Diploma Avançado em Direito à Educação e Políticas Públicas

 Diploma Avançado em Direito à Educação e Políticas Públicas

COORDENAÇÃO ACADÊMICA

Nora Beatriz Gluz (UNGS-UBA-CONICET, Argentina) e Rodolfo Elias (FLACSO, Paraguai)

CORPO DOCENTE

Fernanda Saforcada (UBA/UNO–CONICET, Argentina); Pablo Gentili (CAF-UERJ, Brasil); Alexandra Birgin (UBA-UNIPE, Argentina); Nora Gluz (UNGS-UBA-CONICET, Argentina); Inés Barboza de Oliveira (UNESA, Brasil); Ricardo Cuenca (Universidade Nacional de San Marcos, Peru); Sofia Thisted (UBA-UNLP, Argentina); Omar Orlando Pulido Chaves (Universidade Javeriana, Colômbia); Salomão Barros Ximenes (UFABC, Brasil); Myriam Feldfeber (UBA, Argentina); Gabriela Bonilla (Universidade da Costa Rica-IEAL, Costa Rica); Leonora Reyes Jedlicki (Universidade do Chile, Chile); Cibele Maria Lima Rodrigues (Universidade Federal Rural de Pernambuco, Brasil); Jesus Maria Vermelho Vermelho (Universidade do Chile, Chile) e Pablo Martinis (Universidade da República, Uruguai).

Formato virtual | Agosto a novembro de 2024

Início: 26/08/2024 | Inscrição: 28/05/2024 a 25/08/2024


Este programa de diploma apresenta o panorama das disputas hegemônicas sobre a definição do direito à educação e sua implementação em iniciativas de políticas públicas. Ele fomenta um espaço para o debate sobre categorias de pensamento que permitem a reflexão sobre as experiências existentes na região. Destinado a acadêmicos, funcionários públicos e ativistas, o programa se fundamenta em uma abordagem pedagógica que promove o diálogo entre diferentes formas de conhecimento, possibilitando o reconhecimento e a reflexão sobre as diversas perspectivas e conhecimentos especializados dentro do complexo campo da educação.

O livro está organizado em torno de cinco temas principais: o primeiro discute como o direito à educação foi moldado e quais são as principais regulamentações globais e regionais. O segundo apresenta problemas teóricos e políticos emergentes ligados a processos de desigualdade e exclusão que prejudicam o gozo efetivo do direito à educação. O terceiro aprofunda a questão dos professores e como sua interpretação é intrínseca às diversas concepções do direito à educação. O quarto tema discute as redes de políticas públicas para compreender como a ação pública transcende a burocracia estatal e explica o surgimento de novos atores sociais com influência nas políticas. Por fim, busca avaliar o direito à educação no contexto da ascensão de movimentos de direita na região, onde antigas e novas formas de privatização, mercantilização e colonialismo ameaçam a democratização da educação.

