Chamada para Ensaios: 50 Anos Após o Golpe Cívico-Militar na Argentina

 Chamada para Ensaios: 50 Anos Após o Golpe Cívico-Militar na Argentina

As democracias da América Latina e do Caribe enfrentam atualmente uma conjuntura crítica. A disseminação da retórica autoritária, a ascensão da extrema direita, a manipulação política do sistema judiciário, a criminalização dos protestos sociais, a militarização da segurança e os ataques às políticas de direitos humanos criaram um cenário de conflito aberto sobre o significado e a força da democracia. Nesse contexto, as políticas de memória, verdade e justiça não são um legado consolidado, mas sim um campo de batalha que continua a ser travado diariamente. Seu questionamento, erosão ou relativização fazem parte das estratégias políticas contemporâneas que buscam redefinir os limites da democracia e negar o passado.

Nesse contexto histórico e político, este ano marca o quinquagésimo aniversário do golpe cívico-militar que instaurou uma ditadura na Argentina, impondo um regime de terrorismo de Estado. Os efeitos estruturais, econômicos e sociais, a dinâmica de poder e as disputas simbólicas desse evento impactam diretamente a atual situação política da Argentina, com repercussões regionais. Portanto, construir uma memória coletiva do golpe de 1976 é, hoje, uma forma de se engajar com o presente e vislumbrar um futuro melhor.

O terrorismo de Estado instaurado na Argentina não foi meramente uma máquina repressiva. Foi a condição essencial para um projeto econômico, social e cultural que reorganizou a sociedade pela violência, desmantelou organizações populares e lançou as bases para um modelo de desigualdade que persiste até hoje. Esse projeto fez parte de um ciclo regional de ditaduras na América Latina e no Caribe, ligado a interesses transnacionais e estratégias de controle político e extermínio que transcenderam as fronteiras nacionais. Portanto, 50 anos após o golpe, a memória exige uma leitura situada no presente e com uma perspectiva regional.

Na Argentina, os processos regionais atuais aos quais nos referimos estão assumindo uma intensidade particular. O consenso construído desde 1983 em torno do movimento "Nunca Mais", da punição de crimes contra a humanidade e da centralidade dos direitos humanos está sendo desafiado por discursos e práticas que banalizam o terrorismo de Estado, promovem narrativas negacionistas ou apresentam a memória como um obstáculo ou uma construção ideológica tendenciosa. Essas disputas não são meramente simbólicas: elas têm efeitos concretos sobre as instituições, as políticas públicas, a vida democrática e as formas como o conflito social se manifesta.

Nesse contexto, o Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (CLACSO), os Centros Membros do CLACSO na Argentina e o Conselho Interuniversitário Nacional (CIN, Argentina) estão convocando a apresentação de ensaios originais e inéditos de autoria individual ou coletiva (até 3 autores) que analisam criticamente a relação entre a memória histórica e a conjuntura política atual, articulando o passado recente com os desafios contemporâneos à democracia na Argentina, na América Latina, no Caribe e no Sul Global, dialogando com o Norte Global e adotando uma perspectiva voltada para o futuro. Esta iniciativa conta também com o apoio da Universidade Nacional de Rosário (UNR), da Universidade Metropolitana de Educação e Trabalho (UMET), da Universidade Nacional da Terra do Fogo, Antártica e Ilhas do Atlântico Sul (UNTDF), do Instituto de Estudos Sociais em Contextos de Desigualdades da Universidade Nacional José C. Paz (IESCODE-UNPAZ), da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires (FSoc, UBA), da Escola Interdisciplinar de Estudos Sociais Avançados da Universidade Nacional de San Martín (EIADES-UNSAM) e do Centro Cultural de Cooperação (CCC). 

Este apelo à ação decorre de uma declaração política clara: A memória é uma ferramenta para interpretar o presente, questionar significados e projetar futuros mais democráticos e justos.Refletir sobre o golpe de 1976, 50 anos depois, implica questionar as condições atuais que possibilitam novas formas de autoritarismo, negacionismo e ataques a direitos arduamente conquistados, bem como as resistências sociais, institucionais e culturais que constroem propostas alternativas e superiores.

