Declaração do Grupo de Trabalho da CLACSO sobre Crise, Respostas e Alternativas no Grande Caribe

 Declaração do Grupo de Trabalho da CLACSO sobre Crise, Respostas e Alternativas no Grande Caribe

Justiça para os povos caribenhos expostos ao envenenamento por clordecon

Ao longo de 2019, ativistas sociais e ambientais da Martinica e de Guadalupe denunciaram a introdução e o uso contínuo do clordecon nas Antilhas Francesas. Essa molécula, patenteada em 1952, é a base para a fabricação de pesticidas. Seu uso na França era desencorajado desde 1969. No entanto, o governo francês autorizou sua introdução temporária para combater o gorgulho da bananeira, sob o pretexto de que as economias do Caribe francês dependiam significativamente das exportações de banana.

O clordecon está entre as quinze moléculas mais perigosas do mundo. Sua persistência no solo pode durar centenas de anos. Entre seus efeitos negativos estão suas propriedades carcinogênicas, neurotóxicas e disruptoras endócrinas. A contaminação por clordecon aumenta o risco de partos prematuros, deficiência visual, comprometimento do desenvolvimento mental e motor, dislexia, autismo, puberdade precoce e obesidade. Em 1979, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu o clordecon como um provável carcinógeno.

Além de seu uso na agricultura na Martinica e em Guadalupe, análises realizadas em 1999 revelaram a presença de clordecon na água potável da Martinica. Estima-se que mais de 90% da população das ilhas esteja contaminada com clordecon.

Em resposta a essa situação, os habitantes de ambas as ilhas começaram a entrar com ações judiciais e a enviar cartas abertas exigindo justiça. Suas reivindicações contra o Estado francês incluem a criação de um fundo de indenização e a realização de exames gratuitos para determinar a concentração de clordecon no sangue e os efeitos dessa substância na saúde em geral.

Por meio desta declaração, o Grupo de Trabalho “Crise, Respostas e Alternativas no Grande Caribe” expressa sua solidariedade aos povos caribenhos afetados pela contaminação por clordecon em suas reivindicações por justiça e reparação. Apoia a demanda pela eliminação permanente do uso de clordecon no Caribe e por uma investigação completa sobre seus efeitos e a incidência de câncer na população das Antilhas Francesas. Reafirma a necessidade urgente de ações efetivas para remediar a contaminação das comunidades e do solo. Condena a inação e a cumplicidade do Estado francês neste episódio de contaminação contínua por clordecon no Caribe, anos após a comprovação de sua alta toxicidade e efeitos devastadores sobre o meio ambiente e a saúde humana. Alerta para o potencial uso de outros pesticidas altamente tóxicos nos territórios ultramarinos franceses, com efeitos devastadores sobre os ecossistemas terrestres e marinhos e os assentamentos humanos.

 Dezembro 23 2019
Grupo de Trabalho CLACSO
Crise, respostas e alternativas no Grande Caribe