O direito à educação é um princípio constitucionalmente reconhecido em todos os países da região e foi reafirmado por instrumentos normativos internacionais que o reconhecem como um direito humano fundamental. No entanto, as diretrizes e os instrumentos políticos para a concretização desse direito são objeto de controvérsia, assim como os agentes e as agências legitimamente reconhecidos para intervir na sua definição.
A educação tornou-se uma arena de luta pela igualdade contra políticas e dinâmicas sociais impulsionadas por elites que, por meio de uma lógica individualista, limitam os direitos dos cidadãos. No contexto atual de avanços da direita em grande parte da América Latina, essas lutas se intensificam entre setores que promovem um sistema educacional que serve à formação de um sujeito global-colonial e aqueles que defendem perspectivas emancipatórias.
A reorientação das políticas educacionais após a ascensão de governos liderados por forças sociais de direita, conservadoras e neocoloniais gera novos desafios na contestação da ideologia compartilhada que possibilitou suas vitórias. São governos cujas políticas compartilham a deslegitimação de organizações de professores e educadores, bem como de movimentos estudantis e sociais que defendem o direito à educação. Enquanto, por um lado, grupos de reflexão neoliberais e conservadores se reposicionam e formam redes políticas globais que promovem um discurso único, por outro, movimentos populares e trabalhistas se reorganizam, avançando na construção de um projeto emancipatório baseado na construção dos bens comuns. Os primeiros forjam novas alianças público-privadas e disseminam novas explicações individualistas que, sob o disfarce do pensamento positivista, simultaneamente promovem a autorresponsabilidade pelas trajetórias educacionais, desvalorizam o trabalho pedagógico dos professores e os submetem ao controle ideológico, além de restringir o papel primordial do Estado. Os últimos promovem políticas baseadas na integralidade dos direitos e na sustentabilidade social do direito à educação. Eles contestam novos princípios de justiça social baseados na redistribuição, no reconhecimento e na participação; e reconhecem a igualdade inerente aos seres humanos como sujeitos desse direito.
Daí a relevância de analisar as trajetórias políticas desde o século XXI, quando, no contexto do Ciclo de Desafio ao Neoliberalismo, países com governos progressistas avançaram significativamente na concretização do direito à educação, sem ignorar a persistência de tendências privatizantes, hierárquicas e excludentes em nossos sistemas educacionais durante esse período. De fato, embora diversos países tenham promulgado novas leis educacionais, poucos avançaram na redefinição do arcabouço institucional do aparato burocrático-administrativo e nos métodos de implementação de políticas públicas. Outros, contudo, continuaram a implementar políticas neoliberais baseadas na racionalidade de mercado. Nesse contexto, em que, em confronto com os avanços do ciclo progressista, a “nova direita” restringe direitos, este programa de diploma propõe reconstruir as relações de poder social envolvidas na definição e concretização do direito à educação, os antagonismos que impulsionam as lutas em contextos históricos específicos e as maneiras pelas quais as cristalizações institucionais condicionam os limites do que é possível em cada conjuntura. O objetivo é tornar as políticas educacionais recentes da região objeto de reflexão, recuperando as principais perspectivas sobre o Estado, a política e o político, e atentando para o caráter processual, não linear e sujeito a avanços e retrocessos da democratização da educação em um contexto de alternância entre governos progressistas e conservadores.

Objetivo geral

Analisar as políticas educacionais e as disputas sobre o direito à educação na América Latina no contexto da reestruturação do capitalismo no século XXI e das novas dinâmicas de desigualdade social e escolar nesse novo cenário.

Objetivos específicos

Que as pessoas participantes:

  1. Aprenda sobre perspectivas analíticas de políticas públicas que lhe permitirão refletir criticamente sobre as condições necessárias para garantir o direito à educação.
  2. Analise as disputas e os significados construídos em torno do direito social à educação nas políticas promovidas por diversas agências e atores em escala global, bem como sua recontextualização em alguns países da região.
  3. Reflita criticamente sobre a dinâmica da ação pública e o surgimento de novos atores sociais com impacto na definição da agenda e dos instrumentos da política educacional.
  4. Reconstrua as transformações no capitalismo atual e seus impactos nos processos de produção e reprodução das desigualdades que afetam o gozo efetivo do direito à educação.
  5. Eles se apropriam de categorias teóricas que lhes permitem uma análise sistemática dos fenômenos, problemas e práticas educacionais que ampliam ou restringem os processos de democratização da educação.
  6. Analise as concepções de trabalho docente que são sustentadas por diferentes perspectivas sobre o direito à educação.
  7. Desenvolver uma perspectiva comparativa sobre o direito à educação na região, considerando diferentes escalas e dimensões para tornar inteligíveis as condições sociais do seu alcance, limites e desafios.
  8. Construir argumentos e interpretações complexas sobre as condições sociais e políticas para a expansão dos direitos como base para o desenvolvimento de propostas políticas.

O Diploma Superior em Direito à Educação e Políticas Públicas destina-se a estudantes de graduação e pós-graduação; professores de todos os níveis; ativistas e membros de sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos; funcionários públicos; membros e gestores de organizações não governamentais e profissionais interessados ​​no tema.

O programa consiste em 5 módulos de 3 aulas semanais cada, ministradas consecutivamente e interligadas.

Carga horária total de 128 horas.

 

Os módulos que compõem o Diploma Superior são: 

AULA 1: O direito à educação: debates centrais para a América Latina

Professor: Pablo Gentili

Resumo conceitual da aula
A turma inaugural do programa de diploma apresentará os principais desafios para a democratização da educação, recuperando os principais programas e respostas institucionais eficazes construídos e em construção por governos progressistas para superar os projetos excludentes da direita neoliberal na região.
Considerando que governar significa definir prioridades, o encontro se concentrará na importância de construir uma nova arquitetura fiscal e uma reforma tributária progressiva que permita o aumento de recursos para educação, saúde, promoção do trabalho decente e moradia digna, garantindo o desenvolvimento sustentável e a proteção ambiental. Serão discutidas políticas de combate ao racismo e sexismo institucionalizados, bem como os diversos mecanismos de seletividade social que operam nas esferas política e educacional. Com a prioridade de ampliar os horizontes da esperança democrática, serão apresentadas alternativas à captura do Estado imposta pelos governos neoliberais e serão explorados os desafios de responder às demandas por justiça social em toda a América Latina e no mundo.

