Declaração para o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial
Em 21 de março de 1960, mais de 20.000 pessoas negras marcharam pacificamente contra a Lei do Passe em Sharpeville, Joanesburgo, África do Sul. Embora fosse um bairro predominantemente negro, o apartheid obrigava os moradores negros a portarem um livreto com informações sobre os locais onde podiam circular. De forma violenta, desumana e racista, a polícia sul-africana confrontou os manifestantes com rajadas de metralhadora. Como resultado, quase 70 pessoas negras foram mortas e cerca de 180 ficaram feridas.
Em consequência do ocorrido e para que a data não fosse esquecida, em 1969 a ONU declarou o dia 21 de março como o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial.
Sessenta e um anos após aquele massacre, apesar de todos os avanços alcançados nas políticas de igualdade, continuamos a testemunhar populações negras em todo o mundo permanecendo vítimas do racismo estrutural e sistêmico, que condena centenas de milhões de pessoas de ascendência africana à pobreza, exclusão, marginalização e negação de direitos humanos. As estatísticas mostram que pessoas negras, afrodescendentes e africanas continuam sendo afetadas de forma desproporcional pela violência policial, pela falta de acesso a bens e serviços materiais, como saúde, educação e emprego formal, e também pela privação de acesso a recursos simbólicos.
A pandemia da Covid-19 exacerbou drasticamente essa situação e evidenciou seu impacto desproporcional sobre as comunidades afrodescendentes. Os países mais afetados pela pandemia nas Américas demonstram a falta de políticas específicas para nossas comunidades, revelando, mais uma vez, a crueldade do impacto sobre nosso povo. Continuamos morrendo, continuamos sendo assassinados. A ausência de uma política é uma política em si!
Neste 21 de março, além de denunciarmos a racialização da pandemia, o aprofundamento do racismo e o discurso de ódio, clamamos pela urgência e necessidade de uma virada em nossa história, condição social e realidade atual. Lançamos um apelo global que desafia criticamente a colonialidade do poder e exige que os privilégios quase exclusivamente reservados às pessoas brancas sejam transformados em direitos para todos.
Em 2021, 20 anos após a 3ª Conferência Mundial contra o Racismo em Durban, África do Sul, mais da metade da Década Internacional dos Afrodescendentes já havia transcorrido.
Vamos gritar: Parem com o racismo, parem de matar nossos jovens, nossas mulheres, nossos adultos.
Instamos os Estados a implementarem ações específicas para melhorar as condições historicamente vulneráveis dos nossos povos.
Ecoamos as palavras de Angela David, a grande líder da resistência negra do nosso povo. Num mundo cheio de racistas, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista!
21 de Março 2021
Grupos de Trabalho da CLACSO
Afrodescendentes e propostas contra-hegemônicas
Epistemologias do Sul
Instituto Internacional de Pesquisa Afrodescendente INAFRO
Esta declaração expressa a posição dos Grupos de Trabalho mencionados anteriormente. e não necessariamente a dos centros e instituições que compõem a rede internacional da CLACSO, seu Comitê Diretivo ou seu Secretariado Executivo.