban Morera
Resumo conceitual da aula
O objetivo principal desta sessão de seminário é apresentar uma ferramenta teórica e metodológica para a compreensão do "político" a partir da perspectiva das classes subalternas, com foco nas dimensões temporais do discurso. Para tanto, analisaremos as cartas de um grupo diverso de operários, camponeses, mães solteiras, comerciantes e pequenos empresários que se comunicaram com o líder político colombiano Jorge Eliécer Gaitán entre 1930 e 1948. Esta sessão explorará como o estudo das temporalidades oferece uma forma alternativa de analisar a comunicação política de setores populares. Ao colocar as subjetividades desses setores no centro da análise, examinaremos como eles conceberam o político através de uma lente temporal.
Classe 12: Horizontes do futuro no passado: um estudo de caso do Período Especial em Cuba.
Professor: Alejandra González Basúa
Resumo conceitual da aula
Esta sessão irá compartilhar reflexões sobre a multiplicidade temporal do passado e sua interpretação. Iremos nos concentrar no que aconteceu em Cuba durante o Período Especial com...A tensão reside na discussão dos múltiplos futuros que moldaram as visões de futuro durante anos turbulentos. O “Período Especial” designa uma era de crise que teve início com o desmantelamento e a dissolução dos países do bloco socialista e o aprofundamento do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos. Abordar o Período Especial, compreendê-lo e refletir sobre ele coletivamente, através dos diversos futuros projetados na época, permite-nos construir chaves para a interpretação e a ação em nosso mundo contemporâneo. O Período Especial integra a memória coletiva da América Latina e do Caribe, de nossas crises, debates e resistências. Em um momento de crise na construção do futuro, é proveitoso promover uma reflexão sobre passados-futuros múltiplos, diversos e contraditórios.
Classe 13: Projetando futuros: ultrapassando os limites do impossível
Professor: Rodrigo Martín Iglesias.
Resumo conceitual da aula
Pensar no futuro dentro das nossas condições atuais é uma tarefa crucial que envolve uma reflexão rigorosa sobre os possíveis cenários que podem emergir do mundo contemporâneo. Nesse sentido, é necessário considerar os desafios que a humanidade enfrentará em termos de desigualdade, injustiça (social e ambiental) e opressão sistêmica. Mas pensar no futuro não envolve apenas reflexão teórica, mas também requer um compromisso ativo com a construção desse futuro. Isso significa questionar e desafiar a hegemonia vigente que influencia a direção que o futuro tomará. Esta sessão propõe o uso híbrido de inteligência artificial e outras tecnologias emergentes para o design, a visualização e a coletivização de futuros alternativos. Esses trabalhos utilizam protótipos diegéticos de diferentes escalas que contribuem para a construção de verossimilhança e possibilidade em relação aos horizontes de expectativas, com uma perspectiva ambiental, decolonial e interseccional, através da abordagem prospectiva e especulativa do Design de Futuros.
Classe 14: Desvendando o futuro para superar o colonialismo interno: da República aristocrática à República plebeia
Professor: Luciana Cadahia
Resumo conceitual da aula
Neste módulo, propomos considerar a superação do colonialismo interno por meio de uma nova leitura do conceito de republicanismo. Para tanto, exploraremos um texto fundamental do século XIX a partir de uma perspectiva contemporânea: os escritos de Simón Rodríguez. Acreditamos que esses escritos contêm a chave para a compreensão das tensões entre os projetos republicanos oligárquicos e plebeus. Isso envolverá várias etapas. Primeiro, nos distanciaremos das teorias decoloniais e de sua rejeição ao republicanismo. Segundo, estabeleceremos uma ligação entre textos do passado e as utopias do presente. E terceiro, nos perguntaremos se o futuro da América Latina não repousa no próprio ato de desenterrar o futuro.
Classe 15: Resistência criativa e ucronias sociais pela boa vida na América Latina e no Caribe
Professor:René Ramírez Gallegos
Resumo conceitual da aula
A resistência ao neoliberalismo, ao colonialismo, ao patriarcalismo e ao antropocentrismo moldou um intelecto social criativo que, em suas práticas, gerou inovações sociais que nos permitem vislumbrar e projetar novos futuros emancipatórios. Nesse contexto, a boa vida, a vida plena e o viver bem emergiram como paradigmas que buscam se tornar alternativas sociais utópicas. Toda nova ordem social utópica implica uma nova ordem temporal alternativa-crônica. Portanto, a sessão final delineia diretrizes teóricas sobre o tempo e as ecologias temporais para desenvolver uma teoria alternativa-crônica da boa vida que nos permita imaginar novos futuros possíveis, repensando alternativas para revalorizar o que é valorizado. Essa articulação entre práxis-teoria-práxis (hoje) implica desafiar a causalidade científica ocidental tradicional (que se baseia em dados passados) e construir uma epistemologia comprometida com a emancipação social, buscando explicar a história por meio da luta pelo significado do futuro (amanhã) imaginado democraticamente em processos destituentes/constituintes. Ou seja, teoria e metodologia e sua produção conceitual/empírica como armas de transformação social.
| Em um único pagamento até 05/06 | Em um único pagamento após 05/06 | Pagamento em 3 parcelas | |
| CM Pleno | 185 USD | 240 USD | USD 315 (3 x USD 105) |
| Associado de CM | 185 USD | 240 USD | USD 315 (3 x USD 105) |
| Sem link | 310 USD | 370 USD | USD 540 (3 x USD 180) |
Para participar, é essencial que você se inscreva usando o formulário online.
Após a conclusão do processo de inscrição, você receberá uma confirmação por e-mail.
As aulas começarão em junho e terminarão em setembro de 2024.
Todos os participantes inscritos receberão as instruções necessárias para acessar as aulas, a bibliografia e os fóruns de discussão por meio do Espaço de Treinamento Virtual da CLACSO.
Acessar e navegar no Ambiente Virtual de Aprendizagem é muito simples e intuitivo. Em qualquer caso, uma equipe de suporte técnico e acadêmico estará sempre à sua disposição.
Critérios excepcionais: Em casos excepcionais, e dentro do primeiro mês de início do programa de Diploma Avançado, os alunos podem solicitar o desligamento da turma e retornar no ano seguinte. Em todos os casos, os motivos da solicitação devem ser apresentados por escrito. Após decorrido esse período desde o início do curso, nenhum pedido será aceito.
O valor pago só será reembolsado nos casos em que as instituições organizadoras decidirem cancelar a atividade.
O pagamento pode ser feito em uma única parcela por cartão de crédito, depósito bancário ou transferência bancária. Também oferecemos a opção de pagamento em 3 parcelas.
Sim. Haverá descontos para estudantes pertencentes a Centros Membros da CLACSO e Centros Associados da CLACSO, para Pesquisadores Associados da CLACSO e para todos aqueles que pagarem dentro do período de desconto.
Consultas: WhatsApp: +54 9 11 3880 – 1388
E-mail: [email protected]