AULA 2: O direito à educação: configuração histórica, perspectivas conceituais e regulamentação internacional

Professor: Fernanda Saforcada

Resumo conceitual da aula

O direito à educação é uma categoria teórica e política que abrange múltiplos significados, historicamente construída a partir de perspectivas sociais e pedagógicas diversas e até mesmo antagônicas. As disputas em torno desse direito, que se desenvolveram paralelamente à criação e expansão dos sistemas nacionais de educação, ressurgiram no século XXI no contexto dos diversos ciclos políticos na América Latina. Além disso, o direito à educação representa o ápice tanto dos debates e lutas pela democratização da educação e das análises de políticas educacionais, quanto dos discursos proposicionais que buscam se fundamentar ou se legitimar por meio dele.
Nesta disciplina, exploraremos as concepções do direito à educação que se desenvolveram historicamente e as disputas que as envolvem, bem como sua relação com o papel do Estado e as definições de público e privado na educação. Posteriormente, examinaremos a regulamentação internacional desse direito por meio de diversos instrumentos jurídicos e políticos desenvolvidos desde meados do século XX até o presente (declarações, pactos, convenções e iniciativas de organizações internacionais, como os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ou a Agenda 2030), e analisaremos como os debates atuais sobre o significado do direito à educação e as lutas travadas por diversas organizações sociais para influenciar essa agenda global se refletem nesses instrumentos.
Por fim, exploraremos diversas perspectivas, propostas e debates em torno das alternativas e dimensões do monitoramento do direito à educação, entendendo que as formas como os diagnósticos são avaliados ou construídos em relação a esse direito incorporam a disputa sobre os significados da educação e, em última instância, sobre as formas de conceber a sociedade.

AULA 3: O direito à educação e as políticas para professores

Professor: Alejandra Birgin

Resumo conceitual da aula

Nesta disciplina, exploraremos a relação entre o direito à educação na América Latina e as diversas perspectivas e concepções que envolvem o ensino, entendendo essa relação como um espaço que articula conflitos, interesses e pontos de vista proativos que fazem parte dessas disputas. Traçaremos seu desenvolvimento histórico e nos concentraremos nas tensões e conflitos desde a década de 90 até o presente.
Para tanto, além de considerarmos as diferentes tradições nacionais, abordaremos a interação com agências globais que intervêm na definição das políticas de ensino, especialmente os discursos difundidos por organizações internacionais e suas trajetórias na região.
Exploraremos a relação entre a definição do direito à educação construída em diferentes políticas educacionais e sua conexão com as políticas para professores, especialmente a posição pública que estas conferem aos docentes (políticas de autorização e reconhecimento). Como esses vínculos se configuram? Como se modificam de acordo com as tradições de escolarização e os direitos em diferentes países? Formularemos também questões pedagógicas, debates inerentes a uma agenda em que o que é incluído e o que é excluído, como um problema é caracterizado, os referenciais e os possíveis cursos de ação são moldados por relações de poder e construídos no contexto da interação de tensões entre diversos agentes e entidades (desiguais), incluindo governos, sindicatos, organizações internacionais, ONGs e muitos outros.

 

 

CLASSE 4: Políticas educacionais e desigualdades: debates conceituais na perspectiva da democratização da escola.

Professor: Nora Gluz

Resumo conceitual da aula 

As preocupações sobre como a dinâmica da desigualdade afeta o gozo efetivo do direito à educação intensificaram-se com a expansão da escolaridade obrigatória desde a década de 90 até o presente. Esta disciplina se concentrará em como as políticas educacionais não apenas influenciam, mas também moldam as desigualdades educacionais, condicionando o significado e o alcance do direito à educação. Nesse sentido, é importante compreender o impacto das escolhas de políticas públicas na expansão ou restrição das condições para a democratização da educação.
A partir de uma perspectiva multidimensional e dinâmica sobre as desigualdades (em suas dimensões material, cultural e subjetiva), serão discutidas as dinâmicas de sua produção, reprodução e resistência no âmbito político e educacional. Para tanto, serão examinados os principais debates conceituais em torno das desigualdades no capitalismo contemporâneo — pobreza, desigualdade, exclusão e fragmentação. Dentro dessa estrutura comum, serão analisadas as concepções de desigualdades sociais e educacionais que fundamentam as principais orientações políticas, programas e linhas de ação que compõem atualmente a agenda global com impacto na região. A análise das políticas contemporâneas investigará como diferentes compreensões das desigualdades se expressam de maneiras complexas, sobrepostas e até mesmo contraditórias dentro das instituições e instrumentos de diversas políticas públicas voltadas para o enfrentamento de questões sociais no campo da educação.

