Vigilantismo e violência coletiva em tempos de pandemia na América Latina

 Vigilantismo e violência coletiva em tempos de pandemia na América Latina

Há alguns dias, em 22 de maio, um alto funcionário da Organização Mundial da Saúde afirmou que “a América do Sul se tornou um novo epicentro da doença”; enquanto isso, tanto na América Central e no Caribe quanto no México, o número de infecções diárias registradas pela maioria dos países não parece ter atingido o pico. O Grupo de Trabalho sobre “Vigilância e Violência Coletiva” gostaria de compartilhar algumas reflexões sobre os efeitos da pandemia na região.  

Dada a falta de tratamentos médicos conhecidos para prevenir ou curar o vírus, a maioria dos governos adotou a estratégia de confinamento domiciliar para evitar infecções em massa. Com base no número de infecções e mortes em diversos países, as quarentenas têm sido, até o momento, a medida mais eficaz para conter a rápida disseminação do vírus na população e, assim, evitar o colapso dos sistemas de saúde, que em muitos países já enfrentavam uma grave crise antes da pandemia. Governos que subestimaram o vírus e rejeitaram medidas preventivas agora enfrentam sérias crises humanitárias e sociais.  

Os Estados que adotaram o isolamento preventivo como prática de cuidado mútuo enfrentaram outros desafios que desejamos destacar aqui. Nos casos em que o confinamento obrigatório foi implementado, foi necessário implantar controles rigorosos sobre a circulação de pessoas. As ações das forças de segurança foram essenciais para garantir o cumprimento das medidas; no entanto, em alguns territórios, elas foram responsáveis ​​por episódios repreensíveis de violência institucional e abusos de poder.  

Em nível social, a tensão entre a pedagogia da responsabilidade individual e o controle social vigilante veio à tona. O cuidado mútuo necessário para prevenir o contágio transformou-se, por vezes, em autoritarismo social e policiamento comunitário. O medo da doença gerou suspeitas generalizadas em relação àqueles que não cumpriam ou não podiam cumprir a quarentena estabelecida, ignorando o fato de que nem todos tinham condições de garantir o confinamento domiciliar: trabalhadores informais, mães solteiras cuidando de crianças e uma parcela significativa da população pobre vivendo em condições de superlotação, sem acesso a serviços urbanos básicos. Essa tendência autoritária materializou-se em ataques a pessoas infectadas ou suspeitas de infecção, bem como em humilhações públicas ou protestos em frente às casas de famílias infectadas, profissionais de saúde ou forças de segurança — a população mais exposta aos riscos à saúde. Essa atitude foi amplificada pela mídia, que reproduziu formas hegemônicas de cumprir — ou não cumprir — a quarentena. Em alguns casos, as autoridades também priorizaram uma abordagem policial em detrimento do aspecto sanitário ao anunciar e gerir medidas de assistência, por exemplo, envolvendo forças militares no controle da circulação da população ou conferindo certa proeminência a funcionários ligados à ordem pública nas decisões relativas a essas medidas.  

Por outro lado, a disputa entre governos centrais e administrações regionais ou locais tem gerado sinais erráticos por parte do governo em quase todos os países. As divergências sobre como gerir a pandemia geraram desorientação entre os cidadãos em relação às medidas preventivas, contribuindo para o clima preexistente de desconfiança nas autoridades. Isso abriu caminho para que as comunidades locais adotassem medidas autoritárias em relação às medidas sanitárias; medidas que redefinem quem está no comando. outro No contexto da pandemia, observou-se, por exemplo, que comunidades locais por vezes se organizam para controlar o acesso aos seus territórios e, eventualmente, expulsar qualquer pessoa identificada como uma ameaça à saúde e segurança da comunidade. outro Pode ser representado por sujeitos tão diversos como migrantes, residentes de comunidades vizinhas ou turistas.  

Essa apropriação da violência pelas comunidades intensificou-se em territórios onde o monopólio estatal da força era anteriormente contestado. As Patrulhas Camponesas em Cajamarca, Peru; a Coordenação Regional das Autoridades Comunitárias - Polícia Comunitária de Guerrero e a Patrulha Comunitária de Cherán, Michoacán, no México; e o Conselho Regional Indígena de Cauca, na Colômbia, são exemplos desse tipo de processo em que patrulhas civis são responsáveis ​​por fazer cumprir as medidas e garantir o cumprimento das restrições de circulação.  

A pandemia de Covid-19 na América Latina exacerbou as estruturas e os problemas sociais preexistentes na região, intensificando sentimentos de incerteza, insegurança, vulnerabilidade e medo. Suas repercussões em termos de vigilantismo e violência coletiva devem ser compreendidas no contexto das relações preexistentes entre os diversos atores envolvidos. Para abordar adequadamente os desafios acadêmicos e os dilemas políticos apresentados pela situação atual, devemos, em primeiro lugar, considerar o tecido social sobre o qual a pandemia se instalou. 

Nesse contexto, uma das principais questões para o futuro será se os mecanismos de vigilância social, fortalecidos pela atual pandemia, permanecerão em vigor, sendo utilizados pelos Estados para manter a ordem social diante da instabilidade econômica e institucional em um cenário pós-pandemia; ou se serão desativados assim que o vírus deixar de ser uma ameaça às nossas sociedades.

Diante de Estados enfraquecidos, desgastados e deslegitimados pela COVID-19, o vigilantismo e a violência coletiva provavelmente persistirão como fenômenos característicos da América Latina pós-pandemia.  

2020 junho
Grupo de Trabalho CLACSO
Vigilantismo e violência coletiva

Esta declaração expressa a posição do Grupo de Trabalho sobre Vigilantismo e Violência Coletiva e não necessariamente a dos centros e instituições que compõem a rede internacional CLACSO, seu Comitê Diretivo ou seu Secretariado Executivo.

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