[email protected]

Data limite para envio dos ensaios: 4 de junho de 2026

Data de publicação dos resultados: 30 de julho de 2026

Os ensaios podem abordar, entre outros, os seguintes temas centrais, colocando explicitamente a memória e a situação atual em diálogo:
  • O golpe de Estado de 1976 e o ​​terrorismo de Estado como antecedentes das configurações atuais do poder político e econômico.
  • Memória, verdade e justiça em disputa: ofensivas negacionistas, retrocessos institucionais e resistência contemporânea.
  • Democracia e autoritarismo no contexto regional: extrema-direita, guerra jurídica e redefinição do Estado de Direito.
  • Criminalização dos protestos sociais e controle dos conflitos políticos em democracias formais.
  • Desigualdades e democracia: continuidades históricas e formas atuais de violação de direitos e negação da diversidade.
  • O papel do Estado e das Forças Armadas e de Segurança: passado ditatorial, transições democráticas e tensões atuais.
  • Cultura política, mídia e batalhas pelo significado do passado, do presente e disputas pelo futuro.
  • Experiências latino-americanas e caribenhas de resistência democrática contra processos de regressão autoritária.
  • Memória e futuro: como as lutas do passado influenciam as disputas políticas do presente e os horizontes de transformação.
A chamada para submissões está aberta a cidadãos, pesquisadores, professores, estudantes, comunicadores, jovens, membros dos centros filiados à CLACSO, bem como ativistas e líderes de organizações sociais, trabalhistas e de direitos humanos da América Latina e do Caribe. Trabalhos colaborativos e intergeracionais que incorporem perspectivas trans, interdisciplinares e multidisciplinares, que reflitam a diversidade territorial e de gênero e que combinem análises históricas ou acadêmicas rigorosas com o engajamento em processos contemporâneos são especialmente encorajados. O concurso de propostas terá duas categorias:
  1. Para a indicação de pesquisadores, professores, comunicadores, membros de centros filiados à CLACSO, ativistas e representantes de organizações sociais, sindicais e de direitos humanos da América Latina e do Caribe.
  2. Destinado a candidaturas de jovens (pessoas com menos de 35 anos de idade e sem doutorado), estudantes de graduação e pós-graduação.
Serão aceitos textos de autores individuais e coletivos (até 3 autores). Os ensaios devem ser originais e inéditos, com extensão aproximada entre 12.000 e 15.000 palavras, e devem ser submetidos de acordo com as diretrizes editoriais do [Nome do periódico/Nome da empresa]. Manual de publicações da CLACSOA versão final dos textos deve ser submetida em espanhol ou português. Todas as submissões devem ser feitas através da [plataforma/etc.]. sistema de inscrição onlineNo caso de ensaios de autoria coletiva, a submissão será feita por um representante da equipe, que deverá criar uma conta de usuário com suas informações pessoais e um pseudônimo para a submissão. A composição completa da equipe será indicada no documento Word ou PDF anexado ao ensaio completo, ao final do texto, incluindo uma breve nota biobibliográfica (no máximo 100 palavras) para cada autor, escrita em prosa. Os trabalhos selecionados serão publicados em acesso aberto em um livro digital pela CLACSO, em conformidade com os princípios da ciência aberta e do direito humano ao conhecimento. Além disso, os autores dos trabalhos selecionados serão convidados para um seminário virtual para apresentar seus ensaios.
Os ensaios submetidos serão avaliados quanto aos seus aspectos formais e administrativos para garantir a conformidade com as diretrizes da chamada. As propostas que não atenderem aos requisitos estabelecidos serão submetidas a uma revisão técnica.
  1. As propostas que passarem para a próxima fase serão avaliadas por um Comitê Internacional que analisará a qualidade e a relevância dos ensaios. 
  2. Situações não contempladas por esta chamada de propostas serão resolvidas pela CLACSO.
  3. A decisão será definitiva.
  1. Os autores declaram que todos os direitos sobre as obras vencedoras deste concurso pertencem a eles integral e exclusivamente, e cedem e transferem à CLACSO todos os direitos exclusivos mundiais de publicação e venda em todos os idiomas e em qualquer formato que a CLACSO julgar apropriado. Os autores não receberão quaisquer direitos autorais.
  2. O registro do ISBN e do Depósito Legal será processado pela CLACSO. A CLACSO reserva-se o direito de incluir a versão final do livro digital em sua Biblioteca Virtual e Livraria Latino-Americana, bem como de disponibilizá-lo para distribuição e download gratuitos e irrestritos.
  3. Da mesma forma, a CLACSO poderá disponibilizar a obra para estabelecer parcerias editoriais que permitam uma circulação maior e mais ampla do material por meio de mídias impressas e digitais.