CLASSE 5: Direito à educação, condições de vida e integralidade dos direitos

Professor: Inés Barbosa de Oliveira

Resumo conceitual da aula 

A desigualdade social no Brasil está entre as piores do mundo e permeia todos os aspectos da vida social. O exercício do direito constitucional à educação é prejudicado pelas precárias condições de vida da nossa população. Partindo desse diagnóstico, esta disciplina explorará reflexões centradas na discussão da sustentabilidade, ampliando o conceito para além da dimensão econômica e incorporando-o a uma perspectiva social. A noção de sustentabilidade social implica a convicção de que as políticas sociais que visam diferentes setores da vida cotidiana dos cidadãos são indissociáveis ​​do exercício do direito à educação. Nesse sentido, a sustentabilidade social é a compreensão de que o direito a um ambiente social saudável em suas diversas dimensões é fundamental e pré-requisito para o exercício do direito à educação.
A centralidade do debate exige também outras conexões: primeiro, entre os princípios do direito à educação e à dignidade e as políticas educacionais oficiais e cotidianas, em suas dimensões pedagógicas, epistemológicas e ambientais, de modo que as compreendamos como intrinsecamente ligadas e inseparáveis. Segundo, refere-se ao direito de ter os modos de ser e de compreender o mundo das populações marginalizadas reconhecidos como válidos. As epistemologias do Sul Global e sua relação com o pensamento freireano permitem uma compreensão mais ampla desse diálogo e de sua relevância para a consideração do direito à educação sob a perspectiva da sustentabilidade social.
Por fim, uma reflexão que inclua a questão da sustentabilidade social, a fim de considerar as práticas educativas e suas possíveis contribuições para a emancipação social, exige a ampliação das referências e temas nas reflexões sobre o direito à educação, de modo a incluir os direitos à dignidade e a um ambiente social saudável, que são essenciais para uma educação efetivamente emancipadora ou libertadora, como prefere Freire.

AULA 6: O espaço esquivo da interculturalidade no direito à educação: uma perspectiva política

Professor: Ricardo Cuenca

Resumo conceitual da aula  

A educação intercultural vem sendo implementada na América Latina há pouco mais de quatro décadas, embora com algumas oscilações. O ensino fundamental é o nível que apresentou maior consolidação, enquanto o ensino superior foi o menos desenvolvido. Esta sessão se concentrará na seguinte questão: Quais fatores têm impedido o pleno desenvolvimento da interculturalidade no ensino superior?
A disciplina adota uma perspectiva crítica sobre o tema central e parte da premissa de que a incorporação da interculturalidade no ensino superior é inerente ao direito à educação. Além disso, a sessão incorpora uma abordagem histórica. A trajetória histórica do conceito servirá como estrutura para a compreensão da evolução das políticas de ensino superior intercultural.

AULA 7: O Direito à Educação e o Trabalho Docente na Era Pós-Pandemia. Perspectivas Controversas

Professor: Sofia Thisted

Resumo conceitual da aula 

Nesta disciplina, propomos estudar como as perspectivas sobre o direito à educação, tal como defendidas pelas políticas públicas na América Latina, se articulam com as definições de trabalho docente, entendido em sentido amplo, e também com as formas como se propõe a sua regulamentação. Nos concentraremos nos processos que se desenrolam no período pós-pandemia.
Na América Latina, nos últimos anos, houve um aumento significativo de governos que chegaram ao poder com programas conservadores e, em vários casos, abertamente autoritários. Mesmo nos países onde governos que priorizam a justiça social chegaram ao poder ou se mantêm no poder, enfrentam sérias dificuldades para manter os direitos conquistados na primeira década do século XXI, quanto mais para ampliá-los. Essa “guinada à direita” se expressa, entre outras coisas, em um confronto aberto entre perspectivas sobre o direito à educação e sobre a direção que deve nortear sua concretização: quais políticas educacionais devem garanti-lo, quem são os beneficiários, por meio de quais instituições ele deve ser implementado e quais regulamentações regem o trabalho dos professores, entre outros (Feldfeber, 2023).
Analisaremos as disputas entre as perspectivas que pensam o direito à educação em termos de direitos humanos articulados aos direitos econômicos, sociais e culturais que os Estados devem garantir, com critérios de universalidade e progressividade para toda a população, e aquelas que o pensam a partir de uma abordagem setorial, apoiada por organizações internacionais e por governos neoliberais e conservadores.
Iremos nos concentrar nos debates abertos em torno do direito à educação e da profissão docente, entendidos como estratégicos para projetos educacionais populares e democráticos em tempos de crescente desigualdade e ataques aos princípios de reconhecimento.

CLASSE 8: Políticas de formação de professores e o direito à educação

Professor: Orlando Pulido Chavez

Resumo conceitual da aula

Na América Latina, a formação e a prática docente têm recebido crescente atenção no âmbito das políticas educacionais. Busca-se compreendê-las a partir da perspectiva ampla da profissão docente, entendida como um todo orgânico, sistemicamente vinculado ao processo educativo em geral. Essa conjuntura exige uma nova abordagem para enfrentar os desafios impostos pelas diversas dimensões em que se manifesta. Isso requer um foco na atenção aos professores como sujeitos ativos e atores autorizados e decisivos, capazes de influenciar as transformações requeridas pelos nossos sistemas educacionais e pelas instituições que os compõem, estendendo sua prática profissional para além da sala de aula, esfera essencial do ensino. Implica, portanto, a necessidade de compreender os sistemas educacionais como fenômenos sociais, políticos e culturais complexos, inseridos em condições específicas de tempo e lugar, que devem ser adequadamente analisadas para uma compreensão completa das realidades educacionais.
Nesse contexto, tornam-se cruciais os aspectos globais e regionais, as tendências e correntes políticas, econômicas, ideológicas e educacionais que disputam a hegemonia nessas áreas, bem como as circunstâncias nacionais e locais em que as políticas educacionais são formuladas e implementadas — políticas que visam definir e governar esses sistemas, particularmente aquelas que se dirigem à profissão docente. Compreender o significado e os efeitos das políticas educacionais aplicadas na região nas últimas décadas, bem como sua relação com as políticas internacionais e regionais, torna-se um componente essencial da formação oferecida neste curso.

AULA 9: Novos movimentos de direita, neoconservadorismo e a juridificação reativa do trabalho docente: violência e resistência numa perspectiva regional

Professor: Salomão Barros Ximenes

Resumo conceitual da aula: 

A restauração conservadora na América Latina é uma reação transnacional que une o ativismo cristão e atores políticos não religiosos em oposição aos avanços legais igualitários conquistados por movimentos populares em âmbito nacional e internacional. As características singulares desse processo são destacadas no conceito de neoconservadorismo, que o vincula a movimentos políticos de desdemocratização e restrição de direitos. Essa ação conservadora tem efeitos concretos sobre o direito à educação.
Os impactos nas políticas públicas variam em cada contexto, dependendo de fatores como a consolidação e a longa tradição das instituições democráticas, o nível de reconhecimento dos direitos, o equilíbrio de poder na esfera religiosa e a resistência dos movimentos populares e seus aliados. Apesar da diversidade de casos, vários estudos têm destacado a centralidade da noção de “ideologia de gênero” como uma estratégia transnacional que possibilita a articulação de coalizões conservadoras, desempenhando um papel proeminente nas mobilizações anti-gênero e no campo da educação.
Em muitos países, os conflitos em torno da legalização da educação, da formulação de políticas educacionais e da regulamentação do trabalho docente tornaram-se campos de batalha prioritários para a nova direita. Por meio da utilização da noção de "ideologia de gênero", esses grupos conseguiram vetar temas de direitos humanos no currículo e estabelecer rotinas de perseguição contra professores. No Brasil, uma iniciativa oficial recente é a criação do Observatório Nacional da Violência contra Educadores, com o objetivo de investigar e apoiar professores perseguidos e propor políticas públicas para sua proteção e reparação. Esta disciplina visa aprofundar os aspectos conceituais que nos permitem compreender o fenômeno da violência institucional contra professores e a resistência a ela.

CLASSE 10Atores privados na esfera pública: redes de políticas públicas e processos de privatização no campo da educação.

Professor: Myriam Feldfeber

Resumo conceitual da aula 

A presença de organizações da sociedade civil e atores privados que buscam influenciar as políticas públicas não é um fenômeno novo. No campo da educação, essa presença aumentou em paralelo com a transformação do papel do Estado como garantidor do direito à educação. Contudo, ao longo deste século, testemunhamos a formação de redes de políticas públicas que reúnem organizações da sociedade civil, fundações e grupos empresariais nacionais, regionais e multinacionais, os quais, em alguns casos, juntamente com atores estatais, desempenham um papel cada vez mais proeminente na definição da agenda e na implementação de políticas educacionais.
A formação dessas redes, ao mesmo tempo que direciona novas formas de governança associadas tanto aos interesses da sociedade civil quanto aos do mercado, também orienta processos de mercantilização e privatização da educação, que se intensificaram desde a pandemia. Na América Latina, proliferaram organizações da sociedade civil ligadas a grupos empresariais, buscando influenciar as políticas públicas com o objetivo de mudar o rumo da educação sob a premissa de melhorar a qualidade dos sistemas educacionais.
Nesse sentido, é necessário trabalhar com novas ferramentas conceituais para compreender o funcionamento dessas redes na definição de políticas educacionais nos níveis local, regional e global, bem como o papel que elas vêm desempenhando nos processos de privatização da educação na América Latina nas últimas décadas.

AULA 11: Redes de resistência sindical contra o desmantelamento de um direito. A proposta do Movimento Pedagógico Latino-Americano

Professor: Gabriela Bonilla

Resumo conceitual da aula 

Quatro décadas de modelos neoliberais estabeleceram um conceito neoliberal de trabalhadores da educação, considerando-os meros executores de políticas e “produtos educacionais” concebidos pelo Banco Mundial, empresas transnacionais de tecnologia, centros de estudos internacionais de direita e até mesmo grupos religiosos.
Em resposta a esse modelo, os sindicatos da educação assumiram a tarefa de fortalecer sua capacidade de propor soluções, lançando o Movimento Pedagógico Latino-Americano (MPL), promovido pela Internacional da Educação para a América Latina. O MPL considera os trabalhadores da educação participantes ativos no processo educativo e acredita que seu trabalho diário em sala de aula e em suas interações com os alunos lhes permite gerar amplo conhecimento sobre o processo pedagógico. É esse conhecimento, derivado da experiência em sala de aula, que deve orientar as políticas educacionais na região, e não os experimentos de instituições financeiras internacionais ou seus grupos de reflexão. A estratégia de ação e mobilização do MPL será apresentada, delineando como as organizações sindicais desenvolvem propostas de políticas educacionais com uma perspectiva latino-americana, construídas a partir da sala de aula por meio de processos pedagógicos colaborativos. O MPL organiza grupos de trabalho em instituições de ensino, bairros e comunidades, regiões ou províncias, e nos níveis nacional e regional. Nesses espaços, propostas conjuntas com uma perspectiva latino-americana têm sido desenvolvidas para transformar o conceito de qualidade educacional, repensar a formação de professores em termos de soberania dos povos e proteger a liberdade acadêmica como forma de resistência aos currículos padronizados. O movimento operário ocupa uma posição privilegiada para resgatar o conhecimento de seus membros, que geram saberes pedagógicos diariamente em sala de aula. Esta disciplina visa conectar pesquisa e ação em defesa da educação pública como um direito social, tomando como ponto de partida o caso do MPL (Movimento Popular de Libertação).

CLASSE 12: Movimentos pedagógicos na América Latina e as lutas pelo direito à educação: experiências históricas e projeções. Séculos XX e XXI

Professor: Leonora Reyes Jedlicki

Resumo conceitual da aulaA disciplina explora as possibilidades de compreender e estudar a resistência desenvolvida pelos movimentos sociais e de professores na América Latina contra o modelo de Estado subsidiário e suas lutas pelo direito à educação, a partir da perspectiva do movimento pedagógico. O objetivo é suscitar questionamentos sobre as experiências de influência na definição de sujeito, sociedade e modelo educacional, e sua potencial contribuição para os princípios fundamentais de uma nova carta constitucional que propõe transformações estruturais na regulamentação do direito à educação.
A disciplina está dividida em três partes. A primeira parte propõe uma análise avaliativa do alcance de algumas experiências históricas de movimentos pedagógicos na América Latina, em particular a experiência chilena na redefinição do direito à educação na proposta constitucional de 2022. A segunda parte aborda conceitos-chave para aprofundar a reflexão sobre a projeção da resistência e propostas transformadoras, como a “educação pública Estado-comunidade”, que defende uma redefinição da relação preferencial do Estado com a educação pública, visando seu crescimento, fortalecimento e democratização. A terceira parte promove a reflexão coletiva a partir das experiências dos alunos e suas percepções sobre as possibilidades de transformação dos modelos educacionais nos territórios onde vivem. A disciplina será concluída com um breve texto narrativo sobre essas experiências individuais discutidas coletivamente. O objetivo é alcançar uma reflexão profunda e conjunta sobre a revisão da relação público-privada na educação, o que envolve não apenas questionar como melhor gerir os atuais sistemas nacionais de educação, mas também deliberar sobre como concebemos a educação, o papel dos indivíduos e das comunidades nesses processos, como atores relevantes no debate educacional.

AULA 13: Nova Direita: confluências entre neoconservadorismo, neopentecostalismo e neoliberalismo

Professor: Cibele Maria Lima Rodrigues

Resumo conceitual da aula 

O objetivo é analisar a nova direita em termos de suas práticas articulatórias dentro da estrutura da Teoria da Hegemonia, particularmente a abordagem de Laclau ao discurso mítico na política. Destaca-se a formação de articulações e equivalências entre posições neoconservadoras e neoliberais na esfera pública — centradas na defesa das armas, do individualismo e do patrimonialismo — dentro de um discurso declaradamente "conservador", frequentemente com tendências fascistas. Aprofunda-se a análise no campo religioso, examinando a presença de evangélicos, católicos e outros grupos cristãos na América Latina, bem como as disputas entre neopentecostais e progressistas. O impacto de grupos conservadores no campo educacional é explorado por meio de suas abordagens às questões de gênero, incluindo críticas a movimentos sociais, como os grupos articulados pelo slogan "Não Mexa com Meu Filho". O grupo "Escola Sem Festas" no Brasil e o discurso de uma suposta autonomia da família na educação moral também são examinados. Convergências na defesa do ensino domiciliar e das privatizações no âmbito da necropolítica e da erosão de direitos, como no caso do governo Bolsonaro no Brasil. Por outro lado, há o antagonismo e as propostas de movimentos que defendem o direito à educação.

CLASSE 14: Novos Movimentos de Direita sob uma Perspectiva Subjetiva

Professor: Jesus Maria Redondo

Resumo conceitual da aula 

O objetivo da disciplina é analisar a mudança de foco nas lutas e debates entre os setores de direita e progressistas, passando de aspectos mais estruturais das políticas educacionais (debate com as correntes neoliberais): mercantilização, privatização, escolha, redução curricular; para aspectos culturais: subjetividades e significados da educação (debate com os populismos autoritários): segurança e convivência, “ideologia de gênero”, educação sexual abrangente, partidarismo, religião ou ciência nas escolas, emoções nas escolas.
Partindo dos aspectos subjetivos e dos significados da educação, são abordados os pontos de conflito entre o direito à educação e a direita autoritária, com foco na polarização extrema das sociedades e sua relação com a psicologia política: medo, violência, racismo, etc.
São sugeridos alguns elementos centrais do debate ideológico (mitos ideológicos a serem desmistificados) nas políticas educacionais, bem como algumas diretrizes sobre as mudanças nos significados da educação (confiança, cuidado e conexão) e a reorientação dos currículos educacionais (inteligências múltiplas).

AULA 15: Movimentos de direita atuais e a redefinição do significado do direito à educação

Professor: Pablo Martinis

Resumo conceitual da aula

A recente ascensão de movimentos de direita alimentou uma disputa sobre a redefinição de conceitos educacionais fundamentais, incluindo o “direito à educação”. Dentre as diversas intervenções no debate público, duas merecem análise específica. Em primeiro lugar, há as maneiras pelas quais o significado político da educação é contestado por meio do conceito de “laicidade”. A tradição republicana francesa, que exerceu forte influência no sul do continente durante o século XIX, estabeleceu a laicidade como um princípio fundamental dos sistemas educacionais, segundo o qual os alunos devem ter acesso a uma pluralidade de perspectivas sobre uma ampla gama de temas, evitando o dogmatismo presente no discurso religioso. Nas últimas décadas, testemunhamos um renovado esforço para equiparar laicidade à neutralidade, fomentando uma desconfiança sistemática em relação aos professores, vistos como agentes de “doutrinação” devido às suas posições políticas e/ou sindicais. Esse ressurgimento do conservadorismo, que alimenta fortemente a atual direita, reposiciona os “pais” como atores-chave nas definições educacionais. O conceito de “liberdade de escolha”, incorporado à Constituição uruguaia de 1934, está no cerne dessa reivindicação, que desafia a capacidade do Estado de definir políticas curriculares e desenvolver um projeto educacional democrático baseado no pluralismo de perspectivas e na capacidade de formar uma cidadania republicana. Nesse contexto, o direito à educação é construído como prerrogativa dos pais, detentores naturais do poder de definir o processo educativo de seus filhos de acordo com seus próprios valores e crenças. Esta disciplina se concentrará em analisar as construções discursivas que emolduram a disputa sobre o direito à educação, bem como suas implicações para a construção de um projeto democrático por meio da educação.

  • Fernanda Saforcada (UBA/UNO–CONICET, Argentina)
  • Pablo Gentili (CAF-UERJ, Brasil)
  • Alexandra Birgin (UBA-UNIPE, Argentina)
  • Nora Gluz (UNGS-UBA/CONICET, Argentina)
  • Inés Barboza de Oliveira (UNESA, Brasil)
  • Ricardo Cuenca (Universidade Nacional de San Marcos, Peru)
  • Sofia Thisted (UBA-UNLP, Argentina)
  • Omar Orlando Pulido Chaves (Universidade Javeriana, Colômbia)
  • Salomão Barros Ximenes (UFABC, Brasil)
  • Myriam Feldfeber (UBA, Argentina)
  • Gabriela Bonilla (Universidade da Costa Rica - IEAL, Costa Rica)
  • Leonora Reyes Jedlicki (Universidade do Chile, Chile)
  • Cibele Maria Lima Rodrigues (Universidade Federal Rural de Pernambuco, Brasil)
  • Jesus Maria Vermelho Vermelho (Universidade do Chile, Chile)
  • Pablo Martinis (Universidade da República, Uruguai)
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      Em um único pagamento até 19/08 Em um único pagamento após 19/08 Pagamento em 3 parcelas
    CM Pleno 185 USD 240 USD  USD 315 (3 x USD 105)
    Associado de CM  185 USD  240 USD  USD 315 (3 x USD 105)
    Sem link 310 USD 370 USD  USD 540 (3 x USD 180)
     
    Em todos os casos, o pagamento pode ser feito por cartão de crédito, depósito ou transferência bancária.
     
    *Os residentes da Argentina pagarão o equivalente em pesos argentinos de acordo com a taxa de câmbio oficial do Banco de la Nación Argentina (BNA) no dia do pagamento. 
     
    *Ao se inscrever nesta atividade de treinamento, você receberá 3 meses de acesso gratuito ao Aula CLACSO. Acesso ilimitado a todo o conteúdo. 

    Para participar, é essencial que você se inscreva usando o formulário online.

    Após a conclusão do processo de inscrição, você receberá uma confirmação por e-mail.

    As aulas começarão em agosto e terminarão em novembro de 2024.

    Todos os participantes inscritos receberão as instruções necessárias para acessar as aulas, a bibliografia e os fóruns de discussão por meio do Espaço de Treinamento Virtual da CLACSO.

    Acessar e navegar no Ambiente Virtual de Aprendizagem é muito simples e intuitivo. Em qualquer caso, uma equipe de suporte técnico e acadêmico estará sempre à sua disposição.

    Critérios excepcionais: Em casos excepcionais, e dentro do primeiro mês de início do programa de Diploma Avançado, os alunos podem solicitar o desligamento da turma e retornar no ano seguinte. Em todos os casos, os motivos da solicitação devem ser apresentados por escrito. Após decorrido esse período desde o início do curso, nenhum pedido será aceito.

    O valor pago só será reembolsado nos casos em que as instituições organizadoras decidirem cancelar a atividade. 

    Sim, o diploma avançado é certificado e credenciado pela CLACSO. O diploma será enviado digitalmente e é totalmente gratuito.

    O pagamento pode ser feito em uma única parcela por cartão de crédito, depósito bancário ou transferência bancária. Também oferecemos a opção de pagamento em 3 parcelas.

    Sim. Haverá descontos para estudantes pertencentes a Centros Membros da CLACSO e Centros Associados da CLACSO, para Pesquisadores Associados da CLACSO e para todos aqueles que pagarem dentro do período de desconto.



    Consultas: WhatsApp: +54 9 11 3880 – 1388

    E-mail: [email protected]